A interpretao dos sonhos
(Segunda parte)
e
Sobre os sonhos









VOLUME V
(1900-1901)



DIE
TRAUMDEUTUNG
von
Dr. SIGMUND FREUD

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FLECTERE SI NEQUEO SUPEROS, ACHERONTA MOVEBO.
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LEIPZIG UND WIEN.
FRANZ DEUTICKE.
1900-1901

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        Captulo VI (continuao)

          (D) CONSIDERAO  REPRESENTABILIDADE

          Ocupamo-nos at agora com a investigao dos meios pelos quais os sonhos representam as relaes entre os pensamentos onricos. No curso dessa pesquisa,
porm, tocamos mais de uma vez no tpico adicional da natureza geral das modificaes por que passa o material dos pensamentos do sonho para fins de formao de
um sonho. Aprendemos que esse material, despojado em grande parte de suas relaes,  submetido a um processo de compresso, enquanto que, ao mesmo tempo, os deslocamentos
de intensidade entre seus elementos promovem necessariamente uma transposio psquica dos valores do material. Os deslocamentos que examinamos at agora mostraram
consistir na substituio de alguma representao particular por outra estreitamente associada a ela em algum aspecto, e foram utilizados para facilitar a condensao, 
na medida em que, por meio deles, em vez de dois elementos, um nico elemento intermedirio comum a ambos penetra no sonho. Ainda no nos referimos a nenhum outro 
tipo de deslocamento. As anlises nos mostram, contudo, que existe uma outra espcie, e que ela se revela numa mudana da expresso verbal dos pensamentos em causa. 
Em ambos os casos, h um deslocamento ao longo de uma cadeia de associaes; mas um processo de tal natureza pode ocorrer em vrias esferas psquicas, e o resultado 
do deslocamento pode ser, num caso, a substituio de um elemento por outro, enquanto o resultado em outro caso pode ser o de um elemento isolado ter sua forma verbal 
substituda por outra.
          Esta segunda espcie de deslocamento que ocorre na formao dos sonhos tem no apenas grande interesse terico, como  tambm especialmente adequada para 
explicar o aparecimento do fantstico absurdo em que os sonhos se disfaram. A direo tomada pelo deslocamento geralmente resulta no fato de uma expresso inspida 
e abstrata do pensamento onrico ser trocada por uma expresso pictrica e concreta. A vantagem e, conseqentemente, o objetivo dessa troca saltam os olhos. Uma 
coisa pictrica , do ponto de vista do sonho, uma coisa passvel de ser representada: pode ser introduzida numa situao em que as expresses abstratas oferecem 
 representao nos sonhos o mesmo tipo de dificuldades que um editorialpoltico num jornal ofereceria a um ilustrador. Mas no somente a representabilidade, como 
tambm os interesses da condensao e da censura podem beneficiar-se dessa troca. Um pensamento onrico no  utilizvel enquanto expresso em forma abstrata, mas, 
uma vez que tenha sido transformado em linguagem pictrica, os contrastes e identificaes do tipo que o trabalho do sonho requer, e que ele cria quando j no esto 
presentes, podem ser estabelecidos com mais facilidade do que antes entre a nova forma de expresso e o restante do material subjacente ao sonho. Isso se d porque, 
em todas as lnguas, os termos concretos, em decorrncia da histria de seu desenvolvimento, so mais ricos em associaes do que os conceituais. Podemos supor que 
boa parte do trabalho intermedirio executado durante a formao de um sonho, que procura reduzir os pensamentos onricos dispersos  expresso mais sucinta e unificada 
possvel, se processe no sentido de encontrar transformaes verbais apropriadas para os pensamentos isolados. Qualquer pensamento cuja forma de expresso porventura 
seja fixa, por outras razes, atua de maneira determinante e seletiva sobre as possveis formas de expresso destinadas aos outros pensamentos, e talvez o faa desde 
o incio - como ocorre ao se compor um poema. Quando um poema tem de ser escrito em rimas, o segundo verso de um dstico  limitado por duas condies: precisa expressar 
um significado apropriado e a expresso desse significado deve rimar com o primeiro verso. Sem dvida, o melhor poema ser aquele em que deixarmos de notar a inteno 
de encontrar uma rima, em que os dois pensamentos, por influncia mtua, tiverem escolhido desde o incio uma expresso verbal que permita surgir uma rima com apenas 
um ligeiro ajustamento subseqente.
          Em alguns casos, esse tipo de mudana de expresso ajuda a condensao onrica ainda mais diretamente, descobrindo uma forma de palavras que, devido a 
sua ambigidade, seja capaz de dar expresso a mais de um dos pensamentos do sonho. Dessa maneira, todo o campo do chiste verbal  posto  disposio do trabalho 
do sonho. No h por que nos surpreendermos com o papel desempenhado pelas palavras na formao dos sonhos. As palavras, por serem o ponto nodal de numerosas representaes, 
podem ser consideradas como predestinadas  ambigidade; e as neuroses (por exemplo, na estruturao de obsesses e fobias), no menos do que os sonhos, servem-se 
 vontade das vantagens assim oferecidas pelas palavras para fins de condensao e disfarce. fcil demonstrar que tambm a distoro do sonho se beneficia do deslocamento 
de expresso. Quando uma palavra ambgua  empregada em lugar de duas inequvocas, o resultado  desnorteador; e quando nosso sbrio mtodo cotidiano de expresso 
 substitudo por um mtodo pictrico, nossa compreenso fica paralisada, particularmente visto que um sonho nunca nos diz se seus elementos devem ser interpretados 
literalmente ou num sentido figurado, ou se devem ser ligados ao material dos pensamentos onricos diretamente ou por intermdio de alguma locuo intercalada. [1] 
Ao se interpretar qualquer elemento onrico,  em geral duvidoso:
          (a) se ele deve ser tomado num sentido positivo ou negativo (como uma relao antittica),
          (b) se deve ser interpretado historicamente (como uma lembrana),
          (c) se deve ser interpretado simbolicamente, ou
          (d) se sua interpretao deve depender de seu enunciado. Contudo, apesar de toda essa ambigidade,  lcito dizer que as produes do trabalho do sonho, 
que, convm lembrar, no so feitas com a inteno de serem entendidas, no apresentam a seus tradutores maior dificuldade do que as antigas inscries hieroglficas 
queles que procuram l-las.
          J apresentei vrios exemplos de representaes nos sonhos que s se mantm unidas pela ambigidade de seu enunciado. (Por exemplo, "Ela abriu a boca como 
devia" no sonho da injeo de Irma [em [1]], e "Afinal, no pude ir", no sonho que citei por ltimo [em [1]].) Registrarei agora um sonho em que um papel considervel 
foi desempenhado pela transformao de pensamentos abstratos em imagens. A distino entre esse tipo de interpretao dos sonhos e a interpretao por meio do simbolismo 
pode ainda ser traada com muita nitidez. No caso da interpretao simblica dos sonhos, a chave da simbolizao  arbitrariamente escolhida pelo intrprete, ao 
passo que, em nossos casos de disfarce verbal, as chaves so geralmente conhecidas e estabelecidas pelo uso lingstico firmemente consagrado. Quando se dispe de 
idia certa no momento exato,  possvel solucionar no todo ou em parte esse tipo de sonhos, at mesmo independentemente das informaes do sonhador.
          Uma senhora conhecida minha teve o seguinte sonho: Ela estava na pera. Encenava-se uma pera de Wagner, que durara at quinze para as oito da manh. Havia 
mesas postas nas primeiras filas da platia, onde as pessoas estavam comendo e bebendo. Seu primo, que acabara de voltar da lua-de-mel, estava sentado a uma das 
mesas com sua jovem esposa, e havia um aristocrata sentado ao lado deles. A mulher de seu primo, ao que parecia, trouxera-o com ela da lua-de-mel, muito abertamente, 
como quem trouxesse um chapu. No meio das poltronas havia uma torre alta, com uma plataforma no topo circundada por uma grade de ferro. L em cima estava o maestro, 
que tinha as feies de Hans Richter. Ele corria em crculos junto  grade e transpirava violentamente; e dessa posio regia a orquestra, que estava agrupada em 
torno da base da torre. Ela prpria estava sentada num camarote com uma amiga (que eu conhecia). Sua irm mais nova queria, das poltronas, entregar-lhe um grande 
pedao de carvo, sob a alegao de que ela no sabia que iria demorar tanto, e quela altura devia estar simplismente congelando. (Como se os camarotes precisassem 
ser aquecidos durante o longo espetculo.)
          Muito embora tivesse bem focalizado numa nica situao, o sonho, sob outros aspectos, era bastante absurdo: a torre no meio da platia, por exemplo, com 
o maestro regendo a orquestra l do alto! E, acima de tudo, o carvo que sua irm lhe entregou! Abstive-me deliberadamente de pedir uma anlise do sonho. Mas, como 
tivesse algum conhecimento das relaes pessoais da sonhadora, pude interpretar certas partes do sonho independentemente dela. Eu sabia que ela simpatizara muito 
com um msico cuja carreira fora prematuramente interrompida pela loucura. Assim, resolvi considerar a torre entre as poltronas em sentido metafrico. Emergiu ento 
a idia de que o homem que ela queria ver no lugar de Hans Richter erguia-se qual uma torre muito acima dos outros membros da orquestra. A torre poderia ser descrita 
como uma imagem composta formada por aposio. A parte inferior de sua estrutura representava a grandeza do homem; a grade do topo, por trs da qual ele corria em 
crculos como um prisioneiro ou um animal enjaulado - o que era uma aluso ao nome do infeliz - representava seu destino final. As duas idias poderiam ter-se reunido 
na palavra "Narrenturm".
          Tendo assim descoberto o modo de representao adotado pelo sonho, poderamos tentar utilizar a mesma chave para solucionar seu segundo aparente absurdo 
- o carvo entregue  sonhadora por sua irm. "Carvo" devia significar "amor secreto":
          Kein Feuer, keine Kohle
          kann brennen so heiss
          als wie heimliche Liebe,
          von der niemand nichts weiss.
          Ela prpria e sua amiga tinham ficado solteiras [alemo "sitzen geblieben", literalmente, "ficado sentadas"]. Sua irm mais nova, que ainda tinha perspectivas 
de casamento, entregou-lhe o carvo "por no ter sabido que iria demorar tanto". O sonho no especificava o que demoraria tanto. Se isso fosse uma histria, diramos 
"a encenao"; mas, como se trata de um sonho, podemos tomar a orao como uma entidade independente, decidir que foi empregada de maneira ambgua e acrescentar 
as palavras "at ela se casar". Nossa interpretao do "amor secreto"  ainda apoiada pela meno ao primo da sonhadora, sentado com a mulher nas poltronas da platia, 
pelo romance ostensivo atribudo a esta ltima. O sonho foi dominado pela anttese entre amor secreto e amor aparente e entre o ardor da prpria sonhadora e a frieza 
da jovem esposa. Em ambos os casos, alm disso, havia algum "altamente situado" - um termo que se aplica igualmente ao aristocrata e ao msico no qual se haviam 
depositado to grandes esperanas. [1]
          A discusso precedente levou-nos enfim  descoberta de um terceiro fator cuja participao na transformao dos pensamentos do sonho em contedo onrico 
no deve ser subestimada: a saber, a considerao  representabilidade no material psquico peculiar que os sonhos utilizam - ou seja, na sua maior parte, a representabilidade 
em imagens visuais. Dentre os vrios pensamentos acessrios ligados aos pensamentos onricos essenciais, d-se preferncia queles que admitem representao visual; 
e o trabalho do sonho no se furta ao esforo de remodelar pensamentos inadaptveis numa nova forma verbal - mesmo numa que seja menos usual -, contanto que esse 
processo facilite a representao e, desse modo, alivie a presso psicolgica causada pela constrio da ao de pensar. Essa vertedura do contedo de um pensamento 
num outro molde pode, ao mesmo tempo, atender s finalidades da atividade de condensao e criar ligaes, que de outro modo talvez no se fizessem presentes, com 
algum outro pensamento; quanto a este segundo pensamento, ele j pode ter tido sua forma original de expresso modificada, com vistas a juntar-se ao primeiro a meio 
caminho.
          Herbert Silberer (1909) [1] apontou uma boa maneira de observar diretamente a transformao de pensamentos em imagens no processo de formao dos sonhos 
e, assim, estudar isoladamente esse fator do trabalho do sonho. Quando, achando-se num estado de fadiga e sonolncia, ele se impunha alguma tarefa intelectual, verificava 
que, muitas vezes, um pensamento lhe escapava e em seu lugar surgia uma imagem, que ele ento podia reconhecer como um substituto do pensamento. Silberer descreve 
esses substitutos com o termo no muito apropriado de "auto-simblicos". Citarei aqui alguns exemplos do artigo de Silberer [ibid., 519-22] e terei oportunidade, 
em virtude de certas caractersticas dos fenmenos em pauta, de voltar a eles posteriormente. [Ver em [1]]
          "Exemplo 1. -Pensei em ter de revisar um trecho irregular num ensaio.
          "Smbolo. - Vi-me aplainando um pedao de madeira."
          ''Exemplo 5. - Eu me esforava por convercer-me do objetivo de certos estudos metafsicos que me propunha fazer. Seu objetivo, refleti, era o esforo de 
conquistar formas de conscincia e camadas de existncia cada vez mais elevadas na busca dos fundamentos da existncia.
          "Smbolo. - Eu estava empurrando uma longa faca por baixo de um bolo, como se quisesse levantar uma fatia.
          "Interpretao. - Meu movimento com a faca significava 'meu esforo de conquista' em questo. (...) Eis a explicao do simbolismo. Vez por outra, cabe 
a mim nas refeies cortar um bolo e distribuir as pores. Realizo essa tarefa com uma faca longa e flexvel, o que exige algum cuidado. Em particular, levantar 
habilmente as fatias depois de terem sido cortadas traz certas dificuldades; a faca deve ser empurrada cuidadosamente por baixo da fatia (correspondente ao lento 
'esforo de conquista' para chegar aos 'fundamentos'). Mas h ainda um simbolismo nessa imagem, pois o bolo do smbolo era um bolo 'Dobos' - um bolo com diversas 
'camadas' atravs das quais, ao cort-lo, a faca tem de penetrar (as 'camadas' da conscincia e do pensamento)."
          "Exemplo 9. - Eu perdera o fio da meada numa cadeia de idias. Tentei reencontr-lo, mas tive de admitir que o ponto de partida me escapara completamente.
          "Smbolo. - Parte de uma matriz de linotipo com as ltimas linhas cadas."
          Em vista do papel desempenhado pelos chistes, citaes, canes e provrbios na vida mental das pessoas cultas, estaria em total acordo com nossas expectativas 
que esses tipos de disfarce fossem utilizados com extrema freqncia para representar os pensamentos do sonho. Qual , por exemplo, num sonho, o significado de diversas 
carroas, cada qual repleta de uma espcie diferente de legume? Elas representam um contraste desejado com "Kraute und Rben" [literalmente, "couves e nabos"], isto 
, com "de pernas para o ar", e portanto, com "desordem". Surpreende-me que esse sonho s me tenha sido relatado uma vez.S no caso de alguns temas emergiu um simbolismo 
onrico universalmente vlido, com base em aluses e substitutos verbais genericamente conhecidos. Alm disso, boa parte desse simbolismo  partilhada pelos sonhos 
com as psiconeuroses, as lendas e os usos populares.
          De fato, ao examinarmos o assunto mais detidamente, devemos reconhecer o fato de que o trabalho do sonho nada faz de original ao efetuar essas substituies. 
Para atingir seus objetivos - neste caso, possibilitar uma representao tolhida pela censura - ele simplesmente percorre as vias que j encontra estabelecidas no 
inconsciente; e d preferncia s transformaes do material recalcado que tambm se podem tornar conscientes sob a forma de chistes ou aluses, e de que se acham 
to repletas as fantasias dos pacientes neurticos. Neste ponto, chegamos de repente ao entendimento das interpretaes de sonhos feitas por Scherner, cuja exatido 
essencial defendi em outros trechos [em [1] e [2]]. A preocupao da imaginao com o corpo do prprio sujeito de modo algum  peculiar aos sonhos ou caracterstica 
apenas deles. Minhas anlises tm-me indicado que ele est habitualmente presente nos pensamentos inconscientes dos neurticos e que deriva da curiosidade sexual, 
a qual, nos rapazes ou moas em crescimento, volta-se para os rgos genitais do sexo oposto e tambm para os do prprio sexo. Tampouco a casa, como acertadamente 
insistiram Scherner [1861] e Volkelt [1875],  o nico crculo de representaes empregado para simbolizar o corpo; e isto se aplica tanto aos sonhos quanto s fantasias 
inconscientes da neurose.  verdade que conheo pacientes que preservaram o simbolismo arquitetnico para o corpo e os rgos genitais.
          (O interesse sexual estende-se muito alm da esfera da genitlia externa.) Para esses pacientes, os pilares e as colunas representam as pernas (como nos 
Cnticos de Salomo), todo porto representa um dos orifcios corporais (um"buraco"), todo encanamento de gua  um lembrete do aparelho urinrio, e assim por diante. 
Mas o crculo de representaes que gira em torno da vida das plantas ou da cozinha pode, com igual presteza, ser escolhido para ocultar imagens sexuais. No primeiro 
caso, o caminho foi bem preparado pelo uso lingstico, ele prprio um precipitado de smiles imaginativos que remontam  longnqua antigidade: por exemplo, a vinha 
do Senhor, a semente e o jardim da donzela nos Cnticos de Salomo.
          Os detalhes mais repulsivos e tambm os mais ntimos da vida sexual podem ser pensados e sonhados em aluses aparentemente inocentes a atividades culinrias; 
e os sintomas da histeria jamais poderiam ser interpretados se nos esquecssemos de que o simbolismo sexual pode encontrar seu melhor esconderijo por trs do que 
 corriqueiro e inconspcuo. H um sentido sexual vlido por trs da intolerncia da criana neurtica ao sangue ou  carne crua ou de suas nuseas ante a viso 
de ovos ou macarro, e por trs do enorme exagero, nos neurticos, do natural horror humano s cobras. Sempre que as neuroses se valem de disfarces, esto percorrendo 
trilhas por onde passou toda a humanidade nas pocas mais remotas da civilizao - trilhas de cuja continuada existncia em nossos dias, sob o mais difano dos vus, 
encontram-se provas nos usos lingsticos, nas supersties e nos costumes.
          Insiro aqui o "florido" sonho de uma de minhas pacientes que j prometi [em [1]] registrar. Indiquei por meio de grifos seus elementos que devem receber 
uma interpretao sexual. A sonhadora perdeu muito de sua simpatia por esse lindo sonho depois que ele foi interpretado.
          (a) SONHO INTRODUTRIO: Ela entrou na cozinha, onde estavam suas duas empregadas, e as repreendeu por no terem aprontado sua "comidinha". Ao mesmo tempo, 
viu uma grande quantidade de loua emborcada para secar, loua comum de barro amontoada em pilhas. Acrscimo posterior: As duas empregadas foram buscar gua e tiveram 
de entrar numa espcie de rio que chegava at bem junto da casa, entrando pelo quintal.
          (b) SONHO PRINCIPAL: Ela estava descendo de uma elevao sobre umas paliadas ou cercas de construo estranha reunidas sob grandes painis e que consistiam 
em quadradinhos de pau-a-pique. No eram feitos para se subir; ela teve dificuldade em encontrar um lugar onde pr os ps e ficou contente por seu vestido no ter-se 
prendido em lugar nenhum, de modo que ela continuou  medida que prosseguia. Ela segurava um UM GRANDE RAMO na mo; na realidade, era como uma rvore, todo recoberto 
de FLORES VERMELHAS que se ramificavam e espalhavam. Havia uma idia de que fossem FLORES de cerejeira; mas tambm pareciam CAMLIAS duplas, embora,  claro, estas 
no cresam em rvores. Ao descer, ela estava primeiro com UMA, depois, de repente, com DUAS, e depois com UMA outra vez. Ao chegar l embaixo, as FLORES da parte 
inferior j estavam bem DESBOTADAS. Ento, depois que j havia descido, ela viu um criado que - sentiu-se inclinada a dizer - estava penteando uma rvore semelhante, 
ou seja, estava usando um PEDAO DE MADEIRA para arrancar umas MECHAS ESPESSAS DE CABELO que dela pendiam como musgo. Outros trabalhadores haviam cortado RAMOS semelhantes 
de um JARDIM e tinham-nos jogado na ESTRADA, onde FICARAM CADOS, de modo que MUITAS PESSOAS PEGARAM ALGUNS. Mas ela perguntou se isso estava certo - se poderia 
PEGAR UM TAMBM. Um HOMEM jovem (algum que ela conhecia, um forasteiro) estava de p no jardim; dirigiu-se a ele para perguntar de que modo tais RAMOS poderiam 
ser TRANSPLANTADOS PARA SEU PRPRIO JARDIM.
          Ele a abraou, ao que ela se debateu e perguntou o que ele estava pensando, e se achava que podiam abra-la daquela maneira. Ele lhe disse que no havia 
mal nenhum, que era permitido. Em seguida, disse estar disposto a entrar no OUTRO JARDIM com ela, para lhe mostrar como era feito o plantio, e acrescentou algo que 
ela no conseguiu entender bem: "Seja como for, preciso de trs JARDAS (depois ela forneceu esse dado como trs jardas quadradas) ou trs braas de terra." Era como 
se ele lhe estivesse pedindo alguma coisa em troca de sua boa vontade, como se pretendesse RECOMPENSAR-SE NO JARDIM DELA, ou como se quisesse BURLAR alguma lei, 
para tirar vantagem disso sem causar mal a ela. Se ele realmente lhe mostrou algo, ela no tinha nenhuma idia.
          Esse sonho, que expus em virtude de seus elementos simblicos, pode ser descrito como "biogrfico". Tais sonhos ocorrem com freqncia durante a psicanlise, 
mas talvez sejam bastante raros fora dela.
          Naturalmente,[1] disponho desse tipo de material em profuso, mas relat-lo nos envolveria muito profundamente num exame das condies neurticas. Tudo 
leva  mesma concluso, a saber, que no h necessidade de se presumir a operao de qualquer atividade simbolizadora peculiar da mente no trabalho do sonho, mas 
sim que os sonhos se servem de quaisquer simbolizaes que j estejam presentes no pensamento inconsciente, por se ajustarem melhor aos requisitos da formao do 
sonho, em virtude de sua representabilidade, e tambm, em geral, por escaparem da censura.
          
           (E) REPRESENTAO POR SMBOLOS NOS SONHOS - OUTROS SONHOS TPICOS
          
          A anlise deste ltimo sonho, de cunho biogrfico,  uma prova clara de que reconheci desde o incio a presena do simbolismo nos sonhos. Mas foi apenas 
gradualmente, e  medida que minha experincia foi aumentando, que cheguei a uma apreciao plena de sua extenso e importncia, e o fiz sob a influncia das contribuies 
de Wilhelm Stekel (1911), sobre quem no ser fora de propsito dizer algumas palavras aqui. [1925.]
          Esse autor, que talvez tenha prejudicado a psicanlise tanto quanto a beneficiou, trouxe  baila um grande nmero de tradues insuspeitadas dos smbolos; 
a princpio, elas foram recebidas com ceticismo, mas depois, foram confirmadas em sua maior parte e tiveram de ser aceitas. No estarei minimizando o valor dos servios 
de Stekel ao acrescentar que a reserva ctica com que suas propostas foram recebidas no deixava de ter sua justificativa. E isso porque os exemplos com que ele 
confirmava suas interpretaes eram amide pouco convincentes, e ele utilizou um mtodo que deve ser rejeitado como cientificamente indigno de confiana. Stekel 
chegou a suas interpretaes dos smbolos por meio da intuio, graas a um dom peculiar para a compreenso direta deles. Mas no se pode contar com a existncia 
desse dom em termos gerais; sua eficcia est isenta de qualquer crtica e, por conseguinte, seus resultados no podem pleitear credibilidade.  como se se procurasse 
basear o diagnstico das doenas infecciosas nas impresses olfativas recebidas  cabeceira do paciente - embora, indubitavelmente, tenha havido clnicos capazes 
de realizar mais do que as outras pessoas por meio do sentido do olfato (que geralmente  atrofiado), e querealmente conseguiam diagnosticar um caso de febre entrica 
atravs do olfato. [1925.]
          Os avanos da experincia psicanaltica trouxeram  nossa ateno pacientes que demonstravam esse tipo de compreenso direta do simbolismo onrico num 
grau surpreendente. Muitas vezes, eram pessoas que sofriam de demncia precoce, de modo que, por algum tempo, houve uma tendncia a suspeitar de que todo sonhador 
dotado dessa apreenso dos smbolos fosse vtima daquela doena. Mas no  esse o caso. Trata-se de um dom ou peculiaridade pessoal que no possui nenhum significado 
patolgico visvel. [1925.]
          Depois de nos familiarizarmos com o abundante emprego do simbolismo que  feito para representar o material sexual nos sonhos, est fadada a surgir a questo 
de saber se muitos desses smbolos no ocorrem com um significado permanentemente fixo, como os "logogramas" da taquigrafia; e ficamos tentados a elaborar um novo 
"livro dos sonhos", baseados no princpio da decifrao [ver em [1]]. Quanto a esse ponto, h que dizer o seguinte: esse simbolismo no  peculiar aos sonhos, mas 
caracterstico da representao inconsciente, em particular no povo, e  encontrado no folclore e nos mitos populares, nas lendas, nas expresses idiomticas, na 
sabedoria dos provrbios e nos chistes correntes em grau mais completo do que nos sonhos. [1909.]
          Seramos, portanto, levados muito alm da esfera da interpretao dos sonhos, se fssemos fazer justia  importncia dos smbolos e examinar os numerosos 
problemas, basicamente ainda no solucionados, ligados ao conceito de smbolo. Devemos restringir-nos aqui a assinalar que a representao por smbolos encontra-se 
entre os mtodos indiretos de representao, mas que todo tipo de indicaes nos adverte contra englob-las com outras formas de representao indireta, sem que 
sejamos capazes de formar um quadro conceitual claro de suas caractersticas distintivas. Em diversos casos, o elemento comum entre um smbolo e o que ele representa 
 bvio; em outros, acha-se oculto, e a escolha do smbolo parece enigmtica. So precisamente estes ltimos casos que devem ser capazes de lanar luzsobre o sentido 
ltimo da relao simblica, e eles indicam que esta  de natureza gentica. As coisas que esto hoje simbolicamente ligadas provavelmente estiveram unidas em pocas 
pr-histricas pela identidade conceitual e lingstica. A relao simblica parece ser uma relquia e um marco de identidade anterior. No tocante a isso, podemos 
observar como, em muitos casos, o emprego de um smbolo comum se estende por mais tempo do que o uso de uma lngua comum, como j foi ressaltado por Schubert (1814). 
Diversos smbolos so to antigos quanto a prpria linguagem, enquanto outros (por exemplo "dirigvel", "Zeppelin") vo sendo continuamente cunhados inclusive em 
nossos dias. [1914.]
          Os sonhos se valem desse simbolismo para a representao disfarada de seus pensamentos latentes. Alis, muitos dos smbolos so, habitualmente ou quase 
habitualmente, empregados para expressar a mesma coisa. No obstante, a plasticidade peculiar do material psquico [nos sonhos] nunca deve ser esquecida. Muitas 
vezes, um smbolo tem de ser interpretado em seu sentido prprio, e no simbolicamente, ao passo que, em outras ocasies, o sonhador pode tirar de suas lembranas 
particulares o poder de empregar como smbolos sexuais toda sorte de coisas que no so comumente empregadas como tal. Quando um sonhador dispe de uma escolha entre 
diversos smbolos, ele se decide em favor do que est ligado, em seu tema, ao restante do material de seus pensamentos - em outras palavras, daquele que tem motivos 
individuais para sua aceitao, alm dos motivos tpicos. [1909; ltima frase, 1914.]
          Embora as investigaes posteriores  poca de Scherner tenham tornado impossvel contestar a existncia do simbolismo onrico - at mesmoHavelock Ellis 
[1911, 109] admite ser indubitvel que nossos sonhos esto plenos de simbolismo -,  preciso confessar, ainda assim, que a presena de smbolos nos sonhos no s 
facilita sua interpretao como tambm a torna mais difcil. Em geral, a tcnica de interpretar segundo as associaes livres do sonhador deixa-nos em apuros quando 
chegamos aos elementos simblicos do contedo do sonho. A considerao pela crtica cientfica nos probe de voltarmos ao julgamento arbitrrio do intrprete de 
sonhos, tal como era empregado nos tempos antigos e parece ter sido revivido nas interpretaes imprudentes de Stekel. Somos assim obrigados, ao lidar com os elementos 
do contedo do sonho que devem ser reconhecidos como simblicos, a adotar uma tcnica combinada que, por um lado, baseie-se nas associaes do sonhador e, por outro, 
preencha as lacunas provenientes do conhecimento dos smbolos pelo intrprete. Devemos aliar uma cautela crtica na soluo de smbolos a um estudo cuidadoso destes 
em sonhos que forneam exemplos particularmente claros de seu uso, a fim de desarmarmos qualquer acusao de arbitrariedade na interpretao dos sonhos. As incertezas 
que ainda se prendem a nossas atividades como intrpretes de sonhos decorrem, em parte, de nossos conhecimentos incompletos, que podem ser progressivamente ampliados 
 medida que avanarmos, mas decorrem, em parte, de certas caractersticas dos prprios smbolos onricos. Freqentemente, eles possuem mais de um ou mesmo vrios 
significados e, como ocorre com a escrita chinesa, a interpretao correta s pode ser alcanada, em cada ocasio, partindo-se do contexto. Essa ambigidade dos 
smbolos vincula-se  caracterstica dos sonhos de admitirem uma "superinterpretao" [ver em [1]] - de representarem num nico contedo pensamentos e desejos que 
so, muitas vezes, de natureza amplamente divergente. [1914.]
          Levando em conta essas restries e ressalvas, darei agora prosseguimento ao tema. O Imperador e a Imperatriz (ou o Rei e a Rainha) de fato representam, 
em geral, os pais do sonhador; e o Prncipe ou Princesa representa a prpria pessoa que sonha. [1909.] Mas a mesma alta autoridade  atribuda tanto aos grandes 
homens quanto ao Imperador, e por essa razo, Goethe, por exemplo, aparece como um smbolo paterno em alguns sonhos (Hitschmann, 1913). [1919.] - Todos os objetos 
alongados, tais como varas, troncos de rvores e guarda-chuvas (sendo o ato de abrir este ltimo comparvel a uma ereo) podem representar o rgo masculino [1909] 
- bem como o fazem todas as armas longas e afiadas, como facas, punhais e lanas. [1911.]
          Outro smbolo freqente, embora no inteiramente inteligvel, da mesma coisa so as lixas de unhas - possivelmente por causa do movimentode esfregar para 
cima e para baixo. [1909.] - As caixas, estojos, arcas, armrios e fornos representam o ventre [1909], o mesmo acontecendo com os objetos ocos, navios e toda sorte 
de recipientes. [1919.] - Os quartos, nos sonhos, costumam ser mulheres ("Frauenzimmer" [ver em [1]]); quando se representam as vrias entradas e sadas deles, essa 
interpretao dificilmente fica sujeita a dvidas. [1909.][1] - Com respeito a isso, o interesse em saber se o quarto est aberto ou trancado  facilmente inteligvel. 
(Cf. o primeiro sonho de Dora em meu "Fragmento da Anlise de um Caso de Histeria", 1905e. [Nota de rodap prxima ao incio da Seo II.]) No h necessidade de 
designar explicitamente a chave que abre o quarto; em sua balada do Conde Eberstein, Uhland utilizou o simbolismo de fechaduras e chaves para compor um encantador 
exemplo de obscenidade. [1911] - Sonhar que se passa por uma srie de cmodos representa um bordel ou um harm. [1909.]
          Mas, como demonstrou Sachs [1914] atravs de alguns exemplos claros, tambm pode ser empregado (por anttese) para representar o casamento. [1914.] - Encontramos 
um vnculo interessante com as investigaes sexuais da infncia quando algum sonha com dois quartos que eram originalmente um, ou quando v um quarto que lhe  
familiar dividido em dois no sonho, ou vice-versa. Na infncia, os rgos genitais femininos e o nus so considerados como uma rea nica - o "traseiro" (segundo 
a "teoria da cloaca" prpria da infncia), e s mais tarde  que se faz a descoberta de que essa regio do corpo compreende duas cavidades e orifcios separados. 
[1919.] - Os degraus, escadas de mo ou escadarias, ou, conforme o caso, subir ou descer por eles, so representaes do ato sexual. - As paredes lisas pelas quais 
sobe o sonhador e as fachadas decasas pelas quais ele desce - muitas vezes, com grande angstia - correspondem a corpos humanos eretos, e provavelmente repetem no 
sonho lembranas de um beb subindo em seus pais ou na bab. As paredes "lisas" so homens; em seu medo, o sonhador freqentemente se agarra a "projees" nas fachadas 
das casas. [1911.]
          - As mesas, as mesas postas para a refeio e as tbuas tambm representam mulheres - sem dvida por anttese, visto que os contornos de seus corpos so 
eliminados nos smbolos. [1909.] "Madeira" parece, por suas conexes lingsticas, representar, de modo geral, "material" feminino. O nome da Ilha da "Madeira" significa 
"madeira" em portugus. [1911.] Visto que "cama e mesa" constituem o casamento, esta ltima muitas vezes ocupa o lugar da primeira nos sonhos, e o complexo de idias 
sexuais , na medida do possvel, transposto para o complexo de comer. [1909.] - No tocante s peas do vesturio, um chapu feminino pode amide ser interpretado 
com certeza como um rgo genital e, alm disso, como o de um homem.
          O mesmo se aplica a um sobretudo ou casaco [alemo "Mantel"], embora, neste caso, no fique claro at que ponto o emprego do smbolo se deva a uma assonncia 
verbal. Nos sonhos produzidos por homens, a gravata aparece amide como smbolo do pnis. Sem dvida, isso ocorre no apenas porque as gravatas so objetos longos, 
pendentes e peculiares aos homens, mas tambm porque podem ser escolhidas de acordo com o gosto - uma liberdade que, no caso do objeto simbolizado,  proibida pela 
Natureza.
          Os homens que se valem desse smbolo nos sonhos so, com freqncia, muito extravagantes com as gravatas na vida real e possuem colees inteiras delas. 
[1911.] -  altamente provvel que todos os aparelhos e mquinas complicados que aparecem nos sonhos representem os rgos genitais (e, em geral, os masculinos) 
[1919] - na descrio dos quais o simbolismo dos sonhos  to infatigvel quanto o "trabalho do chiste". [1909.] Tampouco h qualquer dvida de que todas as armas 
e instrumentos so usados como smbolos do rgo masculino: por exemplo, arados, martelos, rifles, revlveres, punhais, sabres, etc. [1919.] - Da mesma forma, muitas 
paisagens nos sonhos, especialmente qualquer uma que tenha pontes ou colinas cobertas de vegetao, podem ser claramente reconhecidas como descries dos rgos 
genitais.
          [1911.] Marcinowski (1912a) publicou uma coletnea de sonhos ilustrados por seus autores com desenhos que aparentemente representam paisagens e outras 
localidades que aparecem nos sonhos. Esses desenhos ressaltam muito nitidamente a distino entre o sentido manifesto e o sentido latente de um sonho. Enquanto, 
para olhos inocentes, eles aparecem como planos, mapas e assim por diante, uma inspeo mais detida mostra que representam o corpo humano, os rgos genitais, etc., 
e s ento  que os sonhos se tornam inteligveis. (Ver a esse respeito os trabalhos de Pfister [1911-12 e 1913] sobre criptogramas e quebra-cabeas pictogrficos.) 
[1914.] Tambm no caso de neologismos ininteligveis, vale a pena considerar se eles no poderiam constituir-se de componentes com um significado sexual. [1911.] 
- As crianas, nos sonhos freqentemente representam os rgos genitais, e, de fato, tanto os homens quanto as mulheres tm o hbito de se referir afetuosamente 
a seus rgos genitais como os "pequeninos". [1909.] Stekel [1909, 473] tem razo em reconhecer um "irmozinho" como o pnis. [1925.] Brincar com uma criancinha, 
bater nela, etc., muitas vezes representam a masturbao nossonhos. [1911.] - Para representar simbolicamente a castrao, o trabalho do sonho utiliza a calvcie, 
o corte de cabelos, a queda dos dentes e a decapitao. Quando um dos smbolos comuns do pnis aparece duplicado ou multiplicado num sonho, isso deve ser considerado 
como um rechao da castrao. O aparecimento, nos sonhos, de lagartos - animais cujas caudas voltam a crescer quando arrancadas - tem o mesmo significado. (Cf. o 
sonho com lagartos em [1]) - Muitos dos animais que so utilizados como smbolos genitais na mitologia e no folclore desempenham o mesmo papel nos sonhos: por exemplo, 
peixes, caracis, gatos, camundongos (por causa dos plos pubianos) e, acima de tudo, os smbolos mais importantes do rgo masculino - as cobras. Os animaizinhos 
e os vermes representam crianas pequenas - por exemplo, irmos e irms indesejados. Ver-se infestado por vermes constitui, muitas vezes, um sinal de gravidez. [1919.] 
- Um smbolo bem recente do rgo masculino nos sonhos merece meno: o dirigvel, cujo uso nesse sentido se justifica por sua relao com voar, bem como, s vezes, 
por sua forma. [1911.]
          Diversos outros smbolos foram apresentados, com exemplos comprobatrios, por Stekel, mas ainda no foram suficientemente verificados. [1911.] Os escritos 
de Stekel, e em particular seu Die Sprache des Traumes (1911), contm a mais completa coleo de interpretaes de smbolos. Muitos destes indicam penetrao, e 
um exame ulterior demonstrou que so corretos: por exemplo, sua seo sobre o simbolismo da morte. Mas a falta de senso crtico desse autor e sua tendncia  generalizao 
a qualquer preo lanam dvidas sobre outras de suas interpretaes ou as tornam inutilizveis, de modo que  altamente aconselhvel ter cautela ao aceitar suas 
concluses. Portanto, contento-me em chamar a ateno apenas para algumas de suas descobertas. [1914.]
          Segundo Stekel, "direita" e "esquerda" tm, nos sonhos, um sentido tico. "A via  direita significa sempre o caminho da retido, e a da esquerda, o do 
crime. Assim, 'esquerda' pode representar homossexualismo, incesto ou perverso, e 'direita' pode representar casamento, relaes sexuais com uma prostituta e assim 
por diante, sempre encarados do ponto de vista moral individual do sujeito." (Stekel, 1909, 466 e segs.) - Os parentes, nos sonhos, geralmente desempenham o papel 
de rgos genitais (ibid., 473). S posso confirmar isso no caso de filhos, filhas e irms menores - isto , apenas na medida em que eles se enquadram na categoria 
de "pequeninos". Por outro lado, deparei com casos indubitveis em que "irms" simbolizavam os seios, e "irmos", os hemisfrios maiores. - Stekel explica que a 
impossibilidade de alcanar uma carruagem significa pesar por uma diferena de idade que no se pode alcanar (ibid., 479). - A bagagem com que se viaja  uma carga 
de pecados, diz ele, que tem um efeito opressivo (loc. cit.). [1911.] Mas precisamente a bagagem muitas vezes se revela um smbolo inconfundvel dos rgos genitais 
do prprio sonhador. [1914.] - Stekel tambm atribui significados simblicos fixos aos nmeros, tais como amide aparecem nos sonhos [ibid., 497 e segs.]. Mas essas 
explicaes no parecem nem suficientemente verificadas nem genericamente vlidas, embora as interpretaes dele costumem parecer plausveis nos casos individuais. 
[1911.] Seja como for, o nmero trs tem sido confirmado sob muitos ngulos como um smbolo dos rgos genitais masculinos. [1914.]
          Uma das generalizaes propostas por Stekel concerne ao duplo significado dos smbolos genitais. [1914.] "Onde", pergunta ele, "haver um smbolo que - 
contanto que a imaginao o admita de algum modo - no possa ser empregado tanto num sentido masculino como feminino?" [1911, 73.] Seja como for, a orao entre 
travesses elimina grande parte da certeza dessa afirmao, visto que, de fato, a imaginao nem sempre admite isso. Mas penso que vale a pena observar que, em minha 
experincia, a generalizao de Stekel no pode ser mantida em face da maior complexidade dos fatos. Alm dos smbolos que podem, com igual freqncia, representar 
os rgos genitais masculinos e femininos, existem alguns que designam um dos sexos predominantemente ou quase exclusivamente, e ainda outros que so conhecidos 
apenas com um significado masculino ou feminino. Pois  fato que a imaginao no admite que objetos e armas longos e rgidos sejam utilizados como smbolos dos 
rgos genitais femininos, ou que objetos ocos, tais como arcas, estojos, etc., sejam empregados como smbolo dos rgos masculinos.  verdade que a tendncia dos 
sonhos e das fantasias inconscientes a empregarem bissexualmente os smbolos sexuais trai uma caractersticaarcaica, porquanto, na infncia, a distino entre os 
rgos genitais dos dois sexos  desconhecida e a mesma espcie de genitlia  atribuda a ambos. [1911.] Mas tambm  possvel que se seja erroneamente levado a 
supor que um smbolo sexual seja bissexual, caso se esquea de que, em alguns sonhos, h uma inverso geral do sexo, de modo que o que  masculino  representado 
como feminino, e vice-versa. Tais sonhos podem, por exemplo, expressar o desejo de uma mulher de ser homem. [1925.]
          Os rgos genitais tambm podem ser representados nos sonhos por outras partes do corpo: o rgo masculino, por uma mo ou um p, e o orifcio genital 
feminino, pela boca, um ouvido ou mesmo um olho. As secrees do corpo humano - muco, lgrimas, urina, smen, etc. - podem substituir umas s outras nos sonhos. 
Esta ltima afirmativa de Stekel [1911, 49], que  correta em termos gerais, foi justificadamente criticada por Reitler (1913b) como exigindo uma certa ressalva: 
o que de fato acontece  que as secrees importantes, como o smen, so substitudas por secrees irrelevantes. [1919.]
          Espera-se que essas indicaes muito incompletas possam servir para estimular outros a empreenderem um estudo geral mais cuidadoso do assunto. [1909.] 
Eu prprio tentei dar uma explicao mais elaborada do simbolismo dos sonhos em minhas Conferncias Introdutrias sobre Psicanlise (1916-17 [Conferncia X]). [1919.]
          Acrescentarei agora alguns exemplos do emprego desses smbolos nos sonhos, com a idia de indicar como se torna impossvel chegar  interpretao de um 
sonho quando se exclui o simbolismo onrico, e como se  irresistivelmente levado a aceit-lo em muitos casos. [1911.] Ao mesmo tempo, contudo, gostaria de externar 
uma advertncia categrica contra a supervalorizao da importncia dos smbolos na interpretao dos sonhos, contra a restrio do trabalho de traduzir os sonhos 
a uma simples traduo de smbolos, e contra o abandono da tcnica de utilizao das associaes do sonhador. As duas tcnicas de interpretao dos sonhos devem 
ser complementares uma  outra; mas, tanto na prtica como na teoria, o primeiro lugar continua a ser ocupado pelo processo que descrevi inicialmente e que atribuiuma 
importncia decisiva aos comentrios feitos pelo sonhador, ao passo que a traduo de smbolos, tal como a expliquei, est tambm a nosso dispor como mtodo auxiliar. 
[1909.]
          I
          UM CHAPU COMO SMBOLO DE UM HOMEM (OU DOS RGOS GENITAIS MASCULINOS) [1911]
           (Extrato do sonho de uma jovem que sofria de agorafobia decorrente de medos de seduo.)
          "Eu ia andando pela rua, no vero, usando um chapu de palha de formato peculiar; sua parte central estava virada para cima e as partes laterais pendiam 
para baixo" (a descrio tornou-se hesitante neste ponto), "de tal modo que um lado estava mais baixo que o outro. Euestava alegre e com um esprito autoconfiante, 
e, ao passar por um grupo de jovens oficiais, pensei: 'Nenhum de vocs pode me fazer mal algum!' "
          Como nada lhe ocorresse em relao ao chapu no sonho, eu disse: "Sem dvida, o chapu era um rgo genital masculino, com sua parte central erguida e 
as duas partes laterais pendentes. Talvez possa parecer estranho que um chapu seja um homem, mas voc deve estar lembrada da expresso 'Unter die Haube kommen' 
['achar um marido' (literalmente, 'entrar debaixo da touca')]." Intencionalmente, no lhe fiz nenhuma interpretao sobre o detalhe das duas partes laterais que 
pendiam desigualmente, embora sejam precisamente esses detalhes que apontam o caminho na determinao de uma interpretao. Prossegui dizendo que, como tinha um 
marido com rgos genitais to bons, no havia necessidade de ela temer os oficiais - nenhuma necessidade, bem entendido, de que ela desejasse alguma coisa deles, 
visto que, em geral, ela ficava impossibilitada de ir passear sem proteo e desacompanhada, devido a suas fantasias de ser seduzida. Eu j lhe pudera dar esta ltima 
explicao sobre sua angstia em vrias ocasies, com base em outro material.
          A maneira como a paciente reagiu a esse material foi notvel. Ela retirou sua descrio do chapu e sustentou jamais ter dito que as duas partes laterais 
estavam penduradas. Eu tinha certeza demais do que ouvira para me deixar confundir, e mantive minha posio. Ela ficou em silncio algum tempo e, depois disso, encontrou 
coragem bastante para perguntar o que significava um dos testculos de seu marido ser mais cado do que o outro, e se o mesmo acontecia com todos os homens. Desse 
modo, o detalhe notvel do chapu foi explicado e a interpretao foi aceita por ela.
          Na poca em que minha paciente me contou esse sonho, eu h muito estava familiarizado com o chapu como smbolo. Outros casos menos transparentes haviam-me 
levado a supor que o chapu tambm pode representar os rgos genitais femininos. 
          II
          UMA "FILHINHA" COMO RGO GENITAL - "SERATROPELADA" COMO SMBOLO DAS RELAES SEXUAIS
          [1911]
           (Outro sonho da mesma paciente agorafbica.)
          
          Sua me mandara sua filhinha embora, de modo que ela teve de seguir sozinha. Entrou ento num trem com a me e viu sua pequerrucha andar diretamente at 
os trilhos, de modo que estava fadada a ser atropelada. Ouviu o estalar de seus ossos. (Isso produziu nela uma sensao desconfortvel, mas nenhum pavor real.) Olhou 
ao redor, pela janela do vago do trem, para ver se as partes no podiam ser vistas por trs. Em seguida, repreendeu a me por ter feito a pequerrucha ir embora 
sozinha.
          ANLISE. - No  nada fcil dar uma interpretao completa do sonho. Ele fazia parte de um ciclo de sonhos e s podia ser entendido na ntegra se considerado 
em relao aos outros. H dificuldade em obter, com suficiente isolamento, o material necessrio para estabelecer o simbolismo. - Em primeiro lugar, a paciente declarou 
que a viagem de trem devia ser interpretada historicamente, como uma aluso a uma viagem que ela fizera ao sair de um sanatrio de doenas nervosas por cujo diretor, 
 desnecessrio dizer, tinha-se apaixonado. A me a havia levado embora, e o mdico aparecera na estao e lhe entregara um buqu de flores como presente de despedida. 
Fora muito embaraoso que a me testemunhasse essa homenagem. Nesse ponto, portanto, a me figurava como interferindo em suas tentativas de ter um caso amoroso; 
e fora, de fato, o papel desempenhado por essa senhora severa durante a adolescncia da paciente. - Sua associao seguinte relacionou-se com a frase "olhou ao redor 
para ver se as partes no podiam ser vistas por trs". A fachada do sonho levaria, naturalmente, a se pensar nas partes de sua filhinha, que tinha sido atropelada 
e mutilada. Mas sua associao tomou um rumo inteiramente diverso. Lembrou-se ela de que, certa vez, vira o pai despido no banheiro, por trs; passou ento a falar 
nas distines entre os sexos e ressaltou o fato de que os rgos genitais do homem podem ser vistos por trs, mas os da mulher, no. Em relao a isso, ela prpria 
interpretou "a filhinha" como significando os rgos genitais, e"sua pequerrucha" - a paciente tinha uma filha de quatro anos - como sua prpria genitlia. Repreendeu 
a me por ter esperado que ela vivesse como se no tivesse rgos genitais, e assinalou que a mesma recriminao fora expressa na primeira frase do sonho: "sua me 
mandara sua filhinha embora, de modo que ela teve de seguir sozinha". Na imaginao dela, "andar sozinha pelas ruas" significava no ter um homem, no ter nenhuma 
relao sexual ("coire", em latim [de onde se origina "coitus"], significa literalmente "ir com") - e ela no gostava disso. Todos os seus relatos indicavam que, 
quando menina, ela de fato sofrera com o cime da me devido  preferncia demonstrada para com a filha pelo pai. [1]
          A interpretao mais profunda desse sonho foi indicada por outro sonho da mesma noite, no qual a paciente se identificou com seu irmo. Ela realmente fora 
uma menina com caractersticas de menino, e muitas vezes lhe disseram que ela deveria ser um menino. Essa identificao com o irmo deixou particularmente claro 
que "a pequerrucha" significava um rgo genital. A me estava ameaando seu irmo (ou ela) de castrao, o que s poderia ser um castigo por brincar com o pnis; 
assim, a identificao tambm provou que ela prpria se masturbara quando criana - uma lembrana que at ento s tivera quando aplicada a seu irmo. A informao 
fornecida pelo segundo sonho mostrou que ela devia ter tomado conhecimento do rgo masculino numa idade precoce e depois esquecido isso. Ademais, o segundo sonho 
aludia  teoria sexual infantil segundo a qual meninas so meninos castrados. [Cf. Freud, 1908c.] Quando lhe sugeri que ela tivera essa crena infantil, confirmou 
imediatamente o fato, dizendo-me ter ouvido a anedota do garotinho que diz  garotinha: "Cortado?", ao que a menininha responde: "No, foi sempre assim."
          Portanto, mandar a pequerrucha (o rgo genital) embora no primeiro sonho tambm se relacionava  ameaa de castrao. Sua queixa final contra a me era 
por no t-la dado  luz como um menino.
          O fato de que "ser atropelada" simboliza as relaes sexuais no ficaria bvio partindo-se desse sonho, embora tenha sido confirmado por muitas outras 
fontes.
          III
          OS RGOS GENITAIS REPRESENTADOSPOR EDIFCIOS, DEGRAUS E POOS [1911]
           (Sonho de um rapaz inibido por seu complexo paterno.)
          
          Ele estava passeando com o pai num lugar que certamente deveria ser o Prater, j que ele viu a ROTUNDA, com um PEQUENO ANEXO EM FRENTE A ELA ao qual estava 
preso UM BALO CATIVO, embora parecesse bem MOLE. O pai lhe perguntou para que servia aquilo tudo; ele ficou surpreso com a pergunta, mas lhe explicou. A seguir, 
entraram num ptio onde havia uma grande folha de estanho estendida. Seu pai queria ARRANCAR um pedao grande dela, mas primeiro olhou em volta para ver se havia 
algum. Ele lhe disse que bastaria ele falar com o contramestre para poder levar um pedao sem nenhum problema. UMA ESCADA descia desse ptio at UM POO, cujas 
paredes eram acolchoadas com uma espcie de material macio, muito parecidas com uma poltrona de couro. Na extremidade do poo havia uma plataforma alongada, e ento 
comeava outro POO...
          ANLISE. - Esse sonhador pertencia a um tipo de pessoas cujas perspectivas teraputicas no so favorveis: at certo ponto, no oferecem absolutamente 
nenhuma resistncia  anlise, mas, a partir da, revelam-se quase inacessveis. Ele interpretou esse sonho quase sem ajuda. "A Rotunda", disse, "eram meus rgos 
genitais, e o balo cativo em frente a ela era meu pnis, de cuja flacidez tenho motivos para me queixar." Entrando ento em maiores detalhes, podemos traduzir a 
Rotunda como o traseiro (habitualmente considerado pelas crianas como parte dos rgos genitais) e o pequeno anexo  frente dele como o saco escrotal. O pai lhe 
perguntava, no sonho, o que era tudo aquilo, isto , qual a finalidade e a funo dos rgos genitais. Pareceu plausvel inverter essa situao e transformar o sonhador 
no indagador. Visto que ele de fato jamais fizera essas perguntas ao pai, tivemos de encarar o pensamento do sonho como um desejo, ou consider-locomo uma orao 
condicional, tal como: "Se eu tivesse pedido a meu pai esclarecimentos sexuais..." Logo encontraremos a continuao desse pensamento em outra parte do sonho.
          O ptio onde estava estendida a folha de estanho no deve ser tomado simbolicamente  primeira vista. Derivava das dependncias comerciais do pai do sonhador. 
Por motivos de discrio, usei "estanho" em lugar de outro material, com o qual o pai realmente lidava, mas no fiz nenhuma outra modificao na linguagem do sonho. 
O sonhador havia ingressado na firma do pai e fizera violenta objeo s prticas um tanto suspeitas de que dependiam, em parte, os rendimentos da empresa. Por conseguinte, 
o pensamento onrico que acabo de interpretar poderia prosseguir desta forma: "(Se lhe tivesse perguntado), ele me teria enganado do mesmo modo que engana seus clientes." 
No tocante ao "arrancar" que serviu para representar a desonestidade do pai nos negcios, o prprio sonhador apresentou uma segunda explicao - a saber, que isso 
representava a masturbao. No s eu j estava familiarizado com essa interpretao (ver em [1]), como havia algo para confirm-la no fato de que a natureza secreta 
da masturbao foi representada por seu inverso: podia ser praticada abertamente. Exatamente como esperaramos, a atividade masturbatria foi tambm deslocada para 
o pai do sonhador, tal como a pergunta na primeira cena do sonho. Ele interpretou prontamente o poo como uma vagina, tendo em conta o acolchoado macio de suas paredes. 
Acrescentei, com base em meus prprios conhecimentos derivados de outras fontes, que tanto descer quanto subir escadas, em outros casos, descrevia relaes sexuais 
vaginais. (Ver minhas observaes [em Freud 1910d], citadas anteriormente, em [1])
          O prprio sonhador deu uma explicao biogrfica do fato de o primeiro poo ser seguido por uma plataforma alongada e, logo depois, por outro poo. Ele 
tivera relaes sexuais por algum tempo, mas depois as havia abandonado por causa de inibies, e agora esperava poder reinici-las com a ajuda do tratamento. O 
sonho, porm, foi-se tornando mais vago ao chegar ao final, e deve parecer provvel a quem quer que esteja familiarizado com essas coisas que a influncia de outro 
tema j se estivesse fazendo sentir na segunda cena do sonho, e que foi sugerida pelos negcios do pai, por sua conduta fraudulenta e pela interpretao do primeiro 
poo como uma vagina: tudo isso apontava para uma ligao com a me do sonhador. [1] 
          IV
          O RGO MASCULINO REPRESENTADO POR PESSOAS E O RGO FEMININO REPRESENTADO POR UMA PAISAGEM [1911]
           (Sonho de uma mulher inculta cujo marido era policial, relatado porB. Dattner.)
          
          "...Ento algum invadiu a casa e ela se assustou e chamou um policial. Mas ele entrara calmamente numa igreja,   qual se chegava subindo alguns degraus, 
acompanhado de dois vagabundos. Atrs da igreja havia uma colina e, mais acima, um bosque cerrado. O policial usava capacete, gola com insgnia de metal e uma capa. 
Tinha a barba castanha. Os dois vagabundos, que acompanhavam pacificamente o policial, tinham aventais semelhantes a sacos atados na cintura. Em frente  igreja 
uma trilha levava at a colina; de ambos os lados cresciam relva e moitas cerradas, que se iam tornando cada vez mais espessas e, no alto da colina, transformavam-se 
num bosque comum."
          
          V
          SONHOS DE CASTRAO EM CRIANAS
          [1919]
          (a) Um menino de trs anos e cinco meses, que obviamente no gostava da idia de que seu pai voltasse da frente de batalha, acordou certa manhperturbado 
e excitado. Ps-se a repetir: "Por que papai estava carregando a cabea numa bandeja? Ontem de noite papai estava carregando a cabea numa bandeja."
          (b) Um estudante que agora sofre de grave neurose obsessiva recorda-se de ter tido o seguinte sonho repetidamente durante o sexto ano de vida: Ia ao barbeiro 
para mandar cortar o cabelo. Uma mulher grande e de aspecto severo se dirigia a ele e lhe cortava fora a cabea. Ele reconhecia a mulher como sua me.
          
          VI
          SIMBOLISMO URINRIO
          [1914]
          A seqncia de desenhos reproduzida [em [1]] foi encontrada por Ferenczi num jornal humorstico hngaro chamado Fidibusz, e ele percebeu de imediato quo 
bem os desenhos poderiam ser utilizados para ilustrar a teoria dos sonhos. Otto Rank j os reproduziu num trabalho (1912a, [99]).
          Os desenhos trazem o ttulo "Sonho de uma Ama-seca Francesa"; mas  somente o ltimo quadro, que mostra a bab sendo despertada pelos gritos da criana, 
que nos diz que os sete quadros anteriores representam as fases de um sonho. O primeiro quadro retrata o estmulo que teria feito a moa adormecida acordar: o garotinho 
toma cincia de uma necessidade e pede ajuda para satisfaz-la. Mas, no sonho, a sonhadora, em vez de se achar no quarto de dormir, est levando a criana para passear. 
No segundo quadro, ela j o levou  esquina de uma rua onde ele est urinando - e pode continuar a dormir. Mas o estmulo para despertar continua; na verdade, aumenta. 
O garotinho, verificando que no est sendo atendido, grita cada vez mais alto. Quanto mais imperiosamente insiste em que a bab acorde e o auxilie, mais insistente 
se torna a certeza do sonho de que tudo vai bem e de que no h necessidade de ela acordar. Ao mesmo tempo, o sonho traduz o estmulo crescente nas dimenses crescentes 
de seus smbolos. A corrente de gua produzida pelo menino que urina vai-se avolumando cada vez mais. No quarto quadro, j  grande o bastante para fazer flutuar 
um barco a remo; mas seguem-se uma gndola, um veleiro e, por fim, um transatlntico. O engenhoso artista, dessa maneira, retratou habilmente a luta entre o desejo 
obstinado de dormir e um estmulo inexaurvel para acordar.
          
          SONHO DE UMA AMA-SECA FRANCESA
          
          VII
          
          UM SONHO COM ESCADA
          [1911]
          
           (Relatado e Interpretado por Otto Rank.)
          "Tenho de agradecer ao mesmo colega a quem devo o sonho do estmulo dental [registrado em [1]] por um sonho de poluo igualmente transparente:
          " 'Eu ia descendo s pressas a escada [de um bloco de apartamentos], perseguindo uma menininha que me havia feito alguma coisa, a fim de castig-la. No 
p da escada, algum (uma mulher adulta?) deteve a criana para mim. Agarrei-a, mas no sei se bati nela, pois de repente me vi no meio da escada copulando com a 
menina (como se fosse no ar). No era uma verdadeira cpula; eu apenas esfregava minha genitlia em seus rgos genitais externos e, enquanto o fazia, eu os via 
com extrema nitidez, bem como a cabea dela, que estava voltada para cima e para o lado. Durante o ato sexual eu via penderem acima de mim,  minha esquerda (tambm 
como se fora no ar), duas pequenas pinturas - paisagens representando uma casa circundada de rvores. Na parte inferior do quadro menor, em vez da assinatura do 
pintor, eu via meu prprio nome, como se a pintura se destinasse a ser um presente de aniversrio para mim. A seguir, vi uma etiqueta diante dos dois quadros, que 
dizia que tambm se podiam conseguir pinturas mais baratas. (Vi ento a mim mesmo, muito indistintamente, como se estivesse deitado na cama no patamar), e fui despertado 
pela sensao de umidade causada pela poluo que tivera.'
          "INTERPRETAO. - Na noite do dia do sonho, o sonhador estivera numa livraria e, enquanto esperava ser atendido, olhara para alguns quadros que ali se 
achavam expostos e que representavam temas semelhantes aos do sonho. Aproximara-se de um quadrinho que lhe agradara particularmente para ver o nome do artista - 
mas este lhe era inteiramente desconhecido.
          "Posteriormente, na mesma noite, quando estava com alguns amigos, ele ouvira a histria de uma empregada da Bomia que se vangloriava de que seu filho 
ilegtimo fora 'feito na escada'. O sonhador indagara sobre os pormenores desse fato bastante incomum e soubera que a empregada tinha voltado para sua terra com 
seu admirador, indo para a casa dos pais, onde no houvera nenhuma oportunidade de relaes sexuais, e que, em sua excitao, o homem copulara com ela na escada. 
O sonhador aludira jocosamente a uma expresso maliciosa empregada para descrever vinhos adulterados e dissera que, de fato, a criana provinha de uma 'vindima de 
escada de adega'.
          Basta isso no tocante s conexes com o dia anterior, que surgiram com certa insistncia no contedo onrico e foram reproduzidas pelo sonhador sem qualquer 
dificuldade. Mas ele trouxe  baila, com igual facilidade, um antigo fragmento de lembrana infantil que tambm fora usado no sonho. A escada pertencia  casa onde 
ele passara a maior parte de sua infncia e, em particular, onde pela primeira vez travara conhecimento consciente com os problemas do sexo. Com freqncia, brincara 
nessa escada e, entre outras coisas, costumava deslizar pelo corrimo, descendo montado nele - o que lhe dera sensaes sexuais. Tambm no sonho, ele correra escada 
abaixo com extraordinria rapidez - de fato, com tanta rapidez que, segundo seu prprio relato especfico, no pusera os ps nos degraus, um a um, mas 'voara' escada 
abaixo, como as pessoas costumam dizer. Caso se leve em considerao a experincia infantil, a parte inicial do sonho parece representar o fator da excitao sexual. 
- Mas o sonhador tambm fizera muitas vezes brincadeiras de natureza sexual com os filhos dos vizinhos nessa mesma escada e no prdio adjacente, e satisfizera seus 
desejos da mesma forma que no sonho.
          "Se tivermos em mente que as pesquisas de Freud sobre o simbolismo sexual (1910d [ver em [1]]) indicaram que, nos sonhos, as escadarias e subir escadas 
representam quase invariavelmente a cpula, o sonho se tornar bem transparente. Sua fora motivadora, como a rigor ficou demonstrado por seu resultado - uma poluo 
- era de natureza puramente libidinal. A excitao sexual do sonhador foi despertada durante o sono, sendo isso representado no sonho por sua precipitao escada 
abaixo. O elemento sdico da excitao sexual, baseado nas brincadeiras da infncia, foi indicado pela perseguio e sujeio da criana. A excitao libidinal aumentou 
e exerceu presso no sentido da ao sexual - representada no sonho por ele agarrar a criana e lev-la at o meio da escada. At esse ponto,o sonho fora apenas 
simbolicamente sexual, e teria sido inteiramente ininteligvel para qualquer intrprete inexperiente de sonhos. Mas esse tipo de satisfao simblica no foi suficiente 
para garantir um sono tranqilo, em vista da intensidade da excitao libidinal. A excitao levou a um orgasmo e, assim, revelou o fato de que todo o simbolismo 
da escada representava a cpula. - Este sonho fornece uma confirmao especialmente clara do ponto de vista de Freud de que uma das razes da utilizao do subir 
escadas como smbolo sexual  a natureza rtmica de ambas as atividades, pois o sonhador declarou expressamente que o elemento definido de maneira mais clara no 
sonho inteiro foi o ritmo do ato sexual e seu movimento para cima e para baixo.
          "Devo acrescentar uma palavra no tocante aos dois quadros que, independentemente de seu significado real, tambm figuraram num sentido simblico como 'Weibsbilder'.Isso 
ficou demonstrado de imediato por haver um quadro grande e um pequeno, do mesmo modo que uma menina grande (ou adulta) e uma pequena apareceram no sonho. O fato 
de que 'tambm se podiam conseguir pinturas mais baratas' levou ao complexo das prostitutas, enquanto que, por outro lado, o aparecimento do prenome do sonhador 
no quadro pequeno e a idia de este se destinar a ser um presente de aniversrio para ele foram indcios do complexo paterno. ('Nascido na escada' = 'gerado pela 
cpula'.)
          "A cena final imprecisa, na qual o sonhador se viu deitado na cama no patamar e experimentou uma sensao de umidade, parece apontar, alm da masturbao 
infantil, para uma poca ainda mais remota da infncia, e ter seu prottipo em cenas igualmente prazerosas de molhar a cama."
          
          VIII
          
          UM SONHO MODIFICADO COM ESCADAS
          [1911]
          
          Um de meus pacientes, um homem cuja abstinncia sexual lhe foi imposta por uma neurose grave e cujas fantasias [inconscientes] se fixavamna me, sonhava 
repetidamente estar subindo escadas na companhia dela. Certa vez, fiz-lhe o comentrio de que uma dose moderada de masturbao provavelmente lhe faria menos mal 
do que sua auto-restrio compulsiva, tendo isso provocado o seguinte sonho:
          Seu professor de piano o repreendia por negligenciar seus estudos de piano e por no praticar os "tudes" de Moscheles e o "Gradus ad Parnassum" de Clementi.
           guisa de comentrio, ele ressaltou que "Gradus" tambm so "degraus" e que o prprio teclado  uma escadaria, j que contm escalas [escadas de mo].
          Cabe dizer que no h nenhum grupo de idias que seja incapaz de representar fatos e desejos sexuais.
          
          IX
          
          O SENTIMENTO DE REALIDADE EA REPRESENTAO DA REPETIO
          [1919]
          
          Um homem que conta agora trinta e cinco anos relatou um sonho do qual se lembrava nitidamente e que declarou ter tido aos quatro anos de idade. O advogado 
que estava encarregado do testamento de seu pai - ele perdera o pai aos trs anos - trouxera duas pras grandes. Deram-lhe uma para comer; a outra ficou no parapeito 
da janela da sala de estar. Ele acordou com a convico da realidade do que havia sonhado e se ps a pedir obstinadamente a segunda pra  me, insistindo em que 
estava no parapeito da janela. Sua me rira disso.
          ANLISE. - O advogado era um velho cavalheiro jovial que, como o paciente parecia recordar, realmente levara algumas pras certa vez. O parapeito da janela 
era tal como ele o vira no sonho. Nada mais lhe ocorreu em relao a isso - apenas que a me lhe contara um sonho pouco antes. Havia dois pssaros pousados em sua 
cabea, e ela se perguntara quando iriam embora; eles no foram, mas um deles voou at sua boca e sugou-a.
          A falta de associaes do paciente nos d o direito de tentar uma interpretao por substituio simblica. As duas pras - "pommes ou poires" - eram os 
seios da me, que o haviam nutrido; o parapeito dajanela era a projeo formada pelo busto dela - como as sacadas nos sonhos com casas (ver em [1]). Seu sentimento 
de realidade depois de acordar foi justificado, pois sua me realmente o amamentara e, a rigor, fizera-o por muito mais tempo que de hbito; e os seios da me ainda 
lhe estavam disponveis. O sonho deve ser traduzido por "D-me (ou mostre-me) de novo seu seio, me, no qual eu costumava beber no passado". "No passado" foi representado 
por ele comer uma das pras; "de novo" foi representado por seu desejo pela outra. A repetio temporal de um ato  regularmente indicada nos sonhos pela multiplicao 
numrica de um objeto.
           extremamente notvel, por certo, que o simbolismo j desempenhe seu papel no sonho de uma criana de quatro anos. Mas isso  a regra, e no a exceo. 
Pode-se afirmar com segurana que os sonhadores dispem do simbolismo desde o princpio.
          A seguinte lembrana no-influenciada de uma moa que conta agora vinte e sete anos mostra em que idade precoce o simbolismo  empregado, tanto fora da 
vida onrica quanto dentro dela. Ela estava entre os trs e quatro anos de idade. Sua ama levou-a ao banheiro, juntamente com um irmo onze meses mais novo que ela 
e uma prima cuja idade se situava entre as dos dois, para satisfazerem suas necessidades antes de sarem a passeio. Sendo a mais velha, ela se sentou no vaso sanitrio, 
enquanto os outros dois sentaram-se em urinis. Ela perguntou  prima: "Voc tambm tem uma bolsa? Walter tem uma salsichinha; eu tenho uma bolsa." A prima respondeu: 
", eu tambm tenho uma bolsa." A ama ouviu, achando muita graa, o que eles diziam, e relatou a conversa  me das crianas, que reagiu com severa reprimenda.
          Interpolei aqui um sonho (registrado num trabalho de Alfred Robitsek, 1912) em que o simbolismo lindamente escolhido possibilitou uma interpretao, apenas 
com uma ligeira ajuda da sonhadora.
          
          X
          
          A QUESTO DO SIMBOLISMO NOS SONHOSDAS PESSOAS NORMAIS
          [1914]
          
           "Uma objeo freqentemente levantada pelos adversrios da psicanlise, e que foi recentemente externada por Havelock Ellis (1911, 168),  o argumento 
de que, embora o simbolismo onrico talvez possa ocorrer como um produto da mente neurtica, no  encontrado em pessoas normais. Ora, a pesquisa psicanaltica no 
encontra nenhuma distino fundamental, mas apenas quantitativa, entre a vida normal e a vida neurtica; e, de fato, a anlise dos sonhos, onde os complexos recalcados 
so atuantes tanto nas pessoas sadias quando nas doentes, mostra uma identidade completa nos mecanismos e no simbolismo delas. Os sonhos ingnuos das pessoas sadias, 
na realidade, muitas vezes encerram um simbolismo muito mais simples, mais compreensvel e mais caracterstico do que os sonhos dos neurticos, pois nestes, como 
resultado da ao mais poderosa da censura e, conseqentemente, de uma distoro onrica mais extensa, o simbolismo pode ser obscuro e difcil de interpretar. O 
sonho registrado abaixo servir para ilustrar esse fato. Foi sonhado por uma moa que no  neurtica, mas tem um carter um tanto pudico e reservado. No decorrer 
de uma conversa que tive com ela, fiquei sabendo que estava noiva, mas que havia certas dificuldades que se antepunham a seu casamento e que, provavelmente, levariam 
ao adiamento dele. Por livre e espontnea vontade, ela me relatou o seguinte sonho.
          " 'Estou arrumando o centro de uma mesa com flores para um aniversrio.' Em resposta a uma pergunta, ela me disse que, no sonho, parecia estar em sua prpria 
casa (onde no estava morando no momento) e tinha 'uma sensao de felicidade'.
          "O simbolismo 'popular' possibilitou-me traduzir o sonho sem necessidade de ajuda. Era uma expresso de seus desejos nupciais: a mesa, com seu centro de 
flores, simbolizava ela prpria e seus rgos genitais; a moa representava como realizados seus desejos ligados ao futuro, pois seuspensamentos j estavam ocupados 
com o nascimento de um beb; logo, o casamento j ficara para trs h muito tempo.
          "Frisei-lhe que 'o "centro" de uma mesa' era uma expresso inusitada (o que ela admitiu), mas no pude,  claro, formular-lhe diretamente outras perguntas 
sobre esse ponto. Evitei cuidadosamente sugerir-lhe o significado dos smbolos, e apenas perguntei o que lhe vinha  cabea em relao s partes isoladas do sonho. 
No curso da anlise, sua reserva cedeu lugar a um evidente interesse na interpretao e a uma franqueza possibilitada pela seriedade da conversa.
          "Quando lhe perguntei quais tinham sido as flores, sua primeira resposta foi: 'flores caras; tem-se de pagar por elas', e, em seguida, que tinham sido 
'lrios do vale, violetas e cravinas ou cravos'. Presumi que o termo 'lrio' aparecera no sonho em seu sentido popular, como smbolo da castidade; ela confirmou 
essa suposio, pois sua associao com 'lrio' foi 'pureza'. 'Vale'  um smbolo feminino freqente nos sonhos, de modo que a combinao casual dos dois smbolos 
no nome ingls dessa flor foi empregado no simbolismo onrico para frisar a preciosidade de sua virgindade - 'flores caras, tem-se de pagar por elas' - e para expressar 
sua expectativa de que seu marido soubesse como apreciar-lhe o valor. A expresso 'flores caras, etc.', como se ver, possua um significado diferente no caso de 
cada um dos trs smbolos florais.
          " 'Violetas', aparentemente, era bem assexual; mas, com muita ousadia, ao que me pareceu, pensei poder desvendar um sentido secreto para essa palavra, 
num elo inconsciente com a palavra francesa 'viol' ['estupro']. Para minha surpresa, a sonhadora forneceu como associao o termo ingls 'violate' ['violar']. O 
sonho utilizara a grande similaridade casual entre as palavras 'violet' e 'violate' - a diferena em sua pronncia est apenas na tonicidade diferenciada de suas 
slabas finais - para expressar, 'na linguagem das flores', as idias da sonhadora sobre a violncia da deflorao (outro termo que emprega o simbolismo das flores) 
e, possivelmente, tambm, um trao masoquista de seu carter. Um belo exemplo das 'pontes verbais' [ver em [1]] atravessadas pelas vias que levam ao inconsciente. 
As palavras 'tem-se de pagar por elas' significavam ter de pagar com a vida para ser esposa e me.
          "No tocante a 'cravinas' [pinks], que ela passou a chamar de 'cravos' [carnations], pensei na ligao entre essa palavra e 'carnal'. Mas a associao da 
sonhadora foi 'cor'. Ela acrescentou que 'cravos' eram as flores que seu noivo lhe dava com freqncia e em grande quantidade. No final de suas observaes, ela 
confessou, sbita e espontaneamente, noter dito a verdade: o que lhe ocorrera no tinha sido 'cor', mas 'encarnao' [incarnation] - a palavra que eu havia esperado. 
Alis, o prprio termo 'cor' no era uma associao muito remota, mas determinada pelo significado de 'cravo' [carnation] (cor de carne) - em outras palavras, determinada 
pelo mesmo complexo. Essa falta de sinceridade mostrou ser esse o ponto em que a resistncia era maior, e correspondeu ao fato de ser esse o ponto onde o simbolismo 
era mais claro e onde a luta entre a libido e seu recalcamento atingia o nvel mais intenso em relao a esse tema flico. O comentrio da sonhadora no sentido de 
que seu noivo muitas vezes lhe dava esse tipo de flores foi uma indicao no s do duplo sentido do termo 'cravos' [carnations], como tambm de seu significado 
flico no sonho. O oferecimento de flores, fator excitante do sonho oriundo da vida corrente da moa, foi empregado para expressar uma troca de ddivas sexuais: 
ela fazia de sua virgindade um presente e, em troca, esperava uma vida emocional e sexual plena. Tambm nesse ponto, as palavras 'flores caras, tem-se de pagar por 
elas' devem ter tido o que, sem dvida, era literalmente um significado financeiro. - Assim, o simbolismo das flores, nesse sonho, abrangia a feminilidade virginal, 
a masculinidade e uma aluso ao defloramento pela violncia. Vale a pena salientar, nesse sentido, que o simbolismo sexual das flores, que de fato ocorre muito comumente 
em outros contextos, simboliza os rgos sexuais humanos atravs das flores, que so os rgos sexuais das plantas. Talvez seja verdade, de modo geral, que as ofertas 
de flores entre aqueles que se amam tenham esse significado inconsciente.
          "O aniversrio para o qual ela se estava preparando no sonho significava, sem dvida, o nascimento de um beb. Ela se estava identificando com o noivo 
e o estava representando como 'arrumando-a' para um nascimento - isto , copulando com ela. O pensamento latente talvez tenha sido: 'Se eu fosse ele, no esperaria 
- defloraria minha noiva sem lhe pedir licena - empregaria a violncia'. Isso foi indicado pelo termo 'violar' e, desse modo, o componente sdico da libido encontrou 
expresso.
          "Numa camada mais profunda do sonho, a frase 'Estou arrumando...' deve sem dvida, ter um significado auto-ertico, isto , infantil.
          "A sonhadora revelou tambm uma conscincia, possibilitada a ela apenas em sonho, de sua deficincia fsica: viu a si prpria como uma mesa, sem projees, 
e, por isso mesmo depositou ainda mais nfase na preciosidade do 'centro' - noutra ocasio empregou as palavras 'um centro de flores' - isto , em sua virgindade. 
O atributo horizontal de mesa tambm deve ter dado alguma contribuio para o smbolo.
          "A concentrao do sonho deve ser observada: nada havia nele de suprfluo, cada palavra era um smbolo.
          "Posteriormente, a sonhadora produziu um adendo ao sonho: 'Estou decorando as flores com papel crepom verde.' Acrescentou tratar-se de um 'papel de fantasia', 
do tipo usado para cobrir vasos de flores comuns. E prosseguiu: 'Para ocultar coisas desarrumadas, qualquer coisa visvel que no fosse agradvel aos olhos; h uma 
lacuna, um pequeno espao nas flores. O papel parece veludo ou musgo'. - Para 'decorar' ela forneceu a associao 'decoro', como eu havia esperado. Disse que a cor 
verde predominava, e sua associao com ela foi 'esperana' - outro elo com a gravidez. - Nessa parte do sonho, o fator principal no foi a identificao com um 
homem; as idias de vergonha e de auto-revelao vieram para o primeiro plano. Ela se estava embelezando para ele e admitindo defeitos fsicos de que se envergonhava 
e que estava tentando corrigir. Suas associaes 'veludo' e 'musgo' constituam uma indicao clara de uma referncia aos plos pubianos.
          "Esse sonho, portanto, deu expresso a pensamentos de que a moa mal tinha cincia em sua vida de viglia - pensamentos concernentes ao amor sensual e 
seus rgos. Ela estava sendo 'arrumada para um aniversrio' - isto , estava copulando com algum. O medo de ser deflorada estava encontrando expresso, o mesmo 
acontecendo, talvez, com as idias de um sofrimento prazeroso. Ela admitia para si prpria suas deficincias fsicas e as supercompensava mediante uma supervalorizao 
da virgindade. Sua vergonha apresentava como desculpa para os sinais de sensualidade o fato de que a finalidade desta era a produo de um beb. Tambm as consideraes 
materiais, estranhas ao esprito dos enamorados, encontraram um meio de expressar-se. O afeto ligado a esse sonho simples - uma sensao de felicidade - indicou 
que poderosos complexos emocionais nele haviam encontrado satisfao."
          Ferenczi (1917) salientou, acertadamente, que o significado dos smbolos e a significao dos sonhos podem ser alcanados com particular facilidade a partir, 
precisamente, dos sonhos das pessoas que no so iniciadas na psicanlise.
          Neste ponto, intercalarei um sonho produzido por uma figura histrica contempornea. Fao-o porque, no sonho, um objeto que de qualquer modorepresentaria 
apropriadamente um rgo masculino tem um atributo adicional que o estabeleceu da maneira mais clara possvel como um smbolo flico. Dificilmente se poderia tomar 
o fato de um chicote crescer at um comprimento interminvel em qualquer outro sentido que no o de uma ereo. Afora isso, ademais, o sonho  um excelente exemplo 
do modo como pensamentos de natureza sria, muito distantes de qualquer coisa sexual, podem vir a ser representados por material sexual infantil.
          
          XI
          UM SONHO DE BISMARCK [1919]
          
          "Em sua obra Gedanken und Erinnerungen [1898, 2, 194; traduo inglesa de A. J. Butler, Bismarck, the Man and the Statesman, 1898, 2, 209 e segs.], Bismarck 
cita uma carta que escreveu ao Imperador Guilherme I em 18 de dezembro de 1881, no curso da qual ocorre o seguinte trecho: 'A comunicao de Vossa Majestade estimula-me 
a relatar um sonho que tive na primavera de 1863, nos piores dias do Conflito, do qual nenhuma viso humana poderia vislumbrar qualquer sada possvel. Sonhei (como 
relatei antes de qualquer outra coisa a minha mulher e a outras testemunhas na manh seguinte) que cavalgava por uma estreita trilha alpina, com um precipcio  
direita e rochas  esquerda. O caminho foi-se estreitando, de tal modo que o cavalo recusou-se a prosseguir e era impossvel dar meia-volta ou desmontar, devido 
 falta de espao. Ento, com o chicote na mo esquerda, golpeei a rocha lisa e invoquei o nome de Deus. O chicote cresceu at atingir um comprimento interminvel, 
a muralha rochosa desmoronou como um pedao de cenrio num palco e abriu-se um caminho largo com uma vista das colinas e florestas, como uma paisagem da Bomia; 
havia tropas prussianas com estandartes, e mesmo em meu sonho me veio imediatamente a idia de que eu deveria relatar isso a Vossa Majestade. Esse sonho se realizou 
e acordei regozijante e fortalecido...'
          "A ao desse sonho enquadra-se em duas sees. Na primeira parte, o sonhador viu-se num impasse do qual foi miraculosamente resgatado nasegunda. A difcil 
situao em que cavalo e cavaleiro foram colocados  uma imagem onrica facilmente reconhecvel da posio crtica do estadista, que ele talvez tivesse sentido com 
particular amargura ao ponderar sobre os problemas de sua poltica na noite anterior ao sonho. No trecho citado acima, o prprio Bismarck utiliza o mesmo smile 
[de no haver nenhuma 'sada' possvel] ao descrever a desesperana de sua situao na poca. O significado da imagem onrica, portanto, deve ter sido bem bvio 
para ele. Ao mesmo tempo, -nos apresentado um belo exemplo do 'fenmeno funcional' de Silberer [ver em [1]]. O processo ocorrido na mente do sonhador - com cada 
uma das solues tentadas por seus pensamentos esbarrando em obstculos intransponveis, ao mesmo tempo que, ainda assim, ele no sabia e no podia desvencilhar-se 
do exame desses problemas - foi retratado com extrema propriedade pelo cavaleiro que no podia avanar nem recuar. Seu orgulho, que impedia que ele pensasse em render-se 
ou renunciar, foi expresso no sonho pelas palavras 'era impossvel dar meia-volta ou desmontar'. Na qualidade de homem de ao que se empenhava incessantemente e 
lutava pelo bem de outrem, deve ter sido fcil para Bismarck assemelhar-se a um cavalo; e, de fato, ele assim fez em muitas ocasies, como por exemplo em seu clebre 
dito: 'Um bom cavalo morre trabalhando'. Nesse sentido, as palavras 'o cavalo recusou-se a prosseguir' significavam nada mais nada menos do que o fato de que o extenuado 
estadista sentia uma necessidade de fugir s inquietaes do presente imediato, ou, para express-lo de outra forma, de que estava no ato de se libertar dos grilhes 
do princpio de realidade atravs do sono e do sonho. A realizao de desejo, que se tornou to destacada na segunda parte do sonho, j tinha sido sugerida nas palavras 
'trilha alpina'. Sem dvida, Bismarck j sabia, nessa ocasio, que iria passar suas prximas frias nos Alpes - em Gastein; assim, o sonho, levando-o at l, liberou-o 
de um s golpe de todos os fardos dos negcios de Estado.
          "Na segunda parte do sonho, os desejos do sonhador foram representados como realizados de duas maneiras: indisfarada e obviamente, e alm disso, simbolicamente. 
Sua realizao foi simbolicamente representada pelo desaparecimento da rocha obstrutiva e pelo surgimento, em seu lugar, de um caminho amplo - a 'sada'  procura 
da qual ele estava, em sua forma mais conveniente; e foi indisfaradamente representada na imagem das tropas prussianas que avanavam. Para explicar essa viso proftica, 
no h absolutamente nenhuma necessidade de construir hipteses msticas; a teoria freudiana da realizao de desejo basta plenamente.J por ocasio desse sonho, 
Bismarck desejava uma guerra vitoriosa contra a ustria como a melhor sada para os conflitos internos da Prssia. Assim, o sonho estava representando esse desejo 
como realizado, justamente como  postulado por Freud, quando o sonhador viu as tropas prussianas com seus estandartes na Bomia, isto , em solo inimigo. A nica 
peculiaridade do caso foi que o sonhador em que estamos aqui interessados no se contentava com a realizao de seu desejo num sonho, mas sabia como obt-la na realidade. 
Um aspecto que no pode deixar de impressionar qualquer um que esteja familiarizado com a tcnica psicanaltica da interpretao  o chicote - que crescia at atingir 
um 'comprimento interminvel'. Os chicotes, bastes, lanas e objetos semelhantes nos so familiares como smbolos flicos; mas, quando um chicote possui ainda a 
caracterstica mais notvel de um falo, que  sua extensibilidade, mal pode restar alguma dvida. O exagero do fenmeno - seu crescimento at um 'comprimento interminvel' 
- parece sugerir uma hipercatexia proveniente de fontes infantis. O fato de o sonhador ter tomado o chicote nas mos foi uma aluso clara  masturbao, embora a 
referncia no dissesse respeito,  claro, s circunstncias contemporneas do sonhador, mas a desejos infantis do passado remoto. A interpretao descoberta pelo 
Dr. Stekel [1909, 466 e segs.], de que, nos sonhos, a 'esquerda' representa o que  errado, proibido e pecaminoso, vem muito a calhar aqui, pois bem poderia aplicar-se 
 masturbao praticada na infncia em face da proibio. Entre essa camada infantil mais profunda e a mais superficial, que se relacionava com os planos imediatos 
do estadista,  possvel identificar uma camada intermediria que se relacionava com as outras duas. Todo o episdio de uma libertao miraculosa da necessidade, 
ao bater numa pedra e, ao mesmo tempo, invocar Deus como auxiliar, tem uma notvel semelhana com a cena bblica em que Moiss extrai gua de uma rocha para os sedentos 
Filhos de Israel. Podemos presumir, sem hesitao, que essa passagem, com todos os seus pormenores, era familiar a Bismarck, que provinha de uma famlia protestante 
amante da Bblia. No seria improvvel que, nessa poca de conflito, Bismarck se comparasse a Moiss, o lder, a quem o povo que ele procurou libertar recompensou 
com rebelio, dio e ingratido. Aqui, portanto, teramos a ligao com os desejos contemporneosdo sonhador. Mas, por outro lado, o texto da Bblia contm alguns 
detalhes que se aplicam bem a uma fantasia masturbatria. Moiss tomou a vara em face da ordem de Deus, e o Senhor o puniu por essa transgresso dizendo-lhe que 
ele deveria morrer sem entrar na Terra Prometida. O ato proibido de apanhar a vara (no sonho, um ato inequivocamente flico), a produo de lquido ao golpear com 
ela e a ameaa de morte - a encontramos reunidos todos os principais fatores da masturbao infantil. Podemos observar com interesse o processo de reviso que fundiu 
essas duas imagens heterogneas (originando-se, uma, da mente de um estadista de gnio, e outra, dos impulsos da mente primitiva de uma criana) e que, por esse 
meio, conseguiu eliminar todos os fatores aflitivos. O fato de que segurar a vara era um ato proibido e de rebelio no mais foi indicado seno simbolicamente, atravs 
da mo 'esquerda' que o praticou. Por outro lado, Deus foi invocado no contedo manifesto do sonho, como que para negar to ostensivamente quanto possvel qualquer 
idia de uma proibio ou segredo. Das duas profecias feitas por Deus a Moiss - de que ele veria a Terra Prometida, mas nela no entraria - a primeira  claramente 
representada como realizada ('a vista das colinas e florestas'), enquanto a segunda, altamente aflitiva, no  mencionada em absoluto. A gua foi provavelmente sacrificada 
s exigncias da elaborao secundria [ver em [1]], que se esforou com xito por fundir esta cena e a primeira numa s unidade; em vez de gua, a prpria rocha 
caiu.
          "Poder-se-ia esperar que ao trmino de uma fantasia masturbatria infantil que tivesse includo o tema da proibio, a criana desejasse que as pessoas 
de autoridade em seu ambiente nada soubessem do que havia acontecido. No sonho, esse desejo foi representado por seu oposto, pelo desejo de informar ao Rei imediatamente 
do que acontecera. Mas essa inverso se ajustava de maneira excelente e muito discreta na fantasia de vitria contida na camada superficial dos pensamentos onricos 
e numa parcela do contedo manifesto do sonho. Um sonho como esse, de vitria e conquista,  amide uma capa para que um desejo seja bem-sucedido numa conquista 
ertica; certas caractersticas do sonho, como, por exemplo, a de ter havido um obstculo ao avano do sonhador, mas, depois de ele fazer uso de um chicote extensvel, 
ter-se aberto um caminho amplo, poderiam apontar nessa direo, mas elas fornecem uma base insuficiente para se inferir que uma tendncia definida de pensamentos 
e desejos desse tipo teria perpassado o sonho. Temos aqui um exemplo perfeito de distoro totalmente bem-sucedida do sonho. O que quer que tenha havido nele de 
desagradvel foi trabalhado, de modo que nunca emergiu atravs da camadasuperficial que se estendeu sobre o sonho como um manto protetor. Em conseqncia disso, 
foi possvel evitar qualquer liberao de angstia. O sonho foi um caso ideal de desejo realizado com xito, sem infringir a censura, de modo que bem podemos crer 
que o sonhador tenha despertado dele 'regozijante e fortalecido'."
          Como ltimo exemplo, eis aqui:
          
          XII
          O SONHO DE UM QUMICO 
          [1909]
          
          Isso foi sonhado por um homem jovem que se vinha esforando por abandonar o hbito de se masturbar, em prol de relaes sexuais com mulheres.
          PREMBULO. - No dia anterior ao sonho, ele estivera dando instrues a um aluno sobre a reao de Grignard, na qual o magnsio  dissolvido em ter absolutamente 
puro atravs da ao catalisadora do iodo. Dois dias antes, quando a mesma reao estava sendo executada, ocorrera uma exploso que havia queimado a mo de um dos 
manipuladores.
          SONHO. - (I) Ele devia estar fazendo brometo de fenil-magnsio. Via o aparelho com particular nitidez, mas substitura o magnsio por ele prprio. Percebeu-se 
ento num estado singularmente instvel. Ficou a dizer consigo mesmo: "Isso est certo, as coisas esto funcionando, meus ps j esto comeando a se dissolver, 
meus joelhos esto ficando moles." Ento, estendeu as mos e apalpou os ps. Entrementes (como, no sabia dizer), tirou as pernas do vaso e disse a si mesmo, mais 
uma vez: "Isso no pode estar certo. , mas est." Nesse ponto, acordou parcialmente e examinou o sonho consigo mesmo, para poder relat-lo a mim. Estava positivamente 
assustado com a soluo do sonho. Sentiu-se extremamente excitado durante esse perodo de semi-adormecimento e ficou a repetir: "Fenil, fenil."
          (II) Ele estava em  ing com sua famlia inteira e deveria estar em Schottentor s onze e meia para se encontrar com uma certa mulher. Mas s acordou s 
onze e meia, e disse para consigo: " muito tarde. No se pode chegar l antes de meio-dia e meia." No momento seguinte, viu toda a famlia sentada  mesa; via sua 
me com particular nitidez, e a empregada carregando a terrina de sopa. Ento, pensou: "Bem j que comeamos a almoar,  tarde demais para eu sair."
          ANLISE. - Ele no tinha nenhuma dvida de que mesmo a primeira parte do sonho tinha alguma relao com a mulher com ele se iria encontrar. (Tivera o sonho 
na noite anterior ao esperado rendez-vous.) Considerava o aluno a quem dera instrues como uma pessoa particularmente desagradvel.Tinha-lhe dito "Isso no est 
certo" porque o magnsio no dera nenhum sinal de ser afetado. E o aluno havia respondido, como se estivesse inteiramente despreocupado: ", no est." O aluno devia 
representar ele prprio (o paciente), que era to indiferente em relao  anlise quanto o aluno a respeito da sntese. O "ele" do sonho que executava a operao 
representava a mim. Quo desagradvel eu deveria consider-lo por ser to indiferente ao resultado!
          Por outro lado, ele (o paciente) era o material que estava sendo utilizado para a anlise (ou sntese). O que estava em jogo era o xito do tratamento. 
A referncia a suas pernas, no sonho, fez com que se lembrasse de uma experincia da noite anterior. Estava tendo uma aula de dana e se encontrara com uma moa 
a quem muito desejava conquistar. Abraara-a com tanta fora contra si que, em certo momento, ela deu um grito. Ao relaxar a presso contra as pernas dela, sentira 
sua forte presso receptiva contra a parte inferior das coxas dele, descendo at os joelhos - o ponto mencionado em seu sonho. De modo que, nesse sentido, a mulher 
 que era o magnsio no comentrio de que as coisas finalmente estavam funcionando. Ele era feminino em relao a mim, assim como era masculino em relao  mulher. 
Se estava funcionando com a dama, estava funcionando com ele no tratamento. O fato de ele se apalpar e as sensaes nos joelhos apontavam para a masturbao e se 
encaixavam com sua fadiga do dia anterior. - Seu encontro com a moa fora marcado, de fato, para as onze e meia. O desejo de no comparecer a ele, dormindo demais, 
e de ficar em casa com seus objetos sexuais (isto , de se ater  masturbao) correspondiam a sua resistncia.
          No tocante  repetio da palavra "fenil", ele me disse que sempre apreciara muito todos esses radicais que terminavam em "-il", por serem muito fceis 
de usar: benzil, acetil, etc. Isso nada explicava. Mas, quando lhe sugeri "Schlemihl" como outro radical da srie, ele riu gostosamente e me disse que, durante o 
vero, lera um livro de Marcel Prvost no qual havia um captulo sobre "Les exclus de l'amour", que de fato continha algumas observaes sobre "les Schlmilis". 
Ao l-las, ele dissera consigo mesmo: " assim mesmo que eu sou." - Se tivesse faltado ao encontro, isso teria sido outro exemplo de sua "schlemihlidade".
          Poder-se-ia supor que a ocorrncia do simbolismo sexual nos sonhos j foi experimentalmente confirmada por alguns trabalhos efetuados por K.Schrtter, 
em moldes propostos por H. Swoboda. Sujeitos em hipnose profunda receberam sugestes de Schrtter, havendo estas levado  produo de sonhos dos quais grande parte 
do contedo foi determinada pelas sugestes. Se ele desse ao sujeito a sugesto de que ele deveria sonhar com relaes sexuais normais ou anormais, o sonho, obedecendo 
 sugesto, utilizaria smbolos que nos so familiares a partir da psicanlise em lugar do material sexual. Por exemplo, quando se deu a um sujeito do sexo feminino 
a sugesto de que sonhasse estar tendo relaes homossexuais com uma amiga, esta apareceu no sonho carregando uma bolsa surrada, com uma etiqueta que trazia os dizeres 
"S para damas". Afirmou-se que a mulher que teve esse sonho nunca tivera nenhum conhecimento do simbolismo nos sonhos ou da interpretao destes. Surgem, contudo, 
dificuldades em formarmos uma opinio sobre o valor desses interessantes experimentos, pela infeliz circunstncia de o Dr. Schrtter ter-se suicidado pouco depois 
de efetu-los. O nico registro deles encontra-se numa comunicao preliminar publicada no Zentralblatt fr Psychoanalyse (Schrtter, 1912). [1914.]
          Resultados semelhantes foram publicados por Roffenstein em 1923. Alguns experimentos realizados por Betlheim e Hartmann (1924) foram de particular interesse, 
visto no terem feito uso da hipnose. Esses experimentadores contaram anedotas de natureza grosseiramente sexual a pacientes que sofriam da sndrome de Korsakoff 
e observaram as distores que ocorriam quando as anedotas eram reproduzidas pelos pacientes nesses estados confusionais. Constataram que os smbolos que nos so 
familiares a partir da interpretao dos sonhos passavam a aparecer (por exemplo, subir escadas, apunhalar e atirar como smbolos de copulao, e facas e cigarros 
como smbolos do pnis). Os autores atriburam especial importncia ao aparecimento do smbolo da escada, pois, como observaram acertadamente, "nenhum desejo consciente 
de distorcer poderia ter chegado a um smbolo dessa natureza". [1925.]
          Somente agora, depois de termos avaliado adequadamente a importncia do simbolismo nos sonhos,  que se nos torna possvel retomar o tema dos sonhos tpicos, 
interrompido em [1]. [1914.] Penso termos razes para dividir esses sonhos, grosso modo, em duas classes: os que realmente tm sempre o mesmo sentido e os que, apesar 
de terem contedo idntico ou semelhante, devem, no obstante, ser interpretados de maneira extremamente variada. Entre os sonhos tpicos da primeira categoria j 
tratei [em [1]], com certa riqueza de detalhes, dos sonhos com exames. [1909.]
          
          Os sonhos com a perda de um trem merecem ser postos ao lado dos sonhos com exames por causa da similaridade de seu afeto, e sua explicao mostra que estaremos 
certos ao faz-lo. Eles so sonhos de consolao para outra espcie de angstia sentida no sono - o medo de morrer. "Partir" numa viagem  um dos smbolos mais comuns 
e mais reconhecidos da morte. Esses sonhos dizem, de maneira consoladora, "No se preocupe, voc no morrer (partir)", tal como os sonhos com exames dizem, alentadoramente, 
"No tenha medo, nenhum mal lhe acontecer desta vez, tampouco". A dificuldade de compreender esses dois tipos de sonhos se deve ao fato de que o sentimento de angstia 
est ligado precisamente  expresso de consolo. [1911.]
          O sentido dos sonhos "com um estmulo dental" [cf. em [1]] [2], que muitas vezes tive de analisar em pacientes, escapou-me por muito tempo porque, para 
minha surpresa, havia invariavelmente resistncias fortssimas a sua interpretao. Provas esmagadoras fizeram com que, finalmente, eu no mais tivesse nenhuma dvida 
de que, nos homens, a fora motora desses sonhos no derivava de outra coisa seno dos desejos masturbatrios do perodo da puberdade. Analisarei dois desses sonhos, 
um dos quais  tambm um "sonho de voar". Ambos foram sonhados pela mesma pessoa - um rapaz com fortes inclinaes homossexuais que, todavia, eram inibidas na vida 
real.
          Ele estava assistindo a uma encenao de "Fidlio" e se achava sentado nas primeiras filas da pera ao lado de L., um homem que lhe era agradvel e com 
que gostaria de fazer amizade. De repente, ele saiu voando pelos ares, bem por cima das poltronas, levou a mo  boca e arrancou dois de seus dentes.
          Ele prprio disse, a propsito do vo, que era como se tivesse sido "jogado" no ar. Como se tratava de uma representao de Fidlio, as palavras
          
          Wer ein holdes Weib errungen...
          
          poderiam parecer adequadas. Mas nem mesmo a conquista da mais adorvel das mulheres estava entre os desejos do sonhador. Dois outros versos seriam mais 
apropriados:
          
          Wem der grosse Wurf gelungen,
          Eines Freundes Freund zu sein...
          O sonho efetivamente continha essa "grande jogada", que, contudo, no era apenas a realizao de um desejo. Escondia tambm a dolorosa reflexo de que 
o sonhador muitas vezes fora infeliz em suas tentativas de amizade, e fora "jogado fora". Tambm escondia seu temor de que esse infortnio pudesse repetir-se em 
relao ao rapaz ao lado de quem ele estava desfrutando da representao de Fidlio. E ento se seguiu o que o desdenhoso sonhador encarava como uma confisso vergonhosa: 
a de que, certa vez, aps ter sido rejeitado por um de seus amigos, ele se masturbara duas vezes seguidas, no estado de excitao sensual provocado por seu desejo.
          Eis aqui o segundo sonho: Ele estava sendo tratado por dois professores universitrios de suas relaes, e no por mim. Um deles estava fazendo alguma 
coisa com seu pnis. Ele temia uma operao. O outro empurrava-lhe a boca com um basto de ferro, de modo que ele perdeu um ou dois dentes. Estava amarrado com quatro 
panos de seda.
          Dificilmente se pode duvidar de que esse sonho tivesse um sentido sexual. Os panos de seda identificaram-no com um homossexual que ele conhecia. O sonhador 
nunca praticara o coito e nunca procurara ter relaes sexuais com homens na vida real; e imaginava as relaes sexuais segundo o modelo da masturbao da puberdade 
com que outrora estivera familiarizado.
          As numerosas modificaes do sonho tpico com estmulos dentais (por exemplo, sonhos de que um dente  arrancado por outra pessoa, etc.) devem penso eu, 
ser explicadas da mesma maneira.  possvel, porm, que nosintrigue descobrir como foi que os "estmulos dentais" passaram a ter esse significado. Mas eu gostaria 
de chamar ateno para a freqncia com que o recalcamento sexual se vale de transposies de uma parte inferior do corpo para uma parte superior. Graas a elas, 
torna-se possvel, na histeria, que toda sorte de sensaes e intenes sejam efetivadas, se no ali onde so apropriadas - em relao aos rgos genitais -, pelo 
menos em relao a outras partes no objetveis do corpo. Um exemplo de transposio dessa natureza  a substituio dos rgos genitais pelo rosto no simbolismo 
do pensamento inconsciente. O uso lingstico segue o mesmo modelo, ao reconhecer as ndegas ["Hinterbacken", literalmente, "bochechas traseiras"] como homlogas 
s bochechas, e ao traar um paralelo entre os "labia" e os lbios que delimitam o orifcio da boca. As comparaes entre o nariz e o pnis so comuns, tornando-se 
a similaridade mais completa pela presena de plos em ambos os lugares. A nica estrutura que no oferece qualquer possibilidade de analogia so os dentes; e  
precisamente essa combinao de semelhana e dissimilaridade que torna os dentes to apropriados para fins de representao quando alguma presso  exercida pelo 
recalcamento sexual.
          No posso pretender que a interpretao dos sonhos com estmulos dentais como sonhos masturbatrios - uma interpretao cuja correo me parece indubitvel 
- tenha sido inteiramente esclarecida. Dei a explicao que pude e devo deixar o que resta sem soluo. Mas posso chamar ateno para outro paralelo encontrado no 
uso lingstico. Em nossa parte do mundo, o ato da masturbao  vulgarmente descrito como "sich einen ausreissen" ou "sich einen herunterreissen" [literalmente, 
"dar uma puxada para fora" ou "dar uma puxada para baixo"]. [1] Nada sei da fonte dessa terminologia ou das imagens em que se baseia; mas "um dente" se enquadraria 
muito bem na primeira das duas expresses.
          Segundo a crena popular, os sonhos com dentes que so arrancados devem ser interpretados como significando a morte de um parente, mas a psicanlise pode, 
no mximo, confirmar essa interpretao somente no sentido jocoso a que aludi acima. Nesse contexto, porm, citarei um sonho com estmulo dental que foi posto a 
minha disposio por Otto Rank.
          "Um colega meu, que h algum tempo vem dedicando vivo interesse aos problemas da interpretao de sonhos, enviou-me a seguinte contribuio ao tema dos 
sonhos com estmulos dentais.
          " 'H pouco tempo, sonhei que estava no dentista e ele perfurava com a broca um dente posterior em meu maxilar inferior. Trabalhou nele por tanto tempo, 
que o dente ficou inutilizado. Segurou-o ento com um frceps e o extraiu com uma facilidade to grande que provocou meu assombro. Disse-me que no me preocupasse 
com aquilo, pois no se tratava do dente que ele estava realmente tratando, e o colocou na mesa, onde o dente (um incisivo superior, ao que me pareceu ento) desfez-se 
em vrias camadas. Levantei-me da cadeira do dentista, aproximei-me mais do dente, com um sentimento de curiosidade, e levantei uma questo mdica que me interessava. 
O dentista explicou-me, enquanto separava as vrias partes do dente impressionantemente alvo e as esmagava (pulverizava-as) com um instrumento, que ele estava ligado 
 puberdade e que era s antes da puberdade que os dentes se soltavam com tanta facilidade e que, no caso das mulheres, o fator decisivo era o nascimento de um filho.
          "Percebi ento (enquanto estava parcialmente adormecido, creio eu) que o sonho se fizera acompanhar de uma poluo, que, no entanto, no pude relacionar 
com certeza a qualquer parte especfica do sonho; fiquei muito inclinado a pensar que ela j havia ocorrido enquanto o dente era arrancado.
          " 'Passei ento a sonhar com uma ocorrncia que j no consigo recordar, mas que terminava por eu deixar meu chapu e meu palet em algum lugar (possivelmente, 
na sala de espera do consultrio do dentista), na esperana de que algum os trouxesse a mim, e por sair s pressas, vestindo apenas meu sobretudo, para apanhar 
um trem que estava de partida. Consegui, no ltimo momento, saltar para o ltimo vago, onde j havia algum de p. No pude, entretanto, chegar at o interior do 
vago, mas fui obrigado a viajar numa situao desconfortvel da qual tentei, afinal com xito, escapar.Entramos num grande tnel e dois trens, indo em direo oposta 
a ns, passaram por dentro de nosso trem, como se ele fosse o tnel. Eu olhava pela janela de um vago como se estivesse do lado de fora.
          " 'As seguintes experincias e idias do dia anterior fornecem material para uma interpretao do sonho:
          " '(I). Eu vinha, de fato, fazendo um tratamento dentrio recentemente, e na ocasio do sonho, sentia dores contnuas no dente do maxilar inferior que 
era perfurado  broca no sonho, e no qual o dentista, tambm na realidade, havia trabalhado por mais tempo do que eu queria. Na manh do dia do sonho, eu fora mais 
uma vez ao dentista por causa da dor, e ele me sugerira que eu devia extrair outro dente no mesmo maxilar do que ele vinha tratando, dizendo que a dor provavelmente 
provinha desse outro. Este era um "dente do siso", que estava nascendo exatamente nessa poca. Eu levantara, a propsito disso, uma questo relativa  conscincia 
mdica do dentista.
          " '(II). Na tarde do mesmo dia, eu fora obrigado a pedir desculpas a uma senhora pelo mau humor de que estava tomado, devido a minha dor de dente, ao que 
ela me dissera que estava com medo de mandar extrair um dente cuja coroa se desfizera quase por completo. Ela achava que extrair as "presas" era especialmente doloroso 
e perigoso, embora, por outro lado, um de seus conhecidos lhe tivesse dito que era mais fcil extrair dentes do maxilar superior, que era onde ficava o dela. Esse 
conhecido tambm lhe dissera que, certa vez, extrara o dente errado sob anestesia, e isso aumentara o pavor que ela sentia da operao necessria. Ela me havia 
ento perguntado se as "presas" eram molares ou caninos e o que se sabia a respeito delas. Ressaltei-lhe, por um lado, o elemento de superstio em todas essas opinies, 
embora, ao mesmo tempo, frisasse o ncleo de verdade de certas vises populares. Ela pde ento repetir-me o que acreditava ser uma crena popular muito antiga e 
difundida - a de que, se uma mulher grvida tivesse dor de dentes, teria um menino.
          " '(III). Esse dito me interessou, ligado ao que diz Freud, em sua Interpretao dos Sonhos, sobre o significado tpico dos sonhos com estmulos dentais 
como substitutos da masturbao, visto que, no dito popular [citado pela senhora], o dente e a genitlia masculina (ou um menino) tambm foram relacionados. Na noite 
do mesmo dia, portanto, li todo o trecho pertinente em A Interpretao dos Sonhos e ali encontrei, entre outras coisas, as seguintes afirmaes, cuja influncia 
sobre meu sonho pode ser observada to claramente quanto a das duas outras experincias que mencionei. Freud escreve, a propsito dos sonhos com estmulos dentais, 
que, nos homens, a fora motora desses sonhos noderivava de outra coisa seno os desejos masturbatrios do perodo da puberdade' [em [1]]. E mais: 'As numerosas 
modificaes do sonho tpico com estmulos dentais (por exemplo, sonhos de que um dente  arrancado por outra pessoa, etc.) devem, penso eu, ser aplicadas da mesma 
maneira.  possvel, porm, que nos intrigue descobrir como foi que os "estmulos dentais" passaram a ter esse significado. Mas eu gostaria de chamar ateno para 
a freqncia com que o recalcamento sexual se vale de transposies de uma parte inferior do corpo para uma parte superior.' (No sonho em exame, do maxilar inferior 
para o superior.) 'Graas a elas, torna-se possvel, na histeria, que toda sorte de sensaes e intenes sejam efetivadas, se no ali onde so apropriadas - em 
relao aos rgos genitais -, pelo menos em relao a outras partes no objetveis do corpo' [em [1]]. E novamente: 'Mas posso chamar ateno para outro paralelo 
encontrado no uso lingstico. Em nossa parte do mundo, o ato da masturbao  vulgarmente descrito como "sich einen ausreissen" ou "sich einen herunterreissen"' 
[em [1]]. Eu j estava familiarizado com essa expresso, nos primeiros anos de minha mocidade, como uma descrio da masturbao, e nenhum intrprete experiente 
dos sonhos ter qualquer dificuldade em descobrir o caminho que vai desse at o material infantil subjacente ao sonho. Acrescentarei apenas que a facilidade com 
que o dente, que depois de sua extrao transformou-se num incisivo superior, soltou-se no sonho me fez lembrar uma ocasio de minha infncia em que eu prprio arranquei 
um incisivo superior que estava mole, facilmente e sem dor. Esse fato, do qual ainda hoje me lembro com clareza em todos os seus detalhes, ocorreu no mesmo perodo 
precoce ao qual remontam minhas primeiras tentativas conscientes de masturbao. (Esta era uma lembrana encobridora.)
          " 'A referncia de Freud a uma afirmativa de C. G. Jung no sentido de que os 'sonhos com estmulos dentais que ocorrem nas mulheres tm o sentido de sonhos 
com nascimentos' [em [1]], bem como a crena popular no significado da dor de dentes nas mulheres grvidas, explicaram o contraste estabelecido no sonho entre o 
fator decisivo no caso de mulheres e homens (puberdade). A esse respeito, recordo-me de um sonho anterior que tive logo aps uma visita ao dentista, e no qual sonhei 
que as coroas de ouro que tinham acabado de ser fixadas caam; isso muito me aborreceu no sonho, por causa da considervel despesa que eu fizera e da qual ainda 
no me havia recuperado inteiramente na poca. Esse outro sonho tornou-se ento inteligvel para mim (em vista de certa experincia minha) como um reconhecimento 
das vantagens materiais da masturbao sobre o amor objetal: esteltimo, do ponto de vista econmico, seria, sob todos os aspectos, menos desejvel (cf. as coroas 
de ouro); e creio que a observao da senhora sobre o significado da dor de dentes nas mulheres grvidas havia despertado novamente em mim essas seqncias de idias.'
          "Isso  o bastante no que concerne  interpretao proposta por meu colega, que  altamente esclarecedora e  qual, penso eu, no se pode levantar qualquer 
objeo. Nada tenho a acrescentar a ela, salvo, talvez, uma sugesto quanto ao sentido provvel da segunda parte do sonho. Esta parece ter representado a transio 
do sonhador entre a masturbao e as relaes sexuais, que foi aparentemente realizada com grande dificuldade (cf. o tnel pelo qual os trens entravam e saam em 
vrias direes), bem como o perigo destas ltimas (cf. a gravidez e o sobretudo [ver em [1]]). O sonhador se valeu, para essa finalidade, das pontes verbais 'Zahn-ziehen 
(Zug)' e 'Zahn-reissen (Reisen)'.
          "Por outro lado, teoricamente, o caso me parece interessante sob dois aspectos. Em primeiro lugar, oferece provas em favor da descoberta de Freud de que 
a ejaculao nos sonhos acompanha o ato de extrair dentes. Qualquer que seja a forma em que a poluo aparece, somos obrigados a consider-la como uma satisfao 
masturbatria promovida sem a assistncia de qualquer estimulao mecnica. Alm disso, neste caso, a satisfao que acompanhou a poluo no foi, como geralmente 
acontece, dirigida a um objeto, ainda que apenas imaginrio, mas no teve objeto se  que se pode dizer isso; foi completamente auto-ertica, ou, no mximo, exibiu 
um ligeiro vestgio de homossexualidade (com referncia ao dentista).
          "O segundo ponto que me parece merecer nfase  o seguinte. Pode-se plausivelmente objetar que no h necessidade alguma de se considerar o presente caso 
como uma confirmao do ponto de vista de Freud, visto que os fatos do dia anterior seriam suficientes, por si mesmos, para tornarem inteligvel o contedo do sonho. 
A ida do sonhador ao dentista, sua conversa com a dama e a leitura de A Interpretao dos Sonhos explicariam suficientemente bem como foi que ele chegou a produzir 
esse sonho, especialmente uma vez que seu sono foi perturbado por uma dor de dentes: chegariam mesmo a explicar, se necessrio, como foi que o sonho serviu para 
ele se desfazer da dor que lhe perturbava o sono - por meio da representao de se livrar do dente dolorido e, simultaneamente, por afogar com a libido a sensao 
dolorosa que o sonhador temia. Mas, mesmo que se d o mximo desconto possvel a tudo isso, no se pode sustentar seriamente que a simples leitura das explicaes 
de Freud pudesse estabelecer no sonhador a ligao entre a extrao de um dente e o ato da masturbao, ou que pudesse sequer acionar essa ligao, a menos que ela 
se houvesse estabelecido h muito tempo, como o prprio sonhador admite ter acontecido (na expresso 'sich einen ausreissen'). Essa ligao pode ter sido revivida 
no apenas por sua conversa com a senhora, como tambm por uma circunstncia que ele relatou subseqentemente. E isso porque, ao ler A Interpretao dos Sonhos, 
ele no estava disposto, por motivos compreensveis, a crer nesse sentido tpico dos sonhos com estmulos dentais e sentira o desejo de saber se tal sentido se aplicava 
a todos os sonhos dessa espcie. O presente sonho confirmou o fato de que era isso o que ocorria, ao menos no que lhe dizia respeito, e assim lhe mostrou por que 
ele fora obrigado a sentir dvidas sobre o assunto. Tambm nesse aspecto, portanto, o sonho foi a realizao de um desejo - a saber, o desejo de se convencer da 
faixa de aplicao e da validade desse ponto de vista de Freud."
          O segundo grupo de sonhos tpicos abrange aqueles em que o sonhador voa ou flutua no ar, cai, nada, etc. Qual o sentido desses sonhos?  impossvel dar 
uma resposta geral. Como ficaremos sabendo, eles significam algo diferente em cada um dos casos;  apenas a matria-prima das sensaes neles contidas que deriva 
sempre da mesma fonte. [1909.]
          As informaes proporcionadas pelos tratamentos psicanalticos foram-me a concluir que tambm esses sonhos reproduzem impresses da infncia, ou seja, 
relacionam-se com jogos que envolvem movimento, que so extraordinariamente atraentes para as crianas. No h um nico tio que no tenha mostrado a uma criana 
como voar, correndo com ela pela sala em seus braos estendidos, ou que no tenha brincado de deix-la cair, fazendo-a cavalgar em seu joelho e, de repente, estirando 
a perna, ou levantando-a bem alto e, subitamente, fingindo que vai deix-la cair. As crianas adoram essas experincias e nunca se cansam de pedir que sejam repetidas, 
especialmente quando h nelas algo que cause um pequeno susto ou tonteira. Nos anos posteriores, elas repetem essas experincias nos sonhos; nestes, porm, deixam 
de fora as mos que as sustinham, de modo que flutuam ou caem sem apoio. O prazer que as criancinhas extraem das brincadeiras desse tipo (bem como dos balanos e 
gangorras)  bem conhecido; quando passam a ver faanhas acrobticas no circo, sua lembrana desses jogos  reavivada. Os ataques histricos dos meninos, por vezes, 
consistem simplesmente em reprodues de faanhas dessa natureza, executadas com grande habilidade. No  incomum a ocorrncia de que esses jogos de movimento, embora 
inocentes em si mesmos, dem margem a sensaes sexuais. As traquinagens ["Hetzen"] infantis, se  que posso empregar um termo que comumente descreve todas essas 
atividades, so o que se repete nos sonhos de voar, cair, ter tonteiras e assim por diante, ao passo que as sensaes prazerosas ligadas a essas experincias transformam-se 
em angstia. Mas, com bastante freqncia, como toda me sabe, a traquinagem entre crianas acaba realmente em altercaes e lgrimas. [1900.]
          Assim, tenho boas razes para rejeitar a teoria de que o que provoca os sonhos com vos e quedas  o estado de nossas sensaes tcteis durante o sono, 
ou as sensaes do movimento de nossos pulmes, e assim por diante. A meu ver, essas prprias sensaes so reproduzidas como parte da lembrana  qual remonta o 
sonho: isto , so parte do contedo do sonho, e no sua fonte. [1900.]
          Esse material, portanto, consistindo em sensaes de movimento de tipos semelhantes e oriundas da mesma fonte,  utilizado para representar toda sorte 
possvel de pensamentos onricos. Os sonhos de voar ou flutuar no ar (em geral, de cunho prazeroso) exigem as mais diversas interpretaes; com algumas pessoas, 
essas interpretaes tm de ser de carter individual, ao passo que, com outras, podem ser at mesmo de natureza tpica. Uma de minhas pacientes costumava sonhar, 
com muita freqncia, que estava flutuando a certa altura acima da rua, sem tocar o cho. Ela era muito baixa e tinha horror  contaminao envolvida no contato 
com outras pessoas. Seu sonho de flutuao realizava seus dois desejos, elevando seus ps do cho e alando sua cabea at uma camada mais alta de ar. Em outras 
mulheres, verifiquei que os sonhos de voar expressavam o desejo de "ser como um pssaro", enquanto outras, no sonho, tornavam-se anjos durante a noite, por no terem 
sido chamadas de anjos durante o dia. A estreita ligao entre voar e a representao de pssaros explica por que, nos homens, os sonhos de voar costumam ter um 
sentido francamente sensual; e no nos surpreenderemos ao ouvir dizer que este ou aquele sonhador se sente muito orgulhoso de seus poderes de vo. [1909.]
          O Dr. Paul Federn (de Viena [e, posteriormente, de Nova Iorque]) formulou a atraente teoria de que bom nmero desses sonhos de vo so sonhos de ereo, 
pois o fenmeno notvel da ereo, em torno do qual a imaginao humana tem girado constantemente, no pode deixar de ser impressionante, uma vez que envolve uma 
aparente suspenso das leis da gravidade. (Cf. nesse contexto, os falos alados dos antigos.) [1911.]
           notvel que Mourly Vold, um pesquisador de sonhos de esprito sbrio e que no se inclina a interpretaes de qualquer espcie, tambm apie a interpretao 
ertica dos sonhos de voar ou flutuar (Vold, 1910-12, 2, 791). Ele se refere ao fator ertico como "o mais poderoso motivo dos sonhos de flutuar", chama ateno 
para a intensa sensao de vibrao no corpo que acompanha tais sonhos e ressalta a freqncia com que esto ligados a erees ou polues. [1914.]
          Os sonhos de cair, por outro lado, so mais amide caracterizados pela angstia. Sua interpretao no oferece nenhuma dificuldade no caso das mulheres, 
que quase sempre aceitam o uso simblico da queda como um modo de descrever a rendio a uma tentao ertica. Tampouco chegamos ainda a esgotar as fontes infantis 
dos sonhos de estar caindo. Quase toda criana caiu numa ocasio ou noutra, e depois foi apanhada e mimada; ou, caso tenha cado do bero  noite, foi levada para 
a cama da me ou da bab. [1909.]
          As pessoas que tm sonhos freqentes de estar nadando e sentem grande alegria em furar as ondas, e assim por diante, foram, em geral, pessoas que urinavam 
na cama, e repetem em seus sonhos um prazer de que h muito aprenderam a se abster. Logo veremos [em [1]], atravs de mais de um exemplo, o que  que os sonhos de 
estar nadando so mais facilmente usados para representar. [1909.]
          A interpretao dos sonhos com fogo justifica a regra de educao infantil que probe a uma criana "brincar com fogo" - de modo que no molhe a cama  
noite. Pois, tambm no caso deles, h uma lembrana subjacente da enurese da infncia. Em meu "Fragmento da Anlise de um Caso de Histeria" [1905e, Parte II, primeiro 
sonho de Dora], forneci uma anlise e sntese completas de um desses sonhos com fogo, ligado  histria clnica da sonhadora, e mostrei quais impulsos da idade adulta 
esse material infantil pode ser utilizado para representar. [1911.]
          Seria possvel mencionar todo um grupo de outros sonhos "tpicos", se adotssemos esse termo no sentido de que o mesmo contedo manifesto dos sonhos  
freqentemente encontrado nos sonhos de pessoas diferentes. Por exemplo, poderamos mencionar os sonhos de estar passando por ruas estreitas ou atravessando grupos 
inteiros de salas [cf. em [1]], e os sonhos com ladres - contra os quais, a propsito, as pessoas nervosas tomam precaues antes de irem dormir [ver em [1]]; os 
sonhos de estar sendo perseguido por animais selvagens (ou por touros ou cavalos) [ver em [1]], ou de ser ameaado por facas, punhais ou lanas - sendo estas duas 
ltimas categorias do contedo manifesto dos sonhos de pessoas que sofrem de angstia - e muitos mais. Uma pesquisa especialmente devotada a esse material recompensaria 
plenamente o trabalho envolvido. Mas, em vez disso, tenho duas observaes a fazer, embora elas no se apliquem exclusivamente aos sonhos tpicos. [1909.]
          Quanto maior o interesse pela soluo dos sonhos, mais se  levado a reconhecer que a maioria dos sonhos dos adultos versa sobre material sexual e d expresso 
a desejos erticos. Um juzo sobre esse ponto s pode ser formado pelos que realmente analisam os sonhos, ou seja, por aqueles que atravessam o contedo manifesto 
dos sonhos at chegar aos pensamentos onricos latentes, e nunca pelos que se contentam em fazer uma anotao apenas do contedo manifesto (como Ncke, por exemplo, 
em seus escritos sobre sonhos sexuais). Permitam-me dizer, desde logo, que este fato no  nada surpreendente, e est em completa harmonia com os princpios de minha 
explicao dos sonhos. Nenhuma outra pulso  submetida, desde a infncia, a tanta supresso quanto a pulso sexual, com seus numerosos componentes [cf. meus Trs 
Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, 1905d]; de nenhuma outra pulso restam tantos e to poderosos desejos inconscientes, prontos a produzir sonhos no estado de 
sono. Ao interpretarmos os sonhos, nunca nos devemos esquecer da importncia dos complexos sexuais, embora tambm devamos,  claro, evitar o exagero de lhes atribuir 
importncia exclusiva. [1909.]
          Podemos asseverar em relao a muitos sonhos, se forem cuidadosamente interpretados, que eles so bissexuais, visto que, incontestavelmente, admitem uma 
''superinterpretao'' na qual se realizam os impulsos homossexuais do sonhador - impulsos, vale dizer, que so contrrios a suas atividades sexuais normais. Sustentar, 
contudo, como o fazem Steckel (1911, [71]) a Adler (1910, etc.), que todos os sonhos devem ser interpretados bissexualmente parece-me ser uma generalizao igualmente 
indemonstrvel e implausvel, e que no estou preparado a apoiar. Em particular, no posso descartar o fato bvio de que existem numerosos sonhos que satisfazem 
outras necessidades que no as que so erticas no sentido mais amplo do termo: os sonhos com a fome e a sede, os sonhos de convenincia, etc. Da mesma forma, as 
declaraes do tipo "o espectro da morte encontra-se por trs de todos os sonhos" (Stekel [1911, 34]), ou "todo sonho mostra um avano da orientao feminina para 
a masculina" (Adler [1910]), me parecem ir muito alm de qualquer coisa que possa ser legitimamente sustentada na interpretao dos sonhos. [1911.]
          A assero de que todos os sonhos exigem uma interpretao sexual, contra a qual os crticos se enfurecem de modo to incessante, no ocorre em parte alguma 
de minha A Interpretao dos Sonhos. No se encontra em nenhuma das numerosas edies deste livro e est em evidente contradio com outros pontos de vista nele 
expressos. [1919.]
          J indiquei [em [1]] que sonhos surpreendentemente inocentes podem encarnar desejos cruamente erticos, e poderia confirm-lo por numerosos novos exemplos. 
Mas  tambm verdade que muitos sonhos que parecem indiferentes e que no seriam considerados sob nenhum aspecto peculiar remontam, na anlise, a impulsos desejantes 
que so inconfundivelmente sexuais e, muitas vezes, de natureza inesperada. Quem, por exemplo teria suspeitado da presena de um desejo sexual no seguinte sonho, 
antes de ele ser interpretado? O sonhador forneceu este relato: Um pouco atrs de dois imponentes palcios havia uma casinha com as portas fechadas. Minha mulher 
conduziu-me pelo trecho de rua que levava  pequena casa e abriu a porta com um empurro; a seguir, esgueirei-me com rapidez e facilidade para o interior de um ptio 
que subia por uma elevao. Qualquer um, no entanto, que tenha tido um pouquinho de experincia na traduo de sonhos refletir, de imediato, que penetrar em espaos 
estreitos e abrir portas fechadas encontram-se entre os smbolos sexuais mais comuns, e perceber facilmente nesse sonho a representao de uma tentativa de coitus 
a tergo (entre as duas imponentes ndegas do corpo feminino). A passagem estreita que subia por uma inclinao representava,  claro, a vagina. A ajuda atribuda 
pelo sonhador a sua mulher fora-nos a concluir que, na realidade, era apenas a considerao por ela que o impedia de fazer esse tipo de tentativa. Verificou-se 
que, no dia do sonho, fora morar na casa do sonhador uma moa que o atrara e que lhe dera a impresso de que no levantaria grandes objees a uma abordagem dessa 
espcie. A casinha entre os dois palcios era uma reminiscncia do Hradshin [Cidadela] de Praga e era mais uma referncia  mesma moa, que provinha desse lugar. 
[1909.]
          Quando insisto junto a um de meus pacientes sobre a freqncia dos sonhos de dipo, nos quais o sonhador tem relaes sexuais com a prpria me, ele muitas 
vezes responde: "No tenho nenhuma lembrana de ter tido um sonho desses". Logo depois, contudo, surge a lembrana de algum outro sonho inconspcuo e indiferente, 
que o paciente sonhou repetidas vezes. A anlise mostra ento que este , de fato, um sonho com o mesmo contedo - mais uma vez, um sonho de dipo. Posso afirmar 
com certeza que os sonhos disfarados de relaes sexuais com a prpria me so muitas vezes mais freqentes do que os sonhos diretos. [1909.]
          Em alguns sonhos com paisagens ou outras localidades d-se nfase, no prprio sonho, a um sentimento convicto de que j se esteve l antes. As ocorrncias 
de "dj vu" nos sonhos tm significado especial. Esses lugares so, invariavelmente, os rgos genitais da me de quem sonha; no existe, de fato, nenhum outro 
lugar sobre o qual se possa asseverar com tal convico que j se esteve l antes. [1909.]
          Apenas numa ocasio fiquei perplexo com um neurtico obsessivo que me contou um sonho no qual visitava uma casa em que j estivera duas vezes. Mas esse 
paciente especfico j me narrara, h bastante tempo, um episdio ocorrido quanto tinha 6 anos. Certa feita, ele estivera partilhando da cama da me e fizera uso 
indevido dessa oportunidade, enfiando o dedo na genitlia dela enquanto ela dormia. [1914.]
          Grande nmero de sonhos, [1] amide acompanhados de angstia e tendo por contedo temas como atravessar espaos estreitos ou estar na gua, baseiam-se 
em fantasias da vida intra-uterina, da existncia no ventre e do ato do nascimento. O que se segue foi o sonho de um rapaz que, em sua imaginao, tirara partido 
de uma oportunidade intra-uterina para observar os pais copulando.
          Ele estava num poo profundo, que tinha uma janela como a do Tnel Semmering. A princpio, viu uma paisagem deserta pela janela, mas depois inventou um 
quadro para se encaixar naquele espao que surgiu imediatamente e preencheu a lacuna. O quadro representava um campo que estava sendo lavrado a fundo por algum instrumento; 
e o ar puro, juntamente com a idia de trabalho rduo que acompanhava a cena e com os torres de terra preto-azulados, produziam uma impresso encantadora. A, ele 
foi adiante e viu um livro sobre educao aberto diante de si... e ficou surpreso que nele se dispensasse tanta ateno aos sentimentos sexuais (das crianas); e 
isso o levou a pensar em mim.
          Eis aqui um interessante sonho com gua, produzido por uma paciente, que serviu a uma finalidade especial no tratamento. Em sua estao de veraneio, no 
Lago de ---, ela mergulhou nas guas escuras, exatamente no ponto em que a plida lua se espelhava.
          Sonhos como esse so sonhos de nascimento. Sua interpretao  alcanada invertendo-se o acontecimento relatado no sonho manifesto; assim, em vez de "mergulhar 
na gua", temos "sair da gua", isto , nascer. Podemos descobrir o local de onde nasce uma criana trazendo  mente o emprego, em gria, da palavra "lune" em francs 
[a saber, "traseiro"]. A lua plida era, portanto, o branco traseiro que as crianas logo supem ser o lugarde onde vieram. Qual era o sentido de a paciente desejar 
ter nascido em sua estao de veraneio? Perguntei-lhe, e ela respondeu sem hesitar: "No  justamente como se eu houvesse renascido atravs do tratamento?" Assim, 
o sonho foi um convite para que eu continuasse a trat-la na estao de frias - isto , para que a visitasse ali. Talvez tambm houvesse nele uma sugesto muito 
tmida do desejo da prpria paciente de vir a ser me.
          Citarei outro sonho de nascimento, junto com sua interpretao, extrado de um artigo de Ernest Jones [1910b]. "Ela estava na praia contemplando um garotinho, 
que parecia ser dela, entrando na gua com dificuldade. Assim fez at que a gua o cobriu, e ela s conseguia ver-lhe a cabea subindo e descendo perto da superfcie. 
A cena ento mudou para o saguo apinhado de um hotel. O marido a deixou e ela 'comeou a conversar com' um estranho. A segunda metade do sonho revelou-se, na anlise, 
como representando sua fuga do marido e a entrada em relaes ntimas com uma terceira pessoa. (...) A primeira parte do sonho foi uma fantasia de nascimento bastante 
evidente. Nos sonhos, como na mitologia, a sada da criana das guas uterinas  comumente representada, por distoro, como a entrada da criana na gua; entre 
muitos outros, os nascimentos de Adnis, Osris, Moiss e Baco so ilustraes famosas disso. A subida e descida da cabea na gua relembraram de imediato  paciente 
a sensao dos movimentos do feto que ela experimentara em sua nica gestao. Pensar no menino entrando na gua induziu a um devaneio no qual ela se via retirando-o 
da gua, levando-o para um berrio, dando-lhe banho, vestindo-o, e instalando-o em sua casa.
          "A segunda metade do sonho, portanto, representou pensamentos concernentes  fuga amorosa, que pertenciam  primeira metade do contedo latente subjacente; 
a primeira metade do sonho correspondeu  segunda metade do contedo latente, a fantasia de nascimento. Alm dessa inverso da ordem, ocorreram outras inverses 
em cada metade do sonho. Na primeirametade, a criana entrava na gua, e ento sua cabea vinha  tona; nos pensamentos onricos subjacentes, ocorreu primeiro a 
sensao dos primeiros movimentos do feto e, em seguida, a criana saiu da gua (uma dupla inverso). Na segunda metade, o marido a deixava; nos pensamentos onricos, 
ela deixava o marido."
          Abraham (1909, 22 e segs.) relatou outro sonho de nascimento, produzido por uma jovem que se confrontava com seu primeiro parto. Um canal subterrneo conduzia 
diretamente  gua, partindo de um lugar no cho de seu quarto - (canal genital - lquido amnitico). Ela erguia a porta de um alapo no cho e uma criatura vestida 
numa pele marrom, muito semelhante a uma foca, aparecia prontamente. Essa criatura vinha a ser o irmo mais novo da sonhadora, para quem ela sempre fora como uma 
me. [1911.]
          Rank [1912a] mostrou, a partir de uma srie de sonhos, que os sonhos de nascimento utilizam o mesmo simbolismo dos que tm um estmulo urinrio. O estmulo 
ertico  representado nos segundos como um estmulo urinrio; e a estratificao do sentido nesses sonhos corresponde a uma mudana que se processou no sentido 
do smbolo desde a primeira infncia. [1914.]
          Este  um ponto apropriado para se retornar a um tpico que foi interrompido num captulo anterior (em [1]) [1]: o problema do papel desempenhado na formao 
dos sonhos por estmulos orgnicos que perturbam o sono. Os sonhos que ocorrem sob a influncia deles exibem abertamente no s a tendncia usual  realizao de 
desejo e ao atendimento da finalidade da convenincia, como tambm, muitas vezes, exibem um simbolismo perfeitamente claro, pois no raro um estmulo desperta o 
sonhador depois de este ter feito uma v tentativa de lidar com ele num sonho sob um disfarce simblico. Isso se aplica aos sonhos com poluo ou orgasmo, bem como 
aos provocados por uma necessidade de urinar ou defecar. "A natureza peculiar dos sonhos acompanhados de ejaculao no somente nos coloca em condies de revelar 
diretamente certos smbolos sexuais j conhecidos como tpicos, mas que no obstante foram violentamente contestados, como tambm nos permite convencer-nos de que 
certas situaes aparentemente inocentes no passam de um preldio simblico a cenas claramente sexuais. Estas ltimas so, em geral, representadas sem disfarces 
nos sonhos relativamente raros que so acompanhados de poluo, ao passo que, com bastante freqncia, culminam em sonhos de angstia, que tm o mesmo resultado 
de despertar o sonhador." [Rank, ibid., 55.]
          O simbolismo dos sonhos com estmulos urinrios  especialmente transparente e tem sido reconhecido desde as pocas mais remotas. J Hipcrates expressava 
a viso de que os sonhos com fontes e nascentes indicam um distrbio da bexiga (Havelock Ellis [1911, 164]). Scherner [1861, 189] estudou a multiplicidade do simbolismo 
dos estmulos urinrios e asseverou que "qualquer estmulo urinrio de intensidade considervel transforma-se invariavelmente em estimulao das regies sexuais 
e de suas representaes simblicas. (...) Os sonhos com estmulos urinrios so, amide, ao mesmo tempo, representantes de sonhos sexuais". [Ibid., 192.]
          Otto Rank, cuja abordagem, em seu trabalho sobre a estratificao dos smbolos nos sonhos que provocam o despertar [Rank, 1912a], estou seguindo aqui, 
fez parecer altamente provvel que um grande nmero de sonhos com estmulos urinrios tenha sido, de fato, causado por estmulo sexual, que fez uma primeira tentativa 
de encontrar satisfao, regressivamente, na forma infantil do erotismo uretral. [Ibid., 78.] So particularmente instrutivos os casos em que o estmulo urinrio 
assim instalado leva a acordar e esvaziar a bexiga, mas nos quais o sonho, no obstante, tem prosseguimento e a necessidade se expressa ento em imagens indisfaradamente 
erticas.
          Os sonhos com estmulo intestinal lanam luz, de maneira anloga, sobre o simbolismo neles envolvido, e ao mesmo tempo confirmam a ligao entre o ouro 
e as fezes, que  tambm apoiada por numerosas provas oriundas da antropologia social. (Ver Freud, 1908b; Rank, 1912a; Dattner, 1913; e Reik, 1915.) [Ver tambm 
Freud (1957a).] "Assim, por exemplo, uma mulher que estava recebendo tratamento mdico em vista de um distrbio intestinal sonhou com algum que estava enterrando 
um tesouro nas imediaes de uma pequena cabana de madeira que se assemelhava a uma rstica instalao sanitria externa. Havia uma segunda parte do sonho em que 
ela limpava o traseiro de sua filhinha, que se sujara." [Rank, 1912a, 55.]
          Os sonhos de salvamento esto ligados aos sonhos de nascimento. Nos sonhos das mulheres, salvar, e especialmente salvar das guas, tem o mesmo significado 
de dar  luz; mas o sentido se modifica quando o sonhador  um homem. [1911.]
          Os ladres, assaltantes e fantasmas, dos quais algumas pessoas sentem medo antes de ir dormir, e que s vezes perseguem suas vtimas depois de estarem 
adormecidas, so todos originrios de uma mesma categoria de reminiscncia infantil. So os visitantes noturnos que levantam as crianas e as carregam para impedir 
que molhem a cama, ou que levantam a roupa da cama para se certificarem de onde elas puseram as mos enquanto dormiam. As anlises de alguns desses sonhos de angstia 
tornaram-me possvel identificar esses visitantes noturnos com maior exatido. Em todos os casos, os ladres representavam o pai do sujeito adormecido, ao passo 
que os fantasmas correspondiam a figuras femininas de camisolas brancas. [1909.]
          
           (F) ALGUNS EXEMPLOS. - CLCULOS E DITOS NOS SONHOS
          
          Antes de destinar o quarto dos fatores que regem a formao dos sonhos a seu lugar adequado [em [1]], proponho citar diversos exemplos de minha coleo. 
Estes serviro, em parte, para ilustrar a interao dos trs fatores que j nos so conhecidos e, em parte, para fornecer provas confirmatrias do que foram, at 
agora, assertivas no fundamentadas, ou para indicar algumas concluses que inevitavelmente decorrem delas. Ao fazer uma exposio do trabalho do sonho, tive enorme 
dificuldade em corroborar minhas descobertas atravs de exemplos. Os exemplos que confirmam proposies especficas s trazem convico ao serem tratados no contexto 
da interpretao de um sonho como um todo. Caso sejam desligados de seu contexto, perdem sua virtude, enquanto que, por outro lado, uma interpretao de sonho que 
seja levada mesmo um pouquinho abaixo da superfcie logo se torna to volumosa que nos faz perder o fio da seqncia de idias que se destinava a ilustrar. Esta 
dificuldade tcnica dever servir de desculpa minha se, no que se segue, eu concatenar toda sorte de coisas cujo nico elo comum seja sua ligao com o contedo 
das sees precedentes deste captulo. [1900.]
          Comearei por dar alguns exemplos de modos de representao peculiares ou inusitados nos sonhos.
          Uma senhora teve o seguinte sonho: Uma criada estava de p numa escada, como se estivesse limpando uma janela, e tinha com ela um chimpanz e um gato-gorila 
(ela depois corrigiu isto para um gato angor). A empregada atirou violentamente os animais na sonhadora; o chimpanz se aconchegou a ela, o que foi muito repulsivo. 
- Este sonho atingiu seu propsito mediante um expediente extremamente simples: tomou uma figurade retrica literalmente e deu uma representao exata de seu enunciado. 
"Macaco", assim como os nomes de animais em geral, so empregados como insultos; e a situao do sonho no significava nada mais, nada menos, do que "atirar insultos". 
No curso da atual srie de sonhos, encontraremos diversos outros exemplos da utilizao desse recurso simples durante o trabalho do sonho. [1900.]
          Outro sonho adotou um procedimento muito semelhante. Uma mulher teve um filho com o crnio marcadamente deformado. A sonhadora ouvira dizer que a criana 
crescera assim devido a sua posio no tero. O mdico disse que o crnio poderia ficar com uma conformao melhor mediante compresso, mas que isso danificaria 
o crebro da criana. Ela refletiu que, como se tratava de um menino, isso lhe causaria menos mal. - Esse sonho continha uma representao plstica do conceito abstrato 
de "impresses causadas nas crianas", com o qual a sonhadora deparara no curso das explicaes que lhe foram dadas durante o tratamento. [1900.]
          O trabalho do sonho adotou um mtodo ligeiramente diferente no seguinte exemplo. O sonho referia-se a uma excurso ao Hilmteich, perto de Graz. O tempo 
l fora estava terrvel. Havia um pssimo hotel, a gua gotejava das pareces do quarto e as roupas de cama estavam midas. (Esta ltima parte do sonho foi narrada 
menos diretamente do que a apresentei.) O sentido do sonho era o de "suprfluo". Essa idia abstrata, que estava presente nos pensamentos do sonho, recebeu primeiramente 
uma distoro algo forada e foi posta numa forma como "transbordante", "transbordando" ou "fluido", aps o que foi representada em diversas imagens semelhantes: 
gua do lado de fora, gua nas paredes no lado de dentro, gua na umidade das roupas de cama - tudo fluindo ou "transbordando". [1900.]
          No ficaremos surpresos em constatar que, para fins de representao nos sonhos, a grafia das palavras  muito menos importante do que seu som, especialmente 
se tivermos em mente que a mesma regra  vlida ao se rimarem versos. Rank (1910, 482) registrou com pormenores e analisou de maneira integral o sonho de uma moa, 
no qual ela descrevia como estava andando pelos campos e cortando ricas espigas ["hren"] de cevada e trigo. Um amigo de sua juventude veio em sua direo, mas ela 
tentou evitar o encontro com ele. A anlise mostrou que o sonho dizia respeito a um beijo- um "beijo respeitoso" ["Kuss in Ehren", pronunciado da mesma forma que 
"hren", com o significado literal de "beijo em sinal de honra". No prprio sonho, as "hren", que tinham de ser cortadas, e no arrancadas, figuravam como espigas 
de milho, enquanto, condensadas com "Ehren", representavam um grande nmero de outros pensamentos [latentes]. [1911.]
          Por outro lado, em outros casos, o curso da evoluo lingstica facilitou muito as coisas para os sonhos, pois a linguagem tem sob seu comando toda uma 
gama de palavras que originalmente possuam um significado pictrico e concreto, mas so hoje empregadas num sentido descolorido e abstrato. Tudo o que o sonho precisa 
fazer  imprimir a essas palavras seu significado anterior e pleno, ou recuar um pouco at uma fase anterior de seu desenvolvimento. Um homem sonhou, por exemplo, 
que seu irmo estava numa Kasten ["caixa"]. No decorrer da interpretao, a Kasten foi substituda por um Schrank ["armrio" - tambm utilizado em sentido abstrato 
para significar "barreira", "restrio"]. O pensamento do sonho fora no sentido de que seu irmo deveria restringir-se ["sich einschrnken"] - em vez de o prprio 
sonhador faz-lo. [1909.]
          Outro homem sonhou que subia at o cimo de uma montanha que dominava um panorama extremamente vasto e incomum. Nesse caso, estava ele se identificando 
com um irmo que editava um panorama sobre assuntos do Extremo Oriente. [1911.]
          Em Der Grne Heinrich relata-se um sonho em que um cavalo fogoso corria por um belo campo de aveia, cada gro da qual era "uma amndoa doce, uma passa 
e uma nova moeda de um penny... tudo embrulhado em seda vermelha e atado com um pedao de cerda de porco". O autor (ou o sonhador) nos d uma interpretao imediata 
dessa imagem onrica: o cavalo estava sentindo uma comicho agradvel e exclamava "Der Hafer sticht mich!" [1914.]
          
          Segundo Henzen [1890], os sonhos que envolvem trocadilhos e jogos de linguagem ocorrem com particular freqncia nas antigas sagas nrdicas, nas quais 
mal se consegue encontrar um sonho que no contenha uma ambigidade ou um jogo de palavras. [1914.]
          Constituiria uma tarefa por si s coligir esses modos de representao e classific-los de acordo com seus princpios subjacentes. [1909.] Algumas dessas 
representaes quase poderiam ser descritas como chistes e do a sensao de que nunca se poderia compreend-las sem a ajuda de quem sonhou. [1911.]
          (1) Um homem sonhou que lhe perguntavam pelo nome de algum, mas que no conseguia pensar nele. Ele prprio explicou que o significado disso era que "ele 
jamais sonharia com uma coisa dessas". [1911.]
          (2) Uma paciente contou-me um sonho em que todas as pessoas eram especialmente grandes. "Isso significa", prosseguiu ela, "que o sonho deve ter a ver com 
fatos de minha tenra infncia, pois naquela poca,  claro, todas as pessoas adultas me pareciam enormemente grandes". [Ver em [1].] Ela prpria no aparecia no 
contedo desse sonho. - O fato de um sonho referir-se  infncia pode tambm ser expresso de outra maneira, a saber, por uma traduo do tempo em espao. Os personagens 
e cenas so vistos como se estivessem a grande distncia, no fim de uma longa estrada, ou como se estivessem sendo olhados pelo lado errado de um par de binculos. 
[1911.]
          (3) Um homem que, em sua vida profissional, tendia a utilizar uma fraseologia abstrata e vaga, embora fosse bastante perspicaz de modo geral, sonhou, certa 
ocasio, que chegava a uma estao ferroviria no exato momento em que estava chegando um trem. O que aconteceu ento foi que a plataforma se moveu em direo ao 
trem, enquanto este ficava totalmente parado... uma inverso absurda do que realmente acontece. Esse pormenor no passava de uma indicao de que deveramos esperar 
encontrar outra inverso no contedo do sonho. [Ver em [1]] A anlise do sonho fez com que o paciente se recordasse de alguns livros de gravuras nos quais havia 
ilustraes de homens de cabea para baixo e andando apoiados nas mos. [1911.]
          
          (4) Noutra ocasio, o mesmo sonhador me relatou um breve sonho que era quase uma reminiscncia da tcnica dos rbus. Sonhou que seu tio lhe dava um beijo 
num automvel. Passou imediatamente a me dar a interpretao, que eu mesmo jamais teria adivinhado: a saber, que o sonho significava auto-erotismo. O contedo desse 
sonho poderia ter sido produzido como um chiste na vida de viglia. [1911.]
          (5) Um homem sonhou que estava tirando uma mulher de trs de uma cama. O sentido disso foi que ele lhe estava dando preferncia. [1914.]
          (6) Um homem sonhou que era um oficial sentado  mesa em frente ao Imperador. Isso significou que se estava colocando em oposio ao pai. [1914.]
          (7) Um homem sonhou que estava tratando de algum que tinha um membro quebrado. A anlise demonstrou que o osso quebrado ["Knochenbruch"] representava 
um casamento desfeito ["Ehebruch", propriamente "adultrio"]. [1914.]
          (8) Nos sonhos, a hora do dia muitas vezes representa a idade do sonhador em algum perodo especfico de sua infncia. Assim, num sonho, "cinco e um quarto 
da manh" significava a idade de cinco anos e trs meses, o que era importante, visto que essa era a idade do sonhador por ocasio do nascimento de seu irmo mais 
novo. [1914.]
          (9) Eis aqui outro mtodo de representar as idades num sonho. Uma mulher sonhou que estava andando com duas menininhas cujas idades diferiam em quinze 
meses. Ela foi incapaz de se recordar de qualquer famlia de suas relaes a quem isso se aplicasse. Ela mesma props a interpretao de que as duas crianas representavam 
ela prpria e de que o sonho a fazia lembrar que os dois acontecimentos traumticos de sua infncia estavam separados um do outro precisamente por esse intervalo. 
Um ocorrera quando ela contava trs anos e meio, e o outro, quando tinha quatro e trs quartos. [1914.]
          (10) No surpreende que uma pessoa que esteja em tratamento psicanaltico muitas vezes sonhe com ele e seja levada a dar expresso, em seus sonhos, s 
numerosas idias e expectativas que o tratamento suscita. A imagem mais freqentemente escolhida para represent-lo  a de uma viagem, geralmente de automvel, por 
ser este um veculo moderno e complicado. A velocidade do carro  ento utilizada pelo paciente como uma oportunidade para dar vazo a comentrios irnicos. - Se 
"o inconsciente", como elemento dos pensamentos de viglia do sujeito, tiver de ser representado num sonho, poder ser substitudo com muita propriedade por regies 
subterrneas. - Estas, quando ocorrem sem qualquer referncia ao tratamento analtico, representam o corpo feminino ou o ventre da mulher. - "Embaixo", nos sonhos, 
amide se relaciona com os rgos genitais; "em cima", ao contrrio, relaciona-se com o rosto, a boca ou o seio. - Os animais selvagens so empregados pelo trabalho 
do sonho, em geral, para representar os impulsos arrebatados de que o sonhador tem medo, quer sejam os seus prprios, quer os de outras pessoas. (Torna-se ento 
necessrio apenas um ligeiro deslocamento para que os animais selvagens passem a representar as pessoas possudas por essas paixes. No  grande a distncia entre 
isso e os casos em que um pai temido  representado por um animal de rapina, um co ou um cavalo selvagem - uma forma de representao que lembra o totemismo.) Poder-se-ia 
dizer que os animais selvagens so empregados para representar a libido, uma fora temida pelo ego e combatida por meio do recalque.  tambm freqente o sonhador 
separar de si mesmo sua neurose, sua "personalidade enferma", e retrat-la como uma pessoa independente. [1919.]
          (11) Eis aqui um exemplo registrado por Hanns Sachs (1911): "Sabemos, por A Interpretao dos Sonhos, de Freud, que o trabalho do sonho se vale de diferentes 
mtodos para dar forma sensorial a palavras ou expresses. Se, por exemplo, a expresso a ser representada  ambgua, o trabalho do sonho pode explorar esse fato 
utilizando a ambigidade como um ponto de desvio: quando um dos sentidos da palavra est presente nos pensamentos onricos, o outro pode ser introduzido no sonho 
manifesto. Foi o que ocorreu no seguinte sonho curto, no qual se empregaram, de maneira engenhosa, para fins de representao, impresses apropriadas do dia anterior. 
Eu estava sofrendo de um resfriado no "dia do sonho" e, sendo assim, resolvera,  noite, que se me fosse possvel, evitaria sair da cama durante a madrugada. No 
sonho, eu parecia estar simplesmente dando continuidade ao que estivera fazendo durante o dia. Tinha estado ocupado em colar recortes de jornais num lbum e fizera 
o melhor possvel para colocar cada um no lugar que lhe era adequado. Sonhei que estava tentando colar um recorte no lbum. Mas ele no cabia na pgina ['er geht 
aber nicht auf die Seite'], o que me causava muita dor. Acordei e percebi que a dor do sonho persistia sob a forma de uma dor em meu corpo, e fui obrigado a abandonar 
a deciso que tomara antes de me deitar. Meu sonho, em sua qualidade de guardio do meu sono, dera-me a iluso de realizar meu desejo de ficar na cama, por meio 
de uma representao plstica da frase ambgua 'er geht aber nicht auf die Seite' ['mas ele no vai ao banheiro']." [1914.]
          Podemos chegar a afirmar que o trabalho do sonho se serve, com o propsito de dar uma representao visual dos pensamentos onricos, de quaisquer mtodos 
a seu alcance, quer a crtica de viglia os considere legtimos ou ilegtimos. Isso expe o trabalho do sonho a dvidas e ridicularizaes por parte de todos os 
que apenas ouviram falar da interpretao dos sonhos, mas nunca a praticaram. O livro de Stekel, Die Sprache des Traumes (1911),  particularmente rico em exemplos 
desse tipo. Tenho evitado, contudo, citar exemplos dele, por causa da falta de senso crtico do autor e da arbitrariedade de sua tcnica, que do margem a dvidas 
at mesmo nos espritos no preconceituosos. [Ver em [1].] [1919.]
          (12) [1914.] Os seguintes exemplos foram extrados de um trabalho de V. Tausk (1914) sobre o uso de roupas e cores na produo de sonhos.
          (a) A. sonhou que via uma ex-governanta sua num vestido de lustrina ["Lster"] preta que estava muito apertado em suas ndegas. - Isso foi explicado como 
tendo o sentido de que a governanta era lasciva ["lstern"]. 
          (b) C. sonhou ver uma moa na Estrada de ---, banhada de luz branca e usando uma blusa branca. - O sonhador tivera relaes ntimas com uma certa Srta. 
White [Branca] pela primeira vez nessa estrada.
          
          (c) A Sra. D. sonhou ver o ator vienense Blasel, de oitenta anos de idade, deitado num sof e envergando uma armadura completa ["in voller Rstung"]. Ele 
comeou a saltar sobre as mesas e cadeiras, sacou de um punhal, olhou-se no espelho e brandiu o punhal no ar como se estivesse lutando com um inimigo imaginrio. 
- Interpretao: A sonhadora sofria de uma antiga afeco da bexiga ["Blase"]. Deitava-se num div em sua anlise; quando se olhava no espelho, pensava consigo mesma 
que, apesar de sua idade e da molstia, ainda parecia estar em plena forma ["rstig"].
          (13) [1919.] UMA "GRANDE REALIZAO" NUM SONHO. - Um homem sonhou que era uma mulher grvida deitada na cama. Achou a situao muito desagradvel. Exclamou: 
"Preferia estar... (durante a anlise, depois de se recordar de uma enfermeira, conclui a frase com as palavras "quebrando pedras"). Por trs da cama pendia um mapa 
cuja extremidade inferior era mantida esticada por uma barra de madeira. Ele arrancou a barra, segurando-lhe as duas extremidades. Ela se quebrou no sentido transversal, 
mas dividiu-se em duas metades no sentido do comprimento. Esta ao o aliviou e, ao mesmo tempo, ajudou no parto.
          Sem qualquer ajuda, ele interpretou a quebra da barra ["Leiste"] como uma grande realizao ["Leistung"]. Estava fugindo de sua situao incmoda (no tratamento), 
arrancando-se de sua atitude feminina... O detalhe absurdo de a barra de madeira no se quebrar simplesmente, mas dividir-se no sentido longitudinal, foi assim explicado: 
o sonhador lembrou-se de que essa combinao de duplicar e destruir era uma aluso  castrao. Os sonhos muitas vezes representam a castrao pela presena de dois 
smbolos do pnis, como a expresso desafiadora de um desejo antittico [ver em [1]]. Alis, "Leiste" ["virilha"]  uma parte do corpo nas proximidades dos rgos 
genitais. O sonhador resumiu a interpretao do sonho como significando que ele levara a melhor sobre a ameaa de castrao que o levara a adotar uma atitude feminina. 
[1]
          
          (14) [1919.] Numa anlise que eu estava conduzindo em francs, surgiu para interpretao um sonho em que eu aparecia como um elefante. Naturalmente, perguntei 
ao sonhador por que fui representado naquela forma. "Vous me trompez" ["O senhor est me enganando"] foi sua resposta ("trompe" = "tromba").
          O trabalho do sonho pode amide conseguir representar material muito refratrio, como so os nomes prprios, por um emprego forado de associaes inusitadas. 
Num de meus sonhos, o velho Brcke me confiara a tarefa de fazer uma dissecao;... retirei algo que parecia um pedao de papel prateado amassado. (Voltarei a esse 
sonho mais adiante [ver em [1]].) A associao com isso ( qual cheguei com certa dificuldade) foi "Stanniol". Percebi ento que eu estava pensando no nome Stannius, 
o autor de uma dissertao sobre o sistema nervoso dos peixes, a qual eu muito admirara em minha juventude. A primeira tarefa cientfica que meu professor [Brcke] 
me confiou relacionava-se, de fato, com o sistema nervoso de um peixe, o Ammocoetes [Freud, 1877a]. Era claramente impossvel empregar o nome desse peixe num quebra-cabea 
pictrico. [1900.]
          Neste ponto, no consigo resistir ao registro de um sonho peculiar, que tambm merece ser notado por ter sido sonhado por uma criana, e que  facilmente 
explicvel analiticamente. "Lembro-me de ter sonhado muitas vezes, quando criana", disse uma senhora "que Deus usava na cabea um chapu pontiagudo de papel. Muitas 
vezes, costumavam colocar um desses chapus em minha cabea s refeies, para me impedir de olhar os pratos das outras crianas para ver qual era o tamanho das 
pores que lhes eram servidas. Como tinha ouvido dizer que Deus era onisciente, o sentido do sonho era que eu sabia tudo - apesar do chapu que me fora colocado 
na cabea." [1909.]
          A natureza do trabalho do sonho [1] e o modo como manipula seu material, os pensamentos onricos, so instrutivamente exibidos ao considerarmos os nmeros 
e clculos que ocorrem nos sonhos. Alm disso, os nmeros, nos sonhos, so supersticiosamente encarados como sendo especialmente significativos no tocante ao futuro. 
Escolherei, portanto, alguns exemplos dessa natureza, retirados de minha coleo.
          
          I
          
          Extrato de um sonho ocorrido a uma senhora pouco antes do trmino de seu tratamento: Ela ia pagar alguma coisa. Sua filha tirou 3 florins e 65 kreuzers 
de sua bolsa (da me). A sonhadora lhe disse: ''O que voc est fazendo? Custa apenas 21 kreuzers." Devido a meu conhecimento da situao da sonhadora, esse fragmento 
de sonho me foi inteligvel sem qualquer outra explicao de sua parte. Essa sonhadora viera do exterior e sua filha estava na escola em Viena. Ela estaria em condies 
de prosseguir em seu tratamento comigo desde que a filha permanecesse em Viena. O ano letivo da menina terminaria em trs semanas, e isso significava tambm o trmino 
do tratamento da senhora. No dia anterior ao sonho, a diretora lhe perguntara se ela no consideraria deixar a filha na escola por mais um ano. Dessa sugesto, ela 
passara evidentemente a refletir que, nesse caso, tambm poderia continuar seu tratamento. Era a isso que o sonho se referia. Um anoequivale a 365 dias. As trs 
semanas que restavam, tanto do ano letivo como do tratamento, equivaliam a 21 dias (embora as horas de tratamento fossem inferiores a isso). Os nmeros, que nos 
pensamentos onricos se referiam a perodos de tempo, estavam ligados, no prprio sonho, a somas em dinheiro - no que no houvesse um sentido mais profundo em questo, 
pois ''tempo  dinheiro''. 365 kreuzers montam apenas a 3 florins e 65 kreuzers; e a insignificncia das quantias ocorridas no sonho era, obviamente, o resultado 
da realizao de desejo. O desejo da sonhadora reduziu o custo tanto do tratamento quanto das anuidades escolares.
          
          II
          
          Os nmeros ocorridos num outro sonho envolveram circunstncias mais complicadas. Uma senhora que, embora ainda jovem, era casada h muitos anos, recebeu 
a notcia de que uma conhecida sua, Elise L., que era quase exatamente sua contempornea, acabara de ficar noiva. Teve ento o seguinte sonho. Ela estava no teatro 
com o marido. Um setor das poltronas da platia estava inteiramente vazio. O marido lhe disse que Elise L. e seu noivo tambm tinham querido ir, mas s haviam conseguido 
lugares ruins - trs por 1 florim e 50 kreuzers - e, naturalmente, no puderam aceit-los. Ela pensou que, realmente, no teria havido mal algum se eles tivessem 
feito isso.
          Qual seria a origem do 1 florim e 50 kreuzers? Isso provinha do que, a rigor, fora um acontecimento irrelevante da vspera. Sua cunhada recebera do marido 
150 florins, como um presente, e se apressara a livrar-se deles comprando uma jia. Convm notar que 150 florins so cem vezes mais do que 1 florim e 50 kreuzers. 
De onde teria vindo o trs, que era o nmero das entradas de teatro? A nica ligao aqui era que sua amiga, que acabara de ficar noiva, era o mesmo nmero de meses 
- trs - mais nova que ela. Chegou-se  soluo do sonho com a descoberta do sentido das poltronas vazias. Elas constituam uma aluso inalterada a um pequeno incidente 
que dera a seu marido uma boa desculpa para caoar dela. Ela planejara ir a uma das peas que tinham sido anunciadas para a semana seguinte e se dera ao trabalho 
de adquirir entradas com vrios dias de antecedncia, e tivera, portanto, de pagar uma taxa de reserva. Ao chegarem ao teatro, eles verificaramque um lado da casa 
estava quase vazio. No tinha havido nenhuma necessidade de que ela se apressasse tanto.
          Permitiram-me agora pr os pensamentos onricos em lugar do sonho: "Foi absurdo casar to cedo. No havia nenhuma necessidade de eu me apressar tanto. 
Pelo exemplo de Elise L., vejo que, no final, eu teria arranjado um marido. A rigor, teria conseguido um cem vezes melhor" (um tesouro), "se pelo menos tivesse esperado" 
(em anttese  pressa da cunhada). "Meu dinheiro" (ou dote) "poderia ter comprado trs homens igualmente bons."
          Pode-se observar que o sentido e o contexto dos nmeros foram alterados em escala muito maior nesse sonho do que no anterior. Os processos de modificao 
e distoro foram mais longe aqui, devendo isto ser explicado pelo fato de os pensamentos onricos terem de superar neste caso um grau especialmente elevado de resistncia 
endopsquica para poderem obter representao. Tampouco devemos desprezar o fato de que houve um elemento de absurdo no sonho, a saber, de trs lugares serem tomados 
por duas pessoas. Vou-me adiantar  minha discusso sobre o absurdo nos sonhos [em [1]], assinalando que esse detalhe absurdo no contedo do sonho visou a representar 
o mais intensamente enfatizado dos pensamentos onricos, a saber, "foi absurdo casar to cedo". O absurdo que tinha de encontrar um lugar no sonho foi engenhosamente 
suprido pelo nmero 3, que derivava, ele prprio, de um ponto de distino inteiramente sem importncia entre as duas pessoas que estavam sendo comparadas - a diferena 
de 3 meses entre a idade delas. A reduo dos 150 florins reais para um florim e 50 correspondeu ao baixo valor atribudo pela sonhadora a seu marido (ou tesouro) 
em seus pensamentos suprimidos. [1]
          
          III
          
          O exemplo seguinte exibe os mtodos de clculo empregados pelos sonhos, que os levaram a um descrdito to grande. Um homem sonhou que estava acomodado 
numa cadeira em casa dos B. - uma famlia com a qual se dera antes - e lhes dizia: "Foi um grande erro vocs no terem deixadoeu ficar com Mali." - "Quantos anos 
voc tem?" perguntou ento  moa. - "Nasci em 1882", respondeu ela. - "Oh, ento voc tem 28 anos."
          Visto que o sonho data de 1898,  evidente que isso foi um erro de clculo, e a incapacidade do sonhador para fazer somas mereceria ser comparada  de 
um paraltico geral, a no ser que pudesse ser explicada de alguma outra forma. Meu paciente era uma dessas pessoas que, sempre que lhes acontece porem os olhos 
numa mulher, no conseguem afastar dela seus pensamentos. A paciente que, j havia alguns meses, costumava chegar regularmente a meu consultrio depois dele, e com 
quem ele assim esbarrava, era uma jovem; ele constantemente fazia perguntas a respeito dela e se esmerava ao mximo para lhe causar uma boa impresso. Foi a idade 
dela que ele calculou em 28 anos. Basta isto  guisa de explicao do resultado do clculo aparente. Alis, 1882 era o ano em que ele se havia casado. - Posso acrescentar 
que ele era incapaz de resistir a entabular conversa com os dois outros membros do sexo feminino com quem deparava em minha casa - as duas empregadas (nenhuma delas 
jovem, de modo algum) uma ou outra das quais costumava abrir-lhe a porta; ele explicava a falta de receptividade delas como sendo devida a considerarem-no um cavalheiro 
idoso de hbitos assentados.
          
          IV
          
          Eis aqui outro sonho que trata de nmeros, caracterizado pela clareza da maneira pela qual foi determinado, ou antes, sobredeterminado. Devo tanto o sonho 
quanto sua interpretao ao Dr. B. Dattner. "O senhorio do meu bloco de apartamentos, que  agente de polcia, sonhou que estava em servio de rua. (Isso era a realizao 
de um desejo.) Um inspetor que tinha na gola o nmero 22, seguido de 62 ou 26, aproximou-se dele. De qualquer maneira, havia vrios dois nele.
          "O simples fato de que, ao relatar o sonho, ele decomps o nmero 2262 demonstrou que seus componentes tinham sentidos isolados. Recordou-se ele de que, 
na vspera, tinha havido uma conversa na delegacia sobre o tempo de servio dos policiais. O ensejo disso fora um inspetor que se havia aposentado com seus proventos 
aos 62 anos. O sonhador tinha apenas 22 anos de servio e faltavam 2 anos e 2 meses para que tivesse direito a uma penso de 90%. O sonho representava, em primeiro 
lugar, a realizao de um desejo h muito acalentado pelo sonhador - o de chegar ao posto de inspetor. O oficial superior com o '2262' na gola era ele prprio. Estava 
em servio de rua - outro de seus desejos favoritos -, servira seus 2 anos e 2 meses restantes e agora, tal como o inspetor de 62 anos de idade, podia aposentar-se 
com a penso integral." [1]
          Ao tomarmos em conjunto estes e alguns exemplos que darei mais adiante [em [1]], podemos dizer com segurana que o trabalho do sonho, a rigor, no efetua 
clculo algum, quer correta, quer incorretamente; ele simplesmente coloca sob a forma de clculo nmeros que se acham presentes nos pensamentos onricos e podem 
servir de aluses a um material que no pode ser representado de nenhuma outra maneira. Nesse aspecto, o trabalho do sonho trata os nmeros como um meio para a expresso 
de seu propsito, precisamente da mesma forma que trata qualquer outra representao, inclusive os nomes prprios e os ditos que ocorrem reconhecivelmente como representaes 
de palavras. [Ver o segundo pargrafo que se segue.]
           que o trabalho do sonho no pode realmente criar ditos. [Ver em [1] e [2].] Por mais que figurem nos sonhos ditos e conversas, sejam eles racionais ou 
irracionais, a anlise invariavelmente prova que tudo o que o sonho fez foi extrair dos pensamentos onricos fragmentos de ditos realmente pronunciados ou ouvidos. 
Ele trata esses fragmentos de maneira extremamente arbitrria. No somente os arranca de seu contexto e os corta em pedaos, incorporando algumas partes e rejeitando 
outras, como amide os rene numa nova ordem, de modo que um dito que figura no sonho como um todo integrado revela, na anlise, compor-se de trs ou quatro fragmentos 
desconexos. Ao produzir essa nova verso, o sonho muitas vezes abandona o sentido que as palavras possuam originalmente nos pensamentos onricos e lhes d um novo 
sentido. Se examinarmos detidamente um dito que ocorra num sonho, verificaremos que ele consiste, por um lado, de partes relativamente claras e compactas e, por 
outro, de partes que servem de material de ligao e que, provavelmente, foram inseridas num estgio posterior, do mesmo modo que, na leitura, inserimos quaisquer 
letras ou slabas que possam ter sido acidentalmente omitidas. Assim, os ditos nos sonhos tm uma estrutura similar  da brecha, na qual blocos razoavelmente grandes 
de vrios tipos de rocha so consolidados por uma massa intermediria de ligao. [Ver em [1].]
          Rigorosamente falando, essa descrio aplica-se apenas aos ditos nos sonhos que possuem algo da qualidade sensorial da fala, e que so descritos pela prpria 
pessoa que sonha como sendo ditos. Outros tipos de ditos, que no so, por assim dizer, sentidos pelo sonhador como tendo sido ouvidos ou pronunciados (isto , que 
no tm nenhum acompanhamento acstico oumotor no sonho), so meramente pensamentos como os que ocorrem em nossa atividade de pensamento da viglia, e so amide 
transportados sem modificao para nossos sonhos. Outra fonte abundante desse tipo de ditos indiferenciados, embora difcil de acompanhar, parece ser proporcionada 
pelo material que foi lido. Mas o que quer que se destaque acentuadamente nos sonhos como um dito pode ser rastreado at sua origem em ditos reais que tenham sido 
proferidos ou ouvidos pelo sonhador.
          Alguns exemplos indicando que os ditos nos sonhos tm essa origem j foram fornecidos por mim no curso de anlises de sonhos que citei para fins inteiramente 
diversos. Assim, no "inocente" sonho com o mercado relatado em [1], as palavras proferidas, "isso no se consegue mais", serviram para me identificar com o aougueiro, 
enquanto uma parte do outro dito, "no reconheo isso; no vou lev-lo", foi responsvel, de fato, por tornar o sonho "inocente". A sonhadora, como se poder recordar, 
aps lhe ter sido feita certa sugesto pela cozinheira na vspera, respondera com as palavras: "No reconheo isso; comporte-se direito!" A primeira parte desse 
dito, que soou de forma inocente, foi transportada para o sonho  guisa de aluso  sua segunda parte, que se ajustava esplendidamente  fantasia subjacente ao sonho, 
mas que, ao mesmo tempo, a teria trado.
          Eis aqui outro exemplo que pode servir por muitos, todos conducentes  mesma concluso.
          O sonhador estava num grande ptio onde alguns cadveres estavam sendo queimados. "Vou embora!" disse ele, "no suporto ver isso". (Isso no foi claramente 
um dito.) Encontrou-se ento com os dois aprendizes de aougueiro. "E ento", perguntou, "estava gostoso?" "No", respondeu um deles, "nem um bocadinho" - como se 
tivesse sido carne humana.
          O pretexto inocente do sonho foi o seguinte. O sonhador e sua mulher, depois do jantar, tinham feito uma visita a seus vizinhos, que eram pessoas excelentes, 
mas no exatamente apetitosas. A idosa e hospitaleira senhora estava justamente ceando e tentara for-lo (existe uma expresso de sentido sexual que  jocosamente 
empregada entre os homens para expressar esta idia) a provar um pouco. Ele declinara, dizendo no ter mais nenhum apetite: "Vamos", retrucara ela, "voc consegue!", 
ou alguma coisa nesse sentido. Assim, ele fora obrigado a provar e a cumprimentara pela ceia, dizendo: "Estava muito gostoso." Ao ver-se novamente a ss com sua 
mulher, ele reclamara da insistncia da vizinha e tambm da qualidade da comida. O pensamento "No suporto ver isso", que tambm no sonho no chegou a emergir como 
um dito em sentido estrito, era uma aluso aos encantos fsicos da senhora de quem partira o convite, e deve ser considerado como significando que ele no tinha 
nenhum desejo de olh-los.
          Maiores esclarecimentos podem ser extrados de outro sonho, que relatarei a propsito disso por causa do dito muito claro que formou seu ponto central, 
embora tenha de adiar sua explicao integral para depois de minha discusso dos afetos nos sonhos [em [1]]. Tive um sonho muito claro. Eu fora ao laboratrio de 
Brcke  noite e, em resposta a uma leve batida na porta, abrira-a para o  (falecido) Professor Fleischl, que entrou com diversos estranhos e, aps trocar algumas 
palavras, sentou-se  sua mesa. Isso foi seguido por um segundo sonho. Meu amigo Fl. [Fliess] tinha vindo discretamente a Viena em julho. Encontrei-o na rua, conversando 
com meu (falecido) amigo P., e fui com eles a algum lugar onde se sentaram um diante do outro, como se estivessem a uma pequena mesa. Sentei-me  cabeceira, em sua 
parte mais estreita. Fl. falou sobre sua irm e disse que em trs quartos de hora ela estava morta, acrescentando algo assim como "esse foi o limiar". Como P. no 
conseguisse entend-lo, Fl. voltou-se para mim e me perguntou quanto eu havia falado com P. sobre suas coisas. Diante disso, dominado por estranhas emoes, tentei 
explicar a Fl. que P. (no podia entender coisa alguma,  claro, porque) no estava vivo. Mas o que realmente disse - e eu prprio notei o erro - foi "NON VIXIT". 
Dirigi ento a P. um olhar penetrante. Ante meu olhar fixo, ele empalideceu; e sua forma tornou-se indistinta e seus olhos adquiriram um tom azul doentio - e por 
fim, ele se dissolveu. Fiquei muito satisfeito com isso e compreendi ento que Ernst Fleischl tambm no passara de uma apario, um "revenant" ["fantasma" - literalmente, 
"aquele que retorna"]; e me pareceu perfeitamente possvel que pessoas assim s existissem enquanto se quisesse, e que pudessem ser descartadas se outra pessoa o 
desejasse.
          Esse belo espcime rene muitas das caractersticas dos sonhos - o fato de eu ter exercido minhas faculdades crticas durante o sono e de eu prprio haver 
notado meu erro quando disse "Non vixit", em vez de "Non vivit" [isto , "ele no viveu", em vez de "ele no estava vivo"]; minha maneira despreocupada de lidar 
com pessoas que estavam mortas e eram reconhecidas como mortas no prprio sonho; o absurdo de minha inferncia final e a grande satisfao que me proporcionou. De 
fato, esse sonho exibe tantas dessas caractersticas intrigantes que eu daria muito para poder fornecer a soluo completa de seus enigmas. A rigor, porm, sou incapaz 
de faz-lo - ou seja, de fazer o que fiz no sonho, de sacrificar  minha ambio pessoas a quem valorizo imensamente. Qualquer escamoteamento, contudo, destruiria 
o que sei muito bem ser o sentido do sonho; por isso me contentarei, tanto aqui como num contexto posterior [em [1]], em selecionar apenas alguns de seus elementos 
para interpretao.
          A caracterstica central do sonho foi uma cena em que aniquilei P. com um olhar. Seus olhos se transformaram num azul estranho e sinistro e ele se dissolveu. 
Essa cena foi inequivocamente copiada de outra que eu realmente vivenciara. Na ocasio que tenho em mente, eu era instrutor no Instituto de Fisiologia e tinha de 
comear a trabalhar de manh cedo. Chegou aos ouvidos de Brcke que, s vezes, eu chegava tarde ao laboratrio dos alunos. Certa manh, ele apareceu pontualmente 
na hora em que o laboratrio abria e aguardou minha chegada. Suas palavras foram breves e incisivas. Mas o importante no foram as palavras. O que me desarmou foram 
os terrveis olhos azuis com que me fitou e que me reduziram a zero - exatamente como aconteceu com P. no sonho, onde, para meu alvio, os papis se inverteram. 
Ningum que consiga lembrar-se dos olhos desse grande homem, que preservaram sua beleza marcante mesmo na velhice, e que algum dia o tenha visto enfurecido, achar 
difcil imaginar as emoes do jovem pecador.
          Muito tempo se passou, entretanto, antes que eu conseguisse descobrir a origem do "Non vixit" com que proferi minha sentena no sonho. Finalmente, porm, 
ocorreu-me que essas duas palavras tinham alto grau de clareza no sonho, no como palavras ouvidas ou faladas, mas como palavras vistas. Percebi ento, de imediato, 
de onde provinham. No pedestal do Monumento ao Imperador Jos de Hofburg [Palcio Imperial], em Viena, acham-se inscritas estas palavras expressivas:
          Saluti patriae vixitnon diu sed Totus.
          Extra dessa inscrio apenas o bastante para que se encaixasse numa cadeia de idias hostil entre os pensamentos onricos, o suficiente para dar a entender 
que "esse sujeito no tem nada que dar opinio no assunto - ele nem sequer est vivo". E isso me fez recordar que eu tivera o sonho poucos dias depois da inaugurao 
do monumento em homenagem a Fleischl nas galerias da Universidade. Nessa poca, eu tornara a ver o monumento a Brcke e devo ter refletido (inconscientemente) com 
pesar sobre o fato de que a morte prematura de meu brilhante amigo P., cuja vida inteira fora devotada  cincia, furtara-lhe o merecido direito a um monumento naquele 
mesmo recinto. Assim, dei-lhe esse monumento em meu sonho; e, alis, como me recordei, seu primeiro nome era Josef [Jos].
          Pelas regras da interpretao dos sonhos, nem assim eu tinha direito a passar do Non vixit derivado de minha recordao do Monumento ao Imperador Jos 
ao Non vivit exigido pelo sentido dos pensamentos onricos. Devia haver algum outro elemento nos pensamentos do sonho que ajudasse a tornar possvel a transio. 
Ocorreu-me ento ser digno de nota que, na cena do sonho, havia uma convergncia de uma corrente de sentimento hostil e uma afetiva para com meu amigo P., estando 
a primeira na superfcie e a segunda oculta, mas ambas representadas na expresso nica Non vixit. Como fosse digno de homenagens pela cincia, erigi-lhe um monumento 
comemorativo; mas, como era culpado de um desejo malvolo (que se expressou no final do sonho), eu o aniquilei. Notei que esta ltima frase tinha uma cadncia toda 
especial, e devo ter tido algum modelo em minha mente. Onde se poderia encontrar uma anttese dessa natureza, uma justaposio como essa de duas reaes opostas 
a uma nica pessoa, ambas alegando ser completamente justificadas e, ainda assim, no incompatveis? Somente numa passagem da literatura - mas uma passagem que exerce 
profunda impresso sobre o leitor: no discurso de autojustificao de Brutus em Jlio Csar, de Shakespeare [iii, 2]; "Como Csar me amou, choro por ele; como foi 
afortunado, regozijo-me com isso; como era bravo, respeito-o; mas, como foi ambicioso, matei-o". No eram a estrutura formal dessas frases e seu sentido antittico 
precisamente os mesmos que no pensamento onrico eu desvendara? Assim, eu estivera desempenhando o papel de Brutus no sonho. Se ao menos pudesse encontrar outra 
prova, no contedo do sonho, para confirmar esse surpreendente trao de unio colateral! Ocorreu-me uma prova possvel: "Meu amigo Fl. veio a Viena em julho." No 
havia nenhuma base na realidade para esse detalhe do sonho. Que eu soubesse, meu amigo Fl. nunca estivera em Viena em julho. Mas o ms de julho recebeu esse nome 
a partir de Jlio Csar e poderia, portanto, representar muito bem a aluso que eu queria  idia intermediria de eu desempenhar o papel de Brutus.
          Por estranho que parea, realmente desempenhei o papel de Brutus um dia. Certa ocasio, atuei na cena entre Brutus e Csar, de Schiller, ante uma platia 
de crianas. Tinha quatorze anos na poca e estava representando com um sobrinho um ano mais velho que eu. Ele viera da Inglaterra visitar-nos; e tambm ele era 
um revenant, pois era o companheiro de brincadeiras de meus primeiros anos de vida que nele retornavam. At o final de meus trs anos, tnhamos sido inseparveis. 
Tnhamos amado um ao outro e lutado um com o outro; e essa relao infantil, como j sugeri acima [em [1] e [2]], exerceu uma influncia decisiva sobre todas as 
minhas relaes subseqentes com contemporneos. Desde aquela poca, meu sobrinho John tem tido muitas reencarnaes, que reviveram ora um lado, ora outro de sua 
personalidade, inalteravelmente fixada em minha memria inconsciente. Deve ter havido ocasies em que ele me tratou muito mal, e devo ter demonstrado coragem perante 
meu tirano, pois, anos mais tarde, falaram-me muitas vezes sobre um breve discurso feito por mim em minha prpria defesa, quando meu pai, que era ao mesmo tempo 
av de John, me disse em tom de acusao:"Por que voc est batendo no John?" Minha resposta - eu ainda no tinha dois anos nessa poca - foi "Bati nele porque ele 
me bateu". Deve ter sido essa cena de minha infncia que desviou o "Non vivit" para "Non vixit", pois, na linguagem das crianas mais velhas, o termo usado para 
bater  "wichsen" [pronunciado como o ingls "vixen"]. O trabalho do sonho no se envergonha de usar elos como esse. Havia pouco fundamento na realidade para minha 
hostilidade em relao a meu amigo P., que era muito superior a mim e, por esse motivo, se adequava perfeitamente para figurar como uma nova edio do meu antigo 
companheiro de folguedos. Essa hostilidade, portanto, certamente remontaria a minhas complicadas relaes infantis com John. [Ver ainda em [1]] [2]
          Como j disse, voltarei a este sonho posteriormente.
          
          (G) SONHOS ABSURDOS - ATIVIDADE INTELECTUAL NOS SONHOS
          
          No curso de nossas interpretaes dos sonhos esbarramos tantas vezes no elemento do absurdo que no mais podemos adiar o momento de investigar sua origem 
e seu eventual significado. E isso, porque convm lembrar que o carter absurdo dos sonhos tem proporcionado queles que negam o valor deles um de seus principais 
argumentos para encar-los como o produto sem sentido de uma atividade mental reduzida e fragmentada [ver em [1]].
          Comearei por dar alguns exemplos nos quais o absurdo  apenas aparente e desaparece to logo o sentido do sonho  examinado mais detidamente. Eis aqui 
dois ou trs sonhos que versam (por acaso, como talvez parea  primeira vista) sobre o pai morto do sonhador.
          
          I
          
          Este  o sonho de um paciente que perdera o pai seis anos antes. O pai sofrera uma grave calamidade. Estava viajando no trem noturno, que descarrilara. 
Os assentos do vago se entrechocaram e sua cabea foi comprimida de um lado ao outro. O sonhador o viu ento deitado numa cama, com um ferimento no superclio esquerdo 
que se estendia em direo vertical. Ficou surpreso de que tivesse havido uma calamidade com o pai (visto que j estava morto, como acrescentou ao relatar-me o sonho). 
Como estavam claros os olhos dele!
          De acordo com a teoria dominante dos sonhos, teramos de explicar o contedo desse sonho da seguinte maneira. Para comear, devemos supor que, enquanto 
imaginava o acidente, o sonhador deve ter-se esquecido de que o pai jazia em seu tmulo h vrios anos; mas,  medida que o sonho prosseguiu, essa lembrana deve 
ter emergido, levando  surpresa ante seu prprio sonho enquanto ele ainda dormia. A anlise nos ensina, contudo, que  visivelmente intil procurar esse tipo de 
explicaes. O sonhador encomendaraum busto do pai a um escultor e o vira pela primeira vez dois dias antes do sonho. Era nisso que ele havia pensado como uma calamidade. 
O escultor nunca vira seu pai e trabalhara utilizando fotografias. No dia imediatamente anterior ao sonho, o sonhador, em sua devoo filial, mandara um velho criado 
da famlia ao estdio para ver se ele faria a mesma opinio da cabea de mrmore, a saber, que era muito estreita nas tmporas de um lado ao outro. O paciente passou 
ento a recordar o material que contribura para a produo do sonho. Sempre que seu pai era atormentado por preocupaes de negcios ou dificuldades familiares, 
ele tinha o hbito de pressionar as mos sobre as tmporas, como se sentisse a cabea larga demais e quisesse comprimi-la. - Quando o paciente contava quatro anos, 
estivera presente na ocasio em que uma pistola, que fora acidentalmente carregada, havia disparado e enegrecido os olhos do pai. (''Como estavam claros os olhos 
dele!'') - No ponto da testa em que o sonho situou o ferimento do pai aparecia um sulco profundo, durante sua vida, sempre que ele estava pensativo ou triste. O 
fato de esse sulco ter sido substitudo no sonho por um ferimento levou  segunda causa excitante do sonho. O sonhador tirara uma fotografia de sua filhinha. A chapa 
lhe havia escorregado das mos e, quando ele a apanhou, havia uma rachadura que se estendia perpendicularmente pela testa da menina, indo at o superclio. Ele no 
pde evitar uma premonio supersticiosa a esse respeito, visto que, dias antes do falecimento de sua me, ele quebrara uma chapa fotogrfica com o retrato dela. 
          O absurdo desse sonho no passava, assim, do resultado de um descuido na expresso verbal, que no soube distinguir o busto e a fotografia da pessoa real. 
Qualquer um de ns poderia dizer [olhando para uma fotografia]: "H algo errado com papai, no acha?'' A aparncia de absurdo no sonho teria sido fcil de evitar; 
e, se nos fosse dado julgar por esse exemplo nico, ficaramos inclinados a pensar que o aparente absurdo fora permitido ou mesmo deliberado.
          
          II
          
          Eis aqui outro exemplo, semelhante em quase todos os aspectos, de um de meus prprios sonhos. (Perdi meu pai em 1896.) Aps sua morte, meu pai desempenhava 
um papel poltico entre os magiares e os reunira politicamente. Vi nesse ponto uma imagem pequena e indistinta: uma multido de homens, como se estivessem no Reichstag; 
algum de p sobre uma ou duas cadeiras, com outras pessoas ao seu redor. Lembrei-me de como ele separecera com Garibaldi em seu leito de morte, e fiquei contente 
de que aquela promessa se tivesse realizado.
          Que poderia ser mais absurdo do que isso? Foi um sonho ocorrido numa poca em que os hngaros tinham sido arrastados pela obstruo parlamentar para um 
estado de ilegalidade e mergulhado na crise da qual foram salvos por Koloman Szll. O detalhe trivial de a cena do sonho aparecer em imagens de tamanho to diminuto 
no deixou de ter importncia para sua interpretao. Nossos pensamentos onricos costumam ser representados em imagens visuais que parecem ter mais ou menos o tamanho 
natural. A imagem que eu via em meu sonho, contudo, era a reproduo de uma xilogravura inserida numa histria ilustrada da ustria, que exibia Maria Teresa no Reichstag 
[Dieta] de Pressburg no famoso episdio de "Moriamur pro rege nostro". Tal como Maria Teresa na fotografia, meu pai, no sonho, estava cercado pela multido. Mas 
ele estava de p sobre uma ou duas cadeiras ["cadeira" = "Stuhl"]. Ele os tinha reunido e, portanto, era um juiz-presidente ["Stuhlrichter", literalmente, "Juiz 
de cadeira".] (Um elo de ligao foi proporcionado pela expresso [alem] coloquial "no precisaremos de nenhum juiz".) - Os que o estvamos rodeando havamos de 
fato observado como meu pai se parecia, em seu leito de morte, com Garibaldi. Ele tivera uma elevao de temperatura post-mortem, ficando suas mas do rosto enrubescidas 
e cada vez mais vermelhas... Ao recordar isso, meus pensamentos prosseguiram involuntariamente:
          
          Und hinter ihm in wesenlosem Scheine
          Lag, was uns alle bndigt, das Gemeine.
          
          Esses pensamentos elevados prepararam o terreno [na anlise] para o aparecimento de algo que era comum ["gemein"] em outro sentido. A elevao de temperatura 
post-mortem de meu pai correspondeu s palavras "aps sua morte" no sonho. Seu sofrimento mais agudo fora causado por uma paralisia completa (obstruo) dos intestinos 
durante suas ltimas semanas. Da decorreu toda sorte de pensamentos desrespeitosos. Um de meus contemporneos que perdera o pai enquanto ainda estava no curso secundrio 
- nessa ocasio, eu mesmo ficara profundamente emocionado e me oferecera para ser seu amigo - certa feita me contou, desdenhosamente, como uma de suas parentas passara 
por uma experincia dolorosa. Seu pai cara morto na rua e fora levado para casa; quando despiram o cadver, verificou-se que no momento da morte, ou post-mortem, 
ele tivera uma evacuao ["Stuhl"]. A filha se sentira to desgostosa com isso que no conseguia impedir que esse detalhe odioso lhe perturbasse a lembrana do pai. 
Chegamos aqui ao desejo que se corporificou nesse sonho. "Erguer-se ante os olhos dos filhos, aps a morte, grande e imaculado" - quem no desejaria isto? O que 
aconteceu com o absurdo do sonho? Seu aparente absurdo deve-se apenas ao fato de ele ter fornecido uma imagem literal de uma figura de retrica que  em si perfeitamente 
legtima e na qual habitualmente desprezamos qualquer absurdo envolvido na contradio entre duas partes. Nesse exemplo, mais uma vez,  impossvel fugir  impresso 
de que o aparente absurdo  intencional e foi deliberadamente produzido. [1]
          A freqncia com que as pessoas mortas aparecem em sonhos, [1] interagindo e se associando conosco como se estivessem vivas, tem causado surpresa desnecessria 
e produzido algumas explicaes notveis, que pem em grande destaque nossa falta de compreenso dos sonhos. No obstante, a explicao desses sonhos  muito bvia. 
 freqentemente nos apanharmos pensando: "Se meu pai fosse vivo, o que diria sobre isto?" Os sonhos so incapazes de expressar um "se" dessa ordem, salvo representando 
a pessoa em questo como presente em alguma situao especfica. Assim, por exemplo, um rapaz que recebera uma grande herana do av sonhou, numa poca em que se 
recriminava por ter gasto uma considervel soma de dinheiro, que seu av estava vivo novamente e lhe pedia contas. E quando, por no cairmos nessa cilada, protestamos 
que afinal de contas a pessoa em questo est morta,o que consideramos como uma crtica ao sonho , na realidade, uma idia consoladora de que a pessoa morta no 
viveu para testemunhar o acontecimento, ou um sentimento de satisfao por ela j no poder interferir.
          H um outro tipo de absurdo que ocorre nos sonhos com parentes mortos mas no expressa ridicularizao nem escrnio. Indica um extremo grau de repdio 
e, desse modo, possibilita representar uma idia recalcada que o sonhador preferiria encarar como totalmente impensvel. Parece impossvel elucidar tais sonhos, 
a menos que se tenha em mente o fato de que os sonhos no estabelecem diferena entre o que  desejado e o que  real. Por exemplo, um homem que cuidara do pai durante 
sua ltima doena e ficara profundamente acabrunhado com sua morte teve o seguinte sonho absurdo algum tempo depois. O pai estava vivo de novo e conversava com ele 
em seu estilo usual, mas (isso  que foi notvel) ele havia realmente morrido, s que no o sabia. Este sonho s se torna inteligvel se, aps as palavras "mas ele 
havia realmente morrido", inserirmos "em conseqncia do desejo do sonhador", e se explicarmos que o que "ele no sabia" era que o sonhador tivera esse desejo. Enquanto 
cuidava do pai, o filho desejara repetidamente que ele morresse, isto , tivera o que, a rigor, era um pensamento piedoso, no sentido de que a morte poderia pr 
termo aos sofrimentos dele. Durante o luto, aps a morte do pai, at mesmo esse desejo compassivo tornou-se tema de auto-recriminao inconsciente, como se, por 
meio disso, ele tivesse realmente contribudo para abreviar a vida do homem enfermo. O despertar dos impulsos infantis primitivos do sonhador contra o pai tornou 
possvel que essa auto-recriminao se expressasse como um sonho; mas foi precisamente o fato de o instigador do sonho e os pensamentos diurnos serem to diametralmente 
opostos que exigiu o aspecto absurdo do sonho. [1]
           verdade que os sonhos com mortos amados pelo sonhador levantam problemas difceis na interpretao do sonho e que nem sempre podem ser satisfatoriamente 
solucionados. A razo disso se encontra na ambivalncia emocional de cunho particularmente acentuado que domina a relao do sonhador com a pessoa morta.  muito 
comum, nos sonhos dessa espcie, a pessoa morta ser tratada, de incio, como se estivesse viva, depois, subitamente, revelar-se morta e, numa parte posterior do 
sonho, estar viva outra vez. Isso tem o efeito de confundir. Por fim, ocorreu-me que essa alternncia entre morte e vida visa a representar a indiferena do sonhador. 
("Tanto se me d que ele esteja vivo ou morto.") Essa indiferena, evidentemente, no  real, mas apenas desejada; destina-se a ajudar o sonhador a repudiar suas 
atitudes emocionais muito intensas e amide contraditrias, tornando-se assim uma representao onrica de sua ambivalncia. - Em outros sonhos em que o sonhador 
interage com pessoas mortas, a seguinte regra muitas vezes ajuda a nos orientar: no havendo no sonho nenhuma meno ao fato de que o homem morto est morto, o sonhador 
se est equiparando com ele - est sonhando com sua prpria morte. Se, no curso do sonho, o sonhador de repente diz a si prprio com surpresa, "ora, mas ele j morreu 
h tanto tempo", est repudiando essa equiparao e negando que o sonho signifique sua prpria morte. - Mas de bom grado confesso a impresso de que a interpretao 
dos sonhos est longe de ter revelado todos os segredos dos sonhos dessa natureza.
          
          III
          
          No exemplo que exporei a seguir, pude surpreender o trabalho do sonho no prprio ato de fabricar intencionalmente um absurdo para o qual no havia margem 
alguma no material. Foi extrado do sonho que me despertou de meu encontro com o Conde Thun quando eu estava partindo em viagem de frias. [Ver em [1]] Eu estava 
num tlburi e ordenei ao cocheiro que me levasse a uma estao. "No posso ir com o senhor ao longo da prpria linha frrea", disse eu, depois de ele ter levantado 
alguma objeo, como se eu o tivesse fatigado demais. Era como se eu tivesse viajado com ele parte da distncia que normalmente se percorre de trem. A anlise produziu 
as seguintes explicaes dessa histria confusa e sem sentido. No dia anterior,eu alugara um tlburi para me levar a uma rua afastada em Dornbach. O condutor, contudo, 
no sabia onde ficava a rua e, como tendem a fazer essas excelentes pessoas, ficou a dar voltas e mais voltas, at que, finalmente, notei o que estava acontecendo 
e lhe indiquei o caminho certo, acrescentando alguns comentrios sarcsticos. Uma cadeia de idias  qual eu retornaria depois, na anlise, levou-me desse condutor 
aos aristocratas. Na ocasio, foi apenas a idia passageira de que o que nos impressiona nos aristocratas, a ns da plebe burguesa,  a preferncia que eles tm 
por ocupar o lugar do condutor. O Conde Thun, de fato, era o condutor do carro do Estado na ustria. A frase seguinte do sonho, todavia, referia-se a meu irmo, 
que eu estava assim identificando com o condutor do veculo. Naquele ano, eu havia cancelado uma viagem que faria com ele  Itlia. ("No posso ir com voc pela 
prpria linha do trem.") E esse cancelamento fora uma espcie de castigo pelas queixas que ele costumava fazer no sentido de que eu tinha o hbito de cans-lo demais 
nessas viagens (isso apareceu no sonho sem alteraes), ao insistir em me deslocar muito depressa de um lugar para outro e em ver demasiadas belezas num nico dia. 
Na noite do sonho, meu irmo me acompanhara at a estao, mas descera pouco antes de chegarmos l, na estao ferroviria suburbana adjacente ao terminal da linha 
principal, para ir a Purkersdorf pela linha suburbana. Fiz-lhe notar que ele poderia ficar um pouco mais comigo indo at Purkersdorf pela linha principal, em vez 
da suburbana. Isso levou ao trecho do sonho em que percorri de tlburi parte da distncia que normalmente se percorre de trem. Foi uma inverso do que havia ocorrido 
na realidade - uma espcie de argumento "tu quoque". O que eu dissera a meu irmo tinha sido: "voc pode percorrer na linha principal, em minha companhia, a distncia 
que percorreria pela linha suburbana". Provoquei toda a confuso do sonho ao colocar "carro" no lugar de "linha suburbana" (o que, alis, foi muito til para reunir 
as figuras do condutor e de meu irmo). Dessa maneira, consegui produzir no sonho algo sem sentido, que parece quase impossvel de desenredar e  quase uma contradio 
direta do meu comentrio anterior no sonho ("No posso ir com o senhor pela prpria linha do trem"). Dado, porm, que no havia necessidade alguma de eu confundir 
a ferrovia suburbana com um carro, devo ter preparado propositadamente toda essa histria enigmtica do sonho.
          Mas, com que propsito? Agora descobriremos o significado do absurdo nos sonhos e os motivos que fazem com que ele seja consentido ou mesmo criado. A soluo 
do mistrio neste sonho foi a seguinte: eu precisava que houvesse nesse sonho algo de absurdo e ininteligvel ligado  palavra "fahren", porque os pensamentos onricos 
incluam um certo juzo que pedia representao. Uma noite, quando me encontrava na casa da hospitaleira e espirituosa senhora que aparecia como "zeladora" numa 
das outras cenas do mesmo sonho, eu ouvira duas charadas, que no pude solucionar. Uma vez que elas eram conhecidas do restante do grupo, fiz um papel um tanto ridculo 
em minhas vs tentativas de encontrar as respostas. Elas dependiam de trocadilhos com as palavras "Nachkommen" e "Vorfahren" e, creio eu, diziam o seguinte:
          
          Der Herr befiehlt's,
          Der Kutscher tut's.
          Ein jeder hat's,
          Im Grabe ruht's.
          
          [O patro manda,
          O cocheiro faz:
          Todos o tm,
          Na tumba jaz.]
          
          (Resposta: "Vorfahren" ["Seguir viagem" e "ascendncia"; mais literalmente, "ir adiante" e "antepassados"].)
          O que causava uma confuso especial era que a primeira metade da segunda charada era idntica  da primeira:
          
          
          Der Herr befiehlt's,
          Der Kutscher tut's.
          Nicht jeder hat's,
          In der Wiege ruht's.
          
          [O patro manda,
          cocheiro faz:
          Nem todos o tm,
          No bero jaz.]
          
          (Resposta: "Nachkommen" ["Seguir atrs" e "descendncia"; mais literalmente, "vir depois" e "descendentes"].)
          Quando vi o Conde Thun seguir viagem com tanta imponncia e quando, depois disso, entrei no estado de esprito de Fgaro, com suas observaes sobre a 
bondade dos grandes senhores por se terem dado ao trabalho de nascer (de se tornarem descendncia), essas duas charadas foram adotadas pelo trabalho do sonho como 
pensamentos intermedirios. Visto que os aristocratas podiam ser facilmente confundidos com condutores e visto que houve poca, em nossa parte do mundo, em que um 
condutor era chamado de "Schwager" ["cocheiro" e "cunhado"], o trabalho de condensao pde introduzir meu irmo na mesma imagem. Entretanto, o pensamento onrico 
que agia por trs de tudo isso dizia: " absurdo orgulhar-se dos ancestrais;  prefervel ser um antepassado". Esse julgamento de que algo " absurdo" foi o que 
produziu a aparncia de absurdo no sonho. E isso tambm esclarece o enigma remanescente nessa obscura regio do sonho, ou seja, a razo por que pensei j ter viajado 
com o condutor antes [vorhergefahren ("viajado antes") - vorgefahren ("seguido viagem") - "Vorfahren" ("ascendncia")].
          Um sonho se torna absurdo, portanto, quando o julgamento de que algo " absurdo" figura entre os elementos includos nos pensamentos onricos - isto , 
quando qualquer das cadeias de idias inconscientes do sonhador tem por motivo a crtica ou a ridicularizao. O absurdo, por conseguinte,  um dos mtodos pelos 
quais o trabalho do sonho representa uma contradio - juntamente com outros mtodos como a inverso, no contedo do sonho, de uma relao material nos pensamentos 
onricos ([em [1]], ou a explorao da sensao de inibio motora [em [1]]. Todavia, o absurdo num sonho no deve ser traduzido por um simples "no"; destina-se 
a reproduzir o estado de nimo dos pensamentos onricos que combina o escrnio ou o riso com a contradio.  somente com tal finalidade em vista que o trabalho 
do sonho produz algo ridculo. Tambm aqui ele d uma forma manifesta a uma parcela do contedo latente. [1]
          Na realidade, j deparamos com um exemplo convincente de um sonho absurdo com esse tipo de sentido: o sonho - interpretei-o sem nenhuma anlise - da encenao 
de uma pera de Wagner que durou at quinze para as oito da manh e no qual a orquestra era regida de uma torre, etc. (ver em [1]). Ele evidentemente queria dizer: 
"Este  um mundo s avessas e uma sociedade maluca; a pessoa que merece algo no o consegue, e a pessoa que no se importa com algo realmente o consegue" - e nesse 
aspecto, a sonhadora estava comparando seu destino com o de sua prima. Tampouco  por mero acaso que nossos primeiros exemplos de absurdo nos sonhos se relacionaram 
com um pai morto. Nesses casos, as condies para a criao de sonhos absurdos se renem de maneira caracterstica. A autoridade exercida pelo pai provoca a crtica 
de seus filhos j numa tenra idade, e a severidade das exigncias que lhes faz leva-os, para seu prprio alvio, a ficarem de olhos abertos para qualquer fraqueza 
do pai; entretanto, a devoo filial evocada em nossa mente pela figura do pai, particularmente aps sua morte, torna mais rigorosa a censura, que impede qualquer 
crtica desse tipo de ser conscientemente expressa.
          
          IV
          
          Eis outro sonho absurdo sobre um pai morto. Recebi uma comunicao da cmara municipal de minha terra natal, referente aos honorrios devidos pela manuteno 
de algum no hospital no ano de 1851, que fora exigida por um ataque que esse algum tivera em minha casa. Isso me pareceuengraado, pois, em primeiro lugar, eu 
ainda no era nascido em 1851 e, em segundo, meu pai, com quem isso poderia estar relacionado, j estava morto. Fui v-lo no quarto ao lado, onde ele estava deitado 
em sua cama, e lhe contei isso. Para minha surpresa, ele se lembrou de que, em 1851, tinha-se embriagado certa vez e tivera de ser trancafiado ou detido. Isso acontecera 
numa poca em que ele trabalhava para a firma T --. "Quer dizer que voc tambm costumava beber?, perguntei;" "voc se casou logo depois disso?" Calculei que, naturalmente, 
eu nascera em 1856, que parecia ser o ano imediatamente seguinte ao ano em questo.
          A partir da discusso anterior, concluiramos que a insistncia com que este sonho exibia seus absurdos s poderia ser tomada como indicadora da presena, 
nos pensamentos onricos, de uma polmica particularmente acirrada e apaixonada. Assim sendo, ficaremos extremamente surpresos ao observar que, neste sonho, a polmica 
se deu abertamente, e que meu pai foi o objeto explcito de ridicularizao. Tal franqueza parece contradizer nossos pressupostos acerca da ao da censura ligada 
ao trabalho do sonho. A situao se tornar mais clara, porm, ao se perceber que, neste exemplo, meu pai foi simplesmente apresentado como um testa-de-ferro e que 
a disputa realmente se dava com outra pessoa que s apareceu no sonho numa nica aluso. Enquanto que, normalmente, o sonho versa sobre uma rebelio contra outra 
pessoa por trs de quem se oculta o pai do sonhador, aqui se deu o oposto. Meu pai fora transformado num espantalho para encobrir outra pessoa; e o sonho teve permisso 
de tratar dessa maneira indisfarada uma figura que, em geral, era tratada como sagrada, porque, ao mesmo tempo, eu sabia com certeza que no era realmente a ele 
que se aludia. Que era esse o estado de coisas ficou demonstrado pela causa excitante do sonho.  que ele ocorreu depois de eu ter tomado conhecimento de que um 
de meus colegas mais velhos, cuja opinio era considerada acima de qualquer crtica, havia expressado sua desaprovao e surpresa ante o fato de o tratamento psicanaltico 
de um de meus pacientes j ter entrado em seu quinto ano. As primeiras frases do sonho aludiam, sob um disfarce transparente, ao fato de, por algum tempo, esse colega 
haver assumido as obrigaes que meu pai j no podia cumprir ("honorrios devidos", "manuteno no hospital") e de, quando nossas relaes comearam a ser menos 
amistosas, eu ter-me envolvido no mesmo tipo de conflito emocionalque, ao surgir um desentendimento entre pai e filho,  inevitavelmente produzido, graas  posio 
ocupada pelo pai e  assistncia anteriormente prestada por ele. Os pensamentos onricos protestaram amargamente contra a reprimenda de que eu no estava progredindo 
mais depressa - reprimenda que, aplicando-se primeiro a meu tratamento do paciente, estendeu-se depois a outras coisas. Conheceria ele algum, pensei, que pudesse 
ir mais depressa? Ser que no percebia que, salvo por meus mtodos de tratamento, essas condies eram inteiramente incurveis e duravam a vida toda? O que eram 
quatro ou cinco anos comparados a uma vida inteira, especialmente considerando que a existncia do paciente fora to facilitada durante o tratamento?
          Grande parte da impresso de absurdo desse sonho foi ocasionada pelo encadeamento de frases de diferentes partes dos pensamentos onricos sem qualquer 
transio. Assim, a frase "Fui v-lo no quarto ao lado", etc., abandonou o assunto de que vinham tratando as frases anteriores e reproduziu corretamente as circunstncias 
em que informei a meu pai ter ficado noivo sem consult-lo. Essa frase, portanto, relembrava-me o admirvel desprendimento demonstrado pelo ancio nessa oportunidade, 
contrastando-o com o comportamento de um terceiro - de mais outra pessoa. Convm observar que o sonho recebeu permisso para ridicularizar meu pai porque, nos pensamentos 
onricos, ele era reconhecido, com irrestrita admirao, como um modelo para outras pessoas. E da prpria natureza de toda censura que, dentre as coisas proibidas, 
ela permita que se digam as que so falsas, e no as que so verdadeiras. A frase seguinte, no sentido de ele se lembrar que "tinha-se embriagado certa vez e fora 
trancafiado por isso", j no dizia respeito a nada que se relacionasse com meu pai na realidade. Aqui, a figura que ele representava era nada mais, nada menos que 
o grande Meynert, cujas pegadas eu seguira com profunda venerao e cujo comportamento para comigo, aps um breve perodo de predileo, transformara-se em hostilidade 
indisfarada. O sonho me fez lembrar que ele prprio me contara que, em certa poca de sua juventude, entregara-se ao hbito de se embriagar com clorofrmio e que, 
por causa disso, tivera de ir para um sanatrio. Fez-me lembrar tambm de outro incidente com ele, pouco antes de sua morte. Havamos travado uma acirrada controvrsia, 
por escrito, sobre o tema da histeria masculina, cuja existncia ele negava. Quando o visitei durante suaenfermidade fatal e indaguei sobre suas condies, ele se 
estendeu um pouco sobre seu estado e terminou com estas palavras: "Voc sabe, sempre fui um dos casos mais claros de histeria masculina". Estava assim admitindo, 
para minha satisfao e espanto, aquilo que por tanto tempo contestara obstinadamente. Mas a razo por que me foi possvel, nessa cena do sonho, utilizar meu pai 
como um disfarce para Meynert no residia em qualquer analogia que eu houvesse descoberto entre as duas figuras. A cena era uma representao concisa, mas inteiramente 
apropriada, de uma frase condicional nos pensamentos onricos, cuja ntegra dizia: "Se ao menos eu tivesse sido a segunda gerao, o filho de um professor ou de 
um Hofrat [conselheiro ulico], certamente teria progredido mais depressa". No sonho, transformei meu pai num Hofrat e professor. - O mais clamoroso e perturbador 
absurdo do sonho reside em seu tratamento da data 1851, que me parecia no diferir de 1856, como se uma diferena de cinco anos no tivesse importncia alguma. Mas 
isso era exatamente o que os pensamentos onricos procuravam expressar. Quatro ou cinco anos eram o intervalo durante o qual desfrutei do apoio do colega que mencionei 
antes nesta anlise; mas eram tambm o perodo durante o qual eu fizera minha noiva esperar por nosso casamento; e era tambm, por uma coincidncia fortuita, avidamente 
explorada pelos pensamentos onricos, o tempo que fiz meu paciente mais antigo esperar por uma recuperao completa. "O que so cinco anos?" perguntavam os pensamentos 
onricos; "no que me concerne, esse prazo no  nada; no conta. Tenho bastante tempo  minha frente. E, assim como acabei conseguindo aquilo, embora no acreditassem, 
tambm realizarei isto." Afora isso, contudo, o nmero 51 em si, sem os algarismos relativos ao sculo, foi determinado num outro sentido, a rigor, oposto; e foi 
tambm por isso que apareceu no sonho diversas vezes. Cinqenta e um  a idade que parece particularmente perigosa para os homens; conheci colegas que morreram subitamente 
nessa idade e, entre eles, um que, aps longas demoras, fora nomeado professor poucos dias antes de sua morte.
          
          V
          
          Aqui temos mais um sonho absurdo que joga com nmeros. Um de meus conhecidos, o Sr. M., fora atacado num ensaio com um injustificado grau de violncia, 
ao que todos pensamos, por ningum menos que Goethe. O Sr. M., naturalmente, ficou arrasado com o ataque. Queixou-se amargamente dele com algumas pessoas que o acompanhavam 
 mesa; sua venerao por Goethe, entretanto, no foi afetada por essa experincia pessoal. Tentei esclarecer um pouco os dados cronolgicos, que me pareciam improvveis. 
Goethe morreu em 1832. Uma vez que seu ataque ao Sr. M. teria naturalmente sido feito antes disso, o Sr. M. devia ser um homem muito jovem na ocasio. Pareceu-me 
uma noo plausvel que tivesse dezoito anos. Eu no tinha muita certeza, porm, do ano em que escrevamos, de modo que todo o meu clculo se desfazia na obscuridade. 
A propsito, o ataque estava contido no famoso ensaio de Goethe sobre a "Natureza".
          Logo encontraremos meios de justificar o absurdo desse sonho. O Sr. M., com que eu travara conhecimento em meio a algumas pessoas que me acompanhavam  
mesa, pedira-me no muito antes que examinasse seu irmo, que estava apresentando sinais de paralisia geral. A suspeita era correta; na ocasio dessa visita, aconteceu 
um episdio embaraoso, pois no decorrer da conversa, o paciente, sem nenhuma razo justificvel, revelou coisas ntimas sobre seu irmo ao falar de suas loucuras 
juvenis. Eu havia perguntado ao paciente o ano de seu nascimento e o fizera efetuar vrias pequenas somas, para testar a debilitao de sua memria - embora, alis, 
ele ainda ficasse perfeitamente  altura dos testes. Logo pude ver que, no sonho, eu prprio me havia comportado como um paraltico. (Eu no tinha muita certeza 
do ano, porm, em que escrevamos.) Outra parte do material do sonho derivava de outra fonte recente. O editor de uma revista mdica, com quem eu mantinha relaes 
amistosas, publicara uma crtica altamente desfavorvel, "arrasadora", do ltimo livro de meu amigo berlinense Fl. [Fliess]. A crtica fora escrita por um profissional 
muito jovem, que tinha pouco discernimento. Achei que tinha o direito de intervir e repreendi o editor por isso. Ele expressou um vivo pesar por haver publicado 
a crtica, mas se recusou a fazer qualquer retificao. Assim, cortei relaes com a revista, mas, em minha carta de desligamento, expressei a esperana de que nossas 
relaes pessoais no fossem afetadas pelo acontecimento. A terceira fontedo sonho fora um relato que eu acabara de escutar de uma paciente a respeito da doena 
mental de seu irmo e de como ele havia entrado em delrio frentico, aos gritos de ''Natureza! Natureza!''. Os mdicos acreditavam que sua exclamao proviesse 
do fato de ele ter lido o notvel ensaio de Goethe sobre esse assunto, e que isso mostrava que ele se vinha extenuando em seus estudos de filosofia natural. Quanto 
a mim, preferi pensar no sentido sexual em que essa palavra  usada aqui, at mesmo pelas pessoas menos instrudas. Essa minha idia ao menos no foi refutada pelo 
fato de o pobre rapaz, em seguida, ter mutilado seus prprios rgos genitais. Ele tinha dezoito anos na ocasio de seu surto.
          Posso acrescentar que o livro de meu amigo que fora to severamente criticado ("fica-se pensando se o autor  que  louco, ou se ns mesmos o somos", dissera 
outro crtico) versava sobre os dados cronolgicos da vida, e mostrava que a durao da vida de Goethe era um mltiplo de um nmero [de dias] que tem importncia 
na biologia. Logo,  fcil perceber que, no sonho, eu me estava colocando no lugar de meu amigo. (Tentei esclarecer um pouco os dados cronolgicos.) Mas comportei-me 
como um paraltico, e o sonho foi um amontoado de absurdos. Desse modo, os pensamentos onricos diziam com ironia: "Naturalmente, ele [meu amigo F.]  que  o tolo, 
o maluco, e vocs [os crticos]  que so os gnios que sabem de tudo.  claro que, por acaso, no seria o inverso, no  mesmo?" Havia muitos exemplos dessa inverso 
no sonho. Por exemplo, Goethe atacava o rapaz, o que  absurdo, ao passo que ainda  fcil para um homem bastante jovem atacar Goethe, que  imortal. Alm disso, 
fiz os clculos a partir do ano da morte de Goethe, ao passo que fizera o paraltico calcular a partir do ano de seu nascimento. [Ver em [1], onde esse sonho j 
foi mencionado.]
          Mas eu tambm me havia comprometido a mostrar que nenhum sonho  induzido por outros motivos que no os egostas. [Ver em [1]] Logo, preciso explicar o 
fato de, no presente sonho, ter tornado minha a causa de meu amigo e ter-me colocado em seu lugar. A fora de minha convico crtica na vida de viglia no basta 
para explicar isso. A histria do paciente de dezoito anos, contudo, e as diferentes interpretaes de sua exclamao "Natureza!" eram aluses  oposio em que 
eu mesmo me encontrava perante muitos mdicos, por causa de minha crena na etiologia sexual das psiconeuroses. Podia dizer a mim mesmo: "O tipo de crtica que foi 
aplicado a seu amigo ser aplicado a voc - na verdade, em certa medida, j foi". O "ele" do sonho, portanto, pode ser substitudo por "ns": "Sim, vocs tm toda 
razo, ns  que somos os tolos." Havia no sonho um lembrete muito claro de que "mea res agitur", na aluso ao ensaio breve maisprimorosamente escrito de Goethe, 
pois quando, ao final de meu tempo de escola, eu hesitava na escolha de uma carreira, foi escutar esse ensaio lido em voz alta numa conferncia pblica que me fez 
optar pelo estudo das cincias naturais. [1]
          
          VI
          
          Num ponto anterior deste volume, dispus-me a mostrar que outro sonho em que meu prprio eu no aparecia era, no obstante, egosta. Em [1], relatei um 
curto sonho no qual o Professor M. dizia: "Meu filho, o Mope..." e expliquei que este era apenas um sonho introdutrio, preliminar a outro em que eu realmente desempenhava 
um papel. Eis aqui o sonho principal que faltava, introduzindo uma forma verbal absurda e ininteligvel que requer explicao.
          Por causa de certos acontecimentos que haviam ocorrido na cidade de Roma, tornara-se necessrio retirar as crianas para local seguro e isso foi feito. 
A cena transcorreu depois em frente a um portal, portas duplas no estilo antigo (a "Porta Romana" em Siena, como me dei conta durante o prprio sonho). Eu estava 
sentado na borda de uma fonte, extremamente deprimido e quase em lgrimas. Uma figura feminina - uma criada ou freira - trouxe dois meninos e os entregou ao pai 
deles, que no era eu. O mais velho dos dois era claramente meu filho maior; no vi o rosto do outro. A mulher que trouxera o menino pediu-lhe que lhe desse um beijo 
de despedida. Ela era singular por ter um nariz vermelho. O menino recusou-se a beij-la, mas, estendendo a mo em sinal de despedida, disse "AUF GESERES" a ela 
e, depois, "AUF UNGESERES" a ns dois (ou a um de ns). Tive a impresso de que esta segunda frase denotava uma preferncia.
          Este sonho foi construdo com base num emaranhado de pensamentos provocados por uma pea a que eu assistira, chamada Das neue Ghetto [ONovo Gueto]. O problema 
judaico, a preocupao com o futuro dos filhos, a quem no se pode dar uma ptria, a preocupao de educ-los de tal maneira que possam movimentar-se livremente 
atravs das fronteiras - tudo isso era facilmente reconhecvel entre os pensamentos onricos correspondentes.
          "Junto s guas da Babilnia nos sentamos e choramos." Siena, como Roma,  famosa por suas belas fontes. Quando Roma aparecia num de meus sonhos, era preciso 
que eu encontrasse um substituto para ela em alguma localidade que me fosse conhecida (ver em [1]). Perto da Porta Romana, em Siena, vramos um edifcio grande e 
feericamente iluminado. Soubemos que era o Manicomio, o asilo de loucos. Pouco antes de ter o sonho, eu ouvira dizer que um homem de credo religioso igual ao meu 
fora obrigado a renunciar a um cargo que obtivera com grande esforo num manicmio estatal.
          Nosso interesse  despertado pela frase "Auf Geseres" (num ponto em que a situao do sonho levaria a esperar por "Auf Wiedersehen''), bem como por seu 
oposto inteiramente sem sentido, ''Auf Ungeseres". De acordo com informaes que recebi de filologistas, "Geseres"  uma palavra hebraica genuna, derivada do verbo 
"goiser", e sua melhor traduo  "sofrimentos impostos" ou "fatalidade". O uso dessa palavra na gria nos inclinaria a supor que seu significado  de "pranto e 
lamentao". "Ungeseres" era um neologismo particular meu e foi a primeira palavra a chamar minha ateno, s que, de incio, nada pude extrair dela. Entretanto, 
o breve comentrio ao final do sonho, no sentido de que "Ungeseres" denotava uma preferncia sobre "Geseres", abriu a porta s associaes e, ao mesmo tempo, a uma 
elucidao da palavra. Uma relao anloga ocorre no caso do caviar: o caviar sem sal ["ungesalzen"]  mais apreciado que o salgado ["gesalzen"]. "Caviar para o 
general", pretenses aristocrticas; por trs disso havia uma aluso jocosa a uma pessoa de minha casa que, por ser mais moa do que eu, cuidaria de meus filhos 
no futuro, ao que eu esperava. Isso se harmonizou com o fato de que outra pessoa de minha casa, nossa excelente bab, fora reconhecivelmente retratada na empregada 
ou freira do sonho. No existia ainda, contudo, nenhuma idia transicional entre "salgado - sem sal" e "Geseres - Ungeseres". Esta foi fornecida por "fermentado 
- no fermentado" ["gesuert - ungesuert"]. Em sua fuga do Egito, os Filhos de Israel no tinham tempo para deixar que sua massa de po crescesse e, em memria 
disso, at hoje comem po sem fermento na Pscoa. Neste ponto, posso inserir uma repentina associao que me ocorreu durante essa parte da anlise. Lembrei-me de 
como, na Pscoa anterior, meu amigo de Berlim e eu estvamos passeando pelas ruas de Breslau, cidade em que ramos forasteiros. Uma garotinhaperguntou-me o caminho 
para determinada rua e fui obrigado a confessar que no sabia; e comentei com meu amigo: "Vamos esperar que, quando crescer, essa garotinha mostre mais discriminao 
na escolha das pessoas a quem pedir que a orientem". Pouco depois, avistei uma placa numa porta com os dizeres "Dr. Herodes. Horrio de Consulta..." "Tomara", comentei, 
"que nosso colega no seja mdico de crianas". Entrementes, meu amigo ia me expondo suas idias sobre a significao biolgica da simetria bilateral e iniciara 
uma frase com as palavras ''Se tivssemos um olho no meio da testa, como um Ciclope..." Isso levou ao comentrio do Professor no sonho introdutrio, "Meu filho, 
o Mope...", e fui ento levado  fonte principal de "Geseres". Muitos anos antes, quando esse filho do Professor M., hoje um pensador independente, sentava-se ainda 
nos bancos escolares, foi acometido por uma doena dos olhos que, declarou o mdico, dava motivos para preocupao. Ele explicou que, enquanto a afeco permanecesse 
de um lado s, no teria importncia, mas, se passasse para o outro olho, seria um caso grave. A afeco desapareceu completamente no primeiro olho, mas, pouco depois, 
apareceram realmente sinais de que o outro estava sendo afetado. A me do menino, aterrorizada, imediatamente mandou chamar o mdico ao local afastado do interior 
onde se encontravam. O mdico, porm, passou-se ento para o outro lado. "Por que a senhora est fazendo esse 'Geseres'?", indagou  me numa exclamao; "se um 
dos lados ficou bom, o outro tambm ficar''. E tinha razo.
          E agora devemos considerar a relao de tudo isso comigo e com minha famlia. O banco de escola em que o filho do Professor M. dera seus primeiros passos 
no conhecimento fora presenteado por sua me a meu filho mais velho, em cujos lbios, no sonho, pus as frases de despedida.  fcil adivinhar um dos desejos a que 
essa transferncia deu margem.  que a construo do banco da escola visava tambm a poupar a criana da miopia e de um distrbio unilateral. Da o aparecimento, 
no sonho, de "Mope" (e, por trs disso, "Ciclope") e da referncia  bilateralidade. Minha preocupao com a unilateralidade tinha mais de um sentido: podia referir-se 
no apenas  unilateralidade fsica, mas tambm  unilateralidade do desenvolvimento intelectual. E no seria precisamente essa preocupao que,  sua maneira louca, 
a cena do sonho contradizia? Depois de se voltar para um lado para dizer palavras de despedida, a criana se voltou para o outro lado para dizero contrrio, como 
que visando a restaurar o equilbrio. Era como se estivesse agindo com a devida ateno  simetria bilateral!
           freqente, portanto, os sonhos serem mais profundos quando parecem mais insensatos. Em todas as pocas da histria, aqueles que tinham algo a dizer mas 
no podiam diz-lo sem perigo enfiaram prontamente a carapua do bobo. A platia a que se dirigia seu discurso proibido tolerava-o mais facilmente quando podia, 
ao mesmo tempo, rir e lisonjear-se com a idia de que as palavras inoportunas eram claramente absurdas. O Prncipe da pea, que teve de se disfarar de louco, comportou-se 
exatamente como fazem os sonhos na realidade; assim, podemos dizer dos sonhos o que dizia Hamlet de si prprio, ocultando as condies verdadeiras sob um manto de 
graa e ininteligibilidade: "Sou louco apenas com o nor-noroeste; quando sopra o vento sul, sei distinguir um falco de uma gara!"
          Dessa maneira, solucionei o problema do absurdo nos sonhos, demonstrando que os pensamentos onricos nunca so absurdos - nunca, pelo menos, nos sonhos 
das pessoas sadias - e que o trabalho do sonho produz sonhos absurdos e sonhos que contm elementos absurdos isolados quando se depara com a necessidade de representar 
alguma crtica, ridicularizao ou escrnio que possa estar presente nos pensamentos onricos.
          Minha tarefa seguinte  mostrar que o trabalho do sonho no consiste em nada alm de uma combinao dos trs fatores que j mencionei - e de um quarto 
que ainda tenho de mencionar [ver em [1]]; que no executa outra funo seno a de traduzir os pensamentos onricos de acordo com as quatro condies a que est 
sujeito; e que a questo de a mente atuar nos sonhos com todas as suas faculdades intelectuais ou com apenas parte delasest mal colocada e desconsidera os fatos. 
Uma vez, contudo, que existem muitos sonhos em cujo contedo se exprimem juzos, fazem-se crticas e se expressam valorizaes, em que se sente surpresa ante algum 
elemento singular do sonho, em que se fazem tentativas de explicao e se entra em argumentaes, devo agora passar a enfrentar as objees decorrentes desse tipo 
de fatos mediante a apresentao de alguns exemplos escolhidos.
          Minha resposta [em sntese]  a seguinte: Tudo o que aparece nos sonhos como atividade aparente da funo de julgamento deve ser encarado, no como uma 
realizao intelectual do trabalho do sonho, mas como pertencente ao material dos pensamentos onricos e deles tendo sido retirada para o contedo manifesto do sonho 
como uma estrutura acabada. Posso at levar mais longe esta assero. Mesmo os juzos formulados depois de acordar sobre um sonho que foi lembrado e os sentimentos 
em ns despertados pela reproduo de tal sonho fazem parte, em grande medida, do contedo latente do sonho e devem ser includos em sua interpretao.
          
          I
          
          J citei um exemplo notvel disto [em [1]]. [1] Uma paciente recusou-se a me contar um sonho porque "no era suficientemente claro". Ela vira algum no 
sonho, mas no sabia se era seu marido ou seu pai. Seguiu-se ento um segundo fragmento de sonho em que aparecia uma lata de lixo [Misttgerl], e isso deu origem 
 seguinte recordao: quando montara residncia pela primeira vez, ela um dia comentara em tom de brincadeira, na presena de um jovem parente que estava visitando 
a casa, que sua tarefa seguinte seria adquirir uma nova lata de lixo. Na manh do outro dia, chegou-lhe uma dessas latas, mas estava cheia de lrios-do-vale. Esse 
fragmento do sonho servira para representar uma expresso coloquial [alem]: "no criado com meu prprio esterco". Concluda a anlise, constatou-se que os pensamentos 
onricos estavam relacionados com os efeitos secundrios de uma histria que a sonhadora ouvira quando jovem, a respeito de como uma moa tivera um beb e no se 
sabia com clareza quem erarealmente o pai. Aqui, portanto, a representao onrica transbordara para os pensamentos de viglia: um dos elementos dos pensamentos 
onricos encontrou representao num julgamento de viglia formulado sobre o sonho como um todo.
          
          II
          
          Aqui temos um caso semelhante. Um de meus pacientes teve um sonho que lhe pareceu interessante, porque, imediatamente aps acordar, ele disse a si mesmo: 
"Preciso contar isso ao mdico". O sonho foi analisado e produziu as mais claras aluses a um caso amoroso que ele havia iniciado durante o tratamento e sobre o 
qual decidira no me dizer nada.
          
          III
          
          Eis um terceiro exemplo, de minha prpria experincia. Estava indo para o hospital com P. por um bairro em que havia casas e jardins. Ao mesmo tempo, tinha 
a noo de que j vira esse bairro muitas vezes em sonhos. No sabia orientar-me muito bem por ali. Ele me indicou uma estrada que levava, dobrando a esquina, a 
um restaurante (fechado, no um jardim). L, perguntei pela Sra. Doni e fui informado de que ela morava num quartinho dos fundos com trs filhos. Dirigi-me para 
l, mas, antes de chegar, encontrei uma figura indistinta com minhas duas filhinhas; levei-as comigo depois de ter ficado com elas um pouquinho. Uma espcie de recriminao 
contra minha mulher por hav-las deixado l.
          Quando acordei, tive um sentimento de grande satisfao, cuja razo expliquei a mim mesmo como sendo que eu iria descobrir, a partir dessa anlise, o significado 
do "J sonhei com isso antes". De fato, porm, a anlise no me ensinou nada sobre isso; o que me revelou foi que a satisfaopertencia ao contedo latente do sonho 
e no a qualquer juzo emitido sobre ele. Minha satisfao prendia-se ao fato de meu casamento haver-me trazido filhos. P. era uma pessoa cujo rumo na vida correra 
por algum tempo paralelo ao meu, que depois me deixara para trs tanto social quanto materialmente, mas cujo casamento no trouxera filhos. Os dois acontecimentos 
que ocasionaram o sonho serviro, em vez de uma anlise completa, para indicar seu sentido. Na vspera, eu havia lido num jornal o anncio da morte da Sra. Dona 
A---y (que transformei em "Doni" no sonho), que morrera de parto. Minha mulher me disse que a falecida fora atendida pela mesma parteira que a assistira no nascimento 
de nossos dois filhos mais novos. O nome ''Dona'' me chamara a ateno porque eu o tinha encontrado pela primeira vez pouco antes, num romance ingls. A segunda 
ocasio do sonho foi fornecida pela data em que ocorreu. Foi na noite anterior ao aniversrio de meu filho mais velho - que parece possuir alguns dotes poticos.
          
          IV
          
          Experimentei o mesmo sentimento de satisfao ao acordar do sonho absurdo de meu pai haver desempenhado um papel poltico entre os magiares aps sua morte, 
e a razo que dei a mim mesmo para esse sentimento foi que ele era uma continuao do sentimento que acompanhara a ltima parte do sonho. [Ver em [1].] Lembrei-me 
de como ele se parecera com Garibaldi em seu leito de morte, e fiquei contente de que aquilo se tivesse realizado... (Havia uma continuao que eu tinha esquecido). 
A anlise permitiu-me preencher essa lacuna no sonho. Era uma meno a meu segundo filho, a quem eu dera o prenome de uma grande figura histrica [Cromwell] que 
me atrara intensamente na juventude, especialmente depois de minha visita  Inglaterra. Durante o ano que antecedeu o nascimento desse filho, eu havia decidido 
usar esse nome, caso fosse um menino, e com ele saudei o recm-nascido, com um sentimento de extrema satisfao. ( fcil perceber como a megalomania suprimida dos 
pais se transfere, em seus pensamentos, para os filhos, e parece bastante provvel que esta seja uma das maneiras pela qual a supresso desse sentimento, que se 
faz necessria na vida real,  efetivada.) O direito do menino de aparecer no contexto desse sonho decorreu do fato de que ele acabara de ter a mesma infelicidade 
- facilmente perdovel tanto numa criana quanto num moribundo - de sujar as roupas de cama. Compare-se, em relao a isso, Stuhlrichter ["juiz-presidente", literalmente 
"juiz de cadeira" ou "de fezes"] e o desejo expresso no sonho de se erguer ante os olhos dos filhos grande e imaculado. [Ver adiante em [1].]
          
          V
          
          Passo agora a considerar as expresses de juzo emitidas no prprio sonho, mas no continuadas na vida de viglia ou transpostas para ela. Na busca de 
exemplos delas, minha tarefa ser grandemente auxiliada se eu puder fazer uso de sonhos que j registrei com outros objetivos em vista. O sonho do ataque de Goethe 
ao Sr. M. [em [1]] parece conter um grande nmero de atos de juzo. "Tentei esclarecer um pouco os dados cronolgicos, que me pareciam improvveis." Isto tem toda 
a aparncia de ser uma crtica  idia absurda de que Goethe pudesse ter feito um ataque literrio a um jovem de minhas relaes. "Pareceu-me uma noo plausvel 
que tivesse dezoito anos." Tambm isso soa exatamente como o resultado de um clculo, embora,  verdade, um clculo idiota. Por fim, "eu no tinha muita certeza, 
porm, do ano em que escrevamos" parece ser um exemplo de incerteza ou dvida num sonho.
          Desse modo, todos esses pareciam ser atos de julgamento feitos pela primeira vez no sonho. Mas a anlise mostrou que seu enunciado pode ser tomado de outra 
maneira,  luz da qual eles se tornam indispensveis para a interpretao do sonho, enquanto, ao mesmo tempo, todo e qualquer vestgio de absurdo  eliminado. A 
frase "Tentei esclarecer um pouco os dados cronolgicos" colocou-me no lugar de meu amigo [Fliess], que estava realmente procurando lanar luz sobre os dados cronolgicos 
da vida. Isso retira da frase sua importncia como um juzo que protestasse contra o absurdo das frases anteriores. A orao intercalada, "que me pareceram improvveis", 
era da mesma categoria que a subseqente, ''Pareceu-me uma noo plausvel". Eu tinha usado quase exatamente essas palavras com a senhora que me contara o caso clnico 
de seu irmo: "Parece-me uma noo improvvel que seus gritos de 'Natureza! Natureza!' tenham tido algo que ver com Goethe; parece-me muito mais plausvel que essas 
palavras tenham tido o sentido sexual com que a senhora est familiarizada".  verdade que aqui se emitiu um julgamento - no no sonho, porm, mas na realidade, 
e numa ocasio que foi relembrada e explorada pelos pensamentos onricos. O contedo do sonho apropriou-se desse juzo exatamente como de qualquer outro fragmento 
dos pensamentos onricos. O nmero "18", ao qual o juzo do sonho estava absurdamente ligado, preserva um vestgio do contexto real do qual o juzo foi extrado. 
Por fim, "Eu no tinha muita certeza, porm, do ano em que escrevamos" destinou-se simplesmente a levar mais longe minha identificao com o paciente paraltico, 
em cujo exame, feito por mim, esse aspecto fora realmente levantado.
          
          A soluo do que constitui na aparncia atos de julgamento nos sonhos pode servir para nos lembrar as regras estabelecidas no incio deste livro [em [1]] 
para se executar o trabalho de interpretao: a saber, que devemos desprezar a aparente coerncia entre os componentes do sonho como uma iluso no essencial, e 
que devemos rastrear a origem de cada um de seus elementos independentemente. O sonho  um conglomerado que, para fins de investigao, deve ser novamente decomposto 
em fragmentos. [Ver em [1].] Por outro lado, contudo,  preciso observar que est em ao nos sonhos uma fora psquica que cria essa concatenao aparente, ou seja, 
que submete o material produzido pelo trabalho do sonho a uma "elaborao secundria". Isso nos coloca frente a frente com as manifestaes de uma fora cuja importncia 
avaliaremos posteriormente [em [1]], como o quarto dos fatores que participam da construo dos sonhos.
          
          VI
          
          Aqui temos mais um exemplo de um processo de julgamento operando num sonho que j registrei. No sonho absurdo da comunicao proveniente da cmara municipal 
[em [1]], perguntei: "Voc se casou logo depois disso? Calculei que, naturalmente, eu nascera em 1856, que parecia ser o ano imediatamente seguinte ao ano em questo". 
Tudo isso estava revestido da forma de um conjunto de concluses lgicas. Meu pai se casara em 1851, imediatamente aps seu ataque; eu,  claro, era o mais velho 
da famlia e nascera em 1856; Q.E.D. Como sabemos, essa falsa concluso foi tirada a bem da realizao de desejo, e o pensamento onrico predominante dizia: "Quatro 
ou cinco anos no so nada; isso no conta". Todos os passos desse conjunto de concluses lgicas, por mais semelhantes que sejam em seu contedo e forma, poderiam 
ser explicados de outra maneira como determinados pelos pensamentos onricos. Era o paciente, cuja longa anlise meu colega criticara, que decidira casar-se imediatamente 
aps o trmino do tratamento. A forma de minha conversa com meu pai no sonho se parecia com um interrogatrio ou um exame e relembrou-me tambm um professor da Universidade 
que costumava anotar pormenores exaustivos dos estudantes que se inscreviam para suas aulas: "Data de nascimento?" - "1856" - "Patre?" Em resposta a isto, dava-se 
o primeiro nome do pai com uma terminao latina e ns, os estudantes, presumamos que o Hofrat tirava do prenome do pai concluses que nem sempre podiam ser tiradas 
do nome do prprio aluno. Assim, tirar uma concluso no sonho no passava de umarepetio do tirar concluses que aparecia como um fragmento do material dos pensamentos 
onricos. Algo de novo emerge disto. Quando aparece uma concluso no contedo do sonho, no h dvida de que ela decorre dos pensamentos onricos, mas pode estar 
presente nestes como um fragmento de material relembrado ou pode reunir uma srie de pensamentos onricos numa cadeia lgica. De qualquer modo, porm, uma concluso 
no sonho representa uma concluso nos pensamentos onricos.
          Neste ponto, podemos reiniciar nossa anlise do sonho. O interrogatrio do professor levou a uma lembrana do registro dos Estudantes Universitrios (que, 
no meu tempo, era redigido em latim). Levou ainda a reflexes sobre o curso de meus estudos acadmicos. Tambm os cinco anos prescritos para os estudos mdicos foram 
muito pouco para mim. Prossegui em meu trabalho, imperturbvel, por vrios anos mais e, em meu crculo de relaes, era encarado como malandro e duvidavam que algum 
dia eu o concluiria. Ento me decidi rapidamente a fazer meus exames e passei a despeito do atraso. Aqui estava um novo reforo dos pensamentos onricos com que 
eu confrontava meus crticos desafiadoramente: "Ainda que vocs no o acreditem, por eu no me haver apressado, eu vou conseguir, vou levar meus estudos mdicos 
a uma concluso. As coisas j aconteceram assim muitas vezes".
          Esse mesmo sonho, em seu trecho inicial, continha algumas frases s quais dificilmente se poderia recusar o nome de argumentao. Essa argumentao nem 
ao menos era absurda e bem poderia ter-me ocorrido no pensamento de viglia: Achei engraada, no sonho, a comunicao da cmara municipal, uma vez que, em primeiro 
lugar, eu ainda no viera ao mundo em 1851 e, em segundo, meu pai, com quem isso poderia estar relacionado, j estava morto. Ambas essas afirmaes eram no apenas 
corretas em si mesmas, mas concordavam precisamente com os argumentos reais que eu apresentaria se realmente recebesse uma comunicao desse tipo. Minha anlise 
anterior do sonho mostrou que ele brotara de pensamentos onricos profundamente amargos e derrisrios (ver em [1]). Se pudermos tambm presumir que havia fortes 
razes para a atividade da censura, compreenderemos que o trabalho do sonho tinha todos os motivos para produzir uma refutao perfeitamente vlidade uma sugesto 
absurda, seguindo o modelo contido nos pensamentos onricos. A anlise mostrou, no entanto, que o trabalho do sonho no tivera liberdade de ao para estabelecer 
esse paralelo, mas fora obrigado, para esse fim, a utilizar material oriundo dos pensamentos onricos. Era exatamente como se houvesse uma equao algbrica, contendo 
(alm de algarismos) sinais de soma e de subtrao, ndices e radicais, e como se algum tivesse de copi-la sem entend-la, passando tanto os smbolos operacionais 
quanto os algarismos para sua cpia, mas misturando-os todos. Os dois argumentos [no contedo do sonho] puderam ter sua origem traada at o seguinte material: era-me 
aflitivo pensar que algumas das premissas subjacentes e minhas explicaes psicolgicas das psiconeuroses estavam fadadas a despertar ceticismo e riso quando encontradas 
pela primeira vez. Por exemplo, eu fora levado a supor que as impresses do segundo ano de vida e, por vezes, at mesmo o primeiro, deixavam um trao duradouro na 
vida emocional daqueles que mais tarde iriam adoecer, e que essas impresses - embora distorcidas e exageradas em muitos aspectos pela memria - poderiam constituir 
o primeiro e mais profundo fundamento dos sintomas histricos. Os pacientes, a quem eu explicava isso em algum momento apropriado, costumavam parodiar esse conhecimento 
recm-adquirido, declarando que estavam prontos a buscar lembranas datadas de uma poca em que ainda no tinham nascido. Era perfeitamente espervel que minha descoberta 
do inesperado papel desempenhado pelo pai nos primeiros impulsos sexuais das pacientes deparasse com uma recepo semelhante (ver a discusso em [1]). No obstante, 
eu tinha a slida convico de que essas duas hipteses eram verdadeiras.  guisa de confirmao, lembrei-me de alguns exemplos em que a morte do pai ocorrera quando 
a criana ainda estava em idade muito tenra, e nos quais certos acontecimentos posteriores, doutra maneira inexplicveis, provavam que a criana, ainda assim, havia 
preservado, inconscientemente, lembranas da figura que to cedo desaparecera de sua vida. Eu estava ciente de que essas minhas duas asseres repousavam na extrao 
de concluses cuja validade seria contestada. Assim, foi uma vitria da realizao de desejo que precisamente o material das concluses que eu temia serem contestadas 
fosse empregado pelo trabalho do sonho para tirar concluses que era impossvel contestar.
          
          VII
          
          No incio de um sonho em que mal toquei at agora [ver em [1]], havia uma clara expresso de assombro ante o tema que havia emergido. O velho Brcke devia 
ter-me atribudo alguma tarefa; ESTRANHAMENTE, relacionava-se com a dissecao da parte inferior de meu prprio corpo, minha plvis e minhas pernas, que eu via diante 
de mim como se estivesse na sala de dissecao, mas sem notar sua ausncia em mim mesmo e tambm sem nenhum trao de qualquer sentimento de horror. Louise N. estava 
de p a meu lado e fazendo o trabalho comigo. A plvis tinha sido esvicerada e era visvel ora em seu aspecto superior, ora no inferior, estando os dois misturados. 
Podiam-se ver espessas protuberncias cor de carne (que, no prprio sonho, fizeram-me pensar em hemorridas). Algo que estava em cima disso e que se assemelhava 
a papel prateado amassado tambm teve de ser cuidadosamente retirado. Depois, eu estava novamente de posse de minhas pernas, andando pela cidade. Mas (por estar 
cansado) apanhei um txi. Para meu espanto, o txi entrou pela porta de uma casa que se abriu e o deixou passar por um corredor que dobrava uma esquina no final 
e, por fim, levava de novo ao ar livre. Finalmente, eu estava excursionando numa paisagem mutvel com um guia alpino que carregava meus pertences. Parte do caminho 
ele me carregou tambm, por considerao por minhas pernas cansadas. O terreno era pantanoso e andvamos pela beirada; havia pessoas sentadas no cho como peles-vermelhas 
ou ciganos - entre elas, uma moa. Antes disso, eu estivera avanando sobre o terreno escorregadio com uma constante sensao de surpresa por poder faz-lo to bem 
aps a dissecao. Por fim, chegamos a uma casinha de madeira em cuja extremidade havia uma janela aberta. L, o guia me colocou no cho e ps duas tbuas de madeira, 
que j estavam preparadas sobre o peitoril da janela, de modo a fazer uma ponte sobre o abismo que tinha de ser cruzado a partir da janela. Nesse ponto, fiquei realmente 
amedrontado por causa de minhas pernas, mas, em vez da esperada travessia, vi dois homens adultos deitados em bancos de madeira que ficavam junto s paredes da cabana 
e o que pareciam ser duas crianas dormindo ao lado deles. Era como se o que iria possibilitar a travessia no fossem as tbuas, mas as crianas. Acordei sobressaltado.
          Quem quer que j tenha feito at mesmo a menor idia da extenso da condensao nos sonhos facilmente imaginar o nmero de pginas que seria preenchido 
por uma anlise integral desse sonho. Felizmente, contudo, nopresente contexto, s preciso tomar um ponto dele, que fornece um exemplo de assombro nos sonhos, como 
exibido pela interpolao "estranhamente". Fora este o pretexto do sonho: Louise N., a dama que me assistia em meu trabalho no sonho, andara me visitando. "Empreste-me 
alguma coisa para ler", dissera. Ofereci-lhe She [Ela], de Rider Haggard. "Um livro estranho, mas repleto de um sentido oculto", comecei a explicar-lhe; "o eterno 
feminino, a imortalidade de nossas emoes..." Nesse ponto, ela me interrompeu. "J o conheo. No tem nada de sua prpria autoria?" - "No, minhas prprias obras 
imortais ainda no foram escritas." - "Bem, e quando  que podemos esperar por essas suas chamadas explicaes ltimas, que voc prometeu que at ns acharamos 
legveis", perguntou ela, com uma ponta de sarcasmo. Nesse ponto, percebi que algum mais me estava admoestando por sua boca e silenciei. Refleti sobre a dose de 
autodisciplina que me estava custando oferecer ao pblico at mesmo meu livro sobre sonhos - onde eu teria de revelar tanto do meu prprio carter.
          
          Das Best was du wissen kannst.
          Darfst du den Buben doch nicht sagen.
          
          A tarefa que me fora imposta no sonho, de fazer a dissecao de meu prprio corpo, era, portanto, minha auto-anlise, que estava ligada a meu fornecimento 
de uma explicao de meus sonhos. Era apropriado que o velho Brcke entrasse aqui; j nos primeiros anos de meu trabalho cientfico, ocorreu-me deixar pendente uma 
descoberta minha, at que uma enrgica repreenso dele me forou a public-la. Os outros pensamentos iniciados por minha conversa com Louise N. eram profundos demais 
para se tornarem conscientes. Desviaram-se na direo do material que fora evocado em mim pela meno de She, de Rider Haggard. O juzo "estranhamente" remontava 
a esse livro e a outro, Heart of the World [O Corao do Mundo], do mesmo autor; e numerosos elementos do sonho derivavam-se desses dois romances imaginativos. O 
terreno pantanoso pelo qual as pessoas tinham de ser carregadas e o abismo que tinham de atravessar por meio de tbuas trazidas por elas foram retirados de She; 
os peles-vermelhas, a moa e a casa de madeira, de Heart of the World. Em ambos os romances, o guia  uma mulher;ambos versam sobre viagens perigosas, enquanto She 
descreve uma estrada cheia de riscos e quase nunca trilhada, que leva a uma regio ainda no descoberta. A sensao de cansao em minhas pernas, segundo uma anotao 
que descobri ter feito sobre o sonho, fora uma sensao real durante o dia. Provavelmente combinava com um estado de nimo abatido e com uma reflexo dubitativa: 
"Por quanto tempo minhas pernas me carregaro?" O final da aventura em She  que a guia, em vez de descobrir a imortalidade para si prpria e para os outros, perece 
no misterioso fogo subterrneo. Um temor desse tipo estava inequivocamente em ao nos pensamentos onricos. A "casa de madeira" era tambm, sem dvida, um atade, 
ou seja, a sepultura. Mas o trabalho do sonho realizou uma obra-prima em sua representao desse mais indesejado de todos os pensamentos, atravs de uma realizao 
de desejo.  que eu j estivera numa sepultura antes, mas era uma sepultura etrusca desenterrada perto de Orvieto, uma cmara estreita com dois bancos de pedra ao 
longo das paredes, onde jaziam os esqueletos de dois homens adultos. O interior da casa de madeira no sonho tinha a aparncia exata dela, s que a pedra fora substituda 
por madeira. O sonho parece ter dito: "Se tens de descansar numa sepultura, que seja uma sepultura etrusca". E, efetuando essa substituio, ele transformou a mais 
lgubre das expectativas numa que era altamente desejvel. Infelizmente, como em breve saberemos [em [1]], o sonho pode transformar em seu oposto a representao 
que acompanha um afeto, mas nem sempre o prprio afeto. Por conseguinte, acordei "sobressaltado", mesmo depois de ter emergido com xito a idia de que os filhos 
talvez possam realizar o que o pai no conseguiu - uma nova aluso ao estranho romance em que a identidade de uma pessoa  preservada atravs de uma srie de geraes 
por mais de dois mil anos. [1]
          
          VIII
          
          Includa em outro de meus sonhos houve uma expresso de surpresa ante algo que eu experimentara nele, mas a surpresa foi acompanhada por uma tentativa 
to notvel, rebuscada e quase brilhante de explicao que, nem que seja apenas por ela, no posso resistir a submeter o sonho inteiro anlise, independentemente 
de ele possuir dois outros pontos que despertam nosso interesse. Eu estava viajando pela linha ferroviria Sdbahn na noite de 18 para 19 de julho, e, enquanto dormia, 
escutei a chamada: "Hollthurn, dez minutos". Pensei imediatamente em holotrias [lesmas-do-mar] - num museu de histria natural - que este fora o lugar em que homens 
valentes haviam lutado em vo contra o poder superior do governante de seu pas - sim, a Contra-Reforma na ustria - era como se fosse um lugar na Estria ou no 
Tirol. Vi ento indistintamente um pequeno museu em que as relquias ou pertences desses homens eram preservados. Eu gostaria de sair, mas hesitei em faz-lo. Havia 
mulheres com frutas na plataforma. Estavam acocoradas no cho e erguiam seus cestos convidativamente. - Hesitei porque no tinha certeza de que haveria tempo, mas 
ainda no estvamos em movimento. - De repente, eu estava em outro compartimento, onde os estofamentos e os assentos eram to estreitos que as costas ficavam diretamente 
pressionadas contra o fundo do vago. Fiquei surpreso com isso, mas refleti que PODERIA TER TROCADO DE VAGO ENQUANTO ME ACHAVA EM ESTADO DE SONO. Havia diversas 
pessoas, inclusive um irmo e irm ingleses; uma fileira de livros era claramente visvel sobre uma prateleira na parede. Vi "The Wealth of Nations" [A Riqueza das 
Naes] e "Matter and Motion" [Matria e Movimento], de Clerk Maxwell, um volume grosso e encadernado em tecido marrom. O homem perguntou a sua irm por um livro 
de Schiller, se ela o havia esquecido. Era como se os livros fossem ora meus, ora deles. Nesse ponto, senti-me inclinado a intervir na conversa num sentido confirmatrio 
ou consubstanciador... Acordei transpirando por todo o corpo, pois todas as janelas estavam fechadas. O trem estava parado em Marburg [na Estria].
          Enquanto estava anotando o sonho, ocorreu-me um novo fragmento dele, que minha memria havia tentado omitir. Disse [em ingls] ao irmo e  irm, referindo-me 
a determinada obra: "It is from...", mas me corrigi: "It is by..." "Sim", comentou o homem com a irm, "ele disse isso corretamente.''
          
          O sonho comeava pelo nome da estao, que devia sem dvida ter-me acordado parcialmente. Substitu seu nome, Marburg, por Hollturn. O fato de eu ter ouvido 
"Marburg" quando anunciado pela primeira vez, ou talvez depois, foi comprovado pela meno a Schiller no sonho, pois ele nascera em Marburg, embora no na Marburg 
da Estria. Embora viajasse na primeira classe, eu estava nessa ocasio fazendo minha viagem em condies muito desconfortveis. O trem estava inteiramente lotado 
e, em meu compartimento, eu encontrara uma dama e um cavalheiro que pareciam muito aristocrticos e no tiveram a civilidade ou no acharam que valesse a pena disfarar 
sua contrariedade por minha intruso. Minha saudao polida no teve resposta. Embora o homem e sua mulher estivessem sentados lado a lado (de costas para a locomotiva), 
a mulher, no obstante, apressou-se, bem diante dos meus olhos, a ocupar o assento da janela em frente a ela, colocando nele um guarda-chuva. A porta foi imediatamente 
fechada e algumas observaes mordazes foram trocadas entre eles sobre a questo da abertura das janelas. Provavelmente, perceberam de imediato que eu ansiava por 
ar fresco. Era uma noite quente e a atmosfera no compartimento completamente fechado logo se tornou sufocante. Minhas experincias de viagem ensinaram-me que esse 
tipo de conduta desumana e desptica  caracterstica de pessoas que esto viajando com passagens grtis ou meias-passagens. Quando veio o condutor e lhe mostrei 
a passagem que havia comprado por um alto preo, saram da boca da dama, em tom altaneiro e quase ameaador, as palavras: "Meu marido tem passe livre". Ela era uma 
figura imponente de traos insatisfeitos, cuja idade no estava longe da fase da decadncia da beleza feminina; o homem no proferiu uma s palavra, mas permaneceu 
sentado e imvel. Tentei dormir. Em meu sonho, vinguei-me terrivelmente de meus desagradveis companheiros; ningum poderia suspeitar dos insultos e humilhaes 
que se ocultavam por trs dos fragmentos esparsos da primeira metade do sonho. Uma vez satisfeita essa necessidade, um segundo desejo se fez sentir - mudar de compartimento. 
A cena se modifica com tanta freqncia nos sonhos, e sem que a menor objeo seja levantada, que no seria nada surpreendente que eu tivesse prontamente substitudo 
meus companheiros de viagem por outros mais agradveis, extrados de minha memria. Mas ali estava um caso em que algo se ressentiu da mudana de cena e achou necessrio 
explic-la. Como e que, subitamente, fui ter noutro compartimento? No tinha lembrana de ter-me mudado. S podia haver uma explicao: devo ter deixado o vago 
enquanto me achava em estado de sono - um acontecimento raro, mas do qual se encontram exemplos na experincia de um neuropatologista. Sabemos de pessoas que empreenderam 
viagens de trem num estado crepuscular, sem trair sua condio anormal por sinal algum, at que, em algum ponto da jornada, de repente voltaram a si completamente 
e ficaram atnitas diante da lacuna em sua memria. No prprio sonho, por conseguinte, eu me estava declarando um desses casos de "automatisme ambulatoire".
          A anlise tornou possvel encontrar outra soluo. A tentativa de explicao, que pareceu to excepcional quando fui obrigado a atribu-la ao trabalho 
do sonho, no fora uma tentativa original de minha prpria autoria, mas copiada da neurose de um de meus pacientes. J em outro ponto [em [1]] falei sobre um homem 
extremamente culto e, na vida real, de corao bondoso, que, pouco depois da morte dos pais, comeou a censurar-se por ter inclinaes homicidas, e a seguir caiu 
vtima das medidas de cautela que foi obrigado a adotar como salvaguarda. Era um caso de obsesses graves, acompanhadas de completo discernimento. A princpio, andar 
pelas ruas tornou-se um fardo para ele, pela compulso a certificar-se de por onde desaparecera toda e qualquer pessoa com quem tivesse deparado; se algum de repente 
escapava a seu olhar vigilante, ficavam-lhe a sensao aflitiva e a idia de que talvez o tivesse eliminado. O que estava por trs disso era, entre outras coisas, 
uma fantasia de "Caim" - porque "todos os homens so irmos". Devido  impossibilidade de realizar essa tarefa, ele desistiu das caminhadas e passava a vida encarcerado 
entre quatro paredes. Mas as notcias de assassinatos cometidos l fora eram constantemente levadas a seu quarto pelos jornais, e sua conscincia lhe sugeria, sob 
a forma de uma dvida, que talvez ele fosse o assassino procurado. A certeza de realmente no ter abandonado sua casa durante semanas protegeu-o dessas acusaes 
por algum tempo, at que um dia veio-lhe  cabea a possibilidade de que talvez tivesse deixado a casa enquanto se achava em estado inconsciente e, desse modo, podido 
cometer o assassinato sem saber nada arespeito. Dessa ocasio em diante, trancou a porta da frente da casa e entregou a chave  sua velha governanta, com instrues 
estritas para nunca deix-la cair em suas mos, mesmo que ele a pedisse.
          Essa, portanto, foi a origem de minha tentativa de explicao no sentido de ter trocado de vages enquanto me achava em estado inconsciente; fora transposta 
para o sonho, prontinha, do material dos pensamentos onricos, e estava obviamente destinada, no sonho, a servir ao propsito de me identificar com a figura desse 
paciente. Minha lembrana dele fora despertada por uma associao fcil. Minha ltima viagem noturna, algumas semanas antes, fora feita na companhia desse mesmo 
homem. Ele estava curado e viajava comigo para as provncias e para visitar parentes seus, que me haviam mandado chamar. Tnhamos um compartimento para ns; deixamos 
todas as janelas abertas a noite inteira e passamos um tempo muito agradvel enquanto permaneci acordado. Eu sabia que a raiz de sua doena tinham sido os impulsos 
hostis contra seu pai, que datavam da infncia e envolviam uma situao sexual. Assim, na medida em que me identificava com ele, eu estava procurando confessar alguma 
coisa anloga. E, de fato, a segunda cena do sonho terminou numa fantasia um tanto extravagante de que meus dois idosos companheiros de viagem me haviam tratado 
de maneira to insocivel porque minha chegada impedira o intercmbio afetuoso que haviam planejado para aquela noite. Essa fantasia remontava, contudo, a uma cena 
da primeira infncia em que o filho, provavelmente movido pela curiosidade sexual, irrompera no dormitrio dos pais e dele fora expulso pelas ordens do pai.
           desnecessrio, penso eu, acumular outros exemplos. Simplesmente serviriam para confirmar o que depreendemos dos que j citei - que um ato de julgamento 
num sonho  apenas uma repetio de algum prottipo nos pensamentos onricos. Em regra geral, a repetio  mal aplicada e interpolada num contexto inapropriado, 
mas, ocasionalmente, como em nossos ltimos exemplos,  empregada com tal habilidade que, de incio, pode dar a impresso de uma atividade intelectual independente 
no sonho. A partir deste ponto, podemos voltar nossa ateno para a atividade psquica que, embora no parea acompanhar invariavelmente a construo dos sonhos, 
ainda assim, sempre que o faz, empenha-se em fundir os elementos de um sonho que sejam de origem dspar num todo que faa sentido e esteja isento de contradies. 
Antes de abordarmos esse assunto, porm, temos a premente necessidade de considerar as expresses de afeto que ocorrem nos sonhos e compar-las com os afetos que 
a anlise revela nos pensamentos onricos.
          
          (H) OS AFETOS NOS SONHOS
          
          Uma observao aguda de Stricker [1879, 51] despertou nossa ateno para o fato de que a expresso do afeto nos sonhos no pode ser tratada da mesma forma 
depreciativa com que, depois de acordar, estamos acostumados a descartar seu contedo. "Se temo ladres num sonho, os ladres,  certo, so imaginrios - mas o temor 
 real." [Ver em [1].] E isso se aplica igualmente quando me sinto alegre num sonho. Nosso sentimento nos diz que um afeto experimentado num sonho no  de modo 
algum inferior a outro de igual intensidade sentido na vida de viglia; e os sonhos insistem com maior energia em seu direito de serem includos entre nossas experincias 
anmicas reais no tocante a sua parte afetiva do que em relao a seu contedo de representaes. Em nosso estado de viglia, contudo, no podemos de fato inclu-los 
dessa maneira, pois no podemos fazer nenhuma avaliao psquica de um afeto a menos que ele esteja vinculado a algum material de representaes. Quando o afeto 
e a idia so incompatveis em seu carter e intensidade, nosso juzo de viglia fica desorientado.
          Tem sido sempre motivo de surpresa que, nos sonhos, o contedo de representaes no se faa acompanhar pelas conseqncias afetivas que consideraramos 
inevitveis no pensamento de viglia. Strmpell [1877, 27 e segs.] declarou que, nos sonhos, as representaes ficam despidas de seus valores psquicos [ver em [1]]. 
Mas no faltam, nos sonhos, exemplos de natureza contrria, onde uma intensa expresso de afeto aparece ligada a um tema que no parece dar margem a qualquer expresso 
dessa ordem. Num sonho, posso estar numa situao horrvel, perigosa e repulsiva sem sentir nenhum medo ou repulsa, ao passo que noutra ocasio, pelo contrrio, 
posso ficar apavorado ante algo inofensivo e encantado com alguma coisa pueril.
          Esse enigma especfico da vida onrica desaparece, talvez mais repentina e completamente do que qualquer outro, to logo passamos do contedo manifesto 
para o contedo latente do sonho. J no precisamos incomodar-nos com o enigma, visto que ele no mais existe. A anlise nos mostra que o material de representaes 
passou por deslocamentos e substituies, ao passo que os afetos permaneceram inalterados. No  de admirar que o material de representaes que foi modificado pela 
distoro onrica, j no seja compatvel com o afeto, que  retido sem modificao; tampouco resta qualquer coisa que cause surpresa depois que a anlise recoloca 
o material certo em sua posio anterior.
          No caso de um complexo psquico que tenha ficado sob a influncia da censura imposta pela resistncia, os afetos so o componente menos influenciado e 
o nico que nos pode dar um indcio de como preencher os pensamentos que faltam. Isso  observado ainda mais claramente nas psiconeuroses do que nos sonhos. Seus 
afetos so sempre apropriados, ao menos em sua qualidade, embora devamos descontar um aumento de sua intensidade devido a deslocamentos da ateno neurtica. Quando 
um histrico fica surpreso por ter-se assustado com algo banal ou quando um homem que sofre de obsesses fica surpreso ante as auto-recriminaes to aflitivas que 
decorrem de um nada, ambos se equivocam, pois consideram o contedo de representaes - a banalidade ou o nada - como sendo o essencial; e travam uma luta inglria, 
por tomarem esse contedo de representaes como o ponto de partida de sua atividade de pensamento. A psicanlise pode coloc-los na trilha certa ao reconhecer o 
afeto como sendo, pelo contrrio, justificado, e ao procurar a representao que corresponde a ele, mas que foi recalcada e trocada por um substituto. Uma premissa 
necessria a tudo isso  que a descarga de afeto e o contedo de representaes no constituem uma unidade orgnica indissolvel como a que estamos habituados a 
atribuir-lhes, mas que essas duas entidades separadas podem estar meramente soldadas e, desse modo, podem ser desligadas uma da outra pela anlise. A interpretao 
dos sonhos mostra que  esse efetivamente o caso.
          
          Comearei por apresentar um exemplo em que a anlise explicou a aparente ausncia de afeto num caso em que o contedo de representaes teria exigido sua 
liberao.
          
          I
          
          Ela viu trs lees num deserto, um dos quais estava rindo; mas no sentiu medo deles. Depois, contudo, deve ter fugido deles, porque estava tentando subir 
numa rvore; mas descobriu que sua prima, que era professora de francs, j estava l em cima, etc.
          A anlise trouxe  tona o seguinte material. A causa precipitante indiferente do sonho foi uma frase de sua composio de ingls: "A juba  o adorno do 
leo". Seu pai usava uma barba que lhe emoldurava o rosto como uma juba. Sua professora de ingls chamava-se Srta. Lyons. Um conhecido lhe enviara as baladas de 
Loewe [a palavra alem para "leo"]. Esses, portanto, eram os trs lees; por que deveria ela tem-los? Ela lera uma histria em que um negro, que havia incitado 
seus companheiros  revolta, era caado com ces e subia numa rvore para se salvar. A sonhadora passou ento, com extremo bom humor, a apresentar diversas lembranas 
fragmentadas, tais como o conselho de como apanhar lees extrado do Fliegend Bltter: "Pegue um deserto e passe-o por uma peneira, e o que sobrar sero os lees.'' 
E tambm a anedota muito divertida, mas no muito conveniente, do oficial a quem perguntaram por que no se esforava mais por cair nas boas graas do chefe de seu 
departamento, e que respondeu que tentara insinuar-se, mas seu superior j estava em cima. Todo o material tornou-se inteligvel quando se descobriu que a dama recebera, 
no dia do sonho, a visita do superior de seu marido. Ele fora muito corts com ela e lhe beijara a mo, e ela no sentira o mnimo receio dele, embora fosse um "grande 
figuro" [em alemo, "grosses Tier" = "grande animal"] e desempenhasse o papel de um "leo da sociedade" na capital do pas de onde ela provinha. Assim, esse leo 
era como o de Sonho de uma Noite de Vero, que ocultava a figura de Snug, o marceneiro; e o mesmo se aplica a todos os lees do sonho, que no so temidos pela sonhadora.
          
          II
          
          Como meu segundo exemplo, posso citar o sonho da jovem que viu o filhinho de sua irm morto num caixo [em [1] e [2]], mas que,posso agora acrescentar, 
no sentiu dor nem pesar. Sabemos pela anlise por que isso se deu. O sonho simplesmente disfarava o desejo dela de rever o homem por quem estava apaixonada, e 
seu afeto tinha de estar de acordo com o desejo, e no com seu disfarce. Dessa maneira, no havia razo para o pesar.
          Em alguns sonhos, o afeto pelo menos permanece em contato com o material de representaes que substituiu aquele a que o afeto se ligava originalmente. 
Noutros, a dissoluo do complexo foi mais longe. O afeto surge totalmente desligado da idia a que corresponde e  introduzido nalgum outro ponto do sonho, onde 
se ajusta  nova disposio dos elementos onricos. A situao  ento similar  que encontramos no caso dos atos de julgamento nos sonhos [em [1]] Quando se extrai 
uma concluso importante nos pensamentos onricos, tambm o sonho contm uma; mas a concluso no sonho pode ser deslocada para um material inteiramente diferente. 
No raro, esse deslocamento segue o princpio da anttese.
          Esta ltima possibilidade  exemplificada no sonho seguinte, que submeti a uma anlise extremamente exaustiva.
          
          III
          
          Um castelo  beira-mar; depois, j no ficava imediatamente junto ao mar, mas num estreito canal que conduzia ao mar. O Governador era um Sr. P. Eu estava 
parado com ele num grande salo de recepo - com trs janelas em frente s quais se erguiam cercas de rosas com a aparncia de ameias numa fortaleza. Eu estava 
ligado  guarnio como uma espcie de oficial de marinha voluntrio. Temamos a chegada de vasos de guerra inimigos, pois estvamos em guerra. O Sr. P. tencionava 
partir e me deu instrues sobre o que deveria ser feito se acontecesse o que temamos. Sua mulher invlida estava com os filhos no castelo ameaado. Caso o bombardeio 
comeasse, o grande salo deveria ser evacuado. Ele respirou com dificuldade e se virou para sair; eu o detive e lhe perguntei como iria comunicar-me com ele em 
caso de necessidade. Ele acrescentou algo em resposta, mas, imediatamente, caiu morto. Sem dvida eu lhe impusera um esforo desnecessrio com minhas perguntas. 
Aps sua morte, que no me causou maior impresso, fiquei pensando se sua viva continuaria no castelo, se eu deveria comunicar a morte dele ao Alto Comando e se 
deveria assumir o comando do castelo, como o seguinte na ordem hierrquica. Estava parado  janela, observando osnavios que passavam. Eram navios mercantes que cruzavam 
rapidamente as guas escuras, alguns deles com diversas chamins e outros com conveses abaulados (exatamente como os prdios da estao no sonho introdutrio - no 
relatado aqui). Ento, meu irmo estava de p a meu lado e ambos olhvamos da janela para o canal.  viso de um navio, ficamos assustados e exclamamos: "A vem 
o navio de guerra!" Mas constatou-se que eram apenas os mesmos navios que eu j conhecia, retornando. Surgiu ento um navio pequeno, cortado ao meio de maneira cmica. 
Em seu convs, viam-se alguns objetos curiosos em forma de xcara ou de caixa. Exclamamos a uma s voz: " o navio do desjejum!"
          Os movimentos rpidos dos navios, o azul profundo e escuro da gua e a fumaa castanha das chamins - tudo se combinava para criar uma impresso tensa 
e sinistra.
          Os locais do sonho resultaram de uma juno de diversas viagens minhas ao Adritico (a Miramare, Duino, Veneza e Aquilia). Uma curta mas agradvel viagem 
de Pscoa que eu fizera a Aquilia com meu irmo, algumas semanas antes do sonho, ainda estava viva em minha memria. O sonho tambm continha aluses  guerra naval 
entre os Estados Unidos e a Espanha e s inquietaes a que ela dera margem quanto ao destino de meus parentes na Amrica. Em dois pontos do sonho, havia afetos 
em questo. Em determinado ponto, um afeto que seria previsvel estava ausente: chamara-se expressamente a ateno para o fato de que a morte do Governador no me 
causara nenhuma impresso. Noutro ponto, quando pensei ver o vaso de guerra, fiquei assustado e senti todas as sensaes de medo enquanto dormia. Neste sonho bem 
construdo, os afetos foram distribudos de tal maneira que se evitou qualquer contradio marcante. No havia razo para que eu ficasse assustado com a morte do 
Governador e era bastante razovel que, como Comandante do Castelo, sentisse medo  vista da belonave. A anlise mostrou, porm, que o Sr. P. era apenas um substituto 
para mim mesmo. (No sonho, eu era o substituto dele.) Era eu o Governador que morria subitamente. Os pensamentos onricos versavam sobre o futuro de minha famlia 
aps minha morte prematura. Era este o nico pensamento aflitivo entre os pensamentos onricos, e deve ter sido dele que o medo foi desligado e vinculado, no sonho, 
 viso do navio de guerra.Por outro lado, a anlise revelou que a regio dos pensamentos onricos de onde foi retirado o vaso de guerra estava repleta das mais 
alegres recordaes. Fora um ano antes, em Veneza, e num dia magicamente belo, estvamos  janela de nosso quarto em frente a Riva degli Schiavoni, olhando para 
a lagoa azul onde, naquele dia, havia mais movimento do que de hbito. Esperava-se por navios ingleses que teriam uma cerimnia de recepo. De repente, minha mulher 
gritou, alegre como uma criana: "A vem o navio de guerra ingls!" No sonho, fiquei assustado com essas mesmas palavras. (Vemos mais uma vez que os ditos no sonho 
decorrem de ditos na vida real [Ver em [1]]; mostrarei em breve que o elemento "ingls" na exclamao de minha mulher tampouco escapou ao trabalho do sonho.) Aqui, 
portanto, no processo de transformar os pensamentos onricos no contedo manifesto do sonho, transformei a alegria em medo, e basta-me apenas sugerir que essa transformao, 
ela prpria, estava dando expresso a uma parte do contedo onrico latente. Este exemplo prova, contudo, que o trabalho do sonho  livre para desligar um afeto 
de suas conexes nos pensamentos onricos e introduzi-lo em qualquer ponto que escolher no sonho manifesto.
          Aproveito esta oportunidade para fazer uma anlise algo detalhada do "navio do desjejum", cujo aparecimento no sonho deu uma concluso to absurda a uma 
situao que, at ali, mantivera-se num nvel racional. Quando, posteriormente, reparei com mais exatido nesse objeto onrico, ocorreu-me que ele era preto e que, 
devido ao fato de estar cortado em sua parte mais larga, no meio, tinha grande semelhana, nessa extremidade, com uma classe de objetos que haviam despertado nosso 
interesse nos museus das cidades etruscas. Tratava-se de bandejas retangulares de cermica preta, com duas alas, sobre as quais havia coisas parecidas com xcaras 
de ch ou caf, que no diferiam muito de um de nossos modernos aparelhos de caf. Em resposta a nossas indagaes, soubemos que aquilo era o "toilette" (conjunto 
de toalete) de uma dama etrusca, com recipientes para cosmticos e p-de-arroz, e havamos comentado, por brincadeira, que seria uma boa idia levar um deles conosco 
para a dona da casa. O objeto do sonho, por conseguinte, significava uma "toilette" preta, isto , um traje de luto, e fazia referncia direta a uma morte. A outra 
extremidade do objeto onrico fez-me lembrar dos barcos fnebres em que, nos tempos primitivos, os cadveres eramcolocados e entregues ao mar como sepultura. Isso 
levou ao ponto que explicava por que os barcos retornavam no sonho:
          
          Still, auf gerettetem Boot, treibt in den Hafen der Greis.
          
          Era o retorno aps um naufrgio ["Schiffbruch", literalmente, "quebra do navio"] - o navio do desjejum estava quebrado ao meio. Mas qual seria a origem 
do nome do navio "do desjejum"? Era aqui que entrava a palavra ''ingls'', que sobrara dos navios de guerra. A palavra inglesa ''breakfast''. [''desjejum''] significa 
''quebra do jejum''. A "quebra" relacionava-se, mais uma vez, com o naufrgio ["quebra do navio"], e o jejum estava ligado ao traje ou toilette preto.
          Mas apenas o nome navio do desjejum  que foi uma nova construo do sonho. A coisa existia e me fizera lembrar de uma das mais agradveis partes de minha 
ltima viagem. Desconfiando da comida que seria oferecida em Aquilia, tnhamos levado provises conosco de Gorizia e comprado uma garrafa de excelente vinho strio 
em Aquilia. E, enquanto o pequeno vapor singrava lentamente pelo "Canale delle Mee", atravessando a lagoa deserta at Grado, ns, que ramos os nicos passageiros, 
comemos nosso desjejum no convs em excelente estado de esprito, e raramente houve um que nos soubesse melhor. Esse, portanto, era o "navio do desjejum", e foi 
precisamente por trs dessa lembrana da mais festiva joie de vivre que o sonho ocultou os mais sombrios pensamentos sobre um futuro desconhecido e sinistro. [1]
          O desligamento entre os fatos e o material de representaes que os gerou  a coisa mais notvel que lhes ocorre durante a formao dos sonhos; mas no 
 a nica nem a mais essencial alterao por eles sofrida no percurso dos pensamentos onricos para o sonho manifesto. Se compararmos os afetos dos pensamentos onricos 
com os do sonho, uma coisa logo ficar clara. Sempre que h um afeto no sonho, ele tambm  encontrado nos pensamentos onricos. Mas o inverso no  verdadeiro. 
O sonho , em geral, mais pobre de afetos que o material psquico de cuja manipulao ele proveio. Quando reconstruo os pensamentos onricos, habitualmente encontro 
neles os maisintensos impulsos psquicos esforando-se por se fazerem sentir e lutando, em geral, contra outros que lhes so nitidamente opostos. Quando, em seguida, 
torno a me voltar para o sonho, no  raro ele parecer descolorido e sem qualquer tom afetivo mais intenso. O trabalho do sonho reduziu ao nvel do indiferente no 
apenas o contedo, mas, amide, tambm o tom afetivo de meus pensamentos. Poder-se-ia dizer que o trabalho do sonho acarreta uma supresso dos afetos. Tomemos, por 
exemplo, o sonho da monografia de botnica [em [1]]. Os pensamentos a ele correspondentes consistiam num apelo apaixonadamente agitado em prol de minha liberdade 
de agir como escolhesse e de dirigir minha vida como a mim, e apenas a mim, parecesse certo. O sonho deles surgido tem um toque de indiferena: "Eu escrevera uma 
monografia; ela estava diante de mim; continha pranchas coloridas; plantas secas acompanhavam cada exemplar". Isso faz lembrar a paz que desce sobre um campo de 
batalha recoberto de cadveres; no resta nenhum trao da luta que nele se travou.
          As coisas podem ser diferentes; vvidas manifestaes de afeto podem introduzir-se no prprio sonho. Por ora, no entanto, vou deter-me no fato incontestvel 
de que um grande nmero de sonhos parece ser indiferente, ao passo que nunca  possvel penetrar nos pensamentos onricos sem ficar profundamente emocionado.
          No se pode fornecer aqui nenhuma explicao terica completa dessa supresso do afeto no decorrer do trabalho do sonho. Ela precisaria ser precedida de 
uma investigao extremamente minuciosa da teoria dos afetos e do mecanismo do recalcamento. [Ver em [1]]. Permitir-me-ei apenas uma referncia a dois pontos. Sou 
compelido - por outras razes - a retratar a liberao dos afetos como um processo centrfugo dirigido para o interior do corpo e anlogo aos processos de inervao 
motora e secretria. Ora, assim como, no estado de sono, o envio de impulsos motores em direo ao mundo externo parece ficar suspenso, tambm  possvel que a convocao 
centrfuga de afetos pelo pensamento inconsciente se torne mais difcil durante o sono. Nesse caso, os impulsos afetivos sobrevindos no decurso dos pensamentos onricos 
seriam, por sua prpria natureza, impulsos fracos, e conseqentemente, os que penetrassem no sonho seriam no menos fracos.Segundo este ponto de vista, portanto, 
a "supresso do afeto" no seria, de maneira alguma, conseqncia do trabalho do sonho, mas resultaria do estado de sono. Isso pode ser verdade, mas no a verdade 
inteira. Precisamos tambm ter em mente que qualquer sonho relativamente complexo mostra ser uma soluo de compromisso produzida por um conflito entre foras psquicas. 
Por um lado, os pensamentos que formam o desejo so obrigados a lutar contra a oposio de uma instncia censora e, por outro, vimos com freqncia que, no prprio 
pensamento inconsciente, toda cadeia de idias est atrelada a seu oposto contraditrio. Uma vez que todas essas cadeias de idias so passveis de afeto, dificilmente 
estaremos errados, no todo, se encararmos a supresso do afeto como uma conseqncia da inibio que esses contrrios exercem uns sobre os outros e que a censura 
exerce sobre as pulses por ela suprimidas. A inibio do afeto, por conseguinte, deve ser considerada como a segunda conseqncia da censura dos sonhos, tal como 
a distoro onrica  sua primeira conseqncia.
          Darei aqui como exemplo um sonho em que o colorido afetivo indiferente do contedo pode ser explicado pela anttese entre os pensamentos onricos. Trata-se 
de um sonho curto, que encher de repulsa todos os leitores.
          
          IV
          
          Uma colina, sobre a qual havia algo como uma privada ao ar livre: um assento muito comprido com um grande buraco em sua extremidade. A borda traseira estava 
densamente coberta de pequenos montes de fezes de todos os tamanhos e graus de frescura. Havia arbustos por trs do assento. Urinei no assento; um longo filete de 
urina lavou e limpou tudo; os montes de fezes desprenderam-se facilmente e caram na abertura. Era como se, no final, ainda restassem alguns.
          Por que no senti repugnncia durante esse sonho?
          Porque, como a anlise mostrou, os mais prazerosos e gratificantes pensamentos contriburam para promov-lo. O que me ocorreu de imediato na anlise foram 
as estrebarias de Augias, limpas por Hrcules. Esse Hrcules era eu. A colina e os arbustos vinham de Aussee, onde estavam meus filhos na ocasio. Eu havia descoberto 
a etiologia infantil das neuroses e, assim, salvara meus prprios filhos da doena. O assento (exceto, naturalmente, pelo buraco) era uma cpia exata de um mvel 
que fora presenteado por uma paciente agradecida. Desse modo, lembrava-me do quanto meus pacientes me respeitavam. De fato, at mesmo o museu de excremento humano 
podiareceber uma interpretao capaz de encher-me o corao de jbilo. Por mais que me pudesse repugnar na realidade, ele era, no sonho, uma reminiscncia das belas 
terras da Itlia, onde, como todos sabemos, os banheiros das cidades pequenas so equipados exatamente dessa maneira. O jorro de urina que limpou tudo era um sinal 
inequvoco de grandeza. Era assim que Gulliver havia extinguido o grande incndio de Lilliput - embora, incidentalmente, isso lhe tivesse granjeado o desfavor da 
minscula rainha. Mas tambm Gargantua, o super-homem de Rabelais, vingara-se dos parisienses do mesmo modo, sentando-se escarranchado sobre a Notre Dame e dirigindo 
seu jato de urina para a cidade. Ainda na noite anterior, antes de dormir, eu estivera folheando as ilustraes de Garnier para Rabelais. E, estranhamente, ali estava 
outra prova de que era eu o super-homem. A plataforma de Notre Dame era meu recanto favorito em Paris; todas as tardes livres, eu costumava subir as torres da igreja 
e por l ficar, entre os monstros e os demnios. O fato de todas as fezes desaparecerem to depressa sob o jato fez-me lembrar o lema "Afflavit et dissipati sunt", 
que um dia tencionei colocar como epgrafe de um captulo sobre a terapia da histeria.
          E agora, vamos  verdadeira causa excitante do sonho. Fora uma tarde quente de vero e,  noite, eu havia proferido minha palestra sobre a ligao entre 
a histeria e as perverses, e tudo o que tivera a dizer desagradara-me intensamente e me parecera completamente desprovido de qualquer valor. Estava cansado e no 
sentia nenhum vestgio de prazer em meu difcil trabalho; ansiava por estar longe de toda aquela escavao da sujeira humana, para poder reunir-me a meus filhos 
e depois visitar as belezas da Itlia. Nesse estado de esprito, fui da sala de conferncias para um caf, onde fiz um modesto lanche ao ar livre, uma vez que no 
tinha apetite. Um de meus ouvintes, entretanto, foi comigo e me pediu licena para sentar-se a meu lado enquanto eu tomava meu caf e me engasgava com um bolinho. 
Comeou a lisonjear-me, dizendo o quanto havia aprendido comigo, como agora via tudo com novos olhos e como eu havia limpado as estrebarias augacas dos erros e 
preconceitos em minha teoria das neuroses. Disse-me, em resumo, que eu era realmente um grande homem. Meu estado de nimo no combinava com esse cntico de louvor; 
lutei contra meu sentimento de repugnncia, fui para casa cedo para fugir dele e, antes de me deitar, folheei as pginas de Rabelais e li um dos contos de Conrad 
Ferdinand Meyer, "Die Leiden eines Knaben" ("Os Infortnios de um Menino").
          Foi esse o material de que emergiu o sonho. O conto de Meyer trouxe, alm disso, uma rememorao de cenas de minha infncia. (Cf. o ltimo episdio do 
sonho sobre o Conde Thun [ ver em [1]]). O humor diurno de irritao e asco persistiu no sonho, na medida em que foi capaz de suprir quase todo o material de seu 
contedo manifesto. Durante a noite, entretanto, emergiu um estado de esprito contrrio, de poderosa e at exagerada auto-afirmao, que deslocou o anterior. O 
contedo do sonho tinha de descobrir uma forma que lhe permitisse expressar no mesmo material tanto os delrios de inferioridade quanto a megalomania. O compromisso 
entre eles produziu um contedo onrico ambguo, mas tambm, resultou num colorido afetivo indiferente, devido  inibio mtua desses impulsos contrrios.
          De acordo com a teoria da realizao de desejo, esse sonho no se teria tornado possvel se a cadeia antittica de idias megalomanacas (que,  verdade, 
fora suprimida, mas tinha um colorido prazeroso) no houvesse surgido alm da sensao de nojo. Porque o que  aflitivo no pode ser representado num sonho; nada 
que seja aflitivo em nossos pensamentos onricos consegue penetrar  fora num sonho, a menos que, ao mesmo tempo, empreste um disfarce  realizao de um desejo 
[Ver em [1]].
          Existe ainda outra maneira alternativa pela qual o trabalho do sonho pode lidar com os afetos nos pensamentos onricos, alm de permitir-lhes passagem 
ou reduzi-los a nada. Ele pode transform-los em seu oposto. J travamos conhecimento com a regra interpretativa segundo a qual todo elemento de um sonho, para fins 
de interpretao, pode representar seu oposto com tanta facilidade quanto a si prprio. [Ver em [1].] Nunca podemos dizer de antemo se representa um ou outro; somente 
o contexto pode decidir. Uma suspeita dessa verdade evidentemente penetrou na conscincia popular: os "livros de sonhos", com grande freqncia, adotam o princpio 
dos contrrios em sua interpretao dos sonhos. Essa transformao de uma coisa em seu oposto  possibilitada pela ntima cadeia associativa que vincula a representao 
de uma coisa* a seu oposto em nossos pensamentos. Como qualquer outro tipo de deslocamento, ela pode atender aos propsitos da censura, mas  tambm, com freqncia, 
um produto da realizao de desejo, pois esta no consiste em nada alm da substituio de uma coisadesagradvel por seu oposto. Tal como as representaes de coisa 
podem aparecer nos sonhos transformadas em seu oposto, o mesmo pode acontecer com os afetos ligados aos pensamentos onricos; e parece provvel que essa inverso 
do afeto seja ocasionada, em regra geral, pela censura onrica. Na vida social que nos proporcionou nossa analogia familiar com a censura onrica, tambm fazemos 
uso da supresso e da inverso do afeto, principalmente para fins de dissimulao. Se estou falando com algum a quem sou obrigado a tratar com considerao, embora 
querendo dizer-lhe algo hostil,  quase mais importante que eu oculte dele qualquer expresso de meu afeto do que abrande a forma verbal de meus pensamentos. Se 
me dirigisse a ele com palavras que no fossem impolidas, mas as fizesse acompanhar por um olhar ou gesto de dio e desprezo, o efeito que eu produziria nele no 
seria muito diferente do que se lhe lanasse em rosto meu desprezo, abertamente. Por conseguinte, a censura me ordena, acima de tudo, a suprimir meus afetos; e, 
se eu for um mestre da dissimulao, fingirei o afeto oposto - sorrirei quando estiver zangado e parecerei afetuoso quando desejar destruir.
          J nos deparamos com um excelente exemplo desse tipo de inverso de afeto, efetuada num sonho a servio da censura onrica. No sonho com "meu tio da barba 
amarela" [em [1]], senti extrema afeio por meu amigo R., enquanto e porque os pensamentos onricos o chamavam de simplrio. Foi desse exemplo de inverso do afeto 
que derivamos nossa primeira pista da existncia de uma censura do sonho. Tampouco  necessrio presumir, nesses casos, que o trabalho do sonho crie tais afetos 
contrrios a partir do nada; em geral, ele j os encontra  mo no material dos pensamentos onricos e simplesmente os intensifica com a fora psquica originria 
dos motivos de defesa, at que eles possam predominar para fins de formao do sonho. No sonho com meu tio que acabei de mencionar, o carinhoso afeto antittico 
provavelmente surgiu de uma fonte infantil (como foi sugerido pela ltima parte do sonho), porque a relao tio-sobrinho, devido  natureza peculiar das mais remotas 
experincias de minha infncia (cf. anlise em [1] [e adiante, em [1]]), tornara-se a fonte de todas as minhas amizades e todos os meus dios.
          Um excelente exemplo desse tipo de inverso do afeto [1]  encontrado num sonho registrado por Ferenczi (1916): "Um cavalheiro idoso foi acordado certa 
noite por sua mulher, que ficara alarmada porque ele estava gargalhando muito alto e desenfreadamente em seu sono. Mais tarde, ohomem relatou ter tido o seguinte 
sonho: Estava deitado na cama e um cavalheiro que me era conhecido entrou no quarto; tentei acender a luz mas no pude faz-lo: tentei de novo, repetidas vezes, 
mas em vo. A, minha mulher saiu da cama para me ajudar, mas tambm no conseguiu. No entanto, como se sentisse embaraada diante do cavalheiro por estar 'en neglig' 
acabou desistindo e voltou para a cama. Tudo isso foi to engraado que no pude deixar de rir s gargalhadas. Minha mulher perguntou: "Por que voc est rindo? 
Por que est rindo?", mas apenas continuei rindo at acordar. - No dia seguinte, o cavalheiro estava muito deprimido e com dor de cabea; todo aquele riso o havia 
perturbado, pensou.
          "O sonho parece menos divertido quando  considerado analiticamente. O 'cavalheiro que lhe era conhecido' e que entrara no quarto era, nos pensamentos 
onricos latentes, a representao da Morte como o 'grande Desconhecido' - uma imagem que lhe viera  mente durante o dia anterior. O idoso cavalheiro, que sofria 
de arteriosclerose, tivera boas razes, na vspera, para pensar em morrer. A gargalhada desenfreada tomou o lugar dos soluos e lgrimas ante a idia de que deveria 
morrer. Era a luz da vida que ele j no conseguia acender. Esse pensamento sombrio poderia ter estado vinculado a tentativas de cpula que ele fizera pouco antes, 
mas que haviam falhado apesar da ajuda de sua mulher en neglig. Ele se apercebeu de que j estava descendo a serra. O trabalho do sonho conseguiu transformar a 
idia sombria da impotncia e da morte numa cena cmica, e seus soluos, em gargalhadas."
          H uma classe de sonhos que tem um direito especial a ser descrita como "sonhos hipcritas", e que submete a uma dura prova a teoria da realizao de desejo. 
[1] Minha ateno foi despertada por eles quando a Dra. M. Hilferding apresentou o seguinte relato de um sonho de Peter Rosegger para debate na Sociedade Psicanaltica 
de Viena.
          Escreve Rosegger em sua histria "Fremd gemacht!": "Em geral, costumo dormir bem, mas foram muitas as noites em que perdi meu repouso -  que, juntamente 
com minha modesta carreira de estudioso e homem deletras, por muitos anos arrastei comigo, como um fantasma do qual no podia libertar-me, a sombra de uma vida de 
alfaiate.
          "No  que durante o dia eu refletisse com muita freqncia ou intensidade sobre meu passado. Quem j se despira da pele de um filisteu e estava procurando 
conquistar a Terra e o Cu tinha outras coisas a fazer. E nem tampouco, quando jovem e impetuoso, eu dera a menor ateno a meus sonhos noturnos. S mais tarde, 
quando me veio o hbito de refletir sobre tudo, ou quando o filisteu em mim comeou a despertar um tantinho, foi que me perguntei por que era que, toda vez que sonhava, 
eu era sempre um aprendiz de alfaiate e assim passava tanto tempo com meu mestre e trabalhava de graa em sua oficina. Sabia perfeitamente, enquanto me sentava assim 
a seu lado, costurando e passando a ferro, que meu lugar certo j no era ali e que, como cidado, eu tinha outras coisas com que me ocupar. Mas estava sempre em 
frias, sempre em frias de vero, e era assim que ficava sentado ao lado de meu mestre, como seu auxiliar. Isso muitas vezes me aborrecia, e eu ficava triste com 
a perda de tempo em que bem poderia ter encontrado coisas melhores e mais teis para fazer. Vez por outra, quando algo saa errado, tinha de suportar uma repreenso 
de meu mestre, embora nunca se falasse em salrio. Muitas vezes, sentado ali, com as costas vergadas na oficina escura, pensei em dar-lhe aviso-prvio e me demitir. 
Um dia, cheguei at a faz-lo, mas meu mestre no prestou a menor ateno, e cedo l estava sentado de novo a seu lado, cosendo.
          "Depois dessas jornadas tediosas, que alegria era acordar! E eu me determinara ento que, se esse sonho persistente voltasse a surgir, eu o afastaria de 
mim energicamente e exclamaria: 'Isso no passa de conversa fiada, estou deitado na cama e quero dormir...' Mas, na noite seguinte, l estava eu de novo sentado 
na oficina do alfaiate.
          "E assim continuou por anos, com sinistra regularidade. Ora, um dia aconteceu estarmos trabalhando, meu mestre e eu, na casa de Alpelhofer (o campons 
em cuja casa eu trabalhara quando me iniciei como aprendiz) e meu mestre se mostrou particularmente insatisfeito com meu trabalho: 'Gostaria de saber onde  que 
voc est com a cabea', disse-me, e me lanou um olhar sombrio. A coisa mais sensata a fazer, pensei, seria levantar-me e dizer que s estava com ele para agrad-lo, 
e depois sair. Mas no o fiz. No formulei nenhuma objeo quando meu mestre tomou um aprendiz e me ordenou que lhe desse espao no banco. Mudei-me para o canto 
e continuei a coser. No mesmo dia, outro diarista foi tambm contratado, um hipcrita choramingo - era natural da Bomia - que havia trabalhado em nossa alfaiataria 
dezenove anos antes e que um dia cara no riacho, ao voltar daestalagem. Quando procurei um assento, no havia mais lugar. Voltei-me para meu mestre interrogativamente 
e ele me disse 'Voc no tem dotes de alfaiate, pode ir! Est despedido!' Diante disso, meu susto foi to esmagador que acordei.
          "A luz cinzenta da manh entrava em plidos clares pelas janelas sem cortinas de minha casa, to conhecida. As obras de arte me rodeavam; ali, em minha 
bela estante, estavam o eterno Homero, o gigantesco Dante, o incomparvel Shakespeare, o glorioso Goethe - todos os magnficos imortais. Do quarto ao lado vinham 
as vozes claras e juvenis das crianas que acordavam, brincando com sua me. Senti-me como se tivesse reencontrado aquela vida espiritual idilicamente doce, pacfica 
e potica em que tantas vezes e de maneira to profunda eu experimentara uma meditativa felicidade humana. Contudo, irritava-me que no me tivesse antecipado a meu 
mestre para dar-lhe o aviso-prvio, mas tivesse sido despedido por ele.
          "E quo atnito fiquei! Desde a noite em que meu mestre me despediu, gozei paz; no sonhei mais com os tempos de alfaiate que estavam to distantes em 
meu passado - aqueles tempos que tinham sido to alegres em sua despretenso, mas haviam projetado uma sombra to extensa sobre meus anos posteriores."
          Nessa srie de sonhos de um escritor que fora aprendiz de alfaiate em sua mocidade,  difcil reconhecer o domnio da realizao de desejo. Todo o prazer 
do sonhador estava em sua existncia diurna, ao passo que, em seus sonhos, era ainda perseguido pela sombra de uma vida infeliz da qual enfim escapara. Alguns sonhos 
meus de natureza semelhante permitiram-me lanar um pouco de luz sobre o assunto. Quando mdico recm-formado, trabalhei por muito tempo no Instituto de Qumica 
sem nunca me tornar competente nas habilidades que essa cincia exige; e por essa razo, em minha vida de viglia, jamais gostei de pensar nesse episdio estril 
e realmente humilhante de minha aprendizagem. Por outro lado, tenho um sonho regularmente recorrente de trabalhar no laboratrio, fazer anlises e ter diversas experincias 
ali. Esses sonhos so to desagradveis quanto os sonhos com exames e nunca so muito ntidos. Enquanto interpretava um deles, minha ateno acabou sendo atrada 
pela palavra "anlise'', que me forneceu uma chave para sua compreenso. Desde aqueles tempos, tornei-me um "analista", e hoje efetuo anlises altamente elogiadas, 
embora seja verdade que se trata de "psico-anlises". Agora ficou claro para mim: se passei a sentir orgulho de fazer esse tipo de anlises em minha vida diurna 
e me sinto inclinado a vangloriar-me de ter alcanado tanto sucesso, meus sonhos relembram-me durante a noite aquelas outras anlisesmalsucedidas de que no tenho 
razo alguma para me orgulhar. So os sonhos de punio de um parvenu, como os sonhos do aprendiz de alfaiate que se transformara num famoso escritor. Mas como  
possvel que um sonho, no conflito entre o orgulho de um parvenu e sua autocrtica, tome o partido desta e escolha como seu contedo uma advertncia sensata, em 
vez de uma realizao de desejo proibida? Como j disse, a resposta a essa pergunta levanta dificuldades. Podemos concluir que a base do sonho formou-se, em primeiro 
lugar, de uma fantasia exageradamente ambiciosa, mas que os pensamentos humilhantes que jogaram gua fria na fantasia penetraram no sonho em vez dela. Convm lembrar 
que existem na mente impulsos masoquistas que podem ser responsveis por uma inverso como essa. Eu no faria objeo a que essa classe de sonhos fosse distinguida 
dos "sonhos de realizao de desejo" sob o nome de "sonhos de punio". No encararia isso como algo que implicasse qualquer restrio da teoria dos sonhos que propus 
at aqui; isso no passaria de um expediente lingstico para atender s dificuldades daqueles que acham estranho que os opostos possam convergir. Mas um exame mais 
atento de alguns desses sonhos traz algo mais  luz. Numa parte indistinta do pano de fundo de um de meus sonhos com o laboratrio, eu tinha uma idade que me situava 
precisamente no ano mais sombrio e mais infrutfero de minha carreira mdica. Eu ainda estava sem emprego e no tinha idia de como poderia ganhar a vida: ao mesmo 
tempo, todavia, descobri repentinamente que tinha diante de mim uma opo entre diversas mulheres com quem poderia casar-me! Portanto, eu era jovem outra vez e, 
acima de tudo, ela era jovem outra vez - a mulher que partilhou comigo todos esses anos difceis. O instigador inconsciente do sonho revelou-se, desse modo, como 
sendo um dos desejos que corroem constantemente o homem que est envelhecendo. O conflito que se travava em outros nveis da psique entre a vaidade e a autocrtica 
determinara,  verdade, o contedo do sonho, mas s o desejo mais profundamente enraizado de ser jovem  que possibilitou a esse conflito aparecer como um sonho. 
Mesmo quando acordados, s vezes dizemos a ns mesmos: "As coisas vo muito bem agora e a situao era difcil nos velhos tempos; mesmo assim era uma beleza - eu 
era ainda jovem".
          Outro grupo de sonhos, [1] que muitas vezes encontrei em mim mesmo e reconheci como hipcritas, tem como contedo uma reconciliao com pessoas com quem 
as relaes de amizade cessaram h muito tempo. Nesses casos, a anlise habitualmente revela alguma situao que poderia instar-se a abandonar os ltimos remanescentes 
de considerao por esses ex-amigos e trat-los como estranhos ou inimigos. O sonho, porm, prefere retratar a relao oposta. [Ver em [1].]
          Ao formarmos qualquer juzo sobre os sonhos relatados pelos escritores,  razovel supormos que eles tenham omitido do relato pormenores do contedo do 
sonho que considerassem dispensveis ou perturbadores. Seus sonhos, nesse caso, levantaro problemas que seriam rapidamente resolvidos se seu contedo fosse comunicado 
na ntegra.
          Otto Rank me fez notar que o conto de fadas de Grimm sobre "O Pequeno Alfaiate, ou Sete de um s Golpe" contm um sonho muito semelhante de um parvenu. 
O alfaiate, que se tornara heri e genro do Rei, sonha uma noite com seu antigo ofcio, deitado ao lado da esposa, a Princesa. Ela, ficando desconfiada, pe guardas 
armados na noite seguinte para escutar as palavras do sonhador e prend-lo. Mas o alfaiatezinho  advertido e providencia para que seu sonho seja corrigido.
          O complicado processo de eliminao, diminuio e inverso por meio do qual os afetos dos pensamentos onricos acabam por transformar-se nos dos sonhos 
pode ser satisfatoriamente compreendido em snteses apropriadas de sonhos que tenham sido completamente analisados. Citarei mais alguns exemplos de afetos nos sonhos, 
que mostram realizadas algumas das possibilidades que enumerei.
          
          V
          
          Se retornarmos ao sonho sobre a estranha tarefa de que me encarregou o velho Brcke, de fazer uma dissecao de minha prpria plvis [em [1] ser lembrado 
que, no prprio sonho, faltou-me o sentimento de horror ["Grauen"] que lhe seria apropriado. Ora, isso foi uma realizao de desejo em mais de um sentido. A dissecao 
significava a auto-anlise que eu estava realizando, por assim dizer, com a publicao deste livro sobre os sonhos - um processo que me fora to penoso na realidade 
que adiei por mais de um ano a impresso do manuscrito j concludo. Surgiu ento um desejo de que eu pudesse vencer esse sentimento de averso; da eu no ter tido 
nenhum sentimento de horror ["Grauen"] no sonho. Mas tambm me agradaria muito no ter de ficar grisalho. "Grauen", no outro sentido do termo. Eu j estava ficando 
bastante grisalho, e os fios cor de gris em meus cabelos eram outro lembrete de que no deveria demorar-me mais. E, como vimos, a idia de que teria de deixar a 
cargo de meus filhos a consecuo do objetivo de minha difcil jornada imps sua representao no final do sonho.
          Consideremos agora os dois sonhos em que uma expresso de satisfao foi transposta para o momento seguinte ao despertar. No primeiro caso, a razo fornecida 
para a satisfao era a expectativa de que eu agora descobriria o que significava "J sonhei com isso antes", ao passo que a satisfao realmente se referia ao nascimento 
de meus primeiros filhos [ver  [1]]. No outro caso, a razo aparente era minha convico de que algo que fora "prognosticado" estava agora se tornando realidade, 
quando a referncia real era semelhante  do sonho anterior: tratava-se da satisfao com que acolhi o nascimento de meu segundo filho [em [1]]. Aqui, os afetos 
que dominavam os pensamentos onricos persistiram nos sonhos, mas  seguro afirmar que em nenhum sonho as coisas podem ser to simples assim. Se penetrarmos um pouco 
mais a fundo nas duas anlises, descobriremos que essa satisfao que havia escapado  censura recebera um acrscimo de outra fonte. Essa outra fonte tinha motivos 
para temer a censura e seu afeto teria indubitavelmente despertado oposio, se ela no se tivesse escudado no afeto similar e legtimo e de satisfao, proveniente 
da fonte permissvel, e se insinuado, por assim dizer, sob sua asa.
          Infelizmente, no posso demonstrar isso no caso efetivo desses sonhos, mas um exemplo extrado de outra esfera da vida deixar claro o que quero dizer. 
Suponhamos o caso seguinte: h uma pessoa de minhas relaes a quem odeio, de maneira que tenho uma viva inclinao a ficar contente quando alguma coisa adversa 
lhe acontece. Entretanto, o lado moral de minha natureza no faz concesses a esse impulso. No me atrevo a expressar o desejo de que ela seja infeliz e, caso ela 
depare com algum infortnio imerecido, suprimo minha satisfao diante disso e me imponhomanifestaes e pensamentos de pesar. Todos j devem ter passado por essa 
situao numa ou noutra poca. Mas sucede ento que a pessoa odiada, por alguma transgresso sua, envolve-se num merecido dissabor; quando isso acontece, posso dar 
rdea solta  minha satisfao por ela ter recebido uma punio justa e, nisto, estou de acordo com muitas outras pessoas que so imparciais. Posso observar, contudo, 
que minha satisfao parece mais intensa que a dessas outras pessoas; ela recebeu um acrscimo da fonte de meu dio, at ento impedida de manifestar seu afeto, 
mas que, com a alterao das circunstncias, j no  mais obstada em faz-lo. Na vida social, isso geralmente ocorre sempre que as pessoas antipticas ou os membros 
de uma minoria impopular se mostram sem razo. Sua punio no costuma corresponder a seus erros, mas a seu erros acrescidos da m vontade dirigida contra eles, 
a qual antes no tivera nenhuma conseqncia. Sem dvida  verdade que aqueles que infligem o castigo esto com isso cometendo uma injustia; mas ficam impedidos 
de perceb-la pela satisfao resultante da retirada de uma supresso que por muito tempo fora mantida dentro deles. Em casos como esse, o afeto  justificado em 
sua qualidade, mas no em sua quantidade, e a autocrtica tranqilizada quanto ao primeiro aspecto tende, com extrema facilidade, a se descuidar do exame do segundo. 
Uma vez aberta uma porta,  fcil irromperem por ela mais pessoas do que originalmente se tencionava deixar entrar.
          Um trao marcante das pessoas neurticas - o fato de uma causa passvel de liberar um afeto tender a produzir nelas um resultado qualitativamente justificado, 
mas quantitativamente excessivo - pode ser explicado dentro dessa mesma linha, na medida em que admita alguma explicao psicolgica. O excesso provm de fontes 
de afeto que antes permaneceram inconscientes e suprimidas. Essas fontes conseguem estabelecer um elo associativo com a causa liberadora real, e a desejada facilitao 
[Bahnung] da liberao de seu prprio afeto  aberta pela outra fonte de afeto, que  inobjetvel e legtima. Nossa ateno  assim atrada para o fato de que, ao 
considerarmos as instncias suprimidas e supressoras, no devemos encarar sua relao como sendo exclusivamente de inibio recproca. Igual ateno deve ser dada 
aos casos em que as duas instncias provocam um efeito patolgico, atuando lado a lado e se intensificando mutuamente.
          Apliquemos agora essas indicaes sobre os mecanismos psquicos a um entendimento das expresses de afeto nos sonhos. Uma satisfao que seja exibida num 
sonho e possa,  claro, ter seu lugar exato imediatamente apontado nos pensamentos onricos nem sempre  completamente elucidada apenas por essa referncia. Em geral, 
 necessrio buscar outra fonte delanos pensamentos do sonho, uma fonte que esteja sob a presso da censura. Em resultado dessa presso, essa fonte normalmente produziria, 
no satisfao, mas o afeto contrrio. Graas  presena da primeira fonte do afeto, porm, a segunda fonte fica habilitada a subtrair do recalque seu afeto de satisfao 
e a permitir que ele funcione como uma intensificao da satisfao da primeira fonte. Assim, parece que os afetos nos sonhos so alimentados por uma confluncia 
de diversas fontes e sobredeterminados em sua referncia ao material dos pensamentos onricos. Durante o trabalho do sonho, as fontes de afeto passveis de produzir 
o mesmo afeto unem-se para ger-lo.
          Podemos obter algum discernimento dessas complicaes mediante a anlise daquele belo espcime de sonho cujo ponto central era formado pelas palavras "Non 
vixit". (Ver em [1] e segs.) Nesse sonho, externalizaes de afeto de diversas qualidades reuniram-se em dois pontos do contedo manifesto. Sentimentos hostis e 
aflitivos - "dominado por estranhas emoes" foram as palavras utilizadas no prprio sonho - superpuseram-se no ponto em que aniquilei meu oponente e amigo com duas 
palavras. E de novo, ao final do sonho, fiquei extremamente satisfeito e cheguei a aprovar a possibilidade, que na vida de viglia sabia ser absurda, de existirem 
revenants que pudessem ser eliminados por um simples desejo.
          Ainda no relatei a causa excitante do sonho. Foi de grande importncia e levou a uma compreenso profunda do mesmo. Eu recebera de meu amigo de Berlim, 
a quem me referi como "Fl." [Fliess], a notcia de que ele estava prestes a sofrer uma operao e de que eu obteria novas informaes sobre seu estado com alguns 
de seus parentes em Viena. As primeiras notcias que recebi aps a operao no foram tranqilizadoras e me deixaram inquieto. Eu preferiria muito ir ter com ele 
pessoalmente, mas, exatamente nessa ocasio, estava acometido de uma enfermidade dolorosa que transformava qualquer espcie de movimento numa tortura para mim. Os 
pensamentos onricos informaram-me ento que eu temia pela vida de meu amigo. Como era de meu conhecimento, sua nica irm, que nunca cheguei a conhecer, tinha morrido 
muito jovem, aps uma doena fulminante. (No sonho, Fl. falou sobre sua irm e disse que em trs quartos de hora ela estava morta.)Devo ter imaginado que a constituio 
dele no era muito mais resistente que a de sua irm, e que, depois de receber notcias muito piores sobre ele, eu acabaria fazendo a viagem, afinal - e chegaria 
tarde demais, pelo que nunca cessaria de me censurar. Essa recriminao por chegar tarde demais tornou-se o ponto central do sonho, mas foi representada por uma 
cena em que Brcke, o venerado professor de meus tempos de estudante, a dirigia a mim com uma expresso terrvel em seus olhos azuis. Logo se evidenciar o que foi 
que fez a situao [referente a Fl.] transmudar-se nesses moldes. A cena em si [com Brcke] no podia ser reproduzida pelo sonho na forma como eu a vivenciara. A 
outra figura do sonho pde conservar os olhos azuis, mas o papel aniquilador foi atribudo a mim - uma inverso que, obviamente, foi obra da realizao de desejo. 
Meu desassossego a respeito da recuperao de meu amigo, minhas autocensuras por no ir v-lo, a vergonha que senti por isso - ele tinha vindo a Viena (para ver-me) 
"discretamente" -, a necessidade que eu tinha de me considerar desculpado por minha doena - tudo isso se combinou para produzir a tormenta emocional que foi claramente 
percebida em meu sono e que devastava essa regio dos pensamentos onricos.
          Mas havia na causa excitante do sonho outra coisa, que teve em mim um efeito inteiramente oposto. Junto com as notcias desfavorveis dos primeiros dias 
aps a operao, recebi a advertncia de no discutir o assunto com ningum. Senti-me ofendido com isso, pois implicava uma desconfiana desnecessria de minha discrio. 
Dava-me plena conta de que essas instrues no haviam partido de meu amigo e se deviam  falta de tato ou ao excesso de zelo por parte do intermedirio, mas afetou-me 
de maneira muito desagradvel essa censura velada, pois no era inteiramente injustificada. Como todos sabemos, somente as censuras que tm algum fundamento  que 
"colam"; s elas  que nos perturbam. O que tenho em mente no se relaciona,  verdade, com esse amigo, mas com um perodo muito anterior de minha vida. Naquela 
ocasio, causei problemas entre dois amigos (ambos os quais haviam tambm decidido honrar-me com esse ttulo) por dizer a um deles, sem necessidade alguma, no decorrer 
da conversa, o que o outro havia falado a seu respeito. 
          Tambm nessa ocasio tinham-me feito censuras, e elas ainda estavam em minha memria. Um dos dois amigos em questo era o Professor Fleischl; posso descrever 
o outro por seu prenome "Josef" - que era tambm o de P., meu amigo e oponente no sonho.
          A recriminao por eu ser incapaz de guardar um segredo foi atestada no sonho pelo elemento "discreto" e pela pergunta de Fl. sobre quanto eu havia falado 
com P. sobre suas coisas. Mas foi a interveno dessa lembrana [de minha antiga indiscrio e suas conseqncias] que transportou do presente para a poca em que 
trabalhei no laboratrio de Brcke a recriminao contra mim por chegar tarde demais. E, ao transformar a segunda pessoa da cena onrica de aniquilamento num Josef, 
fiz com que essa cena representasse no apenas a recriminao feita a mim por chegar tarde demais, mas tambm a recriminao, muito mais intensamente recalcada, 
por eu ser incapaz de guardar um segredo. Aqui, so excepcionalmente visveis os processos de condensao e deslocamento em ao no sonho, bem como suas razes de 
ser.
          Minha ligeira raiva, no presente, pela advertncia que eu recebera de no deixar escapar nada [sobre a doena de Fl.] recebeu reforos de fontes situadas 
nas profundezas de minha mente, e assim se avolumou numa corrente de sentimentos hostis contra pessoas de quem eu realmente gostava. A fonte desse reforo brotava 
de minha infncia. J assinalei [em [1]] como minhas amizades calorosas, e tambm minhas inimizades com contemporneos, remontam a minhas relaes da infncia com 
um sobrinho que era um ano mais velho que eu; como ele era superior a mim, como cedo aprendi a me defender dele, como ramos amigos inseparveis e como, de acordo 
com o testemunho dos mais velhos, s vezes brigvamos um com outro e... lhes fazamos queixas um do outro. Todos os meus amigos tm sido, num certo sentido, reencarnaes 
dessa primeira figura que "frh sich einst dem trben Blick gezeigt": tm sido revenants. Meu prprio sobrinhoreapareceu em minha meninice e, nessa ocasio, representamos 
juntos os papis de Csar e Brutus. Minha vida afetiva sempre insistiu em que eu tivesse um amigo ntimo e um inimigo odiado. Sempre me foi possvel reabastecer-me 
de ambos, e no raro essa situao ideal da infncia se reproduziu to completamente que amigo e inimigo convergiram numa s pessoa - embora no,  claro, ambos 
ao mesmo tempo ou com oscilaes constantes, como talvez tenha acontecido em minha tenra infncia.
          No me proponho discutir neste ponto como  que, nessas circunstncias, uma oportunidade recente de gerao de um afeto pode retornar a uma situao infantil 
e ser substituda por essa situao no que concerne  produo do afeto. [Ver em [1].] Essa questo faz parte da psicologia do pensamento inconsciente e encontraria 
lugar adequado numa elucidao psicolgica das neuroses. Para fins da interpretao dos sonhos, presumamos que surja ou seja construda na fantasia uma lembrana 
da infncia, mais ou menos com o seguinte contedo: as duas crianas entraram em disputa por causa de certo objeto. (Qual era esse objeto  uma questo que pode 
ficar em aberto, embora a lembrana ou pseudo-lembrana tenha um objeto bastante especfico em vista.) Cada uma delas alega ter chegado antes da outra e, portanto, 
ter mais direito a ele. Vo s vias de fato e a fora prevalece sobre o direito. Pelas indicaes do sonho,  possvel que eu mesmo soubesse que estava errado ("eu 
prprio notei o erro"). Dessa vez, porm, fui o mais forte e continuei senhor do terreno. O vencido correu para seu av - meu pai - e queixou-se de mim; defendi-me 
com as palavras que conheo pelo relato de meu pai: "Bati nele porque ele me bateu". Essa lembrana, ou mais provavelmente fantasia, que me veio  mente enquanto 
eu analisava o sonho - sem outras indicaes, eu mesmo no saberia dizer como1 - constituiu um elemento intermedirio nos pensamentos onricos, que reuniu os afetos 
neles desencadeados tal como um poo recebe a gua que para ele flui. Desse ponto em diante, os pensamentos onricos seguiram mais ou menos esta linha: " bem feito 
de me tenha tido de me dar lugar. Por que tentou tirar a mim do meu lugar? No preciso de voc; posso muito bem encontrar outra pessoa para brincar comigo", etc. 
Esses pensamentos penetraram ento nas vias que levaram a sua representao no sonho. Houve poca em que tive de censurar meu amigo Josef [P.] por uma atitude deste 
mesmo tipo: "te-toi que je m'y mette!" Ele seguira meus passos como demonstrador no laboratrio de Brcke, mas a promoo l era lenta e tediosa. Nenhum dos dois 
assistentesde Brcke estava inclinado a sair de seu lugar, e a juventude era impaciente. Meu amigo, que sabia no ter esperana de viver muito e a quem nenhum lao 
de intimidade ligava seu superior imediato, por vezes expressava em voz alta sua impacincia; e como o superior [Fleischl] estava gravemente enfermo, o desejo de 
P. de v-lo fora do caminho talvez tivesse um sentido mais torpe que a simples esperana de promoo do homem. Como no deixa de ser natural, alguns anos antes, 
eu prprio acalentara um desejo ainda mais vivo de preencher uma vaga. Onde quer que haja hierarquia e promoo, est aberto o caminho para desejos que pedem supresso. 
O Prncipe Hal, de Shakespeare, mesmo junto ao leito de seu pai enfermo, no pde resistir  tentao de experimentar a coroa. Mas, como seria de se esperar, o sonho 
puniu meu amigo e no a mim por esse desejo impiedoso.
          "Como foi ambicioso, matei-o." Como no pudesse esperar pelo afastamento de outro homem, ele prprio foi afastado. Foram esses meus pensamentos logo depois 
de ter assistido  inaugurao, na universidade, do monumento comemorativo - no a ele, mas ao outro homem. Assim, parte da satisfao que senti no sonho deveria 
ser interpretada como: "Um castigo justo!  bem feito para voc!"
          No funeral de meu amigo [P.], um rapaz fizera o que pareceu ser um comentrio inoportuno no sentido de que o orador que pronunciara o discurso fnebre 
havia deixado implcito que, sem esse homem, o mundo se acabaria. Ele havia expressado os sentimentos sinceros de algum em cujo pesar um certo exagero estava interferindo. 
Mas esse seu comentrio foi o ponto de partida dos seguintes pensamentos onricos. " bem verdade que ningum  insubstituvel. Quantas pessoas j acompanhei at 
a sepultura! Mas ainda estou vivo. Sobrevivi a todos; fiquei senhor do terreno." Esse tipo de pensamento, ocorrendo-me num momento em que temia talvez no encontrar 
meu amigo [Fl.] vivo se fizesse a viagem para v-lo, s poderia ser interpretado no sentido de eu estar radiante por ter, mais uma vez, sobrevivido a algum, por 
ter sido ele e no eu a morrer e por eu ter ficado senhor do terreno, como ficara na cena fantasiada de minha infncia. Essa satisfao de origem infantil por ficar 
senhor do terreno constituiu a maior parte do afeto queapareceu no sonho. Eu estava radiante por sobreviver e dei expresso a meu deleite com todo o egosmo ingnuo 
exibido na anedota do casal em que um dos cnjuges diz ao outro: "Se um de ns morrer, vou-me mudar para Paris". Era-me bvio assim que no seria eu a morrer.
          No se pode negar que interpretar e relatar os prprios sonhos exige elevado grau de autodisciplina. Fica-se condenado a emergir como o nico vilo entre 
a multido de personagens nobres com quem se partilha a prpria vida. Assim, pareceu-me muito natural que os revenants s existissem enquanto se quisesse e fossem 
eliminveis mediante um desejo. J vimos pelo qu foi punido meu amigo Josef. Mas os revenants eram uma srie de reencarnaes do amigo de minha infncia. Desse 
modo, era tambm fonte de satisfao para mim o fato de sempre ter conseguido achar substitutos sucessivos para aquela figura; e senti que seria capaz de encontrar 
um substituto para o amigo a quem estava agora a ponto de perder: ningum era insubstituvel.
          Mas e a censura onrica, que era feito dela? Por que no levantara as mais enrgicas objees contra essa seqncia de idias flagrantemente egosta? E 
por que no transformara a satisfao ligada a essa cadeia de idias num agudo desprazer? A explicao, penso eu, foi que outras seqncias de idias inobjetveis 
ligadas s mesmas pessoas encontraram uma satisfao simultnea e encobriram, com seu afeto, o afeto proveniente da fonte infantil proibida. Em outra camada de meus 
pensamentos, durante a cerimnia de inaugurao do monumento, eu assim refletira: "Quantos amigos valiosos j perdi, uns por morte, outros por um rompimento em nossa 
amizade! Quo afortunado foi ter encontrado para eles um substituto e ter ganho um que significa para mim mais do que os outros jamais poderiam significar, e, numa 
poca da vida em que no  fcil fazer novas amizades, nunca perder a dele!" Minha satisfao por ter encontrado um substituto para esses amigos perdidos teve permisso 
de penetrar no sonho sem interferncia, mas, junto com ela, insinuou-se a satisfao hostil decorrente da fonte infantil.  verdade, sem dvida, que a afeio infantil 
serviu para reforar minha afeio contempornea e justificada. Mas tambm o dio infantil conseguiu fazer-se representar.
          Mas o sonho conteve, alm disso, uma aluso clara a outra cadeia de idias que poderia legitimamente levar  satisfao. Pouco tempo antes, apsuma longa 
espera, nascera uma filha de meu amigo [Fl.]. Eu sabia quo profundamente ele havia pranteado a irm que perdera to cedo, e lhe escrevi dizendo estar certo de que 
ele transferira o amor que por ela sentira para a filha, e que a nenenzinha enfim lhe permitiria esquecer sua perda irreparvel.
          Portanto, esse grupo de pensamentos ligava-se mais uma vez ao pensamento intermedirio do contedo latente do sonho [ver em [1]-[2]] de onde se bifurcavam 
as vias associativas em direes contrrias: "Ningum  insubstituvel! No h nada alm de revenants: todos aqueles que perdemos retornam!" E ento os laos associativos 
entre os componentes contraditrios dos pensamentos onricos foram estreitados pela circunstncia fortuita de a filhinha de meu amigo ter o mesmo nome da menina 
com quem eu costumava brincar em criana, que tinha minha idade e era irm de meu primeiro amigo e oponente. [Ver em [1].] Deu-me grande satisfao saber que o beb 
iria chamar-se "Pauline". E, numa aluso a essa coincidncia, substitu um Josef por outro no sonho e descobri ser impossvel eliminar a semelhana entre as letras 
iniciais dos nomes "Fleischl" e "Fl.". Desse ponto, meus pensamentos passaram para a questo do nome de meus prprios filhos. Insistira em que o nome deles fosse 
escolhido, no segundo a moda do momento, mas em memria de pessoas de quem eu havia gostado. O nome transformava as crianas em revenants. E afinal, refleti, ter 
filhos no seria nosso nico acesso  imortalidade?
          Resta-me apenas acrescentar mais algumas observaes sobre a questo do afeto nos sonhos, de outro ponto de vista.  possvel que um elemento dominante 
na psique da pessoa adormecida seja constitudo por aquilo a que chamamos "disposio de nimo" - ou tendncia a algum afeto -, e isto pode ento exercer uma influncia 
determinante em seus sonhos. Tal disposio de nimo pode brotar de suas experincias ou pensamentos da vspera, ou suas fontes podem ser somticas. [Ver em [1]] 
De qualquer modo, ser acompanhada pelas cadeias de idias que lhe forem apropriadas. Do ponto de vista da formao do sonho,  indiferente que, como s vezes acontece, 
esses contedos de representaes dos pensamentos onricos determinem primariamente a disposio de nimo, ou sejam eles prprios secundariamente despertados por 
uma disposio emocional do sonhador que, por sua vez, seja explicvel em termos somticos. Seja como for, a formao dos sonhos est sujeira  condio de s poder 
representar algo que seja a realizao de um desejo, e de apenas dos desejos poder extrair sua fora psquica impulsora. Uma disposio de nimo atual e operante 
 tratada da mesma maneira que uma sensao que surja e se torne atuante durante o sono (ver em [1]), a qual pode ser desprezada ou reinterpretadano sentido de uma 
realizao de desejo. As disposies de nimo aflitivas durante o sono podem tornar-se a fora propulsora de um sonho, despertando desejos enrgicos que o sonho 
 chamado a realizar. O material a que se ligam as disposies de nimo  trabalhado at poder ser utilizado para expressar a realizao de um desejo. Quanto mais 
intenso e dominante  o papel desempenhado nos pensamentos onricos pela disposio anmica aflitiva, mais certo  que os impulsos desejantes mais intensamente suprimidos 
se valham dessa oportunidade para chegar  representao.  que, como j est presente o desprazer que, de outro modo, por si s produziriam necessariamente, eles 
j encontram realizada a parte mais difcil de sua tarefa - a tarefa de se imporem  representao. Aqui, mais uma vez, somos confrontados com o problema dos sonhos 
de angstia; e estes, como iremos constatar, constituem um caso marginal da funo onrica. [Ver em [1]]
          (I) ELABORAO SECUNDRIA [1]
          
          
          E agora podemos enfim voltar-nos para o quarto dos fatores implicados na formao dos sonhos. Ao prosseguirmos em nossa investigao do contedo dos sonhos 
da maneira como a iniciamos - isto , comparando eventos manifestos no contedo do sonho com suas fontes nos pensamentos onricos -, chegamos a elementos cuja explicao 
requer um pressuposto inteiramente novo. O que tenho em mente so casos em que o sonhador fica surpreso, irritado ou enojado no sonho e, alm disso, com algum fragmento 
do prprio contedo onrico. Como demonstrei em diversos exemplos [na ltima seo). a maioria desses sentimentos crticos nos sonhos no se dirige, de fato, ao 
contedo do sonho, mas mostra constituir-se de partes dos pensamentos onricos que foram apropriadas e usadas para um fim conveniente. Entretanto, parte desse material 
no se presta a essa explicao; seu correlato no material dos pensamentos onricos no se encontra em parte alguma. Qual , por exemplo, o sentido de uma observao 
crtica to freqentemente encontrada nos sonhos, ou seja, "Isto  apenas um sonho"? [Ver em [1].] Temos a uma verdadeira crtica ao sonho, tal como se poderia 
fazer na vida de viglia. Com bastante freqncia, ademais, ela  de fato o preldio do despertar; e com freqncia ainda maior,  precedida por algum sentimento 
aflitivo que se tranqiliza ante o reconhecimento de que se trata de um estado de sonho. Quando ocorre num sonho o pensamento "isto  apenas um sonho", ele tem em 
vista o mesmo propsito das palavras pronunciadas no palco por la belle Hlne, na pera cmica de Offenbach que leva esse nome: visa a reduzir a importncia do 
que acaba de ser vivenciado e a tornar possvel tolerar o que vem a seguir. Serve para fazer adormecer uma dada instncia que, nesse momento, teria todos os motivos 
para ser acionada e proibir a continuao do sonho - ou da cena da pera.  mais cmodo, porm, continuar a dormir e tolerar o sonho, porque, afinal, " apenas um 
sonho". Ameu ver, esse juzo crtico desdenhoso, " apenas um sonho", aparece no sonho quando a censura, que nunca est inteiramente adormecida, sente que foi apanhada 
desprevenida por um sonho que j se deixou passar.  tarde demais para suprimi-lo e, por conseguinte, a censura utiliza essas palavras para combater o sentimento 
de angstia ou aflio por ele suscitado. Essa expresso  um exemplo de esprit d'escalier por parte da censura psquica.
          Esse exemplo, contudo, fornece-nos uma prova convincente que nem tudo que est contido num sonho decorre dos pensamentos onricos, mas que pode haver contribuies 
para seu contedo advindas de uma funo psquica que  indistinguvel de nossos pensamentos de viglia. Surge ento a questo de determinar se isso ocorre apenas 
em casos excepcionais, ou se a instncia psquica que, no mais, atua apenas como censura tem uma participao habitual na formao dos sonhos.
          No podemos hesitar em decidir pela segunda alternativa. No h dvida de que a instncia censora, cuja influncia s reconhecemos, at aqui, nas limitaes 
e omisses no contedo do sonho,  tambm responsvel por intercalaes e acrscimos a ele.  fcil reconhecer tais intercalaes. So freqentemente relatadas com 
hesitao e introduzidas por um "como se"; no so particularmente vvidas por si s e so sempre introduzidas em pontos em que podem servir de elo entre dois fragmentos 
do contedo onrico ou preencher uma lacuna entre duas partes do sonho. So menos fceis de reter na memria do que os autnticos derivados do material dos pensamentos 
onricos; quando o sonho  esquecido, elas so sua primeira parte a desaparecer, e tenho fortes suspeitas de que a queixa corriqueira de se haver sonhado muito, 
mas esquecido a maior parte do sonho e conservado apenas fragmentos [em [1]], baseia-se no rpido desaparecimento justamente desses pensamentos agregadores. Numa 
anlise completa, essas intercalaes por vezes se deixam trair pelo fato de nenhum material ligado a elas ser encontrado nos pensamentos onricos. Mas um exame 
cuidadoso leva-me a considerar esse caso como o menos freqente; grosso modo, os pensamentos agregadores reconduzem, mesmo assim, a algum material nos pensamentos 
onricos, mas a um material que no poderia reivindicar aceitao no sonho, nem por seu prprio valor, nem por ser sobredeterminado. Somente em casos extremos, ao 
que parece,  que a funo psquica de formao de sonhos que ora estamos examinando passa a fazer novas criaes. Tanto quanto possvel, ela empregaqualquer coisa 
apropriada que possa encontrar no material dos pensamentos onricos.
          O que distingue e, ao mesmo tempo, revela essa parte do trabalho do sonho  sua finalidade. Essa funo se comporta da maneira que o poeta maliciosamente 
atribui aos filsofos: preenche as lacunas da estrutura do sonho com trapos e remendos. Como resultado de seus esforos, o sonho perde sua aparncia de absurdo e 
incoerncia e se aproxima do modelo de uma experincia inteligvel. Mas seus esforos nem sempre so coroados de xito. Ocorrem sonhos que, a uma viso superficial, 
podem afigurar-se impecavelmente lgicos e racionais; partem de uma situao possvel, do-lhe prosseguimento atravs de uma cadeia de modificaes coerentes e - 
embora com muito menor freqncia - levam-na a uma concluso que no causa surpresa. Os sonhos dessa natureza foram submetidos a uma extensa elaborao por essa 
funo psquica aparentada ao pensamento de viglia; parecem ter um sentido, mas esse sentido  o mais afastado possvel de sua verdadeira significao. Se os analisamos, 
podemos convencer-nos de que foi nesses sonhos que a elaborao secundria manipulou o material da maneira mais livre possvel e preservou ao mnimo as relaes 
existentes nesse material. So sonhos dos quais se poderia dizer que j foram interpretados uma vez, antes de serem submetidos  interpretao de viglia. Em outros 
sonhos, essa elaborao tendenciosa tem xito apenas em parte; a coerncia parece prevalecer at certo ponto, mas depois o sonho se torna disparatado ou confuso, 
embora talvez, mais adiante, possa apresentar pela segunda vez uma aparncia de racionalidade. Noutros sonhos, ainda, a elaborao falha por completo; vemo-nos desamparados 
frente a um amontoado de material fragmentrio e sem nenhum sentido.
          No desejo negar categoricamente que essa quarta fora na formao do sonho - que logo reconheceremos como uma velha conhecida, visto que, de fato,  a 
nica das quatro com que estamos familiarizados em outros contextos - no desejo negar que esse quarto fator tem a capacidade de criar novas contribuies para os 
sonhos.  certo, porm, que, tal como os outros,ele exerce sua influncia principalmente por suas preferncias e selees do material psquico j formado nos pensamentos 
onricos. Ora, h um caso em que lhe  poupado, em grande medida, o trabalho de, por assim dizer, estruturar uma fachada para o sonho - a saber, o caso em que j 
existe uma formao dessa natureza no material dos pensamentos onricos, pronta para ser usada. Tenho o hbito de descrever esse elemento dos pensamentos onricos 
que tenho em mente como uma "fantasia". Talvez eu evite mal-entendidos se mencionar o "sonho diurno" [ou devaneio] como algo anlogo a ela na vida de viglia. O 
papel desempenhado em nossa vida anmica por essas estruturas ainda no foi plenamente reconhecido e elucidado pelos psiquiatras, embora M. Benedikt tenha conseguido 
o que me parece um incio muito promissor nessa direo. A importncia dos sonhos diurnos no escapou  viso infalvel dos escritores imaginativos; h, por exemplo, 
um clebre relato de Alphonse Daudet, em Le Nabab, dos devaneios de um dos personagens secundrios da histria. [Ver em [1].] O estudo das psiconeuroses leva  surpreendente 
descoberta de que essas fantasias ou sonhos diurnos so os precursores imediatos dos sintomas histricos, ou pelo menos de uma srie deles. Os sintomas histricos 
no esto ligados a lembranas reais, mas a fantasias construdas com base em lembranas. A freqente ocorrncia de fantasias diurnas conscientes traz essas estruturas 
ao nosso conhecimento; mas tal como h fantasias conscientes dessa natureza, tambm h grande nmero de fantasias inconscientes, que tm de permanecer inconscientes 
por causa de seu contedo e por se originarem de material recalcado. Uma investigao mais detida das caractersticas dessas fantasias diurnas revela-nos como  
acertado que essas formaes recebam a mesma designao que damos aos produtos de nosso pensamento durante a noite - ou seja, a designao de "sonhos". Elas partilham 
com os sonhos noturnos um grande nmero de suas propriedades e, de fato, sua investigao poderia terservido como a melhor e mais curta abordagem  compreenso dos 
sonhos noturnos.
          Como os sonhos, elas so realizaes de desejos; como os sonhos, baseiam-se, em grande medida, nas impresses de experincias infantis; como os sonhos, 
beneficiam-se de certo grau de relaxamento da censura. Se examinarmos sua estrutura, perceberemos como o motivo de desejo que atua em sua produo mistura, rearranja 
e compe num novo todo o material de que eles so construdos. Eles esto, para as lembranas infantis de que derivam, exatamente na mesma relao em que esto alguns 
dos palcios barrocos de Roma para as antigas runas cujos pisos e colunas forneceram o material para as estruturas mais recentes.
          A funo de "elaborao secundria" que atribumos ao quarto dos fatores envolvidos na formao do contedo dos sonhos mostra-nos em ao, mais uma vez, 
a atividade que consegue ter livre vazo na criao de sonhos diurnos sem ser inibida por quaisquer outras influncias. Poderamos simplificar isso dizendo que este 
nosso quarto fator procura configurar o material que lhe  oferecido em algo semelhante a um sonho diurno. No entanto, se um desses sonhos diurnos j tiver sido 
formado na trama dos pensamentos onricos, esse quarto fator do trabalho do sonho preferir apossar-se do sonho diurno j pronto e procurar introduzi-lo no contedo 
do sonho. H alguns sonhos que consistem meramente na repetio de uma fantasia diurna que talvez tenha permanecido inconsciente, como, por exemplo, o sonho em que 
o menino andava numa biga com os heris da Guerra de Tria [em [1]]. Em meu sonho do "autodidasker" [em [1]], pelo menos a segunda parte foi uma reproduo fiel 
de uma fantasia diurna, inocente em si mesma, de uma conversa com o Professor N. Em vista das complexas condies que o sonho tem de satisfazer em sua gnese,  
muito mais freqente a fantasia j pronta formar apenas um fragmento do sonho, ou apenas uma parcela da fantasia irromper no sonho. A partir da, a fantasia  tratada, 
em geral, como qualquer outra parcela do material latente, embora freqentemente permanea reconhecvel como uma entidade no sonho. Muitas vezes, partes de meus 
sonhos sobressaem como causadoras de uma impresso diferente das demais. Parecem-me, por assim dizer, mais fluentes, mais concatenadas e, ao mesmo tempo, mais fugazes 
que outras partes do mesmo sonho. Estas, bem sei, sofantasias inconscientes que penetraram na trama do sonho, mas jamais consegui delimitar uma delas com clareza. 
Afora isso, tais fantasias, como qualquer outro componente dos pensamentos onricos, so comprimidas, condensadas, superpostas umas s outras e assim por diante. 
H, todavia, casos transicionais, desde o caso em que elas constituem, inalteradas, o contedo (ou pelo menos a fachada) do sonho, e o extremo oposto, em que so 
representadas no contedo do sonho apenas por um de seus elementos ou por uma aluso distante. O que acontece s fantasias presentes nos pensamentos onricos  tambm, 
evidentemente, determinado por quaisquer vantagens que elas tenham a oferecer aos requisitos da censura e  exigncia de condensao.
          Ao selecionar exemplos de interpretao de sonhos, tenho evitado, na medida do possvel, os sonhos em que as fantasias inconscientes desempenhem papel 
considervel, pois a introduo desse elemento psquico especfico teria exigido extensas discusses sobre a psicologia do pensamento inconsciente. No obstante, 
no posso escapar inteiramente a um exame das fantasias neste contexto, dado que, muitas vezes, elas penetram nos sonhos em sua ntegra e, com freqncia ainda maior, 
 possvel vislumbr-las claramente por trs do sonho. Citarei, portanto, mais um sonho, que parece compor-se de duas fantasias diferentes e opostas, coincidentes 
entre si em alguns pontos, e das quais uma  superficial, enquanto a segunda constitui, por assim dizer, uma interpretao da primeira. [Ver anteriormente, em [1].]
          O sonho - o nico do qual no tenho notas cuidadosas - era mais ou menos o seguinte. O sonhador, um rapaz solteiro, estava sentado no restaurante onde 
costumava comer, e que foi realisticamente representado no sonho. Surgiram ento vrias pessoas para tir-lo dali, e uma delas queria prend-lo. Ele disse a seus 
companheiros de mesa: "Depois eu pago; vou voltar". Mas eles exclamaram, com sorrisos zombeteiros: "J conhecemos essa histria; isso  o que todos dizem!" Um dos 
convivas gritou-lhe: "L sevai mais um!'' Depois o conduziram a um aposento estreito, onde encontrou uma figura feminina com uma criana no colo. Uma das pessoas 
que o acompanhava disse: "Este  o Sr. Mller". Um inspetor de polcia, ou algum funcionrio parecido, estava remexendo num punhado de cartes ou papis e, ao faz-lo, 
repetia "Mller, Mller, Mller". Por fim, formulou uma pergunta ao sonhador,  qual este respondeu com um "Sim". Em seguida, ele se voltou para olhar para a figura 
feminina e observou que ela agora usava uma grande barba.
          No h aqui nenhuma dificuldade em separar os dois componentes. O superficial era uma fantasia de priso, que parece como que recm-construda pelo trabalho 
do sonho. Mas, por trs dele,  visvel um material que foi apenas ligeiramente remodelado pelo trabalho do sonho: uma fantasia de casamento. Os traos comuns a 
ambas as fantasias emergem com especial clareza, tal como numa das fotografias superpostas de Galton. A promessa do rapaz (que at ento era solteiro) de que voltaria 
a se reunir com os companheiros de jantar  mesa, o ceticismo de seus companheiros (j escolados pela experincia), a exclamao "l se vai mais um (para se casar)" 
- todos esses traos se encaixavam facilmente na interpretao alternativa. O mesmo se aplica ao "Sim" com que ele respondeu  pergunta do funcionrio. O remexer 
na pilha de papis, a constante repetio do mesmo nome, correspondia a uma caracterstica menos importante, porm, reconhecvel, das festas de casamento, a saber, 
a leitura de um mao de telegramas de felicitaes, todos endereados com o mesmo nome. A fantasia do casamento, na realidade, levou a melhor sobre a fantasia encobridora 
de priso, com o aparecimento da noiva em pessoa no sonho. Atravs de uma indagao - o sonho no foi analisado -, pude descobrir por que, ao final dele, a noiva 
usava barba. Na vspera, o sonhador estivera andando pela rua com um amigo que era to arredio ao casamento quanto ele, e lhe chamara a ateno para uma beldade 
de cabelos negros que passara por eles. "", comentara o amigo, "se pelo menos essas mulheres, em poucos anos, no ficassem com uma barba igual  do pai..." No 
faltaram a esse sonho, naturalmente, elementos em que a distoro onrica tivesse ido mais a fundo.  bem possvel, por exemplo, que as palavras "depois eu pago" 
se referissem ao que ele temia ser a atitude do sogro quanto  questo do dote. De fato,  evidente que toda sorte de receios impedia o sonhador de se atirar com 
algum prazer  fantasia de casamento. Um desses receios, o medo de que o casamento pudesse custar-lhe a liberdade, encarnou-se em sua transformao numa cena de 
priso.
          
          Se voltarmos por um momento ao ponto em que o trabalho do sonho se serve de bom grado de uma fantasia j pronta, em vez de comp-la a partir do material 
dos pensamentos onricos, talvez nos achemos em condies de solucionar um dos mais interessantes enigmas relacionados com os sonhos. Em [1], relatei a famosa histria 
de como Maury, depois de ser atingido na nuca por um pedao de madeira enquanto dormia, despertou de um longo sonho que era como uma histria completa tendo por 
cenrio a poca da Revoluo Francesa. Visto que o sonho, tal como relatado, foi coerente e totalmente projetado com vistas a fornecer uma explicao para o estmulo 
que acordou o sonhador e cuja ocorrncia ele no poderia ter previsto, a nica hiptese possvel parece ser a de que todo esse sonho complexo deve ter sido composto 
e ter ocorrido no curto espao de tempo decorrido entre o contato do pedao de madeira com as vrtebras cervicais de Maury e seu conseqente despertar. Nunca ousaramos 
atribuir tal rapidez  atividade de pensamento na vida de viglia, e portanto, seramos levados a concluir que o trabalho do sonho possui a vantagem de acelerar 
extraordinariamente nossos processos de pensamento.
          Fortes objees ao que se converteu prontamente numa concluso popular tm sido levantadas por alguns autores mais modernos (Le Lorrain, 1894 e 1895; Egger 
1895, e outros). Por um lado, eles lanam dvidas sobre a exatido do relato que Maury fez de seu sonho; e por outro, tentam mostrar que a rapidez das operaes 
de nossos pensamentos de viglia no  menor do que a desse sonho, depois de descontados os exageros. O debate levantou questes de princpio cuja soluo no me 
parece imediata. Mas devo confessar que os argumentos apresentados (por Egger, por exemplo), particularmente contra o sonho de Maury com a guilhotina, no me convencem. 
Eu mesmo proporia a seguinte explicao para esse sonho. Acaso ser to improvvel que o sonho de Maury represente uma fantasia j pronta e armazenada em sua memria 
por muitos anos, e que foi despertada - ou, diria eu, "aludida" - no momento em que ele tomou conhecimento do estmulo que o acordou? Se assim fosse, teramos escapado 
a toda a dificuldade de compreender como  que uma histria to longa, com todos os seus pormenores, poderia ter sido composta no curtssimo intervalo de que dispunha 
o sonhador, visto que a histria j teria sido composta. Se o pedao de madeira tivesse atingido a nuca de Maury quando acordado, teria havido oportunidade para 
um pensamento como "Isto  o mesmo que ser guilhotinado". Mas, como foi durante o sono que a tbua o atingiu, o trabalho do sonho serviu-se do estmulo incidente 
para produzir sem demora uma realizao de desejo, como se pensasse (isto deve ser tomado puramente emsentido figurado): "Eis aqui uma boa oportunidade de realizar 
uma fantasia de desejo que se formou em tal ou qual poca durante a leitura". Dificilmente se poderia contestar, penso eu, que a histria do sonho era precisamente 
do tipo que os jovens tendem a construir sob a influncia de impresses intensamente excitantes. Quem - e, menos ainda, qual o francs ou o estudioso da histria 
da civilizao - poderia deixar de ser cativado pelas narrativas do Reinado do Terror, quando homens e mulheres da aristocracia, a fina flor da nao, mostravam-se 
capazes de morrer com nimo sereno e de conservar sua agudeza de esprito e a elegncia de suas maneiras at o ltimo momento do fatal chamado? Quo tentador para 
um jovem mergulhar em tudo isso em sua imaginao - ver-se dizendo adeus a uma dama, beijando-lhe a mo e galgando, intrpido, o cadafalso! Ou, se a ambio fosse 
o motivo principal da fantasia, quo tentador para ele ocupar o lugar de um daqueles temveis personagens que, pela simples fora de suas idias e de sua flamejante 
eloqncia, dominavam a cidade onde, nessa poca, pulsava convulsivamente o corao da humanidade - que foram levados por suas convices a enviar milhares de homens 
 morte e prepararam o terreno para a transformao da Europa, enquanto, todo o tempo, suas prprias cabeas no tinham segurana e estavam destinadas a cair um 
dia sob a lmina da guilhotina - quo tentador imaginar-se como um dos girondinos, talvez, ou como o herico Danton! H uma caracterstica na lembrana que Maury 
guardou do sonho - a de ser "conduzido ao local da execuo, cercado por uma multido imensa" - que parece sugerir que sua fantasia era, de fato, desse tipo ambicioso.
          Tampouco era necessrio que essa fantasia de h muito preparada fosse revivida durante o sono; bastaria apenas que fosse tocada. O que quero dizer  o 
seguinte; quando soam alguns compassos musicais e algum comenta (como acontece no Don Giovanni) que so do Fgaro, de Mozart, despertam-se em mim, de uma s vez, 
inmeras lembranas, nenhuma das quais pode penetrar isoladamente em minha conscincia no primeiro momento. A frase-chave serve como um posto avanado atravs do 
qual toda a rede  simultaneamente posta em estado de excitao.  bem possvel que o mesmo se d no caso do pensamento inconsciente. O estmulo despertador excita 
o posto avanado psquico que d acesso a toda a fantasia da guilhotina. Mas a fantasia no  repassada durante o sono, e sim apenas na lembrana da pessoa antes 
adormecida, aps seu despertar. Depois de acordar, ela lembra em todos os detalhes a fantasia que foi instigada em sua ntegra no sonho. No h como certificar-se, 
nesse caso, de que se est realmente recordando algo que se sonhou. Essa mesma explicao - de que se trata de fantasiasj prontas que so excitadas como um todo 
pelo estmulo despertador - pode ser aplicada a outros sonhos que se concentram num estmulo despertador, como, por exemplo, o sonho de Napoleo com a batalha, antes 
da exploso da mquina infernal [em [1], e [2]].
          Entre os sonhos [1] coligidos por Justine Tobowolska em sua dissertao sobre a passagem manifesta do tempo nos sonhos, o mais instrutivo me parece ser 
o que relatou Macario (1857, 46) como sonhado por um autor dramtico, Casimir Bonjour (Tobowolska [1900], 53). Certa noite, Bonjour desejava assistir  primeira 
apresentao de uma de suas peas, mas estava to fatigado que, enquanto sentado nos bastidores, cochilou no momento exato em que o pano subia. Durante o sono, passou 
por todos os cinco atos da pea e observou todos os vrios sinais de emoo exibidos pela platia quando das diferentes cenas. No fim do espetculo, ficou radiante 
ao ouvir seu nome gritado com as mais vivas demonstraes de aplauso. De repente, acordou. No podia acreditar no que via nem no que ouvia, pois o espetculo ainda 
no passara das primeiras linhas da primeira cena, e ele no teria dormido por mais de dois minutos. Por certo, no  demasiadamente precipitado supor, no caso desse 
sonho, que o fato de o sonhador ter passado por todos os cinco atos da pea e observado a atitude do pblico em relao aos diferentes trechos dela no precisa ter 
decorrido de nenhuma nova produo de material durante o sono, mas pode ter reproduzido uma atividade de fantasia j concluda (no sentido que descrevi). Tobowolska, 
como outros autores, ressalta o fato de que os sonhos com uma passagem acelerada das representaes tm a caracterstica comum de parecerem singularmente coerentes, 
ao contrrio de outros sonhos, e que a lembrana deles  muito mais sumria do que pormenorizada. Essa seria realmente uma caracterstica que tais fantasias j prontas, 
tocadas pelo trabalho do sonho, estariam fadadas a possuir, embora esta seja uma concluso que os autores em causa no chegam a tirar. No assevero, contudo, que 
todos os sonhos de despertar admitam essa explicao, ou que o problema da passagem acelerada das representaes nos sonhos possa, desse modo, ser inteiramente descartado.
          Neste ponto,  impossvel evitarmos o exame da relao entre essa elaborao secundria do contedo dos sonhos e os demais fatores do trabalho do sonho. 
Deveremos acaso supor que o que acontece  que, aprincpio, os fatores formadores do sonho - a tendncia  condensao, o imperativo de fugir  censura e a considerao 
 representabilidade pelos recursos psquicos acessveis ao sonho - compem um contedo onrico provisrio a partir do material fornecido, e que esse contedo  
subseqentemente remoldado para conformar-se tanto quanto possvel s exigncias de uma segunda instncia? Isto  muito improvvel. Devemos antes presumir que, desde 
o incio, as exigncias dessa segunda instncia constituem uma das condies que o sonho precisa satisfazer, e que essa condio, tal como as formuladas pela condensao, 
pela censura imposta pela resistncia e pela representabilidade, atua simultaneamente num sentido indutivo e seletivo sobre o conjunto do material presente nos pensamentos 
onricos. De qualquer modo, porm, dentre as quatro condies para a formao do sonho, a que conhecemos por ltimo  aquela cujas exigncias parecem exercer a influncia 
menos compulsria nos sonhos.
          A considerao que se segue torna altamente provvel que a funo psquica que empreende o que descrevemos como elaborao secundria do contedo dos sonhos 
deva ser identificada com a atividade de nosso pensamento de viglia. Nosso pensamento desperto (pr-consciente) comporta-se ante qualquer material perceptivo com 
que se depare exatamente do mesmo modo que se comporta a funo ora examinada em relao ao contedo dos sonhos.  prprio de nosso pensamento de viglia estabelecer 
ordem nesse material, nele estruturar relaes e faz-lo conformar-se a nossas expectativas de um todo inteligvel. [Ver em [1] e [2].] A rigor, chegamos a nos exceder 
nisso. Os adeptos da prestidigitao conseguem iludir-nos por confiarem nesse nosso hbito intelectual. Em nosso empenho de criar um padro inteligvel com impresses 
sensoriais que so oferecidas, muitas vezes incidimos nos mais estranhos erros, ou at falseamos a verdade do material que nos  apresentado.
          As provas disso so por demais conhecidas de todos para que haja qualquer necessidade de insistirmos nelas ainda mais. Em nossas leituras, passamos por 
cima de erros tipogrficos que destroem o sentido e temos a iluso de que o que estamos lendo  correto. Diz-se que o editor de um popular peridico francs apostou 
que mandaria o tipgrafo inserir as palavras "em frente" ou "atrs" em todas as frases de um longo artigo sem que um nicode seus leitores o notasse. Ganhou a aposta. 
H muitos anos, li num jornal um exemplo cmico de falsa ligao. Certa feita, durante uma sesso da Cmara francesa, uma bomba lanada por um anarquista explodiu 
no prprio recinto e Dupuy dominou o pnico subseqente com as corajosas palavras: "La sance continue". Os visitantes das galerias foram solicitados a dar suas 
impresses como testemunhas do atentado. Havia entre eles dois homens das provncias. Um deles disse ser verdade que ouvira uma detonao ao final de um dos discursos, 
mas presumira que fosse um costume parlamentar disparar um tiro sempre que um orador se sentava. O segundo, que provavelmente j tinha ouvido vrios discursos, chegara 
 mesma concluso, exceto pelo fato de supor que s se disparava um tiro em homenagem a algum discurso particularmente bem-sucedido.
          No h duvida, pois, de que nosso pensamento normal  que  a instncia psquica que aborda o contedo dos sonhos com a exigncia de que ele seja inteligvel, 
que o submete a uma primeira interpretao e que, conseqentemente, gera um completo desentendimento dele. [Ver em [1].] Para fins de nossa interpretao, persiste 
como regra essencial desconsiderar invariavelmente a aparente continuidade de um sonho como sendo de origem suspeita, e percorrer o mesmo caminho de volta ao material 
dos pensamentos onricos, quer o sonho em si seja claro ou confuso.
          Percebemos agora, alis, do que  que depende a escala de qualidade dos sonhos entre a confuso e a clareza, examinada em [1]. As partes do sonho em que 
a elaborao secundria conseguiu surtir algum efeito so claras, ao passo que as outras em que seus esforos falharam so confusas. Visto que as partes confusas 
do sonho, ao mesmo tempo, so freqentemente menos vvidas, podemos concluir que o trabalho secundrio do sonho tambm deve ser responsabilizado por uma contribuio 
 intensidade plstica dos diferentes elementos do sonho.
          Quando procuro algo com que comparar a forma final assumida pelo sonho, tal como aparece depois que o pensamento normal faz sua contribuio, no consigo 
pensar em nada melhor do que as inscries enigmticas com que o Fliegende Bltter vem h muito entretendo os seus leitores. Eles pretendem levar o leitor a crer 
que uma certa frase - para efeito de contraste, uma frase em dialeto e to chula quanto possvel -  uma inscrio latina. Para esse fim, as letras contidas nas 
palavras so separadas de sua combinao em slabas e dispostas numa nova ordem. Aqui e ali surge uma autntica palavra latina; em outros pontos, parecemos ver abreviaes 
de termos latinos, e ainda em outros pontos da inscrio, deixamo-nos ser levados a fazer vista grossa  falta de sentido das letras isoladas por partes da inscrio 
que parecem estar apagadas ou mostrando lacunas. Se quisermos evitar o engodo do chiste, teremos de desprezar tudo o que faa parecer uma inscrio, olhar firmemente 
para as letras, no prestar ateno a seu arranjo aparente e, desse modo, combin-las em palavras pertencentes a nossa prpria lngua materna.
          A elaborao secundria [1]  o nico fator do trabalho do sonho que tem sido observado pela maioria dos autores no assunto e cuja importncia tem sido 
apreciada. Havelock Ellis (1911, 10-11) fez uma exposio divertida do seu funcionamento: "Com efeito, podemos at imaginar a conscincia adormecida dizendo a si 
prpria: 'A vem nosso amo, a Conscincia de Viglia, que atribui to enorme importncia  razo e  lgica, e assim por diante. Rpido! apanhem as coisas, ponham-nas 
em ordem - qualquer ordem serve - antes que ele entre para tomar posse.'"
          A identidade entre seu mtodo de trabalho e o do pensamento de viglia foi enunciada com particular clareza por Delacroix (1904, 926): "Cette fonction 
d'interprtation n'est pas particulire au rve; c'est le mme travail de coordination logique que nous faisons sur nos sensations pendant la veille." James Sully 
[1893, 355-6]  da mesma opinio, assim como Tobowolska (1900,93): "Sur ces successions incohrentes d'hallucinations, l'esprit s'efforce de faire le mme travail 
de coordination logique qu'il fait pendant la veille sur les sensations. II relie entre elles par un lien imaginaire toutes ces images dcousues et bouche les carts 
trop grands qui se trouvaient entre elles."
          
          De acordo com alguns autores, esse processo de arranjo e interpretao se inicia durante o prprio sonho e continua aps o despertar. Assim, diz Paulhan 
(1894, 546): "Cependant j'ai souvent pens qu'il pouvait y avoir une certaine dformation, ou plutt rformation, du rve dans le souvenir ... La tendance systmatisante 
de l'imagination pourrait fort bien achever aprs le rveil ce qu'elle a bauch pendant le sommeil. De la sorte, la rapidit relle de la pense sarait augmente 
en apparenc par les perfectionnements ds  l'imagination veile."Bernard-Leroy e Tobowolska (1901, 592): "Dans le rve, au contraire, l'interprtation et la coordination 
se font non seulement  l'aide des donnes du rve, mais encore  l'aide de celles de la veille..."
          Inevitavelmente, portanto, esse nico fator reconhecido na formao dos sonhos teve sua importncia superestimada, de modo que a ele se atribuiu toda a 
proeza da criao dos sonhos. Esse ato de criao, como supem Goblot (1896, 288 e seg.) e mais ainda, Foucault (1906)  executado no momento do despertar, pois 
esses dois autores atribuem ao pensamento de viglia a capacidade de formar um sonho a partir dos pensamentos surgidos durante o sono. Bernard-Leroy e Tobowolska 
(1901) assim comentam essa concepo. "On a cru pouvoir placer le rve au moment du rveil, et ils ont attribu  la pense de la veille la fonction de construire 
le rve avec les images prsentes dans la pense du sommeil."
          Dessa discusso da elaborao secundria passarei ao exame de outro fator do trabalho do sonho recentemente trazido  luz por algumas observaes sutilmente 
perceptivas feitas por Herbert Silberer. Como mencionei antes (em [1]), Silberer apanhou em flagrante, por assim dizer, o processo de transformao dos pensamentos 
em imagens, impondo-se uma atividade intelectual em estados de fadiga e sonolncia. Nessas ocasies, o pensamento com que ele estava s voltas desaparecia e era 
substitudo por uma viso que se revelava um substituto do que, em geral, eram pensamentosabstratos. (Cf. os exemplos do trecho que acabo de citar.) Ora, acontece 
que, nesses experimentos, a imagem que surgia, e que poderia ser comparada a um elemento de um sonho, por vezes representava algo diverso do pensamento que estava 
sendo abordado- a saber, a prpria fadiga, a dificuldade e o desprazer frente a esse trabalho. Representava, em outras palavras, o estado subjetivo e o modo de funcionamento 
da pessoa que empreendia o esforo, em vez do objeto de seu empenho. Silberer descreveu tais ocorrncias, que eram muito freqentes em seu caso, como um "fenmeno 
funcional", em contraste com o "fenmeno material" que seria espervel.
          Por exemplo: "Uma tarde, estava deitado em meu sof, sentindo-me extremamente sonolento; mesmo assim, forcei-me a pensar num problema filosfico. Queria 
comparar as concepes de Kant e Schopenhauer sobre o Tempo. Como resultado de minha sonolncia, eu no conseguia manter os argumentos de ambos na mente ao mesmo 
tempo, o que era necessrio para estabelecer o confronto. Aps vrias tentativas inteis, gravei mais uma vez na mente as dedues de Kant, com toda a fora de minha 
vontade, para que pudesse aplic-las  formulao do problema por Schopenhauer. Voltei ento minha ateno para este ltimo, mas quando tentei retornar outra vez 
a Kant, verifiquei que sua tese me escapara de novo e tentei em vo capt-la novamente. Esse esforo intil de recuperar o dossier de Kant que estava armazenado 
em alguma parte de minha cabea foi subitamente representado perante meus olhos fechados como um smbolo concreto e plstico, como se fosse uma imagem onrica: "Eu 
pedia uma informao a um secretrio descorts que estava curvado sobre sua escrivaninha e se recusava a dar ouvidos a meu pedido insistente. Ele se aprumou um pouco 
e me lanou um olhar desagradvel e duro". (Silberer, 1909, 513 e seg. [O grifo  de Freud.])
          Eis alguns outros exemplos relacionados com a oscilao entre dormir e acordar:
          "Exemplo N. 2. - Circunstncias: Pela manh, ao despertar. Enquanto me achava em certo nvel de sono (um estado crepuscular), refletindo sobre um sonho 
anterior e, de certo modo, continuando a sonh-lo, senti-me chegar mais perto da conscincia da viglia, mas quis permanecer no estado crepuscular.
          "Cena: Ia dando um passo para atravessar um regato, mas recuei o p na mesma hora, com a inteno de permanecer deste lado." (Silberer, 1912, 625.)
          "Exemplo N. 6. - Circunstncias iguais  do exemplo N. 4" (em que ele queria ficar na cama um pouco mais, porm sem dormir at tarde). "Queria entregar-me 
ao sono mais um pouquinho."
          "Cena: Estava me despedindo de algum e combinava com ele (ou ela) encontr-lo (la) novamente dentro em breve." (Ibid., 627.)
          O fenmeno "funcional", "a representao de um estado em vez de um objeto", foi observado por Silberer principalmente nas condies de adormecimento e 
despertar.  evidente que a interpretao dos sonhos s se interessa pelo segundo caso. Silberer tem dado exemplos que revelam de modo convincente que, em muitos 
sonhos, as ltimas partes do contedo manifesto, que so imediatamente seguidas pelo despertar, representam nada mais, nada menos que uma inteno de acordar ou 
o processo de acordar. A representao pode ocorrer em termos de imagens como atravessar um umbral ("simbolismo do umbral"), sair de um quarto e entrar noutro, partir, 
voltar para casa, despedir-se de um companheiro, mergulhar n'gua etc. No posso, entretanto, deixar de observar que tenho deparado com elementos onricos passveis 
de ser relacionados com o simbolismo do umbral, seja em meus prprios sonhos, seja nos dos sujeitos a quem tenho analisado, com freqncia muito menor do que seria 
espervel pelas comunicaes de Silberer.
          De modo algum  inconcebvel ou improvvel que esse simbolismo do umbral venha a lanar luz sobre alguns elementos situados no meio da trama dos sonhos 
- nos lugares, por exemplo, onde h uma questo de oscilaes na profundidade do sono e de uma inclinao para interromper o sonho. No se apresentaram, porm, exemplos 
convincentes disso. O que parece ocorrer com mais freqncia so os casos de sobredeterminao, nos quais parte de um sonho que tenha derivado seu contedo material 
da interconexo dos pensamentos onricos  empregada para representar, alm disso, algum estado de atividade mental.
          Esse interessantssimo fenmeno funcional de Silberer, sem nenhuma culpa de seu descobridor, tem levado a muitos abusos, pois tem sido encarado como um 
apoio  antiga inclinao a se darem interpretaes abstratas e simblicas aos sonhos. A preferncia pela "categoria funcional"  levada a tal ponto por certas pessoas 
que elas se referem ao fenmeno funcional onde quer que ocorram atividades intelectuais ou processos afetivos nos pensamentos onricos, embora esse material no 
tenha nem mais nem menosdireito do qualquer outro a penetrar num sonho na qualidade de resto diurno. [Cf. [1] e [2].]
          Estamos prontos a reconhecer o fato de que os fenmenos de Silberer constituem uma segunda contribuio do pensamento de viglia  formao dos sonhos, 
embora esteja presente com menos regularidade e seja menos significativo do que o primeiro, j introduzido sob a designao de "elaborao secundria". Mostrou-se 
que parte da ateno que atua durante o dia continua a ser orientada para os sonhos durante o estado de sono, que os controla e critica e se reserva o poder de interromp-los. 
Pareceu plausvel reconhecer na instncia anmica que assim permanece desperta o censor a quem tivemos de atribuir to poderosa influncia restritiva sobre a forma 
assumida pelos sonhos. O que as observaes de Silberer acrescentaram a isso foi o fato de que, em certas circunstncias, uma espcie de auto-observao participa 
disso e presta uma contribuio ao contedo do sonho. As relaes provveis dessa instncia auto-observadora, que talvez seja particularmente acentuada nas mentes 
filosficas, com a percepo endopsquica, os delrios de observao, a conscincia e o censor de sonhos podero ser mais apropriadamente tratadas em outro lugar.
          Tentarei agora resumir esta longa exposio sobre o trabalho do sonho. Havamos deparado com a questo de saber se a alma emprega irrestritamente todas 
as suas faculdades na formao dos sonhos, ou apenas um fragmento funcionalmente restrito delas. Nossas investigaes levaram-nos a rejeitar por completo essa forma 
de colocar a questo, como sendo inadequada s circunstncias. Entretanto, se tivssemos de responder  pergunta com base nos termos em que foi formulada, seramos 
obrigados a responder afirmativamente a ambas as alternativas, ainda que paream mutuamente exclusivas.  possvel distinguir duas funes isoladas na atividade 
anmica durante a formao do sonho: a produo dos pensamentos onricos e sua transformao no contedo do sonho. Os pensamentos onricos so inteiramente racionais 
e formados com o dispndio de toda a energia psquica de que somos capazes. Situam-se entre processos de pensamento que no se tornaram conscientes - processos dos 
quais, aps alguma modificao,tambm brotam nossos pensamentos conscientes. Por muitas que sejam as questes interessantes e enigmticas envolvidas nos pensamentos 
onricos, tais questes no tm, afinal, nenhuma relao especial com os sonhos e no precisam ser tratadas entre os problemas destes. Por outro lado, a segunda 
funo da atividade anmica na formao do sonho - a transformao dos pensamentos inconscientes no contedo do sonho -  peculiar  vida onrica e dela caracterstica. 
Esse trabalho do sonho, propriamente dito, diverge ainda mais de nossa viso do pensamento de viglia do que tem sido suposto at pelo mais obstinado depreciador 
do funcionamento psquico durante a formao dos sonhos. O trabalho do sonho no  apenas mais descuidado, mais irracional, mais esquecido e mais incompleto do que 
o pensamento de viglia;  inteiramente diferente deste em termos qualitativos e, por essa razo, no , em princpio, comparvel com ele. No pensa, no calcula 
e nem julga de nenhum modo; restringe-se a dar s coisas uma nova forma.  exaustivamente descritvel mediante a enumerao das condies que tem de satisfazer ao 
produzir seu resultado. Esse produto, o sonho, tem, acima de tudo, de escapar  censura, e com esse propsito em vista, o trabalho do sonho se serve do deslocamento 
das intensidades psquicas a ponto de chegar a uma transmutao de todos os valores psquicos. Os pensamentos tm de ser reproduzidos, exclusiva ou predominantemente, 
no material dos traos mnmicos visuais e acsticos, e essa necessidade impe ao trabalho do sonho uma considerao  representabilidade, que ela atende efetuando 
novos deslocamentos.  provvel que se tenham de produzir intensidades maioresdo que as disponveis nos pensamentos onricos durante a noite, e para essa finalidade 
serve a ampla condensao efetuada com os componentes dos pensamentos onricos. Pouca ateno  dada s relaes lgicas entre os pensamentos; estas recebem, em 
ltima anlise, uma representao disfarada em certas caractersticas formais dos sonhos. Qualquer afeto ligado aos pensamentos onricos sofre menos modificao 
do que seu contedo de representaes. Tais afetos, via de regra, so suprimidos; quando retidos, so desligados das representaes a que pertencem propriamente, 
sendo reunidos os afetos de carter semelhante. Apenas uma nica parcela do trabalho do sonho, e uma parcela que atua em grau irregular - a reelaborao do material 
pelo pensamento de viglia parcialmente desperto -, ajusta-se em certa medida  viso que outros autores procuraram aplicar a toda a atividade da formao do sonho. 
[1] 
          
        Captulo VII - A PSICOLOGIA DOS PROCESSOS ONRICOS
          
          Entre os sonhos que me foram comunicados por outras pessoas h um que merece especialmente nossa ateno neste ponto. Foi-me contado por uma paciente que 
dele tomou conhecimento numa conferncia sobre os sonhos: sua origem real ainda me  desconhecida. Seu contedo impressionou essa dama, contudo, e ela tratou de 
"ressonh-lo", ou seja, de repetir alguns de seus elementos num sonho dela prpria, de tal modo que, assim se apoderando dele, pudesse expressar sua concordncia 
com ele num determinado ponto.
          As condies preliminares desse sonho-padro foram as seguintes: um pai estivera de viglia  cabeceira do leito de seu filho enfermo por dias e noites 
a fio. Aps a morte do menino, ele foi para o quarto contguo para descansar, mas deixou a porta aberta, de maneira a poder enxergar de seu quarto o aposento em 
que jazia o corpo do filho, com velas altas a seu redor. Um velho fora encarregado de vel-lo e se sentou ao lado do corpo, murmurando preces. Aps algumas horas 
de sono, o pai sonhou que seu filho estava de p junto a sua cama, que o tomou pelo brao e lhe sussurou em tom de censura: "Pai, no vs que estou queimando?" Ele 
acordou, notou um claro intenso no quarto contguo, correu at l e constatou que o velho vigia cara no sono e que a mortalha e um dos braos do cadver de seu 
amado filho tinham sido queimados por uma vela acesa que tombara sobre eles.
          A explicao desse sonho comovente  bem simples e, segundo me disse minha paciente, foi corretamente fornecida pelo conferencista. O claro de luz chegou 
pela porta aberta aos olhos do homem adormecido e o levou  concluso a que teria chegado se tivesse acordado, ou seja, que uma vela cada havia ateado fogo em alguma 
coisa nas proximidades do corpo.  possvel at que, ao dormir, ele sentisse uma certa preocupao de que o velho no fosse capaz de cumprir sua tarefa.
          No  que eu tenha qualquer modificao a sugerir nessa interpretao, salvo para acrescentar que o contedo do sonho deve ter sido sobredeterminado e 
que as palavras proferidas pelo menino devem ter sido compostas deexpresses que ele realmente proferira em vida e que estavam ligadas a acontecimentos importantes 
no esprito do pai. Por exemplo, "Estou queimando" pode ter sido dito em meio  febre da doena fatal da criana e "Pai no vs?" talvez tenha derivado de alguma 
outra situao altamente carregada de afeto que nos  desconhecida.
          Entretanto, depois de reconhecermos que o sonho foi um processo dotado de sentido e passvel de ser inserido na cadeia de experincias psquicas do sonhador, 
podemos ainda conjeturar por que teria um sonho ocorrido em tais circunstncias, quando se fazia necessrio o mais rpido despertar possvel. E aqui observaremos 
que tambm esse sonho abrigou a realizao de um desejo. O filho morto comportou-se no sonho como vivo; ele prprio advertiu o pai, veio at sua cama e o segurou 
pelo brao, tal como provavelmente fizera na ocasio de cuja lembrana se originou a primeira parte das palavras da criana no sonho. Em nome da realizao desse 
desejo, o pai prolongou seu sono por um momento. O sonho foi preferido a uma reflexo desperta, porque podia mostrar o menino vivo outra vez. Se o pai tivesse primeiro 
acordado, e depois feito a inferncia que o levou a ir at o quarto contguo, teria, por assim dizer, abreviado a vida de seu filho por esse breve lapso de tempo.
          No h dvida sobre qual  a peculiaridade que atrai nosso interesse para esse curto sonho. At aqui, estivemos principalmente interessados no sentido 
secreto dos sonhos e no mtodo para descobri-lo, bem como nos meios empregados pelo trabalho do sonho para ocult-lo. Os problemas da interpretao do sonho ocuparam 
at aqui o centro da descrio. E agora esbarramos num sonho que no levanta problemas de interpretao e cujo sentido  bvio, mas que, no obstante, como vimos, 
preserva as caractersticas essenciais que diferenciam to notavelmente os sonhos da vida de viglia e, por conseguinte, requerem explicao. S depois de havermos 
resolvido tudo o que diz respeito ao trabalho de interpretao  que poderemos comear a nos aperceber de quo incompleta  nossa psicologia dos sonhos.
          Entretanto, antes de partirmos por esse novo caminho, ser bom fazermos uma pausa e olharmos em torno, para ver se, no curso de nossa jornada at este 
ponto, no teremos desprezado algo importante.  que deve ficar claramente entendido que a parte fcil e agradvel de nossa viagem ficou para trs. At aqui, a menos 
que eu esteja muito equivocado, todos os caminhos por onde viajamos nos conduziram  luz - ao esclarecimento e a uma compreenso mais completa. Contudo, mal nos 
empenhamos em penetrar mais a fundo nos processos anmicos envolvidos no ato de sonhar, todos os caminhos terminam na escurido. No h possibilidade de explicaros 
sonhos como um processo psquico, uma vez que explicar algo significa faz-lo remontar a alguma coisa j conhecida, e no h, no momento, nenhum conhecimento psicolgico 
estabelecido a que possamos subordinar aquilo que o exame psicolgico dos sonhos nos habilita a inferir como base de sua explicao. Pelo contrrio, seremos obrigados 
a formular diversas novas hipteses que toquem provisoriamente na estrutura do aparelho psquico e no jogo das foras que nele atuam. Precisamos, porm, ter o cuidado 
de no levar essas hipteses muito alm de suas primeiras articulaes lgicas, ou seu valor se perder em incertezas. Ainda que no faamos inferncias falsas e 
levemos em conta todas as possibilidades lgicas, a provvel imperfeio de nossas premissas ameaa levar nossos clculos a um completo malogro. Nem mesmo partindo 
da mais minuciosa investigao dos sonhos ou de qualquer outra funo psquica, tomada isoladamente,  possvel chegar a concluses sobre a construo e os mtodos 
de funcionamento do instrumento anmico, ou, pelo menos, prov-las integralmente. Para chegar a esse resultado, ser necessrio correlacionar todas as implicaes 
j estabelecidas, derivadas de um estudo comparativo de toda uma srie de funes. Portanto, as hipteses psicolgicas a que formos levados por uma anlise dos processos 
onricos devero ficar em suspenso, por assim dizer, at que possam ser relacionadas com os resultados de outras investigaes que busquem chegar ao mago do mesmo 
problema a partir de outro ngulo de abordagem.
          
          (A) O ESQUECIMENTO DOS SONHOS
          
          Sugiro, por conseguinte, que nos voltemos primeiro para um tema que levanta uma dificuldade at agora no considerada, mas que, no obstante,  capaz de 
jogar por terra todos os nossos esforos de interpretao dos sonhos. J se objetou, em mais de uma ocasio, que de fato no temos nenhum conhecimento dos sonhos 
que nos dispomos a interpretar ou, falando mais corretamente, que no temos nenhuma garantia de conhec-los tal como realmente ocorreram. [Ver em [1]]
          Em primeiro lugar, o que lembramos de um sonho, aquilo em que exercemos nossa arte interpretativa, j foi mutilado pela infidelidade de nossa memria, 
que parece singularmente incapaz de reter um sonho e bem pode ter perdido exatamente as partes mais importantes de seu contedo.  muito freqente, ao procurarmos 
voltar a ateno para um de nossos sonhos, descobrirmos-nos lamentando o fato de que, embora tenhamos sonhado mais, no conseguimos recordar nada alm de um nico 
fragmento, ele prprio relembrado com peculiar incerteza.
          Em segundo lugar, temos todas as razes para suspeitar de que nossa lembrana dos sonhos  no apenas fragmentada, mas positivamente inexata e falseada. 
Por um lado, podemos duvidar de se o que sonhamos foi realmente to desconexo e nebuloso quanto  nossa lembrana dele e, por outro, tambm se pode pr em dvida 
se um sonho foi realmente to coerente quanto o  no relato que dele fornecemos; se, na tentativa de reproduzi-lo, no preenchemos com material novo e arbitrariamente 
escolhido o que nunca esteve l ou o que foi esquecido; se no lhe acrescentamos adornos e acabamentos, e o arredondamos de tal maneira que no h possibilidade 
de determinar qual pode ter sido seu contedo original. Na verdade, um autor, Spitta (1882, [338]), chega a ponto de sugerir que, se o sonho mostra qualquer tipo 
de ordem ou coerncia, tais qualidades s so introduzidas nele ao tentarmos evoc-lo. [Ver em [1].] Assim, parece haver um risco de que a prpria coisa cujo valor 
nos propusemos determinar escape-nos completamente por entre os dedos.
          
          At aqui, ao interpretarmos os sonhos, temos desconsiderado tais advertncias. Ao contrrio, aceitamos como igualmente importante interpretar tanto os 
componentes mais nfimos, menos destacados e mais incertos do contedo dos sonhos quanto os que so preservados com mais nitidez e certeza. O sonho da injeo de 
Irma continha a frase "Chamei imediatamente o Dr. M." [em [1]] e presumimos que nem mesmo esse detalhe teria penetrado no sonho, a menos que tivesse uma origem especfica. 
Foi assim que chegamos  histria da infortunada paciente a cuja cabeceira eu havia "imediatamente" chamado meu colega mais experimentado. No sonho aparentemente 
absurdo que tratou a diferena entre 51 e 56 como um valor desprezvel, o nmero 51 foi mencionado diversas vezes. [Ver em [1].] Em vez de encarar isso como uma 
coisa banal ou indiferente, inferimos da que havia uma segunda linha de pensamentos no contedo latente do sonho, levando ao nmero 51; e por essa trilha chegamos 
a meus temores de que 51 anos fossem o limite de minha vida, em flagrante contraste com a cadeia de pensamentos dominante no sonho, que era prdiga em seu alarde 
de uma vida longa. No sonho do "Non vixit" [em [1]], houve uma interpolao discreta que a princpio me passou despercebida: "Como P. no conseguisse entend-lo, 
Fl. me perguntou", etc. Quando a interpretao estancou, retornei a essas palavras e foram elas que me levaram  fantasia infantil que se revelou um ponto nodal 
intermedirio nos pensamentos onricos. [Ver em [1]] Chegou-se a isso atravs dos versos:
          
          Selten habt ihr mich verstanden,
          Selten auch verstand ich Euch,
          Nur wenn wir im Kot uns fander,
          So verstanden wir uns gleich.
          
          Em toda anlise se poderiam encontrar exemplos para mostrar que precisamente os elementos mais triviais de um sonho so indispensveis a sua interpretao 
e que o trabalho em andamento  interrompido quando se tarda a prestar ateno a esses elementos. Ao interpretar sonhos, atribumos idntica importncia a cada um 
dos matizes de expresso lingstica em que eles nos foram apresentados. E mesmo quando o texto do sonho, tal como o tnhamos, era sem sentido ou insuficiente - 
como se o esforo de fornecer dele um relato correto tivesse fracassado - levamos tambm essa falha em considerao. Em suma, tratamos como Sagrada Escritura aquilo 
que os autores precedentes haviam encarado como uma improvisao arbitrria, remendada s pressas no embarao do momento. Essa contradio requer uma explicao.
          A explicao nos  favorvel, embora sem tirar a razo dos outros autores.  luz de nosso recm-adquirido entendimento da origem dos sonhos, a contradio 
desaparece por completo.  verdade que distorcemos os sonhos ao tentar reproduzi-los; a reencontramos em ao o processo que descrevemos como a elaborao secundria 
(e muitas vezes mal formulada) do sonho pela instncia encarregada do pensamento normal [em [1]]. Mas essa mesma distoro no passa de uma parte da elaborao a 
que os pensamentos onricos so regularmente submetidos em decorrncia da censura do sonho. Os outros autores notaram ou suspeitaram aqui do papel de distoro do 
sonho que atua de maneira ostensiva; quanto a ns, estamos menos interessados nisso, pois sabemos que um processo de distoro muito mais extenso, embora menos bvio, 
j fez o sonho brotar dos pensamentos onricos ocultos. O nico erro cometido pelos autores precedentes foi supor que a modificao do sonho, no processo de ser 
lembrado e posto em palavras,  arbitrria e no admite maior anlise, sendo, portanto, passvel de nos fornecer uma imagem enganosa do sonho. Eles subestimaram 
a extenso do determinismo nos eventos psquicos. No h neles nada de arbitrrio. De modo bastante geral, pode-se demonstrar que, se um elemento deixa de ser determinado 
por certa cadeia de pensamentos, sua determinao  imediatamente comandada por outra. Por exemplo, posso tentar pensar arbitrariamente num nmero, mas isso  impossvel: 
o nmero que me ocorre  inequvoca e necessariamente determinado por pensamentos que haja em mim, ainda que estejam distantes de minha inteno imediata. Do mesmo 
modo, as modificaes a que os sonhos so submetidos na redao [Redaktion] da vida de viglia tampouco so arbitrrias. Esto associativamente ligadas ao material 
que substituem e servem para indicar-nos o caminho para esse material, que, por sua vez, pode ser substituto de alguma outra coisa.
          Ao analisar os sonhos de meus pacientes, s vezes submeto essa assero ao seguinte teste, que nunca me falhou: quando o primeiro relato que me  feito 
de um sonho por um paciente  muito difcil de compreender, peo-lhe que o repita. Ao fazer isso, ele raramente emprega as mesmas palavras. Entretanto, as partes 
do sonho que ele descreve em termos diferentes so-me reveladas, por esse fato, como o ponto fraco do disfarce do sonho: servem para mim como serviu para Hagen o 
sinal bordado no manto de Siegfried.  esse o ponto por onde se pode iniciar a interpretao do sonho. Minha solicitao de que o paciente repetisse seu relato do 
sonho advertiu-o de que eu tinha o propsito de me empenhar particularmente em solucion-lo; assim, sob a presso da resistncia, ele encobre s pressas os pontos 
fracos do disfarce do sonho, substituindo quaisquer expresses que ameacem trair seu sentido por outras menos reveladoras. Desse modo, atrai minha ateno para a 
expresso que abandonou. O empenho do sonhador em impedir a soluo do sonho fornece-nos uma base para inferir o cuidado com que seu manto foi tecido.
          Menos justificativa tiveram os autores precedentes para devotar tanto espao  dvida com que nosso juzo recebe os relatos de sonhos.  que essa dvida 
no tem nenhuma justificativa intelectual. Em geral, no h garantia de exatido de nossa memria, mas, mesmo assim, cedemos  compulso de dar crdito a seus dados 
com muito mais freqncia do que seria obviamente justificado. A dvida sobre a exatido do relato de um sonho ou de certos pormenores dele  tambm um derivado 
da censura onrica, da resistncia  irrupo dos pensamentos onricos na conscincia. Essa resistncia no se esgotou nem mesmo com os deslocamentos e substituies 
que ocasionou; persiste sob a forma de uma dvida ligada ao material que foi admitido [na conscincia]. Ficamos especialmente inclinados a interpretar mal essa dvida 
na medida em que ela tem o cuidado de nunca atacar os elementos mais intensos do sonho, mas apenas os fracos e indistintos. Como j sabemos,porm, uma completa transmutao 
de todos os valores psquicos se d entre os pensamentos onricos e o sonho [em [1]]. A distoro s  possibilitada pela retirada do valor psquico; habitualmente, 
ela se expressa por esse meio e s vezes se contenta em no pedir mais nada. Assim, quando um elemento indistinto do contedo do sonho , alm disso, atacado pela 
dvida, temos a uma indicao segura de estarmos lidando com um derivado mais ou menos direto de um dos pensamentos onricos proscritos. O estado de coisas  como 
o que se instaurava aps uma grande revoluo numa das repblicas da Antigidade ou da Renascena. As famlias nobres e poderosas que antes haviam dominado o cenrio 
eram mandadas para o exlio e todos os altos postos eram ocupados por recm-chegados. Apenas os membros mais empobrecidos e impotentes das famlias derrotadas ou 
seus dependentes distantes tinham permisso de permanecer na cidade e, mesmo assim, no desfrutavam de plenos direitos civis e eram encarados com desconfiana. A 
desconfiana, nessa analogia, corresponde  dvida no caso que estamos considerando.  por isso que, ao analisar um sonho, insisto em que toda a escala de estimativas 
de certeza seja abandonada e que a mais nfima possibilidade de que possa ter ocorrido no sonho algo de tal ou qual natureza seja tratada como uma certeza completa. 
Ao rastrear a origem de qualquer elemento do sonho, descobrir-se- que, a menos que essa atitude seja firmemente adotada, a anlise chegar a uma paralisao. Quando 
se lana qualquer dvida sobre o valor do elemento em questo, o resultado psquico, no paciente,  que no lhe ocorre nenhuma das representaes involuntrias subjacentes 
a esse elemento. Esse resultado no  evidente por si s. No seria absurdo que algum dissesse: "No sei ao certo se tal ou qual coisa entrou no sonho, mas eis 
o que me ocorre a respeito". De fato, porm, ningum jamais diz isso, e  precisamente o fato de a dvida produzir esse efeito de interrupo na anlise que a revela 
como um derivado e um instrumento da resistncia psquica. A psicanlise  justificadamente desconfiada. Uma de suas regras  que tudo o que interrompe o progresso 
do trabalho analtico  uma resistncia.
          
          Tambm o esquecimento dos sonhos permanece inexplicvel enquanto no se leva em considerao o poder da censura psquica. Em diversos casos, a sensao 
de se haver sonhado muito durante a noite e de se haver retido apenas uma pequena parcela disso pode, na realidade, ter outro sentido: por exemplo, o de que o trabalho 
do sonho esteve perceptivelmente ativo a noite inteira, mas s deixou atrs de si um sonho curto. [Ver em [1], [2] e [3].] Decerto  indubitvel que nos esquecemos 
cada vez mais dos sonhos  medida que o tempo passa aps o despertar; muitas vezes os esquecemos apesar dos mais esmerados esforos de relembr-los. Entretanto, 
sou de opinio que a extenso desse esquecimento costuma ser superestimada; e de maneira similar se superestima o grau em que as lacunas do sonho limitam nosso conhecimento 
dele. Com freqncia, se pode resgatar, por meio da anlise, tudo o que foi perdido pelo esquecimento do contedo do sonho; pelo menos, num nmero bastante grande 
de casos, pode-se reconstruir, a partir de um nico fragmento remanescente, no o sonho,  verdade - o que, de qualquer modo, no tem nenhuma importncia -, mas 
todos os pensamentos onricos. Isso exige certa dose de ateno e autodicisplina na conduo da anlise; isto  tudo - mas mostra que no faltou a atuao de um 
propsito hostil [isto , resistente] no esquecimento do sonho. [1]
          
          Uma prova convincente do fato de que o esquecimento dos sonhos  tendencioso e serve aos propsitos da resistncia  fornecida quando se tem a possibilidade 
de observar, nas anlises, um estgio preliminar de esquecimento. No  infreqente que, no meio do trabalho de interpretao, uma parte omitida do sonho venha  
luz e seja descrita como tendo sido esquecida at ento. Ora, uma parte do sonho assim resgatada do esquecimento , invariavelmente, a mais importante; situa-se 
sempre no caminho mais curto para a soluo do sonho e por isso foi mais exposta  resistncia do que qualquer outra parte. Entre os exemplos de sonhos dispersos 
neste volume, h um em que parte do contedo foi assim acrescentada como uma reflexo posterior. Trata-se do sonho em que me vinguei de dois desagradveis companheiros 
de viagem e que tive de deixar quase sem interpretao por ser grosseiramente indecente. [Ver em [1]] A poro omitida era a seguinte: "Eu disse [em ingls], referindo-me 
a uma das obras de Schiller: 'It is from...', mas, notando o engano, corrigi-me: 'It is by...' 'Sim', comentou o homem com sua irm, 'ele disse isso corretamente." 
'
          
          As autocorrees nos sonhos, que parecem to maravilhosas a certos autores, no precisam ocupar nossa ateno. Indicarei, em vez disso, a lembrana que 
serviu de modelo para meu erro verbal nesse sonho. Quando tinha dezenove anos, visitei a Inglaterra pela primeira vez e passei um dia inteiro nas praias do Mar da 
Irlanda. Naturalmente, regalei-me com a oportunidade de recolher animais marinhos deixados para trs pela mar e estava ocupado com uma estrela-do-mar - as palavras 
"Hollthurn" e "holotria'' [lesma-do-mar] ocorreram no incio do sonho - quando uma encantadora garotinha aproximou-se de mim e perguntou: " uma estrela-do-mar? 
Est viva?" [It is alive] "Sim", respondi, "est viva" [he is alive]" e, em seguida, embaraado com meu erro, repeti a frase corretamente. O sonho substituiu o erro 
verbal ento cometido por outro em que um alemo est igualmente sujeito a incorrer: "Das Buch ist von Schiller" deveria ser traduzido no por "from", mas por "by". 
Aps tudo o que j aprendemos sobre os propsitos do trabalho do sonho e sua escolha afoita de mtodos para atingi-los, no ficaremos surpresos em saber que ele 
efetuou essa substituio por causa do magnfico exemplo de condensao possibilitado pela identidade fontica entre o ingls "from" e o adjetivo alemo "fromm" 
["devoto", "beatfico"]. Mas como foi que minha inocente lembrana da beira-mar entrou no sonho? Ela funcionou como o exemplo mais inocente possvel de meu emprego 
de uma palavra indicativa de gnero ou sexo no lugar errado - de eu trazer  baila o sexo (a palavra "he") onde ele no era cabvel. Essa, alis, foi uma das chaves 
para a soluo do sonho. Ademais, ningum que tenha conhecimento da origem atribuda ao ttulo "Matter and Motion" ["Matria e Movimento"], de Clerk Maxwell [mencionado 
no sonho, em [1]] ter qualquer dificuldade em preencher as lacunas: "Le Malade Imaginaire", de "Molire - "La matire est-elle laudable?" - Movimento dos intestinos.
          Alm disso, estou em condies de oferecer uma demonstrao ocular do fato de que o esquecimento dos sonhos, em grande parte,  produto da resistncia. 
Vem um de meus pacientes e me conta que teve um sonho, masesqueceu todo e qualquer vestgio dele: portanto,  como se nunca tivesse acontecido. Prosseguimos com 
nosso trabalho. Deparo com uma resistncia; por isso, explico algo ao paciente e o auxilio, atravs do incentivo e da presso, a chegar a um acordo com algum pensamento 
desagradvel. Mal consigo fazer isso, ele exclama: "Agora me lembro do que foi que sonhei!" A mesma resistncia que estava interferindo em nosso trabalho desse dia 
tambm o fizera esquecer o sonho. Superando essa resistncia, resgatei o sonho para sua memria.
          Exatamente da mesma maneira, quando um paciente atinge determinado ponto em seu trabalho,  possvel que consiga lembrar-se de um sonho ocorrido h trs 
ou quatro dias, ou at mais, e que at ento permanecera esquecido.
          A experincia psicanaltica  forneceu-nos ainda outra prova de que o esquecimento dos sonhos depende muito mais da resistncia que do fato, acentuado pelas 
autoridades, de serem os estados de viglia e sono estranhos um ao outro [em [1]]. No raro me acontece, tal como a outros analistas e a pacientes em tratamento, 
depois de ser despertado por um sonho, por assim dizer, passar imediatamente, e em plena posse de minhas faculdades intelectuais, a interpret-lo. Nessas situaes, 
muitas vezes me recusei a descansar enquanto no chegasse a uma compreenso completa do sonho; contudo, foi minha experincia, algumas vezes, depois de finalmente 
acordar pela manh, constatar que havia esquecido inteiramente tanto minha atividade interpretativa quanto o contedo do sonho, embora sabendo que tivera um sonho 
e que o interpretara.  muito mais freqente o sonho arrastar consigo para o esquecimento os resultados de minha atividade interpretativa do que minha atividade 
intelectual conseguir preserv-lo na memria. No obstante, no existe entre minha atividade interpretativa e meus pensamentos de viglia o abismo psquico que as 
autoridades supem para explicar o esquecimento dos sonhos.
          Morton Prince (1910 [141]) levantou objees a minha explicao do esquecimento dos sonhos, mediante a alegao de que o esquecimento  apenas um caso 
particular da amnsia ligada aos estadosmentais dissociados, de que  impossvel estender minha explicao dessa amnsia especial a outros tipos e de que, por conseguinte, 
minha explicao  destituda de valor at mesmo para seu propsito imediato. Seus leitores so assim lembrados de que, ao longo de todas as descries que faz desses 
estados dissociados, ele nunca tentou descobrir uma explicao dinmica para tais fenmenos. Se o tivesse feito, teria inevitavelmente descoberto que o recalque 
(ou, mais precisamente, a resistncia criada por ele)  a causa tanto das dissociaes quanto da amnsia ligada ao contedo psquico destas.
          Uma observao que pude fazer durante a preparao deste manuscrito mostrou-me que os sonhos no so mais esquecidos do que outros atos mentais e podem 
ser comparados, sem nenhuma desvantagem, com outras funes mentais, no que concerne a sua reteno na memria. Eu havia conservado registros de um grande nmero 
dos meus prprios sonhos que, por uma razo ou outra, no pudera interpretar por completo na poca ou deixara inteiramente sem interpretao. E agora, passados um 
a dois anos, tentei interpretar alguns deles com a inteno de obter mais material para ilustrar meus pontos de vista. Essas tentativas tiveram xito na totalidade 
dos casos; a rigor, pode-se dizer que a interpretao progrediu com mais facilidade aps esse longo intervalo do que na poca em que o sonho era uma experincia 
recente. Uma possvel explicao disso  que, entrementes, superei algumas das resistncias internas que antes me obstruam. Ao fazer essas interpretaes posteriores, 
comparei os pensamentos onricos que evocara na poca do sonho com a produo atual, geralmente muito mais abundante, e constatei que os antigos estavam sempre includos 
entre os novos. Meu assombro diante disso foi prontamente sustado pela considerao de que, desde longa data, desenvolvi o hbito de fazer com que meus pacientes, 
que s vezes me contam sonhos de anos anteriores, interpretem-nos - pelo mesmo procedimento e com o mesmo sucesso - como se os houvessem sonhado na noite anterior. 
Quando chegar  discusso dos sonhos de angstia, apresentarei dois exemplos dessas interpretaes adiadas. [Ver em [1]] Fui levado a fazer minha primeira experincia 
dessa natureza pela justificvel expectativa de que nisso, como em outros aspectos, os sonhos se comportariam como sintomas neurticos. Quando trato um psiconeurtico 
- um histrico, digamos - pela psicanlise, sou forado a chegar a uma explicao tanto dos sintomas mais primitivos e h muito desaparecidos de sua doena quanto 
dos sintomas contemporneos que o trouxeram a mim para tratamento; e, a rigor, considero o problema primitivo mais fcil de solucionar do que o imediato. J em 1895, 
foi-me possvel dar uma explicao, nos Estudos sobre a Histeria [Breuer e Freud, 1895], do primeiro ataque histrico que uma mulher com mais de quarenta anos tivera 
aos quinze anos de idade. [Essa paciente era a Sra. Ccilie M., mencionada ao final do Caso Clnico V.]
          E quero aqui mencionar alguns outros pontos um tanto desconexos sobre a questo da interpretao dos sonhos, que talvez ajudem a orientar os leitores que 
se sintam porventura inclinados a conferir minhas afirmaes mediante um trabalho posterior com seus prprios sonhos.
          Ningum deve esperar que uma interpretao de seus sonhos lhe caia no colo como um man dos cus. A prtica  necessria at mesmo para perceber fenmenos 
endpticos ou outras sensaes de que nossa ateno est normalmente afastada; e isso ocorre apesar de no haver nenhum motivo psquico lutando contra tais percepes. 
 decididamente mais difcil captar as "representaes involuntrias". Quem quer que procure faz-lo deve familiarizar-se com as expectativas levantadas nesta obra 
e, de acordo com as regras nela estabelecidas, esforar-se, durante o trabalho, por se abster de qualquer crtica, qualquer parti pris e qualquer inclinao afetiva 
ou intelectual. Deve ter em mente o conselho de Claude Bernard aos experimentadores de um laboratrio de fisiologia: "travailler comme une bte" - isto , trabalhar 
com a mesma persistncia de um animal e com idntica despreocupao com o resultado. Se esse conselho for seguido, j no ser difcil a tarefa.
          Nem sempre se pode consumar a interpretao de um sonho de uma s vez. Depois de seguirmos uma cadeia de associaes, no raro sentimos esgotada nossa 
capacidade; nada mais se pode saber do sonho nesse dia. O mais aconselhvel, nesse caso,  interromper o trabalho e retom-lo em outro dia: outra parte do contedo 
do sonho poder ento atrair nossa ateno e dar-nos acesso a outra camada dos pensamentos onricos. Esse procedimento poderia ser descrito como interpretao "fracionada" 
do sonho.
          
          S com extrema dificuldade  que o principiante na tarefa de interpretar sonhos se deixa persuadir de que sua tarefa no chega ao fim quando ele tem nas 
mos uma interpretao completa - uma interpretao que faz sentido,  coerente e esclarece todos os elementos do contedo do sonho.  que um mesmo sonho pode ter 
tambm outra interpretao, uma "superinterpretao" que lhe escapou. De fato, no  fcil ter uma concepo da abundncia das cadeias inconscientes de pensamento 
ativas em nosso psiquismo, todas lutando por encontrar expresso. Tampouco  fcil dar crdito  percia exibida pelo trabalho do sonho na descoberta permanente 
de formas de expresso capazes de abrigar diversos sentidos - como o Alfaiatezinho do conto de fadas que acertou sete moscas com um s golpe. Meus leitores estaro 
sempre inclinados a me acusar de introduzir uma quantidade desnecessria de engenhosidade em minhas interpretaes; mas a experincia real lhes ensinaria que no 
 bem assim. [Ver em [1].]
          Por outro lado, [1] no posso confirmar a opinio, originalmente formulada por Silberer [p. ex., 1914, Parte II, Seo 5], de que todos os sonhos (ou muitos 
sonhos, ou certas classes de sonhos) requerem duas interpretaes diferentes, que se afirma at mesmo possurem uma relao fixa entre si. Afirma-se que uma dessas 
interpretaes, que Silberer chama de "psicanaltica", d ao sonho um ou outro sentido, geralmente de cunho infantil-sexual; quanto  outra interpretao, mais importante, 
a que ele d o nome de "anaggica", diz-se que revela os pensamentos mais srios, muitas vezes de implicaes profundas, que o trabalho do sonho tomou como material. 
Silberer no forneceu provas confirmadoras dessa opinio atravs do relato de uma srie de sonhos analisados nessas duas direes. E tenho de objetar que inexiste 
o fato alegado. A despeito do que ele diz, a maioria dos sonhos no requer ''superinterpretao" e, mais particularmente,  insuscetvel  interpretao "anaggica". 
Tal como ocorre com muitas outras teorias formuladas em anos recentes,  impossvel desprezar o fato de que as opinies de Silberer so influenciadas, at certo 
ponto, por uma tendncia que visa a disfarar as circunstncias fundamentais em que se formam os sonhos e desviar o interesse de suas razes pulsionais. Em certo 
nmero de casos, pude corroborar as afirmaes de Silberer. A anlise demonstrou que, em tais casos, o trabalho do sonho viu-se diante do problema de transformar 
em sonho uma srie de pensamentos altamente abstratos da vida de viglia, insuscetveis a receber qualquer representao direta. Esforou-se por resolver esse problema 
apoderando-se de outro grupo do material intelectual um tanto frouxamente relacionado com os pensamentos abstratos (muitas vezes, de maneira que se poderia descrever 
como "alegrica") e, ao mesmo tempo, passvel de ser representado com menor dificuldade. A interpretao abstrata de um sonho assim surgido  dada pelo sonhador 
sem qualquer dificuldade; a interpretao "correta" do material interpolado deve ser buscada pelos mtodos que agora nos so familiares.
          Caso se pergunte se  possvel interpretar todos os sonhos, a resposta deve ser negativa. No se deve esquecer que, na interpretao de um sonho, tem-se 
como oponentes as foras psquicas que foram responsveis por sua distoro.  numa relao de foras, portanto, que se determina se nosso interesse intelectual, 
nossa capacidade de autodisciplina, nossos conhecimentos psicolgicos e nossa prtica de interpretar sonhos iro habilitar-nos a dominar nossas resistncias internas. 
 sempre possvel caminhar um pouco: o bastante, pelo menos, para nos convencermos de que o sonho  uma estrutura provida de sentido, e, em geral, o bastante para 
entrever qual  esse sentido. Com muita freqncia, um sonho que vem logo a seguir permite-nos confirmar e levar adiante a interpretao que adotamos experimentalmente 
para seu antecessor. Muitas vezes, uma srie de sonhos que se estende por um perodo de semanas ou meses est baseada num fundo comum e, por conseguinte, deve ser 
interpretada como um conjunto interligado. [Ver em [1] e [2].] No caso de dois sonhos consecutivos, observa-se com freqncia que um deles toma como ponto central 
algo que se acha apenas na periferia do outro e vice-versa, de maneira que tambm suas interpretaes so mutuamente complementares. J forneci exemplos que mostram 
que os diferentes sonhos de uma mesma noite, em regra bastante geral, devem ser tratados como um todo nico em sua interpretao. [Ver em [1]]
          Mesmo no sonho mais minuciosamente interpretado,  freqente haver um trecho que tem de ser deixado na obscuridade;  que, durante o trabalho de interpretao, 
apercebemo-nos de que h nesse ponto um emaranhado de pensamentos onricos que no se deixa desenredar e que, alm disso, nada acrescenta a nosso conhecimento do 
contedo do sonho. Esse  o umbigo do sonho, o ponto onde ele mergulha no desconhecido. [Ver em [1].] Os pensamentos onricos a que somos levados pela interpretao 
no podem,pela natureza das coisas, ter um fim definido; esto fadados a ramificar-se em todas as direes dentro da intricada rede de nosso mundo do pensamento. 
 de algum ponto em que essa trama  particularmente fechada que brota o desejo do sonho, tal como um cogumelo de seu miclio.
          Mas temos de retornar aos fatos concernentes ao esquecimento dos sonhos, pois deixamos de tirar deles uma importante concluso. Vimos que a vida de viglia 
mostra uma tendncia inequvoca a esquecer qualquer sonho que se tenha formado durante a noite, seja como um todo, logo aps o despertar, seja aos bocadinhos no 
correr do dia; e reconhecemos que o principal responsvel por esse esquecimento  a resistncia anmica ao sonho, resistncia essa que j fez o que pde contra ele 
durante a noite. Mas, se  assim, uma questo se coloca: como  que o sonho pode chegar a se formar em face dessa resistncia? Tomemos o caso mais extremo, em que 
a vida de viglia se descarta de um sonho como se ele nunca houvesse ocorrido. Um exame da interao das foras psquicas nesse caso dever levar-nos a inferir que 
o sonho de fato no teria ocorrido se a resistncia fosse to acentuada durante a noite quanto o  durante o dia. Temos de concluir que, no decorrer da noite, a 
resistncia perde parte de seu poder, embora saibamos que no o perde inteiramente, uma vez que j mostramos o papel que desempenha na formao dos sonhos como agente 
deformador. Mas somos levados a supor que seu poder fique diminudo  noite e que isso possibilite a formao dos sonhos. Fica ento fcil compreender como, depois 
de recuperar a plenitude de sua fora no momento do despertar, ela passa imediatamente a se livrar daquilo que foi obrigada a permitir enquanto enfraquecida. Diz-nos 
a psicologia descritiva que o principal sine qua non para a formao de sonhos  que a mente esteja em estado de sono; e agora podemos explicar esse fato; o estado 
de sono possibilita a formao de sonhos porque reduz o poder da censura endopsquica.
           sem dvida tentador encarar essa inferncia como a nica possvel a partir dos fatos do esquecimento dos sonhos e fazer dela a base para outras concluses 
quanto s condies de energia que prevalecem durante o sono e a viglia. Por ora, entretanto, deter-nos-emos aqui. Quando tivermos penetrado um pouco mais a fundo 
na psicologia dos sonhos, veremos que os fatores que possibilitam sua formao tambm podem ser concebidos de outra maneira. Talvez a resistncia  conscientizao 
dos pensamentos onricos possa ser evitada sem que tenha havido qualquer reduo em seu poder. E parece plausvel que ambos os fatores que favorecem a formao dos 
sonhos - a reduo e a evitao da resistncia - sejam simultaneamentepossibilitados pelo estado de sono. Farei aqui uma interrupo, embora v retomar este tema 
dentro em breve. [Ver em [1]]
          Existe outro conjunto de objees a nosso mtodo de interpretao dos sonhos, do qual devemos agora tratar. Nosso procedimento consiste em abandonar todas 
as representaes-meta que normalmente dirigem nossas reflexes, focalizar nossa ateno num nico elemento do sonho e, ento, tomar nota de todos os pensamentos 
involuntrios que possam ocorrer-nos a propsito dele. Tomamos ento a parte seguinte do sonho e repetimos o processo com ela. Deixamo-nos impelir por nossos pensamentos, 
qualquer que seja a direo em que nos conduzam, e assim vagamos a esmo de uma coisa para outra. Mas nutrimos a firme crena de que, no final, sem qualquer interveno 
ativa de nossa parte, chegaremos aos pensamentos onricos de que se originou o sonho.
          Nossos crticos objetam a isso nos seguintes termos: no h nada de maravilhoso no fato de um elemento isolado do sonho nos conduzir a algum lugar; toda 
representao pode ser associada com algo. O que  excepcional  que uma cadeia de pensamentos to arbitrria e sem objetivo nos leve aos pensamentos onricos. A 
probabilidade  que nos estejamos iludindo. Seguimos uma cadeia de associaes que parte de um elemento at que, por uma razo ou outra, ela parece romper-se. Se 
tomarmos ento um segundo elemento,  de se esperar que o carter originalmente irrestrito de nossas associaes se estreite, pois ainda temos a cadeia anterior 
de associaes em nossa memria e, por essa razo, aos analisarmos a segunda representao onrica,  mais provvel que esbarremos em associaes que tenham algo 
em comum com as da primeira cadeia. Iludimo-nos ento com a idia de havermos descoberto um pensamento que  um ponto de ligao entre dois elementos do sonho. Uma 
vez que nos damos total liberdade para ligar os pensamentos como bem entendermos, e visto que, na realidade, as nicas transies que exclumos de uma representao 
para outra so as que vigem no pensamento normal, no teremos nenhuma dificuldade, com o correr do tempo, em compor, a partir de alguns "pensamentos intermedirios", 
algo que descrevemos como sendo os pensamentos onricos e que - embora sem qualquer garantia, pois no dispomos de outros conhecimentos do que sejam os pensamentos 
onricos - alegamos ser o substituto psquico do sonho. Mas tudo isso  completamente arbitrrio; estamos meramente explorando ligaes fortuitas de uma maneira 
que propicia um efeito engenhoso. Assim, quem quer que se d a todo esse trabalho intil poder excogitar para qualquer sonho a interpretao que mais lhe aprouver.
          
          Se de fato nos levantassem tais objees, poderamos defender-nos apelando para a impresso causada por nossas interpretaes, para as surpreendentes ligaes 
com outros elementos do sonho que emergem enquanto seguimos uma de suas representaes isoladas, e para a improbabilidade de que se pudesse chegar a algo capaz de 
dar uma explicao to exaustiva do sonho seno seguindo ligaes psquicas j estabelecidas. Poderamos tambm assinalar, em nossa defesa, que nosso procedimento 
na interpretao dos sonhos  idntico ao procedimento pelo qual resolvemos os sintomas histricos; e nisso, a correo de nosso mtodo  atestada pela emergncia 
e desaparecimento coincidentes dos sintomas, ou, para usar um smile, as afirmaes feitas no texto so corroboradas pelas ilustraes que as acompanham. Mas no 
temos nenhuma razo para nos esquivarmos do problema de como  possvel chegar-se a um objetivo preexistente seguindo o curso fortuito de uma cadeia de pensamentos 
arbitrria e sem meta alguma; e isso porque, embora talvez no possamos solucionar o problema, podemos esvazi-lo por completo.
          Ocorre que  demonstravelmente inverdico que estejamos sendo arrastados por uma corrente de representaes sem meta alguma quando, no processo de interpretar 
um sonho, abandonamos a reflexo e deixamos que emerjam representaes involuntrias. Pode-se demonstrar que a nica coisa de que conseguimos libertar-nos so as 
representaes-meta que nos so conhecidas; mal fazemos isso, as representaes-meta desconhecidas - ou, como dizemos sem preciso, "inconscientes" - assumem o comando 
e, da por diante, determinam o curso das representaes involuntrias. Nenhuma influncia que possamos exercer sobre nossos processos anmicos nos facultar pensar 
sem representaes-meta, nem tenho conhecimento de qualquer estado de confuso psquica que seja capaz de faz-lo. Os psiquiatrasrenunciaram com excessiva pressa, 
nesse aspecto, a sua crena na concatenao dos processos psquicos. Sei com certeza que no ocorrem cadeias de pensamento desprovidas de representaes-meta nem 
na histeria e na parania, nem na formao ou resoluo dos sonhos.  possvel que elas no ocorram em nenhum dos distrbios psquicos endgenos. At mesmo os delrios 
dos estados confusionais podem ter sentido, se aceitarmos a brilhante sugesto de Leuret [1834, 131] de que eles s nos so inteligveis por causa das lacunas que 
apresentam. Eu prprio formei a mesma opinio a cada vez que tive oportunidade de observ-los. Os delrios so obra de uma censura que j no se d ao trabalho de 
ocultar seu funcionamento; em vez de colaborar para produzir uma nova verso que seja inobjetvel, ela suprime brutalmente tudo aquilo a que desaprova, de maneira 
que o que resta se torna muito desconexo. Essa censura age exatamente como a censura dos jornais na fronteira russa, que s permite que os peridicos estrangeiros 
caiam nas mos dos leitores por quem tem o dever de zelar depois de colocar uma tarja negra sobre diversos trechos.
           possvel que um livre jogo das representaes com uma cadeia de associaes fortuita seja encontrado nos processos cerebrais orgnicos destrutivos; o 
que  encarado como tal nas psiconeuroses  sempre explicvel como um efeito da influncia da censura numa cadeia de pensamentos empurrada para o primeiro plano 
por representaes-meta que permaneceram ocultas. Tem-se considerado como sinal infalvel de que uma associao est isenta da influncia das representaes-meta 
o fato de as associaes (ou imagens) em questo parecerem inter-relacionadas de um modo que se descreve como "superficial" - por assonncia, ambigidade verbal, 
coincidncia temporal sem relao interna de sentido, ou por qualquer associao do tipo que permitimos nos chistes ou nos trocadilhos. Essa caracterstica est 
presente nas cadeias de pensamento que vo dos elementos do sonho at os pensamentos intermedirios e, destes, at os pensamentos onricos propriamente ditos; j 
vimos exemplos disso - no sem espanto - em muitas anlises de sonhos. Nenhuma ligao era solta demais, nenhum chiste era precrio demais para servir de ponte entre 
um pensamento e outro. Mas a verdadeira explicao desse estado de coisas tolerante no tarda em ser descoberta. Sempre que um elemento psquico est vinculado a 
outro por uma associao objetvel ou superficial, h tambm entre eles um vnculo legtimo e mais profundo que est submetido  resistncia da censura.
          A verdadeira razo do predomnio de associaes superficiais no est no abandono das representaes-meta, mas sim na presso da censura. As associaes 
superficiais substituem as profundas quando a censura torna intransitveis as vias normais de ligao. Podemos imaginar, a ttulo de analogia, uma regio montanhosa 
onde uma interrupo geral do trfego (devida a inundaes, por exemplo) bloqueou as estradas principais, mais importantes, porm onde as comunicaes ainda so 
mantidas atravs de trilhas inconvenientes e ngremes, normalmente utilizadas apenas pelos caadores.
          Aqui se podem distinguir dois casos, embora, em essncia, eles sejam o mesmo. No primeiro, a censura se volta apenas contra a ligao entre dois pensamentos 
que, separadamente, no suscitam objeo. Nesse caso, os dois pensamentos penetram sucessivamente na conscincia; a ligao entre eles permanece oculta e, em seu 
lugar, ocorre-nos entre os dois uma ligao superficial em que, de outra maneira, nunca teramos pensado. Essa ligao costuma estar vinculada a uma parte do complexo 
de representaes muito diferente daquela em que se baseia a ligao suprimida e essencial. O segundocaso  aquele em que os dois pensamentos, por si s, so submetidos 
 censura por causa de seu contedo. Sendo assim, nenhum dos dois aparece em sua forma verdadeira, mas apenas numa forma modificada que a substitui, e os dois pensamentos 
substitutos so escolhidos de maneira a possurem uma associao superficial que reproduza o vnculo essencial que relaciona os dois pensamentos substitudos. Em 
ambos os casos, a presso da censura resultou num deslocamento de uma associao normal e sria para uma associao superficial e aparentemente absurda.
          Uma vez que estamos cientes da ocorrncia desses deslocamentos, no hesitamos, na interpretao dos sonhos, em confiar tanto nas associaes superficiais 
quanto nas outras.
          Na psicanlise das neuroses, faz-se o mais amplo uso desses dois teoremas - que, quando se abandonam as representaes-meta conscientes, as representaes-meta 
ocultas assumem o controle do fluxo de representaes, e que as associaes superficiais so apenas substitutos, por deslocamento, de associaes mais profundas 
e suprimidas. A rigor, esses teoremas transformaram-se em pilares bsicos da tcnica psicanaltica. Quando instruo um paciente a abandonar qualquer tipo de reflexo 
e me dizer tudo o que lhe vier  cabea, estou confiando firmemente na premissa de que ele no conseguir abandonar as representaes-meta inerentes ao tratamento, 
e sinto-me justificado para inferir que o que se afigura como as coisas mais inocentes e arbitrrias que ele me conta est de fato relacionado com sua enfermidade. 
H uma outra representao-meta de que o paciente no desconfia - uma que se relaciona comigo. A plena avaliao da importncia desses dois teoremas, bem como as 
informaes mais pormenorizadas sobre eles, enquadram-se no mbito de uma exposio da tcnica da psicanlise. Aqui atingimos, portanto, um dos pontos limtrofes 
em que, segundo nosso programa, devemos abandonar o tema da interpretao dos sonhos.
          
          H uma concluso verdadeira que podemos extrair dessas objees, qual seja, que no precisamos supor que todas as associaes ocorridas durante o trabalho 
de interpretao tenham tido lugar no trabalho do sonho durante a noite. [Ver em [1] e [2].]  verdade que, ao fazermos a interpretao no estado de viglia, seguimos 
um caminho que retrocede dos elementos do sonho para os pensamentos onricos, e que o trabalho do sonho seguira um rumo inverso. Mas  altamente improvvel que esses 
caminhos sejam transitveis em ambos os sentidos. Ao contrrio, parece que, durante o dia, enveredamos por novas cadeias de pensamentos e que essas veredas estabelecem 
contato com os pensamentos intermedirios e com os pensamentos onricos ora num ponto, ora noutro.  fcil perceber como, dessa maneira, o novo material diurno se 
imiscui nas cadeias interpretativas.  provvel tambm que o aumento da resistncia instaurado desde a noite torne necessrios novos e mais tortuosos desvios. O 
nmero e a natureza dos fios colaterais [ver em [1]] que assim tecemos durante o dia no tm a menor importncia psicolgica, desde que nos conduzam aos pensamentos 
onricos de que estamos  procura.
          
          (B) REGRESSO
          
          Tendo agora rechaado as objees levantadas contra ns, ou tendo pelo menos indicado onde se acham nossas armas defensivas, no mais devemos adiar a tarefa 
de abordar as investigaes psicolgicas para as quais nos vimos preparando h tanto tempo. Resumamos os principais resultados de nossa investigao at onde ela 
nos levou. Os sonhos so atos psquicos to importantes quanto quaisquer outros; sua fora propulsora , na totalidade dos casos, um desejo que busca realizar-se; 
o fato de no serem reconhecveis como desejos, bem como suas mltiplas peculiaridades e absurdos, devem-se  influncia da censura psquica a que foram submetidos 
durante o processo de sua formao;  parte a necessidade de fugir a essa censura, outros fatores que contriburam para sua formao foram a exigncia de condensao 
de seu material psquico, a considerao a sua representabilidade em imagens sensoriais e - embora no invariavelmente - a demanda de que a estrutura do sonho possua 
uma fachada racional e inteligvel. Cada uma dessas proposies abre caminho para novas especulaes e postulados psicolgicos; a relao recproca entre o desejo 
que  a fora propulsora do sonho e as quatro condies a que est sujeita sua formao, bem como as inter-relaes entre essas condies, precisam ser investigadas; 
e cabe assinalar o lugar dos sonhos na concatenao da vida anmica.
          Foi com vistas a nos relembrar os problemas ainda por solucionar que iniciei este captulo com o relato de um sonho. No houve dificuldade em interpret-lo 
- o sonho da criana que se estava queimando -, muito embora sua interpretao no fosse dada integralmente segundo nosso sentido. Levantei a questo do motivo por 
que o sonhador o produzira, em vez de acordar, e reconheci que um de seus motivos fora o desejo de representar o filho como ainda vivo. Nossas discusses ulteriores 
mostraro que um outro desejo tambm teve participao nisso. [Ver adiante, em [1].] Assim, em primeiro lugar, foi em nome da realizao de um desejo que o processo 
de pensamento durante o sono transformou-se num sonho.
          Se eliminarmos a realizao de desejo, veremos que resta apenas um aspecto para distinguir as duas formas de ocorrncia psquica. O pensamento onrico 
teria sido: "Vejo um claro vindo do quarto onde jaz o cadver. Talvez uma vela tenha cado e meu filho esteja ardendo!" O sonho reproduziu essas reflexes inalteradas, 
mas representou-as numa situao que erarealmente atual e podia ser percebida pelos sentidos como uma experincia de viglia. Temos aqui a caracterstica psicolgica 
mais geral e mais notvel do processo de sonhar: um pensamento, geralmente um pensamento sobre algo desejado, objetiva-se no sonho,  representado como uma cena, 
ou, segundo nos parece,  vivenciado.
          Como ento explicar essa peculiaridade caracterstica do trabalho do sonho, ou, para formular a pergunta em termos mais modestos, como descobrir um lugar 
para ele na trama dos processos psquicos?
          Se examinarmos o assunto mais de perto, observaremos que dois aspectos quase independentes ressaltam como caractersticos da forma assumida por esse sonho. 
Um deles  o fato de o pensamento ser representado como uma situao imediata em que o "talvez"  omitido, e o outro  o fato de que o pensamento se transforma em 
imagens visuais e em fala.
          Nesse sonho especfico, a modificao feita nos pensamentos pela colocao da expectativa por eles expressa no presente do indicativo talvez no parea 
particularmente notvel. Isso se deve ao que s se pode descrever como o papel inusitadamente secundrio desempenhado nesse sonho pela realizao de desejo. Consideremos, 
em vez dele, um outro em que o desejo onrico no se tenha distanciado dos pensamentos de viglia transportados para o sono - o sonho da injeo da Irma, por exemplo 
[em [1]]. Neste, o pensamento onrico representado estava no optativo. "Oxal Otto fosse responsvel pela doena de Irma!" O sonho recalcou o optativo e o substituiu 
por um presente direto: "Sim, Otto  responsvel pela doena de Irma". Esta, portanto,  a primeira das transformaes promovidas nos pensamentos onricos at mesmo 
por um sonho isento de distores. No precisamos estender-nos nessa primeira peculiaridade dos sonhos. Podemos abord-la chamando a ateno para as fantasias conscientes 
- os devaneios - que tratam seu contedo de representaes exatamente do mesmo modo. Enquanto o Sr. Joyeuse, de Daudet, vagava sem trabalho pelas ruas de Paris (embora 
suas filhas acreditassem que ele tinha um emprego e estava sentado em seu escritrio), sonhava com acontecimentos que pudessem trazer-lhe algum auxlio influente 
e lev-lo a encontrar emprego - e sonhava no presente do indicativo. Assim, os sonhos se valem do presente da mesmamaneira e com o mesmo direito que os devaneios. 
O presente  o tempo em que os desejos se representam como realizados.
          Mas os sonhos diferem dos devaneios em sua segunda caracterstica, ou seja, no fato de seu contedo de representaes transmudar-se de pensamentos em imagens 
sensoriais a que se d crdito e que parecem ser vivenciadas. Devo acrescentar desde j que nem todos os sonhos apresentam essa transformao da representao em 
imagem sensorial. H sonhos que consistem apenas em pensamentos, mas aos quais no se pode, por causa disso, negar a natureza essencial de sonhos. Meu sonho do "Autodidasker" 
- a fantasia diurna com o Professor N. [em [1]] - foi um desses; incluiu poucos elementos sensoriais a mais do que se eu tivesse pensado seu contedo durante o dia. 
E em todo sonho razoavelmente longo h elementos que, diversamente dos demais, no recebem forma sensorial, mas so simplesmente pensados ou sabidos, tal como estamos 
acostumados a pensar ou saber as coisas na vida de viglia. Cabe tambm lembrar aqui que no  apenas nos sonhos que ocorrem essas transformaes das representaes 
em imagens sensoriais: elas so tambm encontradas nas alucinaes e vises, que podem aparecer como entidades independentes, por assim dizer, na sade, ou como 
sintomas nas psiconeuroses. Em suma, a relao que estamos agora examinando no , de modo algum, uma relao exclusiva. No obstante, persiste o fato de que essa 
caracterstica dos sonhos, quando presente, aparece-nos como a mais notvel, a tal ponto que nos seria impossvel imaginar o mundo onrico sem ela. Para chegarmos 
a entend-la, porm, temos de embarcar numa discusso que nos levar a extensas divagaes.
          Como ponto de partida de nossa investigao, gostaria de destacar uma dentre as muitas observaes feitas sobre a teoria do sonhar por aqueles que escrevem 
sobre o assunto. No curso de um breve exame do tema dos sonhos, o grande Fechner (1889, 2, 520-1) expressa a idia de que a cena de ao dos sonhos  diferente da 
cena da vida representacional de viglia. [Ver em [1].] Esta  a nica hiptese que torna inteligveis as particularidades especiais da vida onrica. [1]
          O que nos  apresentado com essas palavras  a idia de uma localizao psquica. Desprezarei por completo o fato de que o aparelho anmico em queestamos 
aqui interessados -nos tambm conhecido sob a forma de uma preparao anatmica, e evitarei cuidadosamente a tentao de determinar essa localizao psquica como 
se fosse anatmica. Permanecerei no campo psicolgico, e proponho simplesmente seguir a sugesto de visualizarmos o instrumento que executa nossas funes anmicas 
como semelhante a um microscpio composto, um aparelho fotogrfico ou algo desse tipo. Com base nisso, a localizao psquica corresponder a um ponto no interior 
do aparelho em que se produz um dos estgios preliminares da imagem. No microscpio e no telescpio, como sabemos, estes ocorrem, em parte, em pontos ideais, em 
regies em que no se situa nenhum componente tangvel do aparelho. No vejo necessidade de me desculpar pelas imperfeies desta ou de qualquer imagem semelhante. 
Essas analogias visam apenas a nos assistir em nossa tentativa de tornar inteligveis as complicaes do funcionamento psquico, dissecando essa funo e atribuindo 
suas operaes singulares aos diversos componentes do aparelho. Ao que me consta, no se fez at hoje a experincia de utilizar esse mtodo de dissecao com o fito 
de investigar a maneira como se compe o instrumento anmico e no vejo nele mal algum. A meu ver,  lcito darmos livre curso a nossas especulaes, desde que preservemos 
a frieza de nosso juzo e no tomemos os andaimes pelo edifcio. E uma vez que, em nossa primeira abordagem de algo desconhecido, tudo de que precisamos  o auxlio 
de algumas representaes provisrias, darei preferncia, inicialmente, s hipteses de carter mais tosco e mais concreto.
          Por conseguinte, retrataremos o aparelho psquico como um instrumento composto a cujos componentes daremos o nome de "instncias", ou (em prol de uma clareza 
maior) "sistemas". Pode-se prever, em seguida, que esses sistemas talvez mantenham entre si uma relao espacial constante, do mesmo modo que os vrios sistemas 
de lentes de um telescpio se dispem uns atrs dos outros. A rigor, no h necessidade da hiptese de que os sistemas psquicos realmente se disponham numa ordem 
espacial. Bastaria que uma ordem fixa fosse estabelecida pelo fato de, num determinado processo psquico, a excitao atravessar os sistemas numa dada seqncia 
temporal. Em outros processos, a seqncia talvez seja diferente, e essa uma possibilidade que deixaremos em aberto. Para sermos breves, doravante nos referiremos 
aos componentes do aparelho como "sistemas-?".
          A primeira coisa a nos saltar aos olhos  que esse aparelho, composto de sistemas-y, tem um sentido ou direo. Toda a nossa atividade psquica parte de 
estmulos (internos ou externos) e termina em inervaes. Por conseguinte, atribuiremos ao aparelho uma extremidade sensorial e uma extremidade motora. Na extremidade 
sensorial, encontra-se um sistema que recebe as percepes; na extremidade motora, outro, que abre as comportas da atividade motora. Os processos psquicos, em geral, 
transcorrem da extremidade perceptual para a extremidade motora. Portanto, o quadro esquemtico mais geral do aparelho psquico pode ser assim representado (Fig. 
1):
 
          Fig. 1
          Isso, contudo, no faz mais do que atender a um requisito com que h muito estamos familiarizados, ou seja, que o aparelho psquico deve construir-se como 
um aparelho reflexo. Os processos reflexos continuam a ser o modelo de todas as funes psquicas.
          A seguir, temos razes para introduzir uma primeira diferenciao na extremidade sensorial. Em nosso aparelho psquico, permanece um trao das percepes 
que incidem sobre ele. A este podemos descrever como "traos mnmicos", e  funo que com ele se relaciona damos o nome de "memria". Se levamos a srio nosso projeto 
de ligar os processos psquicos a sistemas, os traos mnmicos s podem consistir em modificaes permanentes dos elementos dos sistemas. Mas, como j foi assinalado 
em outro texto, h dificuldades bvias em se supor que um mesmo sistema possa reter fielmente as modificaes de seus elementos e, apesar disso, permanecer perpetuamente 
aberto  recepo de novas oportunidades de modificao. Assim, de acordo com o princpio que norteia nosso experimento, atribuiremos essas duas funes a sistemas 
diferentes. Suporemos que um sistema logo na parte frontal do aparelho recebe os estmulos perceptivos, mas nopreserva nenhum trao deles, e portanto, no tem memria, 
enquanto, por trs dele, h um segundo sistema que transforma as excitaes momentneas do primeiro em traos permanentes. O quadro esquemtico de nosso aparelho 
psquico seria ento o seguinte (Fig. 2):
          

          Fig. 2
           fato conhecido que retemos permanentemente algo mais do que o simples contedo das percepes que incidem sobre o sistema Pcpt. Nossas percepes acham-se 
mutuamente ligadas em nossa memria - antes de mais nada, segundo a simultaneidade de sua ocorrncia. Referimo-nos a esse fato como "associao". Assim, fica claro 
que, se o sistema Pcpt. no tem nenhuma memria, ele no pode reter nenhum trao associativo; os elementos isolados do Pcpt. ficariam intoleravelmente impedidos 
de desempenhar sua funo se o remanescente de uma ligao anterior exercesse alguma influncia nas novas percepes. Portanto, devemos presumir que a base da associao 
est nos sistemas mnmicos. A associao consistiria, assim, no fato de que, em decorrncia de uma diminuio das resistncias e do estabelecimento de vias de facilitao, 
a excitao  mais prontamente transmitida de um primeiro elemento Mnem. para um segundo do que para um terceiro.
          Um exame mais detido nos indicar a necessidade de supormos a existncia no de um, mais de diversos elementos Mnem., nos quais uma nica excitao, transmitida 
pelos Pcpt., deixa fixada uma variedade de registros diferentes. O primeiro desses sistemas Mnem. conter, naturalmente, o registro da associao por simultaneidade 
temporal, ao passo que o mesmo material perceptivo ser disposto nos sistemas posteriores em funo de outros tipos de coincidncia, de maneira que um desses sistemas 
posteriores, por exemplo, registrar relaes de similaridade, e assim por diante, no que concerne aos outros. Naturalmente, seria perda de tempo tentar pr em palavras 
a importncia psquica de um desses sistemas. Seu carter residiria nos pormenores ntimos de suas relaes com os diferentes elementosdo material bruto da memria, 
isto  - se pudermos apontar para uma teoria de tipo mais radical -, nos graus de resistncia de conduo erguida contra a passagem da excitao proveniente desses 
elementos.
          Cabe-me intercalar aqui uma observao de natureza geral que talvez tenha implicaes importantes.  o sistema Pcpt., desprovido da capacidade de reter 
modificaes, e, portanto, sem memria, que supre nossa conscincia de toda a multiplicidade das qualidades sensoriais. Por outro lado, nossas lembranas - sem excetuar 
as que esto mais profundamente gravadas em nossa psique - so inconscientes em si mesmas. Podem tornar-se conscientes, mas no h dvida de que produzem todos os 
seus efeitos quando em estado inconsciente. O que descrevemos como nosso "carter" baseia-se nos traos mnmicos de nossas impresses; e alm disso, as impresses 
que maior efeito causaram em ns - as de nossa primeira infncia - so precisamente as que quase nunca se tornam conscientes. Mas, quando as lembranas voltam a 
se tornar conscientes, no exibem nenhuma qualidade sensorial, ou mostram uma qualidade sensorial nfima se comparadas s percepes. Haveria um esclarecimento extremamente 
promissor sobre as condies que regem a excitao dos neurnios se fosse possvel confirmar que, nos sistemas-?, a memria e a qualidade que caracteriza a conscincia 
so mutuamente exclusivas.
          Os pressupostos at aqui apresentados acerca da estruturao do aparelho psquico em sua extremidade sensorial foram formulados sem referncia aos sonhos 
ou s informaes psicolgicas que deles pudemos inferir. As provas fornecidas pelos sonhos, contudo, ho de ajudar-nos a compreender outra parte do aparelho. Vimos 
[ver em [1]] que s nos foi possvel explicar a formao dos sonhos arriscando a hiptese de existirem duas instncias psquicas, uma das quais submeteria a atividade 
da outra a uma crtica que envolveria sua excluso da conscincia. A instncia crtica, conclumos, tem uma relao mais estreita com a conscincia do que a instncia 
criticada, situando-se como uma tela entre esta ltima e a conscincia. Ademais, encontramos razes [em [1]] para identificar a instncia crtica com a instncia 
que dirige nossa vida de viglia e determina nossas aes voluntrias e conscientes. Se, de acordo com nossas suposies, substituirmos essas instncias por sistemas, 
nossa ltima concluso dever levar-nos a situar o sistema crtico na extremidade motora do aparelho. Introduziremos agora esses dois sistemas em nosso quadro esquemtico 
e lhes daremos nomes para expressar sua relao com a conscincia (Fig. 3):
 
          Fig. 3
          Descreveremos o ltimo dos sistemas situados na extremidade motora como o "pr-consciente", para indicar que os processos excitatrios nele ocorridos podem 
penetrar na conscincia sem maiores empecilhos, desde que certas condies sejam satisfeitas: por exemplo, que eles atinjam certo grau de intensidade, que a funo 
que s se pode descrever como "ateno" esteja distribuda de uma dada maneira [ver em [1]], etc. Este , ao mesmo tempo, o sistema que detm a chave do movimento 
voluntrio. Descreveremos o sistema que est por trs dele como "o inconsciente", pois este no tem acesso  conscincia seno atravs do pr-consciente, ao passar 
pelo qual seu processo excitatrio  obrigado a submeter-se a modificaes. [1]
          
          Em qual desses sistemas, portanto, devemos situar o impulso para a formao dos sonhos? Para simplificar, no sistema Ics.  verdade que, no decorrer de 
nossas discusses posteriores, veremos que isso no  inteiramente exato e que o processo de formao dos sonhos  obrigado a ligar-se a pensamentos onricos pertencentes 
ao sistema pr-consciente. [Ver em [1].] Entretanto, quando considerarmos o desejo onrico, descobriremos que a fora propulsora da formao dos sonhos  fornecida 
pelo Ics. [em [1]] e, devido a este ltimo fator, tomaremos o sistema inconsciente como ponto de partida da formao do sonho. Como todas as outras estruturas de 
pensamento, esse instigador do sonho se esforar por avanar para o Pcs. e, a partir da, ganhar acesso  conscincia.
          A experincia nos mostra que essa via que passa pelo pr-consciente para chegar  conscincia  barrada aos pensamentos onricos durante o dia atravs 
da censura imposta pela resistncia. Durante a noite, eles conseguem obter acesso  conscincia, mas surge a questo de determinar como o fazem e graas a que modificao. 
Se o que permite aos pensamentos onricos conseguir isso fosse o fato de haver durante a noite, uma diminuio da resistncia que guarda a fronteira entre o inconsciente 
e o pr-consciente, teramos sonhos que seriam da ordem das idias e no possuiriam o carter alucinatrio em que ora estamos interessados. Assim, a diminuio da 
censura entre os dois sistemas, Ics. e Pcs., s pode explicar sonhos formados como o do "Autodidasker", e no sonhos como o do menino que estava queimando, que tomamos 
como ponto de partida de nossas investigaes.
          A nica maneira pela qual podemos descrever o que acontece nos sonhos alucinatrios  dizendo que a excitao se move em direo retrocedente. Em vez de 
se propagar para a extremidade motora do aparelho, ela se movimenta no sentido da extremidade sensorial e, por fim, atinge o sistema perceptivo. Se descrevermos 
como "progressiva" a direo tomada pelos processos psquicos que brotam do inconsciente durante a vida de viglia, poderemos dizer que os sonhos tm um carter 
"regressivo".
          
          Essa regresso  pois, indubitavelmente, uma das caractersticas psicolgicas do processo onrico, mas devemos lembrar que ela no ocorre apenas nos sonhos. 
A rememorao deliberada e outros processos constitutivos de nosso pensamento normal envolvem um movimento retrocedente do aparelho psquico, retornando de um ato 
complexo de representao para a matria-prima dos traos subjacentes. No estado de viglia, contudo, esse movimento retrocedente nunca se estende alm das imagens 
mnmicas; no consegue produzir uma revivescncia alucinatria das imagens perceptivas. Por que as coisas se do de outro modo nos sonhos? Quando consideramos o 
trabalho de condensao nos sonhos, fomos levados a supor que as intensidades ligadas s representaes podem ser completamente transferidas pelo trabalho do sonho 
de uma representao para outra [em [1]]. Provavelmente,  essa alterao do processo psquico normal que torna possvel a catexia do sistema Pcpt. na direo inversa, 
partindo dos pensamentos, at se atingir o nvel de completa vividez sensorial.
          No nos devemos iludir, exagerando a importncia dessas consideraes. No fizemos mais do que dar nome a um fenmeno inexplicvel. Falamos em "regresso" 
quando, num sonho, uma representao  retransformada na imagem sensorial de que originalmente derivou. Mas at mesmo esse passo requer uma justificao. Qual  
o sentido dessa nomenclatura, se no nos ensina nada de novo? Creio que o nome "regresso" nos  til na medida em que liga um fato que j nos era conhecido a nosso 
quadro esquemtico, no qual se deu ao aparelho psquico um sentido ou direo. E  nesse ponto que esse quadro comea a recompensar-nos por hav-lo construdo.  
que o exame dele, sem qualquer reflexo adicional, revela outra caracterstica da formao dos sonhos. Se encararmos o processo onrico como uma regresso que ocorre 
em nosso hipottico aparelho anmico, chegaremos sem demora  explicao do fato empiricamente comprovado de que todas as relaes lgicas pertencentes aos pensamentos 
onricos desaparecem durante a atividade onrica, ou s conseguem expressar-se com dificuldade [em [1]]. Segundo nosso quadro esquemtico, essas relaes no esto 
contidas nos primeiros sistemas Mnem., mas em sistemas posteriores; e, havendo regresso, elas perderiam necessariamente qualquer meio de expressar-se,exceto por 
imagens perceptivas. Na regresso, a trama dos pensamentos onricos decompe-se em sua matria-prima.
          Qual  a modificao que possibilita uma regresso que no pode ocorrer durante o dia? Quanto a esse ponto, temos de contentar-nos com algumas conjeturas. 
Sem dvida, trata-se de alteraes nas catexias de energia ligadas aos diferentes sistemas, alteraes estas que aumentam ou diminuem a facilidade com que tais sistemas 
podem ser atravessados pelo processo excitatrio. Mas, num aparelho desse tipo, efeitos idnticos da passagem das excitaes poderiam ser produzidos por mais de 
um modo. Nossos primeiros pensamentos voltam-se, naturalmente, para o estado de sono e as mudanas de catexia por ele promovidas na extremidade sensorial do aparelho. 
Durante o dia, h uma corrente contnua que flui do sistema ? das percepes em direo  atividade motora, mas essa corrente cessa  noite e no pode mais constituir 
obstculo a uma corrente de excitao que flua em sentido oposto. Aqui parecemos ter a "excluso do mundo exterior" que algumas autoridades encaram como a explicao 
terica das caractersticas psicolgicas dos sonhos. (Ver em [1])
          No entanto, ao explicar a regresso nos sonhos, devemos ter em mente as regresses que tambm ocorrem nos estados patolgicos de viglia, e, nesse contexto, 
a explicao h pouco fornecida nos deixa em apuros.  que, nesses casos, a regresso ocorre a despeito de uma corrente sensorial que flui ininterruptamente em direo 
progressiva. Minha explicao para as alucinaes da histeria e da parania e para as vises nos sujeitos mentalmente normais  que elas de fato constituem regresses 
- isto , pensamentos transformados em imagens -, mas os nicos pensamentos a sofrerem essa transformao so os que se ligam intimamente a lembranas que foram 
suprimidas ou permaneceram inconscientes.
          Por exemplo, um de meus pacientes histricos mais jovens, um menino de doze anos, era impedido de adormecer por "rostos verdes com olhos vermelhos", que 
o aterrorizavam. A fonte desse fenmeno era a lembrana suprimida, embora consciente em certa poca, de um menino que ele via com freqncia quatro anos antes. Esse 
menino havia-lhe apresentado um quadro alarmante das conseqncias dos maus hbitos das crianas, inclusive o da masturbao - hbito pelo qual meu paciente agora 
se censurava a posteriori [nachtrglich]. Sua me lhe assinalara, na ocasio, que esse menino malcomportado tinha o rosto esverdeado e olhos vermelhos (isto , avermelhados). 
Era essa a origem de sua assombrao, cujo nico propsito, alis, era relembrar-lhe outra das predies de sua me - a de que esses meninos tornam-se idiotas, no 
conseguem aprender nada na escola e morrem cedo.Meu pequeno paciente j havia cumprido parte dessa profecia, pois no estava fazendo progressos na escola e, como 
mostrou seu relato dos pensamentos involuntrios que lhe ocorriam, estava aterrorizado com a outra parte. Posso acrescentar que, ao cabo de pouco tempo, o tratamento 
resultou em ele poder dormir, no desaparecimento de seu nervosismo e em seu recebimento de uma meno honrosa ao trmino do ano letivo.
          Nesse mesmo contexto, quero explicar uma viso que me foi descrita por outro paciente histrico (uma mulher de quarenta anos) como havendo acontecido antes 
de seu adoecimento. Certa manh ela abriu os olhos e viu seu irmo no quarto, embora, como sabia, ele estivesse de fato num manicmio. Seu filhinho dormia na cama 
ao lado dela. Para impedir que o menino levasse um susto e entrasse em convulses ao ver o tio, ela puxou o lenol sobre o rosto dele, ao que a apario se dissipou. 
Essa viso era uma verso modificada de uma lembrana da infncia dessa senhora e, embora fosse consciente, estava intimamente relacionada com todo o seu material 
inconsciente. Sua bab lhe contara que sua me (que morrera muito jovem, quando minha paciente tinha apenas dezoito meses de idade) havia sofrido de convulses epilpticas 
ou histricas que remontavam a um susto que lhe causara seu irmo (o tio de minha paciente), ao aparecer-lhe fantasiado de fantasma, com um lenol sobre a cabea. 
Assim, a viso continha os mesmos elementos da lembrana: o aparecimento do irmo, o lenol, o susto e seus resultados. Entretanto, os elementos se haviam ordenado 
num contexto diferente e foram transferidos para outras figuras. O motivo manifesto da viso, ou dos pensamentos que ela substitua, era a preocupao de que seu 
filhinho viesse a seguir os passos do tio, com quem tinha grande semelhana fsica.
          Nenhum dos dois exemplos que citei  inteiramente desvinculado do estado do sono e, por essa razo, talvez no sejam muito apropriados para comprovar o 
que pretendo. Desse modo, remeto o leitor a minha anlise de uma mulher que sofria de parania alucinatria (Freud, 1896d [Parte III]) e aos resultados de meus estudos 
ainda no publicados sobre a psicologia das psiconeuroses para que se comprove que, nesses casos de transformao regressiva dos pensamentos, no devemos desprezar 
a influncia de lembranas, principalmente infantis, que tenham sido suprimidas ou permanecido inconscientes. Os pensamentos vinculados a esse tipo de lembrana, 
e cuja expresso  proibida pela censura, so, por assim dizer,atrados pela lembrana para a regresso, como a forma de representao em que a prpria lembrana 
se inscreve. Posso tambm lembrar que um dos resultados a que se chegou nos Estudos sobre a Histeria [Breuer e Freud, 1895 - p. ex., no primeiro caso clnico de 
Breuer] foi que, quando era possvel trazer  conscincia cenas infantis (quer fossem lembranas ou fantasias), elas eram vistas como alucinaes e s perdiam essa 
caracterstica no processo de serem comunicadas. Alm disso,  comumente sabido que, mesmo nas pessoas cuja memria no  normalmente do tipo visual, as recordaes 
mais primitivas da infncia conservam at idade avanada o carter de vividez sensorial.
          Se agora tivermos presente o enorme papel desempenhado nos pensamentos onricos pelas experincias infantis ou pelas fantasias nelas baseadas, a freqncia 
com que os fragmentos delas ressurgem no contedo do sonho, e quo amide os prprios desejos onricos derivam delas, no poderemos descartar a probabilidade de 
que, tambm nos sonhos, a transformao dos pensamentos em imagens visuais seja, em parte, resultante da atrao que as lembranas expressas sob forma visual e vidas 
de uma revivescncia exercem sobre os pensamentos desligados da conscincia e que lutam por encontrar expresso. Desse ponto de vista, o sonho poderia ser descrito 
como substituto de uma cena infantil, modificada por transferir-se para uma experincia recente. A cena infantil  incapaz de promover sua prpria revivescncia 
e tem de se contentar em retornar como sonho.
          Essa indicao do modo como as cenas infantis (ou suas reprodues como fantasias) funcionam, em certo sentido, como modelos para o contedo dos sonhos 
afasta a necessidade de uma das hipteses formuladas por Scherner e seus seguidores acerca das fontes internas de estimulao. Scherner [1861] supe que, quando 
os sonhos exibem elementos visuais particularmente vvidos ou particularmente abundantes, acha-se presente um estado de "estmulo visual", isto , de excitao interna 
do rgo da viso [ver em [1]]. No precisamos contestar essa hiptese, e podemos contentar-nos em presumir que esse estado de excitao se aplique simplesmente 
ao sistema perceptivo psquico do rgo visual: entretanto, podemos ainda assinalar que o estado de excitao visual que foi criado por uma lembrana, que ele  
uma revivescncia de uma excitao visual que foi originalmente imediata. No posso apresentar, de minha prpria experincia, nenhum bom exemplo de lembrana infantil 
produtora desse tipo de resultado. Meus sonhos, em geral, so menos ricos de elementos sensoriais do que sou levado a supor que ocorra com outras pessoas. Todavia, 
no caso do mais vvido e belo sonho que tive nos ltimos anos, pude facilmente rastrear a clarezaalucinatria do contedo do sonho at as qualidades sensoriais de 
impresses recentes ou bastante recentes. Em [1], registrei um sonho em que o azul escuro da gua, o castanho da fumaa que saa das chamins do navio e o marrom 
e vermelho escuros dos prdios deixaram em mim profunda impresso. Esse sonho, pelo menos, deveria ter sua origem atribuda a algum estmulo visual. O que teria 
levado meu rgo visual a esse estado de estimulao? Uma impresso recente, que estava ligada a diversas outras mais antigas. As cores que vi eram, em primeiro 
lugar, as de um jogo de tijolos de armar com que, no dia anterior ao sonho, meus filhos haviam erguido um lindo prdio e o tinham exibido para minha admirao. Os 
tijolos grandes eram do mesmo vermelho escuro e os pequenos, dos mesmos tons azul e castanho. Isso estava associado com impresses cromticas de minhas ltimas viagens 
pela Itlia: o belo azul do Isonzo e das lagoas e o castanho do Carso. A beleza das cores do sonho era apenas uma repetio de algo visto em minha lembrana.
          Reunamos o que j descobrimos sobre a peculiar propenso dos sonhos a refundir seu contedo de representaes em imagens sensoriais. No explicamos esse 
aspecto do trabalho do sonho e no fomos buscar sua origem em quaisquer leis psicolgicas conhecidas, mas antes o destacamos como algo que sugere implicaes desconhecidas 
e o caracterizamos pela palavra "regressivo". Formulamos a concepo de que, com toda probabilidade, essa regresso, onde quer que ocorra,  efeito da resistncia 
que se ope ao avano de um pensamento para a conscincia pela via normal, e de uma atrao simultnea exercida sobre o pensamento pela presena de lembranas dotadas 
de grande fora sensorial. No caso dos sonhos, a regresso talvez seja ainda facilitada pela cessao da corrente progressiva que emana durante o dia dos rgos 
dos sentidos; noutras formas de regresso, a ausncia desse fator auxiliar precisa ser compensada por uma intensificao dos outros motivos para ela. Tampouco devemos 
esquecer de observar que nesses casos patolgicos de regresso, bem como nos sonhos, o processo de transfernciade energia deve diferir do que existe nas regresses 
que ocorrem na vida anmica normal, uma vez que, nos primeiros, esse processo possibilita uma completa catexia alucinatria dos sistemas perceptivos. O que descrevemos 
em nossa anlise do trabalho do sonho como "considerao  representabilidade" poderia ser vinculado  atrao seletiva exercida pelas cenas visualmente relembradas 
em que os pensamentos onricos tocam.
          Convm ainda observar [1] que a regresso desempenha na teoria da formao dos sintomas neurticos um papel no menos importante que na dos sonhos. Assim, 
cabe distinguir trs tipos de regresso: (a) regresso tpica, no sentido do quadro esquemtico dos sistemas-? que explicamos atrs; (b) regresso temporal, na medida 
em que se trata de um retorno a estruturas psquicas mais antigas; e (c) regresso formal, onde os mtodos primitivos de expresso e representao tomam o lugar 
dos mtodos habituais. No fundo, porm, todos esses trs tipos de regresso constituem um s e, em geral, ocorrem juntos, pois o que  mais antigo no tempo  mais 
primitivo na forma e, na tpica psquica, fica mais perto da extremidade perceptiva. [Cf. Freud, 1917d, onde essa frase recebe uma ressalva.]
          Tampouco podemos abandonar o tema da regresso nos sonhos [1] sem formular em palavras uma noo que j nos ocorreu repetidamente e que ressurgir com 
intensidade renovada quando tivermos penetrado mais a fundo no estudo das psiconeuroses, a saber; que o sonhar , em seu conjunto, um exemplo de regresso  condio 
mais primitiva do sonhador, uma revivescncia de sua infncia, das moes pulsionais que a dominaram e dos mtodos de expresso de que ele dispunha nessa poca. 
Por trs dessa infncia do indivduo -nos prometida uma imagem da infncia filogentica - uma imagem do desenvolvimento da raa humana, do qual o desenvolvimento 
do indivduo , de fato, uma recapitulao abreviada, influenciada pelas circunstncias fortuitas da vida. Podemos calcular quo apropriada  a assero de Nietzsche 
de que, nos sonhos, "acha-se em ao alguma primitiva relquia da humanidade que agora j mal podemos alcanar por via direta"; e podemos esperar que a anlise dos 
sonhos nos conduza a um conhecimento da herana arcaica do homem, daquilo que lhe  psiquicamente inato. Os sonhos e as neuroses parecem ter preservado mais antigidades 
anmicas do que imaginaramos possvel, de modo que a psicanlisepode reclamar para si um lugar de destaque entre as cincias que se interessam pela reconstruo 
dos mais antigos e obscuros perodos dos primrdios da raa humana.
           bem possvel que esta primeira parte de nosso estudo psicolgico dos sonhos nos deixe um sentimento de insatisfao. Mas podemos consolar-nos com a idia 
de que fomos obrigados a construir nosso caminho nas trevas. Se no estamos inteiramente errados, outras linhas de abordagem ho de levar-nos aproximadamente a essa 
mesma regio, e ento poder vir um tempo em que nos sintamos mais  vontade nela.
          
          (C) REALIZAO DE DESEJOS
          
          O sonho da criana em chamas, no incio deste captulo, d-nos uma grata oportunidade de apreciar as dificuldades com que se defronta a teoria da realizao 
de desejos. Sem dvida nos ter surpreendido a todos saber que os sonhos no passam de realizaes de desejos, e no apenas em virtude da contradio trazida pelos 
sonhos de angstia. Quando a anlise nos revelou pela primeira vez que por trs dos sonhos se ocultavam um sentido e um valor psquico, achvamo-nos, sem dvida, 
inteiramente despreparados para descobrir que esse sentido era de carter to uniforme. Segundo a definio precisa mas insuficiente de Aristteles, o sonho  o 
pensamento que persiste (desde que estejamos adormecidos) no estado de sono. [Ver em [1].] Uma vez, portanto, que nosso pensamento diurno produz atos psquicos de 
tipos to variados - juzos, inferncias, negaes, expectativas, intenes, etc. - por que seria ele, durante a noite, obrigado a restringir-se apenas  produo 
de desejos? No haver, ao contrrio, numerosos sonhos que nos mostram outra sorte de atos psquicos - preocupaes, por exemplo - transmudados em forma de sonho? 
E acaso o sonho com que iniciamos este captulo (um sonho muito particularmente transparente) no foi precisamente desse tipo? Quando o claro de luz incidiu sobre 
os olhos do pai adormecido, ele chegou  preocupada concluso de que uma vela havia cado e poderia ter incendiado o cadver. Transformou essa concluso num sonho, 
revestindo-a do aspecto de uma situao sensorial e no tempo presente. Que papel ter desempenhado nisso a realizao de desejos? Acaso podemos deixar de ver nisso 
a influncia predominante de um pensamento que persistiu da vida de viglia ou foi estimulado por uma nova impresso sensorial? Tudo isso  fato e nos compele a 
examinar mais de perto o papel desempenhado nos sonhos pela realizao de desejo e a importncia dos pensamentos da viglia que persistem no sono.
          J fomos levados pela prpria realizao de desejo a dividir os sonhos em dois grupos. Encontramos alguns sonhos que se apresentavam abertamente como realizaes 
de desejo e outros em que essa realizao era irreconhecvel e freqentemente disfarada por todos os meios possveis. Nestes ltimos percebemos a atuao da censura 
onrica. Foi sobretudo nas crianas que encontramos sonhos de desejo no distorcidos; embora breves,os sonhos francamente de desejo pareceram (e enfatizo esta ressalva) 
ocorrer tambm nos adultos.
          Podemos indagar em seguida de onde se originam os desejos que se realizam nos sonhos. Que possibilidades contrastantes ou que alternativas temos em mente 
ao levantar esta questo? Penso ser o contraste entre a vida diurna conscientemente percebida e uma atividade psquica que permanece inconsciente e da qual s nos 
damos conta  noite. Posso distinguir trs origens possveis para tal desejo: (1)  possvel que ele tenha sido despertado durante o dia e, por motivos externos, 
no tenha sido satisfeito; nesse caso, um desejo reconhecido do qual o sujeito no se ocupou fica pendente para a noite. (2)  possvel que tenha surgido durante 
o dia, mas tenha sido repudiado; nesse caso, o que fica pendente  um desejo de que a pessoa no se ocupou, mas que foi suprimido. (3) Ele pode no ter nenhuma ligao 
com a vida diurna e ser um daqueles desejos que s  noite emergem da parte suprimida da psique e se tornam ativos em ns. Se nos voltarmos de novo para nosso quadro 
esquemtico do aparelho psquico, localizaremos os desejos do primeiro tipo no sistema Pcs.; suporemos que os desejos do segundo tipo tero sido forados a recuar 
[zurckdrngen] do sistema Pcs. para o Ics., nico lugar onde continuam a existir, se  que o fazem; e concluiremos que as moes de desejo [Wunchsregung] do terceiro 
tipo so inteiramente incapazes de transpor o sistema Ics. Surge ento a questo de saber se os desejos oriundos dessas diferentes fontes so de igual importncia 
para os sonhos e se possuem igual poder para instig-los.
          Se, para responder a essa questo, voltarmos os olhos para os sonhos de que dispomos, logo nos lembraremos de que  preciso acrescentar uma quarta fonte 
dos desejos onricos, ou seja, as moes de desejo atuais que surgem durante a noite (por exemplo, as estimuladas pela sede ou pelas necessidades sexuais). Em seguida, 
formularemos a opinio de que o lugar de origem de um desejo onrico provavelmente no tem nenhuma influncia em sua capacidade de provocar um sonho. Vm-me  lembrana 
o sonho da menininha que prolongou um passeio pelo lago, interrompido durante o dia, e os outros sonhos infantis que registrei. [Ver em [1]] Eles foram explicados 
como devidos a desejos no realizados, mas tambm no suprimidos, do dia anterior. So extremamente numerosos os exemplos em que um desejo suprimido durante o dia 
encontra vazo num sonho. Acrescentarei um outro exemplo muito simples desta classe. A sonhadora era uma senhora que gostava muito de troar das pessoas e uma de 
suas amigas, uma mulher mais moa que ela, acabara de ficar noiva. Durante o dia inteiro, seus conhecidos lhe haviam perguntado se ela conhecia o rapaz e o que pensava 
dele. Elarespondera apenas com elogios, com os quais havia silenciado seu juzo real, pois de bom grado teria dito a verdade - que ele era um "Dutzendmensch" [literalmente, 
um "homem s dzias", um tipo muito comum de pessoa - gente como ele aparecia s dzias]. Naquela noite, ela sonhou que lhe faziam a mesma pergunta e que respondia 
com a frmula: "Em caso de repetio de pedidos, basta mencionar o nmero". Por fim, mediante numerosas anlises, ficamos sabendo que, sempre que um sonho sofre 
distoro, o desejo brotou do inconsciente e foi um desejo que no pde ser percebido durante o dia. Assim,  primeira vista, todos os desejos parecem ter igual 
importncia e igual poder nos sonhos.
          No posso oferecer aqui nenhuma prova de que, no obstante, a verdade  outra, mas posso dizer que me sinto muito inclinado a supor que os desejos onricos 
sejam mais estritamente determinados.  verdade que os sonhos das crianas provam, fora de qualquer dvida, que um desejo no trabalhado durante o dia pode agir 
como instigador do sonho. Mas no se deve esquecer que se trata do desejo de uma criana, de uma moo de desejo com a intensidade prpria das crianas. Considero 
altamente duvidoso que, no caso de um adulto, um desejo no realizado durante o dia pudesse ser intenso o bastante para produzir um sonho. Ao contrrio, parece-me 
que, com o controle progressivo exercido sobre nossa vida pulsional pela atividade do pensamento, ficamos cada vez mais inclinados a renunciar, por ser intil,  
formao ou reteno de desejos to intensos quanto os que as crianas conhecem.  possvel que haja diferenas individuais a esse respeito e que algumas pessoas 
conservem por mais tempo que outras um tipo infantil de processo anmico, tal como existem diferenas similares no tocante  diminuio do modo de representao 
originrio, que  por imagens muito vvidas. Em geral, porm, penso que um desejo no realizado que tenha ficado pendente do dia anterior no basta, no caso de um 
adulto, para produzir um sonho. Admito prontamente que uma moo de desejo originria do consciente possa contribuir para a instigao de um sonho, mas  provvel 
que no faa mais do que isso. O sonho no se materializaria se o desejo pr-consciente no tivesse xito em encontrar reforo de outro lugar.
          Do inconsciente, bem entendido.  minha suposio que um desejo consciente s consegue tornar-se instigador do sonho quando logra despertar um desejo inconsciente 
do mesmo teor e dele obter reforo. Segundo indicaes provenientes da psicanlise das neuroses, considero que esses desejos inconscientes esto sempre em estado 
de alerta, prontos a qualquer momento para buscar o meio de se expressarem quando surge a oportunidade de se aliarem a uma moo do consciente e transferirem sua 
grande intensidade para a intensidade menor desta ltima. Assim, fica a aparncia de que apenas o desejo consciente se haveria realizado no sonho, e s alguma pequena 
peculiaridade na configurao do sonho serve de indicador para nos colocar na pista do poderoso aliado oriundo do inconsciente. Esses desejos de nosso inconsciente, 
sempre em estado de alerta e, por assim dizer, imortais, fazem lembrar os legendrios Tits, esmagados desde os tempos primordiais pelo peso macio das montanhas 
que um dia foram arremessadas sobre eles pelos deuses vitoriosos e que ainda so abaladas de tempos em tempos pela convulso de seus membros. Mas esses desejos, 
mantidos sob recalcamento, so eles prprios de origem infantil, como nos ensina a pesquisa psicolgica das neuroses. Assim, eu proporia pr de lado a afirmativa 
feita h pouco [em [1]], de que a procedncia dos desejos onricos  indiferente, e substitu-la por outra com o seguinte teor: o desejo que  representado num sonho 
tem de ser um desejo infantil. No caso dos adultos, ele se origina do Ics.; no caso das crianas, onde ainda no h diviso ou censura entre o Pcs. e o Ics., ou 
onde essa diviso se est apenas instituindo gradualmente, trata-se de um desejo no realizado e no recalcado da vida de viglia. Estou ciente de que no se pode 
provar que esta assero tenha validade universal, mas  possvel provar que ela se sustenta com freqncia, at mesmo em casos onde no se suspeitaria disso, e 
no pode ser contestada enquanto proposio geral.
          A meu ver, portanto, as moes de desejo que restam da vida consciente de viglia devem ser relegadas a uma posio secundria com respeito  formao 
dos sonhos. No posso conferir-lhes, enquanto contribuintes para o contedo do sonhos, nenhum outro papel seno o que  desempenhado, por exemplo, pelo material 
das sensaes atuais que se tornam ativas durante o sono. [Ver em [1]-[2].] Ater-me-ei a essa mesma linha de raciocnio ao me voltar, agora, para o exame das incitaes 
psquicas do sonho deixadas pelavida de viglia e que so diferentes dos desejos. Quando resolvemos dormir, podemos ter xito em fazer com que cessem temporariamente 
as catexias de energia ligadas a nossos pensamentos de viglia. Todo aquele que consegue fazer isso com facilidade dorme bem, e o primeiro Napoleo parece ter sido 
um modelo dessa classe. Mas nem sempre conseguimos faz-lo e nem sempre obtemos xito completo. Problemas no resolvidos, preocupaes martirizantes e o acmulo 
excessivo de impresses, tudo isso transporta a atividade do pensamento para o sono e sustenta processos anmicos no sistema que denominamos de pr-consciente. Se 
quisermos classificar as moes de pensamento que persistem no sono, poderemos dividi-las nos seguintes grupos: (1) o que no foi levado a uma concluso durante 
o dia, devido a algum obstculo fortuito; (2) o que no foi tratado devido  insuficincia de nossa capacidade intelectual, o no resolvido; (3) o que foi rejeitado 
ou suprimido durante o dia. A estes devemos acrescentar (4) um poderoso grupo que consiste naquilo que foi ativado em nosso Ics. pela atividade do pr-consciente 
no decorrer do dia e, por fim, (5) o grupo das impresses diurnas que foram indiferentes e que, por essa razo, no foram tratadas.
          No h por que subestimar a importncia das intensidades psquicas introduzidas no estado de sono por esses restos da vida diurna e, particularmente, a 
importncia das do grupo dos problemas no solucionados.  certo que essas excitaes continuam lutando por se expressar durante a noite, e podemos presumir com 
igual certeza que o estado de sono impossibilita ao processo excitatrio avanar da maneira habitual no pr-consciente e ser levado a termo pelo tornar-se consciente. 
Na medida em que nossos processos de pensamento podem tornar-se conscientes da maneira normal durante a noite, simplesmente no estamos adormecidos. No sei dizer 
que modificao  provocada no sistema Pcs. pelo estado de sono, mas no h dvida de que as caractersticas psicolgicas do sono devem ser buscadas essencialmente 
nas modificaes da catexia desse sistema particular - um sistema que tambm controla o acesso ao poder de movimento, que fica paralisado durante o sono. Por outro 
lado, nada na psicologia dos sonhos me d razo para supor que o sono produza quaisquer modificaes que no sejam secundrias no estado de coisas que prevalece 
no sistema Ics. No h, portanto, nenhum outro caminho aberto s excitaes que ocorrem  noite noPcs. seno o que  seguido pelas excitaes de desejo que provm 
do Ics; as excitaes pr-conscientes tm de buscar reforo no Ics. e acompanhar as excitaes inconscientes ao longo de seus caminhos tortuosos. Mas qual  a relao 
dos restos pr-conscientes do dia anterior com os sonhos? No h dvida de que eles penetram nos sonhos em grande quantidade e se valem do contedo destes para ganhar 
acesso  conscincia mesmo durante a noite. De fato, ocasionalmente dominam o contedo do sonho e foram-no a dar prosseguimento  atividade diurna.  tambm certo 
que os restos diurnos podem, com a mesma facilidade, ter qualquer outro carter alm do de desejos, mas  altamente instrutivo nesse contexto - e de importncia 
positivamente decisiva para a teoria da realizao de desejo - observar a condio a que eles tm de submeter-se para serem acolhidos num sonho.
          Tomemos um dos sonhos que j registrei - por exemplo, o sonho em que meu amigo Otto aparecia com os sinais da doena de Graves. [Ver em [1]] Eu estivera 
preocupado, no dia anterior, com a aparncia de Otto e, como tudo o mais que se relaciona com ele, essa preocupao me afetou muito de perto. Acompanhou-me, ao que 
posso presumir, enquanto eu dormia.  provvel que eu estivesse ansioso por descobrir o que poderia andar errado com ele. Essa preocupao expressou-se durante a 
noite no sonho que descrevi, cujo contedo, em primeiro lugar, era absurdo e, em segundo, no correspondia em nenhum aspecto  realizao de um desejo. Comecei ento 
a investigar a origem dessa expresso inapropriada da preocupao que sentira durante o dia e, atravs da anlise, encontrei uma ligao no fato de haver identificado 
meu amigo com um certo Baro L., e a mim mesmo, com o Professor R. Havia apenas uma explicao para eu ter sido obrigado a escolher esse substituto especfico para 
meu pensamento diurno. Eu devia estar sempre disposto, em meu Ics., para me identificar com o Professor R., uma vez que por meio dessa identificao se realizava 
um dos desejos imortais da infncia - o desejo megalomanaco. Pensamentos ofensivos e hostis a meu amigo, que por certo seriam repudiados durante o dia, haviam aproveitado 
a oportunidade para se imiscurem com o desejo no sonho, mas minha preocupao diurna tambm encontrara uma espcie de expresso no contedo deste atravs de um 
substituto. [Ver em [1].] O pensamento diurno, que em si no era um desejo, mas, ao contrrio, uma preocupao, foi obrigado a encontrar de algum modo uma ligao 
com um desejo infantil j agora inconsciente e suprimido, e que lhe permitisse - devidamente modificado,  verdade - "originar-se" na conscincia. Quanto mais dominante 
a preocupao, mais forado seria o elo passvel de seestabelecer; no havia nenhuma necessidade de existir qualquer ligao entre o contedo do desejo e o da preocupao 
e, de fato, no houve tal ligao em nosso exemplo.
          Talvez seja til [1] prosseguir em nosso exame dessa mesma questo considerando o modo como se comporta o sonho quando os pensamentos onricos lhe oferecem 
um material que  o oposto completo de uma realizao de desejo - preocupaes justificadas, reflexes dolorosas, apercebimentos aflitivos. Os diversos resultados 
possveis podem ser classificados num destes dois grupos: (A) O trabalho do sonho pode ter xito em substituir todas as representaes aflitivas por seus contrrios 
e em suprimir os afetos desprazerosos ligados a elas. O resultado  um sonho puro de satisfao, uma "realizao de desejo" palpvel sobre a qual no parece haver 
mais nada a dizer. (B) As representaes aflitivas, modificadas em maior ou menor grau, mas mesmo assim bem reconhecveis, podem ganhar acesso ao contedo manifesto 
do sonho.  este o caso que levanta dvidas sobre a validade da teoria do desejo os sonhos e reclama novas investigaes. Esses sonhos de contedo aflitivo podem 
ser vivenciados com indiferena ou acompanhados pela totalidade do afeto aflitivo que seu contedo de representaes parece justificar, ou podem at levar ao desenvolvimento 
de angstia e ao despertar.
          A anlise demonstra que tambm esses sonhos desprazerosos so realizaes de desejo, tanto quanto os demais. Um desejo inconsciente e recalcado, cuja realizao 
o ego do sonhador no poderia deixar de vivenciar como aflitivo, aproveitou a oportunidade que lhe foi oferecida pela catexia persis-tente dos restos diurnos penosos 
da vspera; emprestou-lhes seu apoio e assim lhes facultou penetrarem num sonho. Mas, enquanto que, no Grupo A, o desejo inconsciente concidia com o consciente, 
no Grupo B se revela o abismo entre o inconsciente e o consciente (entre o recalcado e o ego) e se realiza a situao do conto de fadas dos trs desejos concedidos 
pela fada ao marido e  mulher. [Ver adiante, em [1].] A satisfao pela realizao do desejo recalcado pode revelar-se to grande a ponto de contrabalanar os sentimentos 
dolorosos ligados aos restos diurnos [ver em [1]-[2]]; nesse caso, o tom afetivo do sonho  indiferente, apesar de ele ser, por um lado, a realizao de um desejo 
e, por outro, a realizao de um temor. Ou pode suceder que o ego adormecido tenha uma participao ainda maior na formao do sonho, reaja  satisfao do desejo 
recalcado com violentaindignao, e ainda ponha termo ao sonho com um surto de angstia. Assim, no h dificuldade em perceber que os sonhos desprazerosos e os sonhos 
de angstia so to realizao de desejos, no sentido de nossa teoria, quanto o so os sonhos puros de satisfao.
          Os sonhos desprazerosos podem ser tambm "sonhos de punio". [Ver em [1]] Cabe admitir que reconhec-los significa, em certo sentido, um novo acrscimo 
 teoria dos sonhos. O que neles se realiza  tambm um desejo inconsciente, a saber, o desejo do sonhador de ser punido por uma moo de desejo recalcada e proibida. 
Nessa medida, tais sonhos se enquadram no requisito aqui estabelecido de que a fora propulsora para a formao do sonho seja fornecida por um desejo pertencente 
ao inconsciente. Uma anlise psicolgica mais minuciosa, no entanto, mostra como eles diferem de outros sonhos de desejo. Nos casos que formam o Grupo B, o desejo 
formador do sonho  inconsciente e pertence ao recalcado, ao passo que, nos sonhos de punio, embora se trate tambm de um desejo inconsciente, deve-se consider-lo 
pertencente no ao recalcado, mas ao "ego". Portanto, os sonhos de punio indicam a possibilidade de que o ego tenha uma participao maior do que se sups na formao 
dos sonhos. O mecanismo da formao dos sonhos seria muito esclarecido, em geral, se, em vez da oposio entre "consciente" e "inconsciente", falssemos na oposio 
entre o "ego" e o "recalcado". No se pode fazer isso, porm, sem levar em conta os processos subjacentes s psiconeuroses, e por essa razo tal no foi feito na 
presente obra. Acrescentarei apenas que os sonhos de punio no esto sujeitos, em geral,  condio de que os restos diurnos sejam de tipo aflitivo. Ao contrrio, 
ocorrem com mais facilidade quando se d o oposto - quando os restos diurnos so pensamentos de natureza satisfatria, mas a satisfao que expressam  proibida. 
O nico vestgio desses pensamentos a aparecer no sonho manifesto  seu oposto diametral, como no caso dos sonhos pertencentes ao Grupo A. A caracterstica essencial 
dos sonhos de punio, portanto, seria que, em seu caso, o desejo formador do sonho no  um desejo inconsciente derivado do recalcado (do sistema Ics.), mas um 
desejo punitivo que reage contra este e pertence ao ego, embora seja, ao mesmo tempo, um desejo inconsciente (isto , pr-consciente).
          
          Relato agora um de meus prprios sonhos, [1] para ilustrar o que acabo de dizer e, em particular, a maneira como o trabalho do sonho lida com resto diurno 
de expectativas penosas, do dia anterior.
          "Comeo indistinto. Disse  minha mulher que tinha uma notcia para ela, algo muito especial. Ela ficou assustada e se recusou a escutar. Garanti-lhe que, 
pelo contrrio, era algo que ela ficaria muito contente em ouvir, e comecei a contar-lhe que o corpo de oficiais de nosso filho enviara uma soma em dinheiro (5.000 
coroas?)... algo a respeito de uma distino... distribuio... Entrementes, eu fora com ela at um quartinho, parecido com uma despensa, procurar alguma coisa. 
De repente, vi meu filho aparecer. No estava de uniforme, mas num traje esportivo apertado (como uma foca?), com um bonezinho. Trepou num cesto que estava ao lado 
de um armrio, como se quisesse pr algo em cima dele. Chamei-o; nenhuma resposta. Pareceu-me que seu rosto ou sua testa estavam enfaixados. Ele estava acomodando 
alguma coisa na boca, empurrando algo para dentro dela. E seus cabelos estavam salpicados de grisalho. Pensei: 'Ser que ele est to exausto assim? E ser que usa 
dentes postios?' Antes que pudesse cham-lo de novo, acordei, sem sentir angstia, mas com o corao batendo depressa. Meu relgio de cabeceira marcava duas e meia."
          Mais uma vez, -me impossvel apresentar uma anlise completa. Tenho de restringir-me a ressaltar alguns pontos salientes. Foram as expectativas penosas 
do dia anterior que deram origem ao sonho: ficramos outra vez, por mais de uma semana, sem notcias de nosso filho que estava na frente de batalha.  fcil perceber 
que o contedo do sonho expressava a convico de que ele fora ferido ou morto. No incio do sonho, fez-se claramente um esforo enrgico para substituir os pensamentos 
aflitivos por seu contrrio. Eu tinha uma notcia agradabilssima para comunicar - qualquer coisa sobre dinheiro remetido... distino... distribuio. (A soma em 
dinheiro derivava de uma ocorrncia agradvel em minha clnica mdica; foi uma tentativa de afastamento completo do assunto.) Mas esse esforo fracassou. Minha mulher 
desconfiou de algo terrvel e se recusou a me escutar. Os disfarces eram tnues demais e as referncias ao que se procurava recalcar ressaltavam neles por todos 
os lados. Se meu filho houvesse tombado morto, seus colegas defarda devolveriam seus pertences e eu teria de distribuir o que ele deixasse entre seus irmos e outras 
pessoas. Freqentemente se confere uma "distino" ao oficial que tomba no campo de batalha. Assim, o sonho ps-se a dar expresso direta ao que primeiro procurara 
negar, embora a tendncia para a realizao de desejo ainda se mostrasse em ao nas distores. (No h dvida de que a mudana de lugar, durante o sonho, deve 
ser entendida como o que Silberer [1912] descreveu como "simbolismo do umbral". [Ver em [1]].) No sabemos dizer,  verdade, o que foi que deu ao sonho a fora impulsora 
para assim expressar seus pensamentos aflitivos. Meu filho no apareceu como algum que "casse", mas como algum que estava "subindo". De fato, fora um entusistico 
alpinista. No estava de uniforme, mas usando um traje esportivo; isto significava que o local do acidente agora temido tinha sido tomado por um acidente anterior, 
ocorrido ao praticar esportes;  que ele sofrera uma queda durante uma excurso de esqui e quebrara o fmur. A maneira como estava vestido, por outro lado, e que 
o fazia parecer uma foca, lembrou de imediato algum mais jovem - nosso netinho engraado; j o cabelo grisalho fez-me lembrar o pai deste, nosso genro, que fora 
duramente atingido pela guerra. Que significaria isso?... Mas j falei bastante a respeito. A localizao numa despensa e o armrio de onde ele queria tirar algo 
("sobre o qual queria pr alguma coisa", no sonho) - estas aluses fizeram-me lembrar inequivocamente de um acidente que eu mesmo me causei quando tinha mais de 
dois anos, mas ainda no chegara aos trs. Eu havia trepado num tamborete na despensa para pegar alguma coisa boa que estava sobre um armrio ou mesa. O tamborete 
virou e sua quina me atingiu por trs da mandbula inferior; refleti que poderia muito bem ter perdido todos os dentes. Essa lembrana foi acompanhada por um pensamento 
admonitrio: " bem feito para voc"; e isso parecia ser um impulso hostil dirigido ao valente soldado. Uma anlise mais profunda permitiu-me enfim descobrir que 
o impulso oculto poderia haver encontrado satisfao no temido acidente com meu filho: era a inveja que sentem dos jovens aqueles que envelheceram, e que estes acreditam 
haver sufocado por completo. E no h dvida de que foi precisamente a intensidade da emoo penosa que teria surgido se tal infortnio houvesse realmente acontecido 
que levou essa emoo a buscar uma realizao de desejo recalcada para assim encontrar algum consolo. [1]
          
          Encontro-me agora em condies de dar uma explicao precisa do papel desempenhado nos sonhos pelo desejo inconsciente. Estou pronto a admitir que h toda 
uma classe de sonhos cuja instigao provm principalmente, ou at de maneira exclusiva, dos restos da vida diurna; e penso que at meu desejo de enfim tornar-me 
Professor Extraodinrio poderia ter-me deixado dormir em paz aquela noite, se a preocupao com a sade de meu amigo no houvesse persistido desde o dia anterior 
[em [1]]. Mas a preocupao, por si s, no teria formado um sonho. A fora impulsora requerida pelo sonho tinha de ser suprida por um desejo; cabia  preocupao 
apoderar-se de um desejo que atuasse como fora propulsora do sonho.
          A situao pode ser explicada por uma analogia. O pensamento diurno pode perfeitamente desempenhar o papel de empresrio do sonho; mas o empresrio, que, 
como se costuma dizer, tem a idia e a iniciativa para execut-la, no pode fazer nada sem o capital; ele precisa de um capitalista que possa arcar com o gasto, 
e o capitalista que fornece o desembolso psquico para o sonho , invarivel e indiscutivelmente, sejam quais forem os pensamentos do dia anterior, um desejo oriundo 
do inconsciente. [1]
          Por vezes, o prprio capitalista  o empresrio, e sem dvida, no caso dos sonhos, isso  o mais comum; um desejo inconsciente  estimulado pela atividade 
diurna e passa a formar um sonho. Do mesmo modo, as outras variaes possveis na situao econmica que tomei como analogia tambm encontram paralelo nos processos 
onricos. O prprio empresrio pode fazer uma pequena contribuio para o capital; diversos empresrios podem recorrer ao mesmo capitalista; vrios capitalistas 
podem reunir-se para fornecer ao empresrio o que  preciso. Do mesmo modo, encontramos sonhos que so sustentados por mais de um desejo onrico; e o mesmo se d 
com outras variaes semelhantes que poderiam ser facilmente enumeradas, mas que no teriam maior interesse para ns. Devemos reservar para mais tarde o que resta 
a dizer sobre o desejo onrico.
          O tertium comparationis [terceiro elemento de comparao] na analogia que acabo de empregar - a quantidade posta  disposio do empresrio em volume apropriado 
- admite aplicao ainda mais detalhada com vistas  elucidao da estrutura dos sonhos. Na maioria dos sonhos  possvelidentificar um ponto central marcado por 
uma intensidade sensorial peculiar, como demonstrei em [1] [e [1]]. Este ponto central , geralmente, a representao direta da realizao do desejo, pois, se desfizermos 
os deslocamentos produzidos pelo trabalho do sonho, veremos que a intensidade psquica dos elementos dos pensamentos onricos foi substituda pela intensidade sensorial 
dos elementos do contedo do sonho propriamente dito. Os elementos situados nas proximidades da realizao de desejo muitas vezes nada tm a ver com seu sentido, 
mas revelam ser derivados de pensamentos aflitivos que so contrrios ao desejo. Entretanto, por se encontrarem no que  com freqncia uma relao artificialmente 
estabelecida com o elemento central, adquiriram intensidade suficiente para se tornarem capazes de ser representados no sonho. Assim, o poder que tem a realizao 
de desejo de promover a representao difunde-se por uma certa esfera a seu redor, dentro da qual todos os elementos - incluindo at os que no possuem recursos 
prprios - adquirem fora para se fazerem representar. No caso dos sonhos ativados por diversos desejos,  fcil delimitar as esferas das diferentes realizaes 
de desejo, e as lacunas do sonho podem freqentemente ser compreendidas como zonas fronteirias entre essas esferas. [1]
          Embora as consideraes precedentes tenham reduzido a importncia do papel desempenhado pelos restos diurnos nos sonhos, vale a pena dedicar-lhes um pouco 
mais de ateno. Eles tm de ser um ingrediente essencial na formao dos sonhos, uma vez que a experincia revelou o fato surpreendente de que, no contedo de todo 
sonho, identifica-se algum vnculo com uma impresso diurna recente - muitas vezes, do tipo mais insignificante. At aqui no pudemos explicar a necessidade desse 
acrscimo  mistura que constitui o sonho. [Ver em [1].] E s  possvel faz-lo se tivermos firmemente presente o papel desempenhado pelo desejo inconsciente e 
ento buscarmos informaes na psicologia das neuroses. Com esta aprendemos que uma representao inconsciente, como tal,  inteiramente incapaz de penetrar no pr-consciente, 
e que s pode exercer ali algum efeito estabelecendo um vnculo com uma representao que j pertena ao pr-consciente, transferindo para ela sua intensidade e 
fazendo-se "encobrir" por ela. A temos o fato da "transferncia'', que fornece uma explicao para inmerosfenmenos notveis da vida anmica dos neurticos. A 
representao pr-consciente, que assim adquire imerecido grau de intensidade, pode ser deixada inalterada pela transferncia ou ver-se forada a uma modificao 
derivada do contedo da representao que efetua a transferncia. Espero que me seja perdoado extrair analogias da vida cotidiana, mas fico tentado a dizer que a 
situao de uma representao recalcada assemelha-se  de um dentista norte-americano em nosso pas: no lhe  permitido estabelecer sua clnica, a menos que possa 
valer-se de um mdico legalmente qualificado para servir-lhe de pretexto e agir como "cobertura" aos olhos da lei. E, assim como no so exatamente os mdicos de 
maiores clientelas que fazem essa espcie de aliana com os dentistas, tampouco se escolhem, para servir de cobertura para uma representao recalcada, representaes 
pr-conscientes ou conscientes que j tenham atrado sobre si uma parcela suficiente da ateno que atua no pr-consciente. O inconsciente prefere tecer suas ligaes 
em torno de impresses e representaes pr-conscientes que sejam indiferentes e s quais, por isso mesmo, no se tenha dado ateno ou que tenham sido rejeitadas 
e, portanto, perdido prontamente a ateno que lhes era dedicada. Uma conhecida tese da doutrina da associao, inteiramente confirmada pela experincia,  que uma 
representao ligada por um elo muito ntimo em determinada direo tende, por assim dizer, a repelir grupos inteiros de novas ligaes. Tentei certa vez basear 
uma teoria da paralisia histrica nessa proposio. 
          Se presumirmos que tambm nos sonhos atua essa mesma necessidade de transferncia por parte das representaes recalcadas, que descobrimos ao analisar 
as neuroses, dois dos enigmas do sonho sero resolvidos de um s golpe, a saber, o fato de que toda anlise de um sonho revela o entrelaamento de alguma impresso 
recente em sua trama, e que esse elemento recente  freqentemente do tipo mais banal [em [1]]. Posso acrescentar que (como j descobrimos em outro lugar [em [1]-[2]]) 
a razo por que esses elementos recentes e indiferentes tantas vezes ganham acesso aos sonhos, como substitutosdos mais antigos dentre todos os pensamentos onricos, 
 que eles so os que menos tm a temer da censura imposta pela resistncia. Todavia, enquanto o fato de os elementos triviais serem preferidos  explicado por sua 
iseno da censura, o fato de ocorrerem elementos recentes com tal regularidade aponta para a existncia de uma necessidade de transferncia. Ambos os grupos de 
impresses atendem  exigncia do recalcado, que demanda um material ainda livre de associaes - as indiferentes, por no terem dado margem  formao de muitos 
vnculos, e as recentes, por ainda no terem tido tempo de estabelec-los.
          Assim, vemos que os restos diurnos, entre os quais podemos agora incluir as impresses indiferentes, no apenas tomam emprestado algo do Ics., quando conseguem 
participar da formao do sonho - ou seja, a fora pulsional que est  disposio do desejo recalcado -, mas tambm oferecem ao inconsciente algo indispensvel 
- ou seja, o ponto de ligao necessrio para uma transferncia. Se quisssemos penetrar aqui mais profundamente nos processos anmicos, teramos de elucidar melhor 
a interao das excitaes entre o pr-consciente e o inconsciente, tema para o qual nos atrai o estudo das psiconeuroses, mas sobre o qual acontece que os sonhos 
no tm nenhum auxlio a oferecer.
          Tenho apenas mais uma coisa a acrescentar sobre os restos diurnos. No h dvida de que so eles os verdadeiros perturbadores do sono, e no os sonhos, 
os quais, pelo contrrio, interessam-se em proteg-lo. Retornarei a este ponto posteriormente. [Ver em [1]]
          Vimos at agora estudando os desejos onricos: derivamo-los de sua origem na regio do Ics. e analisamos suas relaes com os restos diurnos, que, por 
sua vez, podem ser desejos ou moes psquicas de alguma outra natureza ou simplesmente impresses recentes. Assim demos margem a todas as reivindicaes que possam 
ser levantadas por qualquer das mltiplas atividades do pensamento de viglia em favor da importncia do papel por elas desempenhado no processo de formao dos 
sonhos. No  sequer impossvel que nossa exposio tenha fornecido uma explicao para os casos extremos em que um sonho, dando prosseguimento s atividades diurnas, 
chega a uma soluo feliz para algum problema no solucionado da vida de viglia. Falta-nos apenas um exemplo desse tipo, para que possamosanalis-lo e descobrir 
a fonte dos desejos infantis ou recalcados cujo auxlio foi convocado e reforou com tal sucesso os esforos da atividade pr-consciente. Mas nada disso nos aproximou 
um passo sequer da soluo do enigma de por que o inconsciente nada tem a oferecer durante o sono alm da fora propulsora para a realizao de um desejo. A resposta 
a esta pergunta deve lanar luz sobre a natureza psquica dos desejos, e proponho fornec-la mediante uma referncia a nosso quadro esquemtico do aparelho psquico.
          No temos nenhuma dvida de que esse aparelho s atingiu sua perfeio atual aps um longo perodo de desenvolvimento. Tentemos reconduzi-lo a uma etapa 
anterior de sua capacidade de funcionamento. Algumas hipteses cuja justificao deve ser buscada de outras maneiras dizem-nos que, a princpio, os esforos do aparelho 
tinham o sentido de mant-lo to livre de estmulos quanto possvel; conseqentemente, sua primeira estrutura seguia o projeto de um aparelho reflexo, de modo que 
qualquer excitao sensorial que incidisse nele podia ser prontamente descarregada por uma via motora. Mas as exigncias da vida interferem nessa funo simples, 
e  tambm a elas que o aparelho deve o mpeto para seu desenvolvimento posterior. As exigncias da vida confrontam-no, primeiramente, sob a forma das grandes necessidades 
somticas. As excitaes produzidas pelas necessidades internas buscam descarga no movimento, que pode ser descrito como uma "modificao interna" ou uma "expresso 
emocional''. O beb faminto grita ou d pontaps, inerme. Mas a situao permanece inalterada, pois a excitao proveniente de uma necessidade interna no se deve 
a uma fora que produza um impacto momentneo, mas a uma fora que est continuamente em ao. S pode haver mudana quando, de uma maneira ou de outra (no caso 
do beb, atravs do auxlio externo), chega-se a uma "vivncia de satisfao" que pe fim ao estmulo interno. Um componente essencial dessa vivncia de satisfao 
 uma percepo especfica (a da nutrio, em nosso exemplo) cuja imagem mnmica fica associada, da por diante, ao trao mnmico da excitao produzida pela necessidade. 
Em decorrncia do vnculo assim estabelecido, na prxima vez em que essa necessidade fordespertada, surgir de imediato uma moo psquica que procurar recatexizar 
a imagem mnnica da percepo e reevocar a prpria percepo, isto , restabelecer a situao da satisfao original. Uma moo dessa espcie  o que chamamos de 
desejo; o reaparecimento da percepo  a realizao do desejo, e o caminho mais curto para essa realizao  a via que conduz diretamente da excitao produzida 
pelo desejo para uma completa catexia da percepo. Nada nos impede de presumir que tenha havido um estado primitivo do aparelho psquico em que esse caminho era 
realmente percorrido, isto , em que o desejo terminava em alucinao. Logo, o objetivo dessa primeira atividade psquica era produzir uma "identidade perceptiva" 
- uma repetio da percepo vinculada  satisfao da necessidade.
          A amarga experincia da vida deve ter transformado essa atividade primitiva de pensamento numa atividade secundria mais conveniente. O estabelecimento 
de uma identidade perceptiva pela curta via da regresso no interior do aparelho no tem em outro lugar da psique o mesmo resultado que a catexia dessa mesma percepo 
desde o exterior. A satisfao no sobrevm e a necessidade perdura. A catexia interna s poderia ter o mesmo valor da externa se fosse mantida incessantemente, 
como de fato ocorre nas psicoses alucinatrias e nas fantasias de fome, que esgotam toda sua atividade psquica no apego ao objeto de seu desejo. Para chegar a um 
dispndio mais eficaz da fora psquica,  necessrio deter a regresso antes que ela se torne completa, para que no v alm da imagem mnmica e seja capaz de buscar 
outros caminhos que acabem levando ao estabelecimento da desejada identidade perceptiva desde o mundo exterior. Essa inibio da regresso e o subseqente desvio 
da excitao passam a ser da alada de um segundo sistema, que controla o movimento voluntrio - isto , que pela primeira vez se vale do movimento para fins lembrados 
de antemo. Mas toda a complexa atividade de pensamento que se desenrola desde a imagem mnmica at o momento em que a identidade perceptiva  estabelecida pelo 
mundo exterior, toda essa atividade de pensamento constitui simplesmente um caminho indireto para a realizao de desejo, caminho esse que a experincia tornou necessrio. 
O pensamento, afinal, no passa do substituto de um desejoalucinatrio, e  evidente que os sonhos tm de ser realizaes de desejos, uma vez que nada seno o desejo 
pode colocar nosso aparelho anmico em ao. Os sonhos, que realizam seus desejos pela via curta da regresso, simplesmente preservaram para ns, nesse aspecto, 
uma amostra do mtodo primrio de funcionamento do aparelho psquico, mtodo este que foi abandonado por ser ineficaz. O que um dia dominou a vida de viglia, quando 
a psique era ainda jovem e incompetente, parece agora ter sido banido para a noite - tal como as armas primitivas abandonadas pelos homens adultos, os arcos e flechas, 
ressurgem no quarto de brinquedos. O sonho  um ressurgimento da vida anmica infantil j suplantada. Esses mtodos de funcionamento do aparelho psquico, que so 
normalmente suprimidos nas horas de viglia, voltam a tornar-se atuais na psicose e ento revelam sua incapacidade de satisfazer nossas necessidades em relao ao 
mundo exterior.
           claro que as moes de desejo inconscientes tentam tornar-se eficazes tambm durante o dia, e o fato da transferncia, assim como as psicoses, indicam-nos 
que elas lutam por irromper na conscincia atravs do sistema pr-consciente e por obter o controle do poder de movimento. Assim, a censura entre o Ics. e o Pcs., 
cuja existncia os sonhos nos obrigaram a supor, merece ser reconhecida e respeitada como a guardi de nossa sade mental. Contudo, acaso no devemos encarar como 
um ato de descuido por parte dessa guardi que ela relaxe suas atividades durante a noite, permita que as moes suprimidas do Ics. se expressem e possibilite  
regresso alucinatria voltar a ocorrer? Creio que no, pois muito embora esse guardio crtico repouse - e temos provas de que seus cochilos no so profundos - 
ele tambm fecha a porta  motilidade. Sejam quais forem as moes do Ics., normalmente inibido, a entrarem saltitantes em cena, no h por que nos preocuparmos; 
elas permanecem inofensivas, uma vez que so incapazes de acionar o aparelho motor, o nico pelo qual poderiam modificar o mundo externo. O estado de sono garante 
a segurana da cidadela a ser guardada. A situao  menos inofensiva quando o que acarreta o deslocamento de foras no  o relaxamento noturno do dispndio de 
fora da censura crtica, mas uma reduo patolgica dessa fora ou uma intensificao patolgica dasexcitaes inconscientes, enquanto o pr-consciente est ainda 
catexizado e o porto de acesso  motilidade permanece aberto. Quando isso acontece, o guardio  subjugado, as excitaes inconscientes dominam o Pcs. e, a partir 
da, obtm controle sobre nossa fala e nossas aes, ou ento foram a regresso alucinatria e dirigem o curso do aparelho (que no se destinava a seu uso) em virtude 
da atrao exercida pelas percepes sobre a distribuio de nossa energia psquica. A esse estado de coisas damos o nome de psicose.
          Estamos agora no bom caminho para prosseguir na construo da estrutura psicolgica, que interrompemos no ponto em que introduzimos os dois sistemas Ics. 
e Pcs. Mas h razes para continuarmos um pouco em nossa apreciao do desejo como a nica fora impulsora psquica para a formao dos sonhos. Aceitamos a idia 
de que a razo por que os sonhos so invariavelmente realizaes de desejos  que eles so produtos do sistema Ics., cuja atividade no conhece outro objetivo seno 
a realizao de desejos e no tem sob seu comando outras foras seno as moes de desejo. Se insistirmos ainda por mais um momento em nosso direito de fundamentar 
especulaes psicolgicas de tal alcance na interpretao dos sonhos, teremos o dever de provar que essas especulaes nos habilitaram a inserir os sonhos numa concatenao 
capaz de abarcar tambm outras estruturas psquicas. Se existe um sistema Ics. (ou, para fins de nossa discusso, algo anlogo a ele), os sonhos no podem ser sua 
nica manifestao; todo sonho pode ser uma realizao de desejo, mas, alm dos sonhos, tem de haver outras formas anormais de realizao de desejo. E  fato que 
a teoria que rege todos os sintomas psiconeurticos culmina numa nica proposio, que assevera que tambm eles devem ser encarados como realizaes de desejos inconscientes. 
Nossa explicao faz do sonho apenas o primeiro membro de uma classe que  de extrema importncia para os psiquiatras e cuja compreenso implica a soluo da faceta 
puramente psicolgica do problema da psiquiatria.
          Os outros membros dessa classe de realizaes de desejos - os sintomas histricos, por exemplo - possuem, contudo, uma caracterstica essencialque no 
consigo descobrir nos sonhos. Com as investigaes que tantas vezes mencionei ao longo desta obra, aprendi que, para promover a formao de um sintoma histrico, 
 preciso que convirjam ambas as correntes de nossa vida anmica. O sintoma no  simplesmente a expresso de um desejo inconsciente realizado;  preciso que esteja 
presente tambm um desejo do pr-consciente realizado pelo mesmo sintoma, de modo que o sintoma tem pelo menos dois determinantes, cada qual surgindo de um dos sistemas 
envolvidos no conflito. Tal como acontece nos sonhos, no h limite para os outros determinantes que possam estar presentes - para a "sobredeterminao" dos sintomas. 
O determinante que no brota do Ics., ao que eu saiba,  invariavelmente uma cadeia de pensamentos que reage ao desejo inconsciente - uma autopunio, por exemplo. 
Assim, posso fazer a afirmao bastante genrica de que o sistema histrico s se desenvolve quando as realizaes de dois desejos opostos, cada qual proveniente 
de um sistema psquico diferente, conseguem convergir numa nica expresso. (Vejam-se, a esse respeito, minhas mais recentes formulaes sobre a origem dos sintomas 
histricos em meu artigo sobre as fantasias histricas e sua relao com a bissexualidade. [Freud, 1908a].) Os exemplos teriam aqui muito pouca serventia, uma vez 
que nada seno uma elucidao exaustiva das complicaes envolvidas seria convincente. Assim, deixo que minha afirmao se mantenha como tal e cito um exemplo apenas 
para deixar claro esse ponto, e no para convencer. Numa de minhas pacientes, os vmitos histricos mostraram ser, por um lado, a realizao de uma fantasia inconsciente 
que datava de sua puberdade - isto , do desejo de estar continuamente grvida e ter inmeros filhos, acrescido de outro desejo que surgiu posteriormente: o de t-los 
com tantos homens quanto possvel. Um poderoso impulso defensivo levantou-se contra esse desejo irrefreado. E como a paciente podia perder suas formas e sua boa 
aparncia em decorrncia dos vmitos, assim deixando de ser atraente para quem quer que fosse, o sintoma era aceitvel tambm para a cadeia de pensamentos punitivos 
e, sendo permitido por ambos os lados, pde tornar-se realidade. Foi um mtodo de tratar uma realizao de desejo idntico ao adotado pela rainha dos partas com 
o trinviro romano Crasso. Acreditando que ele empreendera sua campanha por amor ao ouro, ordenou a rainha que se despejasse ouro fundido em sua garganta depois 
que ele morreu: "Agora", disse ela, "tendes o quequereis". Mas tudo o que sabemos at agora sobre os sonhos  que eles expressam a realizao de um desejo do inconsciente, 
 como se o sistema dominante, pr-consciente, aquiescesse nisso depois de insistir num certo nmero de distores. Tampouco  possvel, em regra geral, encontrar 
uma seqncia de pensamentos oposta ao desejo onrico e, como sua contrapartida, realizada no sonho. Apenas aqui e ali, nas anlises dos sonhos, esbarramos em sinais 
de criaes reativas, como, por exemplo, meus sentimentos afetuosos por meu amigo R. no sonho com meu tio [de barba amarela] (ver em [1]). Mas podemos encontrar 
em outro lugar o ingrediente que falta do pr-consciente. Enquanto o desejo do Ics. consegue encontrar expresso no sonho, depois de sofrer toda sorte de distores, 
o sistema dominante se recolhe num desejo de dormir, realiza esse desejo promovendo as modificaes que consegue produzir nas catexias no interior do aparelho psquico, 
e persiste nesse desejo por toda a durao do sono.
          Esse firme desejo de dormir por parte do pr-consciente exerce um efeito geralmente facilitador na formao dos sonhos. Permitam-me lembrar o sonho do 
homem que foi levado a inferir, pelo claro de luz que provinha do quarto contguo, que o corpo de seu filho talvez estivesse pegando fogo [em [1]]. O pai fez essa 
inferncia no sonho, em vez de se deixar acordar pelo claro; e sugerimos antes que uma das foras psquicas responsveis por esse resultado foi o desejo que prolongou 
por aquele momento a vida do filho, a quem ele retratou no sonho.  provvel que nos escapem outros desejos provenientes do recalcado, j que no pudemos analisar 
o sonho. Mas podemos presumir que outra fora impulsora na produo do sonho foi a necessidade que tinha o pai de dormir; seu sono, tal como a vida do filho, foi 
prolongado por um momento pelo sonho. "Deixe o sonho prosseguir" - foi essa sua motivao - "ou terei de acordar". Em todos os outros sonhos, tal como neste, o desejo 
de dormir oferece apoio ao desejo inconsciente. Em [1] descrevi alguns sonhos que aparentavam abertamente ser sonhos de convenincia. Na realidade, porm, todos 
os sonhos podem reinvindicar seu direito a essa mesma descrio. A ao do desejo de continuar dormindo pode ser percebida com extrema facilidade nos sonhos de despertar, 
que modificam os estmulos sensoriais externos de maneira a torn-los compatveis com a continuao do sono; eles os entretecem no sonho para priv-los de qualquer 
possibilidade de agirem como lembretes do mundoexterno. Esse mesmo desejo, contudo, deve desempenhar um papel idntico para permitir a ocorrncia de todos os outros 
sonhos, embora seja apenas de dentro que eles ameaam arrancar o sujeito de seu sono. Em alguns casos, quando o sonho leva as coisas longe demais, o Pcs. diz  conscincia: 
"No d importncia! Continue a dormir! Afinal,  apenas um sonho!" [Ver em [1]] Mas isso descreve, em geral, a atitude de nossa atividade anmica dominante para 
com os sonhos, ainda que ela no se expresse abertamente. Sou levado a concluir que, por toda a durao de nosso estado de sono, sabemos com tanta certeza que estamos 
sonhando quanto sabemos estar dormindo. No devemos prestar demasiada ateno ao argumento contrrio de que nossa conscincia nunca se volta para a segunda dessas 
certezas, e s se volta para a primeira nas ocasies especiais em que a censura se sente, por assim dizer, apanhada de surpresa.
          Por outro lado, [1] h pessoas que, durante a noite, tm clara cincia de estarem dormindo e sonhando, e que assim parecem possuir a faculdade de dirigir 
conscientemente seus sonhos. Quando, por exemplo, um desses sonhadores fica insatisfeito com o rumo tomado por um sonho, ele pode interromp-lo sem acordar e reinici-lo 
em outra direo - tal como um dramaturgo popular, quando pressionado, pode dar a sua pea um final mais feliz. Ou, noutra ocasio, caso seu sonho o tenha levado 
a uma situao sexualmente excitante, ele pode pensar consigo mesmo: "No vou continuar a sonhar com isso e me esgotar numa poluo; vou ret-la, em vez disso, para 
a situao real".
          O Marqus d'Hervey de Saint-Denys [1867, 268 e segs.] [1], citado por Vaschide [1911, 139], alegava ter adquirido o poder de acelerar o curso de seus sonhos 
como lhe aprouvesse e de dar-lhes o rumo que bem entendesse.  como se, em seu caso, o desejo de dormir houvesse dado lugar a outro desejo pr-consciente, a saber, 
o de observar seus sonhos e deleitar-se com eles. O sono  to compatvel com esse tipo de desejo quanto com uma ressalva mental para acordar, caso uma dada condio 
seja atendida (por exemplo, no caso de uma me que esteja amamentando ou de uma ama-de-leite) [em [1]]. Alm disso,  sabido que qualquer pessoa que se interesse 
pelos sonhos recorda um nmero consideravelmente maior deles depois de acordar.
          
          Ferenczi (1911), [1] ao discutir algumas outras observaes sobre o direcionamento dos sonhos, comenta: "Os sonhos elaboram por todos os ngulos os pensamentos 
que ocupam no momento a vida anmica; abandonam uma imagem onrica quando ela ameaa o sucesso de uma realizao de desejo e experimentam uma nova soluo, at finalmente 
lograrem criar uma realizao de desejo que satisfaa s duas instncias anmicas como uma soluo de compromisso."
          
           (D) O DESPERTAR PELOS SONHOS - A FUNO DOS SONHOS - SONHOS DE ANGSTIA
          
          Agora que sabemos que, durante toda a noite, o pr-consciente concentra-se no desejo de dormir, estamos em condies de levar nossa compreenso do processo 
onrico um passo adiante. Mas resumamos primeiro o que aprendemos at agora.
          A situao  a seguinte: ou ficaram pendentes da atividade de viglia restos do dia anterior, e no foi possvel retirar deles toda a catexia de energia; 
ou a atividade de viglia no decorrer do dia levou  excitao de um desejo inconsciente; ou ainda esses dois fatos coincidiram. (J examinamos as diversas possibilidades 
em relao a isso.) O desejo inconsciente se liga aos restos diurnos e efetua uma transferncia para eles: isso pode acontecer no decurso do dia ou s depois de 
se estabelecer o estado de sono. Desperta ento um desejo transferido para o material recente, ou um desejo recente, depois de suprimido, ganha vida nova ao receber 
um reforo do inconsciente. Este desejo procura ganhar acesso  conscincia pela via normal tomada pelos processos de pensamento, atravs do Pcs. (ao qual, na verdade, 
pertence em parte). Entretanto, choca-se com a censura, que ainda est operando e a cuja influncia ento se submete. Nesse ponto, ele adota a distoro, cujo caminho 
j fora preparado pela transferncia do desejo para o material recente. At a, ele est em vias de se transformar numa idia obsessiva, num delrio ou algo parecido 
- isto , num pensamento intensificado pela transferncia e distorcido em sua expresso pela censura. Seu avano subseqente, porm,  detido pelo estado de sono 
em que se acha o pr-consciente. (H uma probabilidade de que esse sistema se tenha protegido da invaso diminuindo suas prprias excitaes.) O processo onrico, 
conseqentemente, entra num caminho regressivo, que lhe  aberto precisamente pela natureza peculiar do estado de sono, e  levado por esse caminho pela atrao 
sobre ele exercida por grupos de lembranas; algumas destas existem apenas sob a forma de catexias visuais, e no como tradues para a terminologia dos sistemas 
posteriores. [Ver em [1].] No curso de seu trajeto regressivo, o processo onrico adquire o atributo da representabilidade. (Abordarei mais adiante a questo da 
compresso [em [1]].) Completou agora a segunda parte de sua trajetria em ziguezague. A primeira parte foi progressiva, indo das cenas ou fantasias inconscientes 
para o pr-consciente;a segunda retrocedeu da fronteira da censura at as percepes. Mas, ao tornar-se perceptivo, o contedo do processo onrico encontrou, por 
assim dizer, um meio de esquivar-se do obstculo erguido em seu caminho pela censura e pelo estado de sono do Pcs. [Ver em [1].] Logra chamar a ateno para si prprio 
e ser notado pela conscincia.
          Ocorre que a conscincia, que encaramos como um rgo dos sentidos para a apreenso de qualidades psquicas,  passvel, na viglia, de receber excitaes 
de duas fontes. Em primeiro lugar, pode receber excitaes da periferia de todo o aparelho, do sistema perceptivo; e alm disso, pode receber excitaes de prazer 
e desprazer, que mostram ser quase a nica qualidade psquica ligada s transposies de energia no interior do aparelho. Todos os outros processos dos sistemas-?, 
inclusive o Pcs., carecem de qualquer qualidade psquica e, desse modo, no podem ser objetos da conscincia, exceto na medida em que trazem prazer ou desprazer 
 percepo. Somos assim levados a concluir que essas liberaes de prazer e desprazer regulam automaticamente o curso dos processos de catexizao. No entanto, 
para possibilitar desempenhos mais delicadamente ajustados, fez-se depois necessrio tornar o curso das representaes menos dependente da presena ou da ausncia 
de desprazer. Para esse fim, o sistema Pcs. precisava ter qualidades prprias que pudessem atrair a conscincia, e parece altamente provvel que as tenha obtido 
ligando os processos pr-conscientes com o sistema mnmico dos signos lingsticos, sistema este no desprovido de qualidade. [Ver [1].] Por intermdio das qualidades 
desse sistema, a conscincia, que fora at ento um rgo sensorial apenas para as percepes, tornou-se tambm um rgo sensorial para parte de nossos processos 
de pensamento. Assim, existem agora, por assim dizer, duas superfcies sensoriais, uma voltada para a percepo, e a outra, para os processos de pensamento pr-conscientes.
          Tenho de presumir que o estado de sono torna a superfcie sensorial da conscincia voltada para o Pcs. muito mais insuscetvel  excitao do que a superfcie 
voltada para os sistemas Pcpt. Alm disso, esse abandono do interesse pelos processos de pensamento durante a noite tem uma finalidade: o pensamento tem de deter-se, 
porque o Pcs. exige dormir. Uma vez, contudo, que um sonho se tenha tornado uma percepo, ele fica em condies de excitar a conscincia, por meio das qualidades 
que agora adquiriu. Essa excitao sensorial passa a desempenhar aquilo que constitui a sua funo essencial: dirige parte da energia de catexizao disponvel no 
Pcs. para a ateno a ser dada ao que est causando a excitao. [Ver em [1].] Deve-se admitir, portanto, que todo sonho tem um efeito despertador, que pe ematividade 
parte da fora quiescente do Pcs. O sonho  ento submetido por essa fora  influncia que descrevemos como elaborao secundria, com vistas  concatenao e  
ininteligibilidade. Em outras palavras, o sonho  tratado por ela tal como qualquer outro contedo perceptivo;  recebido pelas mesmas representaes antecipatrias, 
na medida em que sua temtica o permita [em [1]]. Quanto a haver uma direo nessa terceira parte do processo onrico, trata-se novamente de uma direo progressiva.
          Para evitar mal-entendidos, dizer uma palavra sobre as relaes cronolgicas desses processos onricos no deixa de ser oportuno. Uma conjetura muito atraente 
foi formulada por Goblot [1896, 289 e segs.], sem dvida sugerida pelo enigma do sonho de Maury com a guilhotina [em [1]]. Ele procura mostrar que o sonho no ocupa 
mais que o perodo de transio entre o dormir e o despertar. O processo de despertar leva certo tempo, e durante esse tempo ocorre o sonho. Imaginamos que a imagem 
onrica final foi to poderosa que nos compeliu a acordar, quando, a rigor, ela s foi poderosa assim porque, naquele momento, j estvamos a ponto de acordar. "Un 
rve c'est un rveil qui commence."
          J Dugas [1897b] havia assinalado que Goblot teria de desprezar muitos fatos para poder generalizar sua tese. Ocorrem sonhos dos quais no despertamos 
- por exemplo, alguns em que sonhamos estar sonhando. Com nosso conhecimento do trabalho do sonho, no nos  possvel concordar em que ele abranja apenas o perodo 
do despertar. Parece provvel, ao contrrio, que a primeira parte do trabalho do sonho j comea durante o dia, sob o controle do pr-consciente. Sua segunda parte 
- a modificao imposta pela censura, a atrao exercida pelas cenas inconscientes e sua irrupo forosa na percepo - decerto transcorre ao longo de toda a noite 
e, nesse sentido, talvez estejamos sempre certos ao expressar a sensao de havermos sonhado a noite inteira, embora no saibamos dizer com qu. [Ver em [1].]
          Mas parece-me desnecessrio supor que os processos onricos realmente sigam, at o momento de se tornarem conscientes, a ordem cronolgica em que os descrevi: 
que a primeira coisa a aparecer seja o desejo onrico transferido, seguindo-se ento a distoro causada pela censura, depois a mudana regressiva de direo, etc. 
Fui obrigado a adotar essa ordem em minha descrio, mas o que acontece na realidade , indubitavelmente, uma explorao simultnea deste e daquele caminho, uma 
oscilao da excitao ora para c, ora para l, at que, por fim, ela se acumula na direo maisoportuna e um determinado agrupamento se torna permanente. Algumas 
de minhas experincias pessoais levam-me a suspeitar que o trabalho do sonho freqentemente requer mais do que um dia e uma noite para atingir seu resultado; se 
assim for, j no teremos porque sentir nenhum espanto ante a extraordinria engenhosidade exibida na formao do sonho. Em minha opinio, at a exigncia de que 
o sonho se torne inteligvel como evento perceptivo pode efetivar-se antes que o sonho atraia para si a conscincia. Da por diante, contudo, o ritmo  acelerado, 
pois nesse ponto o sonho  tratado da mesma maneira que qualquer outra coisa percebida.  como um fogo de artifcio, que leva horas para ser preparado, mas se consome 
num momento.
          O processo onrico adquiriu agora, atravs do trabalho do sonho, intensidade suficiente para atrair para si a conscincia e despertar o pr-consciente, 
quaisquer que sejam a durao e a profundidade do sono; ou ento, sua intensidade  insuficiente para conseguir isso e ele tem de permanecer em estado de alerta, 
at que, pouco antes do despertar, a ateno se torna mais mvel e vem a seu encontro. A maioria dos sonhos parece operar com intensidades psquicas comparativamente 
baixas, pois quase todos esperam at o momento de despertar. Mas isso tambm explica o fato de que, quando somos repentinamente despertados de um sono profundo, 
geralmente percebemos alguma coisa sonhada. Em tais casos, tal quando acordamos espontaneamente, a primeira coisa que vemos  o contedo perceptivo construdo pelo 
trabalho do sonho e, logo a seguir, o contedo perceptivo que nos  oferecido de fora.
          Mas o maior interesse terico prende-se aos sonhos que tm o poder de nos despertar em meio ao sono. Tendo em mente a convenincia que em tudo o mais  
a regra geral, podemos perguntar por que um sonho, isto , um desejo inconsciente, recebe o poder de interferir no sono, isto , na realizao do desejo pr-consciente. 
A explicao reside, sem dvida, em relaes de energia de que no temos conhecimento. Se dispusssemos desse conhecimento, provavelmente descobriramos que deixar 
o sonho seguir seu curso e despender nele certa quantidade de ateno mais ou menos desinteressada  uma economia de energia, comparada a manter o inconsciente to 
rigidamente controlado  noite quanto de dia. [Ver em [1].] A experincia nos mostra que sonhar  compatvel com dormir, mesmo que o sonho interrompa o sono diversas 
vezes durante a noite. Acorda-se por um instante e logo se volta a adormecer.  como espantar uma mosca durante o sono: um caso de despertar ad hoc. Quando se adormece 
novamente, elimina-se a interrupo. Como mostram exemplos to familiares quanto o sono das mesque esto amamentando ou das amas-de-leite [em [1]], a realizao 
do desejo de dormir  inteiramente compatvel com a manuteno de certo dispndio de ateno em algum sentido especfico.
          Surge neste ponto uma objeo baseada num melhor conhecimento dos processos inconscientes. Eu prprio afirmei que os desejos inconscientes so sempre ativos. 
Entretanto, a despeito disso, eles no parecem ser suficientemente fortes para se tornarem perceptveis durante o dia. Se, no entanto, enquanto prevalece o estado 
de sono, o desejo inconsciente mostra-se intenso o bastante para formar um sonho e com ele despertar o pr-consciente, por que faltaria essa intensidade depois de 
se ter tomado conhecimento do sonho? No deveria ele continuar a repetir-se perpetuamente, tal como a incmoda mosca continua a retornar depois de ter sido espantada? 
Que direito temos ns de asseverar que os sonhos se livram da perturbao do sono?
           perfeitamente verdico que os desejos inconscientes permanecem sempre ativos. Representam caminhos que sempre podem ser percorridos, toda vez que uma 
quantidade de excitao se serve deles. [Ver em [1].] Na verdade, um aspecto destacado dos processos inconscientes  o fato de eles serem indestrutveis. No inconsciente, 
nada pode ser encerrado, nada  passado ou est esquecido. Isso  o que nos impressiona mais vivamente ao estudarmos as neuroses, em especial a histeria. A via inconsciente 
de pensamentos que conduz  descarga no ataque histrico volta imediatamente a tornar-se transitvel quando se acumula excitao suficiente. Uma humilhao experimentada 
trinta anos antes atua exatamente como uma nova humilhao ao longo desses trinta anos, assim que obtm acesso s fontes inconscientes de afeto. To logo se roa 
em sua lembrana, ela ressurge para a vida e se mostra mais uma vez catexizada com uma excitao que encontra descarga motora num ataque.  precisamente nesse ponto 
que a psicoterapia tem de intervir. Sua tarefa consiste em possibilitar aos processos inconscientes serem finalmente abordados e esquecidos.  que o esmaecimento 
das lembranas e o debilitamento afetivo de impresses que j no so recentes, que nos inclinamos a encarar como bvios e a explicar como um efeito primrio do 
tempo sobre os traos mnmicos da psique, so na realidade modificaes secundrias, promovidas somente atravs de um trabalho rduo.  o pr-consciente que realiza 
esse trabalho, e a psicoterapia no pode seguir outro caminho seno o de colocar o Ics. sob o domnio do Pcs.
          
          H, portanto, dois resultados possveis para cada processo excitatrio inconsciente. Ou bem ele fica por sua prpria conta, caso em que acaba irrompendo 
em algum ponto e, nessa ocasio isolada, encontra descarga para sua excitao na motilidade, ou cai sob a influncia do pr-consciente e sua excitao, em vez de 
ser descarregada, fica ligada pelo pr-consciente. Essa segunda alternativa  a que ocorre no processo do sonho. [Ver em. [1].] A catexia do Pcs., que encontra o 
sonho a meio caminho depois de ele se tornar perceptivo, tendo sido guiada para ele pela excitao da conscincia, liga a excitao inconsciente do sonho e a torna 
impotente para agir como perturbao. Se  verdade que o sonhador desperta por um instante, mesmo assim ele de fato espantou a mosca que ameaava perturbar seu sono. 
Comea a ficar claro para ns que realmente  mais conveniente e econmico deixar que o desejo inconsciente siga seu curso, manter-lhe aberto o caminho da regresso, 
para que ele possa formar um sonho, depois ligar o sonho e desembaraar-se dele com um pequeno dispndio de trabalho do pr-consciente, do que continuar a manter 
o inconsciente na rdea curta durante todo o perodo de sono. [Ver em [1].] De fato, era de se esperar que o sonho, embora possa ter sido originalmente um processo 
sem finalidade til, granjeasse alguma funo para si na interao das foras anmicas. E agora podemos ver qual  essa funo. O sonhar tomou a si a tarefa de recolocar 
sob o controle do pr-consciente a excitao do Ics. que ficou livre; ao faz-lo, ele descarrega a excitao do Ics., serve-lhe de vlvula de escape e, ao mesmo 
tempo, preserva o sono do pr-consciente, em troca de um pequeno dispndio de atividade de viglia. Assim, como todas as outras formaes psquicas da srie da qual 
 membro, ele constitui uma formao de compromisso: serve a ambos os sistemas, uma vez que realiza os dois desejos enquanto forem compatveis entre si. Se retornarmos 
 "teoria da excreo" dos sonhos formulada por Robert [1886], que expliquei em [1], veremos num relance que, em essncia, devemos aceitar sua descrio da funo 
dos sonhos, embora divergindo dele nas premissas e em sua viso do prprio processo onrico. [Ver em [1]] [2]
          
          A ressalva "enquanto os dois desejos forem compatveis entre si" implica uma aluso aos casos possveis em que a funo de sonhar termina em fracasso. 
O processo onrico tem permisso para comear como a realizao de um desejo inconsciente, mas, quando essa tentativa de realizao de desejo fere o pr-consciente 
com tanta violncia que ele no consegue continuar dormindo, o sonho rompe o compromisso e deixa de cumprir a segunda parte de sua tarefa. Nesse caso, ele  imediatamente 
interrompido e substitudo por um estado de completa viglia. Mas tambm aqui no  realmente culpa do sonho que ele aparea agora no papel de perturbador do sono, 
e no em seu papel normal de guardio do sono; e no  necessrio que isso nos predisponha contra o fato de ele ter uma finalidade til. No  este o nico exemplo 
de um dispositivo normalmente til no organismo tornar-se intil e perturbador to logo as condies que lhe do origem so ligeiramente modificadas; e a perturbao 
serve ao menos ao novo propsito de chamar ateno para a modificao e de acionar o mecanismo regulador do organismo contra ela. O que tenho em mente,  claro, 
so os sonhos de angstia, e para que no se pense que estou fugindo dessa prova contrria  teoria da realizao de desejo sempre que deparo com ela, darei ao menos 
alguns indcios de sua explicao.
          J no h nada de contraditrio para ns na idia de que um processo psquico gerador de angstia possa, ainda assim, constituir a realizao de um desejo. 
Sabemos que isso pode ser explicado pelo fato de o desejo pertencer a um sistema, Ics., ao passo que foi repudiado e suprimido pelo outro sistema, o Pcs. Mesmo quando 
a sade psquica  perfeita, a subjugao do Ics. pelo Pcs. no  completa: a medida da supresso indica o grau de nossa normalidade psquica. Os sintomas neurticos 
mostram que os dois sistemas se encontram em conflito entre si; so o produto de um compromisso que pe termo ao conflito por algum tempo. De um lado, do ao Ics. 
um escoadouro para a descarga de sua excitao e lhe fornecem uma espcie de porta de escape, enquanto, de outro, possibilitam ao Pcs. controlar o Ics. at certo 
ponto.  instrutivo considerar, por exemplo, a importncia de uma fobia histrica ou de uma agorafobia. Suponhamos que um paciente neurtico seja incapaz de atravessar 
a rua sozinho, condio que de pleno direito encaramos como um "sintoma". Se eliminarmos esse sintoma, obrigando-o a praticar a ao de que se acredita incapaz, 
a conseqncia ser um ataque de angstia; e a rigor, a ocorrncia de um ataque de angstia na rua , muitas vezes, a causa precipitante do desencadeamento de uma 
agorafobia. Vemos, portanto, que o sintoma foi formado para evitar uma irrupo da angstia; a fobia se ergue como uma fortificao de fronteira contra a angstia.
          
          Nossa discusso no pode ser levada adiante sem examinarmos o papel desempenhado pelos afetos nesses processos; neste contexto, porm, s podemos faz-lo 
de modo imperfeito. Assim, presumamos que a supresso do Ics. seja necessria, acima de tudo, porque, se o curso das representaes no Ics. ficasse por sua prpria 
conta, geraria um afeto que foi originalmente de natureza prazerosa, mas tornou-se desprazeroso depois de ocorrido o processo de "recalcamento". O propsito, bem 
como o resultado da supresso,  impedir essa liberao de desprazer. A supresso se estende ao contedo de representaes do Ics., j que a liberao de desprazer 
pode comear a partir desse contedo. Isso pressupe uma suposio bastante especfica quanto  natureza da gerao do afeto. Ela  encarada como uma funo motora 
ou secretria, a chave de cuja inervao reside nas representaes do Ics. Graas  dominao exercida pelo Pcs., essas representaes so, por assim dizer, sufocadas 
e inibidas de enviar impulsos que gerariam afeto. Desse modo, quando cessa a catexia do Pcs., o perigo  que as excitaes inconscientes liberem um tipo de afeto 
que (em decorrncia do recalcamento j ocorrido) s pode ser vivenciado como desprazer, como angstia.
          Esse perigo se concretiza quando se permite que o processo onrico siga seu curso. As condies que determinam sua realizao so: que tenham ocorrido 
recalcamentos e que as moes de desejo suprimidas possam adquirir fora suficiente. Esses determinantes, portanto, esto inteiramente fora da estrutura psicolgica 
da formao dos sonhos. No fosse o fato de nosso tema estar ligado  questo da gerao de angstia pelo fator isolado da liberao do Ics. durante o sono, eu poderia 
omitir qualquer discusso dos sonhos de angstia e evitar a necessidade de entrar, nestas pginas, em todos os aspectos obscuros que o cercam.
          A teoria dos sonhos de angstia, como j declarei repetidamente, faz parte da psicologia das neuroses. Nada mais temos a ver com ela, uma vez indicado 
o seu ponto de contato com o tema do processo onrico. H apenas mais uma coisa que posso fazer. Uma vez que afirmei que a angstia neurtica provm de fontes sexuais, 
posso submeter  anlise alguns sonhos de angstia, a fim de revelar o material sexual contido em seus pensamentos onricos.
          
          Tenho boas razes para deixar de lado, nesta discusso, os copiosos exemplos fornecidos por meus pacientes neurticos, e para preferir citar alguns sonhos 
de angstia de pessoas jovens.
          J se vo dcadas desde que eu prprio tive um verdadeiro sonho de angstia, mas recordo-me de um que tive aos sete ou oito anos e submeti  interpretao 
cerca de trinta anos depois. Foi um sonho muito vvido, e nele vi minha querida me, com uma expresso peculiarmente serena e adormecida no rosto, sendo carregada 
para dentro do quarto por duas (ou trs) pessoas com bicos de pssaros e depositada sobre o leito. Acordei aos prantos, gritando, e interrompi o sono de meus pais. 
As figuras estranhamente vestidas e insolitamente altas, com bicos de pssaro, provinham das ilustraes da Bblia de Philippson. Imagino que fossem deuses com cabea 
de falco de um antigo relevo de uma tumba egpcia. Alm disso, a anlise trouxe-me  lembrana um menino mal-educado, filho de uma concierge, que costumava brincar 
conosco no gramado em frente da casa quando ramos crianas e que me inclino a pensar que se chamava Philipp. Parece-me que foi desse menino que ouvi pela primeira 
vez o termo vulgar que designa a relao sexual, em cujo lugar as pessoas cultas utilizam sempre uma palavra latina, "copular", e que foi indicado de maneira bastante 
clara pela escolha das cabeas de falso. Devo ter adivinhado o significado sexual da palavra pelo rosto de meu jovem instrutor, que estava bem familiarizado com 
os fatos da vida. A expresso do rosto de minha me no sonho foi copiada da viso que eu tivera de meu av poucos dias antes de sua morte, quando ressonava em estado 
de coma. A interpretao feita no sonho pela "elaborao secundria" [em [1]], portanto, deve ter sido que minha me estava morrendo; o relevo da tumba combinava 
com isso. Despertei com uma angstia que no cessou enquanto no acordei meus pais. Lembro-me de ter-me acalmado de repente, ao ver o rosto de minha me, como se 
precisasse ser assegurado de que ela no estava morta. Mas essa interpretao "secundria"do sonho j se produziu sob a influncia da angstia desenvolvida. No 
 que eu estivesse angustiado por ter sonhado que minha me estava morrendo, mas interpretei o sonho nesse sentido em minha reviso pr-consciente porque j estava 
sob a influncia da angstia. Levando em conta o recalcamento, pode-se rastrear a origem da angstia at um anseio obscuro e evidentemente sexual que encontrou expresso 
apropriada no contedo visual do sonho.
          Um homem de vinte e sete anos, que estivera gravemente enfermo por um ano, relatou que entre seus onze e treze anos sonhara repetidamente (com uma grande 
angstia concomitante) que um homem com uma machadinha o estava perseguindo; ele tentava correr, mas parecia estar paralisado e no conseguia sair do lugar. Este 
 um bom exemplo de um tipo muito comum de sonho de angstia, que nunca se suspeitaria ter um cunho sexual. Na anlise, o sonhador esbarrou primeiro numa histria 
(de poca posterior  do sonho) que lhe fora contada pelo tio, de como certa noite ele fora atacado na rua por um indivduo de aparncia suspeita; o prprio sonhador 
concluiu dessa associao que poderia ter ouvido falar de algum episdio semelhante na poca do sonho. Com respeito  machadinha, lembrou-se que, por volta dessa 
poca, machucara certa vez a mo com uma machadinha quando cortava lenha. Passou ento imediatamente a suas relaes com o irmo mais novo. Costumava maltratar e 
derrubar esse irmo, e se lembrou particularmente de uma ocasio em que lhe dera um pontap na cabea com a bota, arrancando sangue, e de como sua me dissera: "Tenho 
medo que um dia ele o mate!" Enquanto parecia ainda ocupado com o tema da violncia, ocorreu-lhe subitamente uma recordao de seus nove anos. Seus pais haviam chegado 
a casa tarde e tinham ido para a cama enquanto ele fingia estar dormindo; pouco depois, ele ouvira sons ofegantes e outros rudos que lhe pareceram estranhos, e 
pudera tambm vislumbrar a posio dos pais na cama. Outros pensamentos mostraram que ele havia traado uma analogia entre essa relao de seus pais e sua prpria 
relao com o irmo mais novo. Classificara o que havia acontecido entre seus pais sob o conceito de violncia e luta e encontrara provas em favor dessa concepo 
no fato de ter freqentemente observado sangue na cama da me.
          A experincia cotidiana confirma, diria eu, que a relao sexual entre adultos se afigura a qualquer criana que a observe como algo estranho e que lhe 
desperta angstia. Expliquei essa angstia argumentando que o que est em pauta  uma excitao sexual com que a compreenso das crianas  incapaz de lidar, e a 
qual elas sem dvida tambm repudiam por seus pais estarem envolvidos; assim, ela se transforma em angstia. Num perodo aindamais primitivo da vida, as excitaes 
sexuais dirigidas ao membro de sexo oposto no casal parental ainda no depararam com o recalcamento e, como vimos, expressam-se livremente. [Ver em [1]]
          No hesitaria em dar a mesma explicao para as crises de terror noturno acompanhadas de alucinaes (pavor nocturnus), que so to freqentes nas crianas. 
Tambm nesse caso, s pode tratar-se de impulsos sexuais no compreendidos e que foram repudiados. A investigao provavelmente mostraria uma periodicidade na ocorrncia 
dos ataques, uma vez que o aumento da libido sexual pode ser ocasionado no apenas por impresses excitantes acidentais, mas tambm por ondas sucessivas de processos 
espontneos de desenvolvimento.
          Falta-me material suficiente baseado na observao para me permitir confirmar esta explicao.
          Aos pediatras, por outro lado, parece faltar a nica linha de abordagem capaz de tornar inteligvel toda essa classe de fenmenos, seja no aspecto somtico, 
seja no aspecto psquico. No resisto a citar um divertido exemplo de como os antolhos da mitologia mdica podem fazer com que um observador deixe, por pouco, de 
chegar  compreenso desses casos. Meu exemplo  extrado de uma tese sobre o pavor nocturnus, de autoria de Debacker (1881,66):
          Um menino de treze anos, de sade delicada, comeou a mostrar-se apreensivo e sonhador. Seu sono tornou-se perturbado e era interrompido quase que semanalmente 
por graves ataques de angstia, acompanhados por alucinaes. Ele guardava sempre uma recordao muito clara desses sonhos. Dizia que o diabo lhe gritava: "Agora 
te pegamos, agora te pegamos!" Havia ento um cheiro de piche e enxofre e sua pele era queimada por chamas. Ele despertava do sonho aterrorizado e, a princpio, 
no conseguia gritar. Quando recuperava a voz, podia-se ouvi-lo dizer claramente: "No, no, eu no; eu no fiz nada!", ou "Por favor, no! No vou fazer de novo!", 
ou, s vezes: "Albert nunca fez isso!" Depois, recusava-se a tirar a roupa, "porque as chamas s o pegavam quando estava despido". Enquanto ainda estava tendo esses 
sonhos com o diabo, que eram uma ameaa a sua sade, foi enviado para o campo. L, recuperou-se no prazo de dezoito meses, e certa vez, quando j tinha quinze anos, 
confessou: "Je n'osais pas l'avouer, mais j'prouvais continuellement des picotements et des surexcitations aus parties;  la fin, cela m'nervaittant que plusieurs 
fois j'ai pens me jeter par la fentre du dortoir."
          
          H realmente muito pouca dificuldade em inferir: (1) que o menino se havia masturbado quando era mais novo, que provavelmente o negara e que fora ameaado 
com severos castigos por seu mau hbito (cf. sua admisso: "Je ne le ferais plus", e sua negativa: "Albert n'a jamais fait a"); (2) que, com a chegada da puberdade, 
a tentao de se masturbar havia ressurgido, com as ccegas em seus rgos genitais, mas (3) que irrompera nele uma luta pelo recalcamento, a qual suprimira sua 
libido e a transformara em angstia e que esta havia tomado o lugar dos castigos com que outrora o haviam ameaado.
          E agora, vejamos as inferncias de nosso autor (ibid. 69): "As seguintes concluses podem ser extradas desta observao:
          "(1) A influncia da puberdade num menino de sade delicada pode levar a um estado de grande fraqueza e resultar num grau considervel de anemia cerebral.
          "(2) Essa anemia cerebral produz alteraes do carter, alucinaes demonomanacas e estados muito violentos de angstia noturna (e talvez tambm diurna).
          "(3) A demonomania e as auto-recriminaes do menino remontam s influncias de sua educao religiosa, que o afetaram quando criana.
          "(4) Todos os sintomas desaparecem no decurso de uma visita relativamente prolongada ao campo, em decorrncia do exerccio fsico e da recuperao das 
foras com a passagem da puberdade.
          "(5) Talvez se possa atribuir uma influncia predisponente sobre a gnese do estado cerebral do menino  hereditariedade e a uma antiga infeco sifiltica 
do seu pai."
          E aqui temos a concluso final: "Nous avons fait entrer cette observation dans le cadre des dlires apyrtiques d'inanition, car c'est  l'ischmie crbrale 
que nous ratiachons cet tat particulier." 
          
          (E) OS PROCESSOS PRIMRIO E SECUNDRIO - RECALCAMENTO
          
          Ao me arriscar na tentativa de penetrar mais a fundo na psicologia dos processos onricos, propus a mim mesmo uma rdua tarefa, da qual meus poderes expositivos 
mal chegam a ficar  altura. Os elementos que so de fato simultneos nesse todo complexo s podem ser representados sucessivamente em minha descrio deles, ao 
mesmo tempo que, ao expor cada argumento, tenho de evitar precipitar as razes em que ele se fundamenta: dominar essas dificuldades est alm de minhas foras. Em 
tudo isso, estou pagando o tributo por no ter podido, em minha descrio da psicologia do sonho, seguir o desenvolvimento histrico de minhas concepes. Embora 
minha linha de abordagem do tema dos sonhos tenha sido determinada por meu trabalho anterior sobre a psicologia das neuroses, eu no tencionava servir-me desta como 
base de referncia na presente obra. No obstante, sou constantemente levado a faz-lo, em vez de prosseguir, como desejaria, na direo contrria, utilizando os 
sonhos como meio de abordagem da psicologia das neuroses. Estou ciente de todos os problemas em que meus leitores ficam assim envolvidos, mas no vejo meio de evit-los. 
[Ver em [1].]
          Em minha insatisfao com esse estado de coisas, alegra-me fazer uma pequena pausa em outra considerao que parece valorizar mais meus esforos. Descobri-me 
frente a um tema sobre o qual, como ficou demonstrado em meu primeiro captulo, as opinies das autoridades se caracterizavam pelas mais agudas contradies. Minha 
abordagem do problema dos sonhos encontrou espao para a maioria dessas opinies contraditrias. S achei necessrio negar categoricamente duas delas - a viso de 
que o sonho  um processo sem sentido [em [1]] e a viso de que  um processo somtico [em [1]]. Salvo por isso, pude encontrar justificativa para todas essas opinies 
mutuamente contraditrias num ou noutro ponto de minha complexa tese e mostrar que elas haviam deparado com alguma parcela de verdade.
          A tese de que os sonhos do prosseguimento s ocupaes e interesses da vida de viglia [em [1]] foi inteiramente confirmada pela descoberta dos pensamentos 
onricos ocultos. Estes s dizem respeito ao que nos parece importante e tem grande interesse para ns. Os sonhos nunca seocupam de pormenores insignificantes. Mas 
tambm encontramos motivo para aceitar a viso oposta de que os sonhos apanham os desejos irrelevantes que restam do dia anterior [em [1]] e de que s conseguem 
apoderar-se de um grande interesse diurno depois de ele se ter subtrado, at certo ponto, da atividade de viglia [em [1]]. Verificamos que isso se aplica ao contedo 
do sonho, que expressa os pensamentos onricos numa forma alterada pela distoro. Por motivos ligados ao mecanismo de associao, como vimos, o processo onrico 
acha mais fcil obter controle do material de representaes recente ou indiferente, que ainda no foi requisitado pela atividade de pensamento da viglia; e, por 
motivos de censura, ele transfere a intensidade psquica daquilo que  importante, mas objetvel, para aquilo que  indiferente.
          O fato de os sonhos serem hipermnsicos [em [1]] e terem acesso ao material proveniente da infncia [em [1]] tornou-se um dos pilares de nossa doutrina. 
Nossa teoria dos sonhos encara os desejos originrios do infantil como a fora propulsora indispensvel para a formao dos sonhos.
          Naturalmente, no nos ocorreu lanar nenhuma dvida sobre a importncia experimentalmente demonstrada dos estmulos sensoriais externos durante o sono 
[em [1]], mas mostramos que esse material tem com o desejo onrico a mesma relao que os restos de pensamento deixados pela atividade diurna. Tampouco vimos qualquer 
razo para contestar a tese de que os sonhos interpretam os estmulos sensoriais objetivos tal como o fazem as iluses [em [1]], mas descobrimos a razo que motiva 
essa interpretao, razo que no fora especificada por outros autores. A interpretao  feita de maneira a que o objeto percebido no interrompa o sono e seja 
utilizvel para fins de realizao de desejo. Quanto aos estados subjetivos de excitao nos rgos sensoriais durante o sono, cuja ocorrncia parece ter sido provada 
por Trumbull Ladd [1892; ver em [1]],  verdade que no os aceitamos como uma fonte especfica dos sonhos, mas pudemos explic-los como resultantes da revivificao 
regressiva das lembranas que atuam por trs do sonho.
          As sensaes orgnicas internas, que foram comumente tomadas como um ponto cardeal na explicao do sonho [em [1]] preservaram um lugar, embora mais modesto, 
em nossa teoria. Tais sensaes - as sensaes de cair, por exemplo, ou de flutuar ou estar inibido - fornecem um material acessvel a qualquer momento e do qual 
o trabalho do sonho se vale, sempre que necessrio, para expressar os pensamentos onricos.
          
          A viso de que o processo onrico  rpido ou instantneo [em [1]] , em nossa opinio, correta no que se refere  percepo, pela conscincia, do contedo 
onrico pr-formado; parece provvel que as partes precedentes do processo onrico sigam um curso lento e oscilante. Pudemos contribuir para a soluo do enigma 
dos sonhos que contm uma grande quantidade de material comprimida num lapso curtssimo de tempo; sugerimos que, em tais casos, trata-se de uma apoderao de estruturas 
prontas j existentes na psique.
          O fato de os sonhos serem distorcidos e mutilados pela memria [em [1]]  aceito por ns, mas, em nossa opinio, no constitui obstculo, pois no passa 
da parte final e manifesta de uma atividade distorcedora que atua desde o prprio incio da formao do sonho.
          No que tange ao debate acirrado e aparentemente irreconcilivel sobre se a vida anmica dorme  noite [em [1]] ou tem tanto domnio de todas as suas faculdades 
quanto durante o dia [em [1]], descobrimos que ambos os lados tm razo, mas nenhum est completamente certo. Encontramos nos pensamentos onricos provas de uma 
funo intelectual altamente complexa, que opera com quase todos os recursos do aparelho anmico. No obstante, no se pode contestar que esses pensamentos onricos 
surgiram durante o dia, e  imperativo presumir que existe na vida anmica um estado de sono. Portanto, mesmo a teoria do sono parcial [em [1]] mostrou seu valor, 
embora tenhamos descoberto que o que caracteriza o estado de sono no  a desintegrao dos vnculos anmicos, mas o fato de que o sistema psquico que detm o comando 
durante o dia se concentra no desejo de dormir. O fator do retraimento do mundo externo [em [1]] preserva sua importncia em nosso esquema; ele ajuda, embora no 
como determinante exclusivo, a possibilitar o carter regressivo da representao nos sonhos. A renncia ao direcionamento voluntrio do fluxo de representaes 
[em [1]]  indiscutvel, mas isso no priva a vida anmica de todo e qualquer objetivo, pois vimos como, depois de se terem abandonado as representaes-meta voluntrias, 
as involuntrias assumem o comando. No fizemos simplesmente aceitar o carter frouxo das ligaes associativas dos sonhos [em [1]], mas mostramos que ele se estende 
muito alm do que se havia suspeitado. Descobrimos, contudo, que essas ligaes frouxas so meros substitutos obrigatrios de outras que so vlidas e significativas. 
 bem verdade que descrevemos os sonhos como absurdos, mas os exemplos nos ensinam quo sensato pode ser o sonho, mesmo quando parece absurdo.
          
          No temos divergncias de opinio quanto s funes a serem atribudas aos sonhos. A tese de que os sonhos agem como uma vlvula de segurana da vida anmica 
[em [1]] e de que, nas palavras de Robert [1886, 10 e segs.], toda sorte de coisas prejudiciais se tornam inofensivas por serem representadas no sonho, no apenas 
coincide exatamente com nossa teoria da dupla realizao de desejos promovida pelo sonho, como tambm a maneira como  enunciada  mais inteligvel para ns que 
para o prprio Robert. A viso de que a alma tem plena liberdade de ao em seu funcionamento nos sonhos [em [1]]  representada, em nossa teoria, pelo fato de a 
atividade pr-consciente permitir que os sonhos sigam seu curso. Expresses como "retorno da vida anmica, nos sonhos, a um ponto de vista embrionrio", ou as palavras 
empregadas por Havelock Ellis [1899, 721] para descrever os sonhos - "um mundo arcaico de vastas emoes e pensamentos imperfeitos" [em [1]] -, parecem-nos antecipaes 
oportunas de nossas prprias assertivas de que participam da formao dos sonhos modos primitivos de atividade que so suprimidos durante o dia. Pudemos aceitar 
inteiramente, como se fosse nosso, o que escreveu Sully [1893, 362]: "Nossos sonhos so um meio de conservar essas personalidades sucessivas [anteriores]. Quando 
adormecidos, retornamos s antigas maneiras de ver e sentir as coisas, aos impulsos e atividades que nos dominaram num passado distante" [ver em [1]]. [1] Para ns, 
no menos que para Delage [1891], aquilo que foi "suprimido" [em [1]] tornou-se "a fora propulsora dos sonhos".
          Reconhecemos plenamente a importncia do papel atribudo por Scherner [1861]  "fantasia onrica", bem como as interpretaes desse autor [em [1]], mas 
fomos obrigados a situ-las, por assim dizer, numa posio diferente dentro do problema. No  que os sonhos criem a fantasia, mas, antes, a atividade inconsciente 
da fantasia tem grande participao na formao dos pensamentos onricos. Devemos a Scherner a indicao da fonte dos pensamentos onricos, mas quase tudo o que 
ele atribui ao trabalho do sonho  realmente atribuvel  atividade do inconsciente durante o dia, que  tanto a instigadora dos sonhos quanto dos sintomas neurticos. 
Fomos obrigados a distinguir o "trabalho do sonho" como algo inteiramente diverso e com uma conotao muito mais estreita.
          Por fim, de modo algum abandonamos a relao existente entre os sonhos e os distrbios psquicos [em [1]], mas estabelecemo-la mais firmemente em novas 
bases.
          
          Desse modo, pudemos encontrar em nossa estrutura lugar para as mais variadas e contraditrias descobertas de autores anteriores, graas ao ineditismo de 
nossa teoria dos sonhos, que as combina, por assim dizer, numa unidade superior. Demos outro emprego a algumas dessas descobertas, mas poucas foram as que rejeitamos 
por completo. No obstante, nosso edifcio ainda no est terminado.  parte as muitas questes desconcertantes em que nos envolvemos ao abrir caminho pelas reas 
obscuras da psicologia, parecemos atormentados por uma nova contradio. Por um lado, supusemos que os pensamentos onricos surgem atravs de uma atividade mental 
inteiramente normal, mas, por outro, descobrimos diversos processos de pensamento bastante anormais entre os pensamentos onricos, que se estendem ao contedo do 
sonho e que depois repetimos no curso de nossa interpretao do sonho. Tudo o que descrevemos como "trabalho do sonho" parece afastar-se imensamente daquilo que 
reconhecemos como processos racionais de pensamento, a tal ponto que as mais severas crticas emitidas pelos autores anteriores sobre o nvel nfimo de funcionamento 
psquico nos sonhos devem parecer inteiramente justificadas.
          Talvez s encontremos esclarecimento e assistncia nesta dificuldade conduzindo nossas investigaes ainda mais  frente. E comearei a escolher, para 
um exame mais aprofundado, uma das conjunturas que podem levar  formao do sonho.
          O sonho, como descobrimos, toma o lugar de diversos pensamentos que derivam de nossa vida cotidiana e formam uma seqncia completamente lgica. No podemos 
duvidar, portanto, de que esses pensamentos se originem de nossa vida mental normal. Todos os atributos que tanto valorizamos em nossas cadeias de pensamento e que 
as caracterizam como realizaes complexas de ordem superior so reencontradas nos pensamentos onricos. No h, porm, necessidade de presumir que essa atividade 
de pensamento seja executada durante o sono, possibilidade esta que confundiria gravemente o que at aqui constituiu nosso quadro aceito do estado psquico de sono. 
Ao contrrio,  bem possvel que esses pensamentos tenham-se originado no dia anterior, passado despercebidos por nossa conscincia desde o incio, e talvez j se 
tenham completado ao iniciar-se o sono. O mximo que podemos concluir da  que isso prova que as mais complexas realizaes do pensamento so possveis sem a assistncia 
da conscincia - um fato de que no poderamos deixar de nos inteirar, de qualquer modo, atravs de toda psicanlise de um paciente que sofra de histeria ou de idias 
obsessivas. Esses pensamentos onricos certamente no so, em si, inadmissveis  conscincia;  possvel quetenha havido diversas razes para que no se tornassem 
conscientes para ns durante o dia. O tornar-se consciente est ligado  aplicao de uma certa funo psquica [em [1]], a da ateno, funo esta que, segundo 
parece, s se acha disponvel numa quantidade especfica, a qual pode ter sido desviada da cadeia de pensamentos em questo para alguma outra finalidade. H tambm 
outra maneira pela qual essas cadeias de pensamento podem ser apartadas da conscincia. O curso de nossas reflexes conscientes nos mostra que seguimos um determinado 
caminho em nosso emprego da ateno. Quando, ao seguirmos esse caminho, esbarramos numa representao que no resiste  crtica, ns o interrompemos: abandonamos 
a catexia da ateno. Ora, parece que a cadeia de pensamentos assim iniciada e abandonada pode continuar a se desenrolar sem que a ateno torne a voltar-se para 
ela, a menos que, num ou noutro ponto, ela atinja um grau de intensidade particularmente elevado, que exija ateno. Assim, quando uma cadeia de pensamento  inicialmente 
rejeitada (conscientemente, talvez) pelo julgamento de que  errada ou intil para o fim intelectual imediato em vista, o resultado pode ser que essa cadeia de pensamentos 
prossiga, inobservada pela conscincia, at o incio do sono.
          Resumindo: chamamos uma cadeia de pensamentos como essa de "pr-consciente"; encaramo-la como completamente racional e acreditamos que possa ter sido simplesmente 
negligenciada ou interrompida e suprimida. Acrescentemos uma exposio clara de como visualizamos a ocorrncia de uma cadeia de representaes. Cremos que, partindo 
de uma representao-meta, uma determinada quantidade de excitao, que denominamos "energia catexial", desloca-se pelas vias associativas selecionadas por aquela 
representao-meta. A cadeia de pensamentos "desprezada"  aquela que no recebeu essa catexia; a cadeia de pensamentos "suprimida" ou "repudiada"  aquela da qual 
essa catexia foi retirada. Em ambos os casos, elas ficam entregues a suas prprias excitaes. Em certas condies, a cadeia de pensamentos catexizada com uma meta 
[zielbesetzt]  capaz de atrair para si a ateno da conscincia e, nesse caso, por intermdio da conscincia, recebe uma "hipercatexia". Seremos obrigados, dentro 
em pouco, a explicar nossa viso da natureza e funo da conscincia. [Ver em [1]]
          
          Uma cadeia de pensamentos assim deslanchada no pr-consciente pode cessar espontaneamente ou persistir. Visualizamos o primeiro desses resultados como 
implicando que a energia ligada  cadeia de pensamentos se difunde por todas as vias associativas que partem dela; essa energia coloca toda a rede de pensamentos 
num estado de excitao que dura algum tempo e depois decai,  medida que a excitao em busca de descarga se vai transformando numa catexia aquiescente. Quando 
sobrevm esse primeiro resultado, o processo no tem maior importncia no que concerne  formao do sonho. Dentro de nosso pr-consciente, porm, espreitam outras 
representaes-meta derivadas de fontes situadas em nosso inconsciente e de desejos que esto sempre em estado de alerta. Eles podem assumir o controle da excitao 
ligada ao grupo de pensamentos deixado  sua prpria sorte, estabelecer uma ligao entre ele e um desejo inconsciente e "transferir-lhe" a energia que pertence 
a este ltimo. Da por diante, a cadeia de pensamentos desprezada ou suprimida fica em condies de persistir, embora o reforo que recebeu no lhe confira nenhum 
direito de acesso  conscincia. Podemos exprimir isso dizendo que a cadeia de pensamentos at ento pr-consciente foi agora "arrastada para o inconsciente".
          Outras conjunturas podem conduzir  formao do sonho.  possvel que a cadeia de pensamentos pr-consciente tenha estado ligada ao desejo inconsciente 
desde o incio e, por essa razo, tenha sido repudiada pela catexia-meta dominante; ou ento um desejo inconsciente pode ser ativado por outras razes (por causas 
somticas, talvez) e procurar transferir-se para os restos psquicos no catexizados pelo Pcs. sem que estes faam qualquer movimento para ir a seu encontro. Mas 
todos os trs casos tm o mesmo resultado final: passa a existir no pr-consciente uma cadeia de pensamentos desprovida de catexia pr-consciente, mas que recebeu 
uma catexia do desejo inconsciente.
          A partir da, a cadeia de pensamentos passa por uma srie de transformaes que j no podemos reconhecer como processos psquicos normais e que levam 
a um resultado que nos desnorteia - uma formao psicopatolgica. Vamos enumerar e classificar esses processos:
          (1) As intensidades das representaes individuais tornam-se passveis de descarga en bloc e passam de uma representao para outra, de modo que se formam 
certas representaes dotadas de grande intensidade. [Cf. pg. 540.] E, uma vez que esse processo se repete vrias vezes, a intensidade de toda uma cadeia de pensamentos 
pode acabar por concentrar-se num nico elemento de representao. Temos a o fato da "compresso" ou "condensao", que se tornou conhecida no trabalho do sonho. 
 ela a principalresponsvel pela impresso desconcertante que os sonhos causam em ns, pois no conhecemos nada que lhes seja anlogo na vida anmica normal e acessvel 
 conscincia. Tambm na vida anmica normal encontramos representaes que, como pontos nodais ou resultados finais de cadeias inteiras de pensamento, possuem um 
alto grau de significao psquica; mas essa significao no se expressa em nenhum aspecto sensorialmente bvio para a percepo interna; sua representao perceptiva 
no  mais intensa, em nenhum aspecto, por causa de sua significao psquica. No processo de condensao, por outro lado, toda interligao psquica se transforma 
numa intensificao de seu contedo de representaes.  o mesmo que acontece quando, ao preparar um livro para publicao, fao com que alguma palavra de importncia 
especial para a compreenso do texto seja impressa em tipo espacejado ou em negrito, ou quando, ao falar, pronuncio essa mesma palavra em voz mais alta, lentamente 
e com nfase especial. A primeira dessas duas analogias nos faz lembrar de imediato um exemplo fornecido pelo prprio trabalho do sonho: a palavra "trimetilamina" 
no sonho da injeo de Irma [em [1]]. Os historiadores da arte chamaram-nos a ateno para o fato de que as esculturas histricas mais antigas obedecem a um princpio 
semelhante: expressam a classe das pessoas representadas atravs do tamanho. O rei  representado em tamanho duas ou trs vezes maior que seus sditos ou seus inimigos 
derrotados. As esculturas da poca romana utilizavam meios mais sutis para produzir o mesmo resultado. A figura do Imperador era colocada no centro, de p, e modelada 
com cuidado especial, enquanto seus inimigos jaziam prostrados a seus ps; mas ela j no era um gigante entre anes. As reverncias com que os subalternos ainda 
hoje sadam seus superiores so um eco desse mesmo antigo princpio de representao.
          A direo em que avanam as condensaes no sonho  determinada, de um lado, pelas relaes pr-conscientes racionais entre os pensamentos onricos e, 
de outro, pela atrao exercida pelas lembranas visuais do inconsciente. O efeito do trabalho de condensao  a obteno das intensidades necessrias para forar 
a irrupo nos sistemas perceptivos.
          (2) Graas, tambm,  liberdade com que as intensidades so transferveis, formam-se "representaes intermedirias" semelhantes a compromissos, sob a 
influncia da condensao. (Cf. os numerosos exemplos que forneci [em [1], por exemplo].) Isso , novamente, algo inaudito nas cadeias normais de representaes, 
onde a nfase principal recai sobre a seleo e a reteno do elemento de representao "correto". Por outro lado, com notvel freqncia ocorrem formaes mistas 
e compromissos quandotentamos expressar os pensamentos pr-conscientes na fala. Eles so ento encarados como exemplos de "lapsos de linguagem".
          (3) As representaes que transferem umas s outras suas intensidades mantm entre si as mais frouxas relaes. So vinculadas por um tipo de associao 
que  desdenhado por nosso pensamento normal e relegado ao uso nos chistes. Em particular, encontramos associaes baseadas em homnimos e parnimos, que so tratadas 
como tendo o mesmo valor que as demais.
          (4) Os pensamentos mutuamente contraditrios no fazem qualquer tentativa de anular uns aos outros, mas subsistem lado a lado. Combinam-se freqentemente 
para formar condensaes, como se no houvesse nenhuma contradio entre eles, ou chegam a formaes de compromisso que nossos pensamentos conscientes nunca tolerariam, 
mas que so amide admitidos em nossas aes.
          Estes so alguns dos mais notveis dentre os processos anormais a que os pensamentos onricos, antes formados em bases racionais, so submetidos no decurso 
do trabalho do sonho. Veremos que a principal caracterstica desses processos  que toda a nfase recai em tornar mvel e passvel de descarga a energia catexizante; 
o contedo e o significado intrnseco dos elementos psquicos a que se ligam as catexias so tratados como coisas de importncia secundria. Poder-se-ia supor que 
a condensao e a formao de compromisso s se do para facilitar a regresso, isto , quando se trata de transformar pensamentos em imagens. Todavia, a anlise 
- e, mais ainda, a sntese - dos sonhos que no envolvem essa regresso a imagens, como, por exemplo, o sonho do "Autodidasker - conversa com o Professor N." [em 
[1]], exibe os mesmos processos de deslocamento e condensao que os outros.
          Portanto, somos levados a concluir que dois tipos fundamentalmente diferentes de processos psquicos participam da formao dos sonhos. Um deles produz 
pensamentos onricos perfeitamente racionais, com a mesma validade que o pensamento normal; j o outro trata esses pensamentos de um modo que  excepcionalmente 
desconcertante e irracional. J no Captulo VI distinguimos esse segundo processo psquico como sendo o trabalho do sonho propriamente dito. Que esclarecimentos 
podemos agora oferecer sobre sua origem?
          No nos seria possvel responder a essa pergunta se no houvssemos feito algum progresso no estudo da psicologia das neuroses, especialmente da histeria. 
Dela depreendemos que os mesmos processos psquicos irracionais, e outros que no especificamos, regem a produo dos sintomas histricos. Na histeria, alm disso, 
deparamos com uma srie de pensamentos perfeitamente racionais, com o mesmo valor de nossos pensamentos conscientes; a princpio, no entanto, nada sabemos sobre 
sua existncia nessa forma e s podemos reconstru-los posteriormente. Quando eles se impem  nossa ateno em determinado ponto, descobrimos, pela anlise do sintoma 
produzido, que esses pensamentos normais foram submetidos a um tratamento anormal: foram transformados no sintoma por meio da condensao e da formao de compromisso, 
atravs de associaes superficiais e do descaso pelas contradies, e tambm, possivelmente, pela via da regresso. Em vista da completa identidade entre os aspectos 
caractersticos do trabalho do sonho e os da atividade psquica que desemboca nos sintomas psiconeurticos, sentimo-nos autorizados a transpor para os sonhos as 
concluses a que fomos levados pela histeria.
          Por conseguinte, tomamos da teoria da histeria a seguinte tese: uma cadeia de pensamento normal s  submetida a esse tratamento psquico anormal que vimos 
descrevendo quando um desejo inconsciente, derivado da infncia e em estado de recalcamento, se transfere para ela. Segundo essa tese, construmos nossa teoria dos 
sonhos sobre o pressuposto de que o desejo onrico que fornece a fora impulsora provm invariavelmente do inconsciente; esse pressuposto, como eu mesmo estou pronto 
a admitir, no pode ser genericamente comprovado, embora tampouco se possa refut-lo. Entretanto, para explicar o que se pretende dizer com "recalcamento", termo 
com que j jogamos tantas vezes,  necessrio avanar mais uma etapa na construo de nosso arcabouo psicolgico.
          J exploramos a fico de um aparelho psquico primitivo [em [1]] cujas atividades so reguladas pelo esforo de evitar um acmulo de excitao e de se 
manter, tanto quanto possvel, sem excitao. Por isso ele foi construdo segundo o esquema de um aparelho reflexo. A motilidade, que  em primeiro lugar um meio 
de promover alteraes internas no corpo, est  sua disposio como via de descarga. Discutimos depois as conseqncias psquicas de uma "vivncia de satisfao", 
e a isso j pudemos acrescentar uma segunda hiptese, no sentido de que o acmulo de excitao (acarretado de diversas maneiras de que no precisamos ocupar-nos) 
 vivido como desprazer, e coloca o aparelho em ao com vistas a repetir a vivncia de satisfao, que envolveu um decrscimo da excitao e foi sentida como prazer. 
A esse tipo de corrente no interior do aparelho, partindo do desprazer e apontando para o prazer, demos o nome de "desejo"; afirmamos que s odesejo  capaz de pr 
o aparelho em movimento e que o curso da excitao dentro dele  automaticamente regulado pelas sensaes de prazer e desprazer. O primeiro desejar parece ter consistido 
numa catexizao alucinatria da lembrana da satisfao. Essas alucinaes, contudo, no podendo ser mantidas at o esgotamento, mostraram-se insuficientes para 
promover a cessao da necessidade, ou, por conseguinte, o prazer ligado  satisfao.
          Tornou-se necessria uma segunda atividade - ou, em nossa terminologia, a atividade de um segundo sistema - que no permitisse  catexia mnmica avanar 
at a percepo e desde a ligar as foras psquicas, mas que desviasse a excitao surgida da necessidade por uma via indireta que, em ltima anlise, atravs do 
movimento voluntrio, alterasse o mundo externo de tal maneira que se tornasse possvel chegar a uma percepo real do objeto de satisfao. J esboamos nosso quadro 
esquemtico do aparelho psquico at esse ponto; os dois sistemas so o germe daquilo que, no aparelho plenamente desenvolvido, descrevemos como o Ics. e o Pcs.
          Para que se possa empregar a motilidade para efetuar no mundo externo alteraes que sejam efetivas,  necessrio acumular um grande nmero de experincias 
nos sistemas mnmicos e uma multiplicidade de registros permanentes das associaes evocadas nesse material mnmico por diferentes representaes-meta. [Ver em [1].] 
Podemos agora levar nossas hipteses um passo  frente. A atividade desse segundo sistema, que explora constantemente o terreno e alterna o envio de catexias com 
a retirada delas, precisa, por um lado, dispor livremente da totalidade do material mnmico, mas, por outro, seria um gasto desnecessrio de energia se ela enviasse 
grandes quantidades de catexia pelas diversas vias de pensamento e assim as fizesse escoar-se sem nenhuma finalidade til e diminusse a quantidade disponvel para 
alterar o mundo externo. Dessa maneira, postulo que, em prol da eficincia, o segundo sistema logra conservar a maior parte de suas catexias de energia em estado 
de quiescncia e empregar apenas uma pequena parte do deslocamento. A mecnica desses processos -me inteiramente desconhecida; quem desejasse levar estas idias 
a srio teria de procurar analogias fsicas para elas e descobrir um meio de visualizar os movimentos que acompanham a excitao neuronal. Insisto to-somente na 
idia de que a atividade do primeiro sistema-? est orientada para garantir a livre descarga as quantidades de excitao, enquanto o segundo sistema, por meio das 
catexias que dele emanam, consegue inibir essa descarga e transformar a catexia numa catexia quiescente, sem dvida com uma elevao simultnea de seu nvel. Presumo, 
portanto, que sob o domnio do segundo sistema a descarga de excitao seja regida por condies mecnicas muito diferentes das que vigoram sob o domnio do primeiro 
sistema. Depois que o segundo sistema conclui sua atividade exploratria de pensamento, ele suspende a inibio e o represamento das excitaes e lhes permite serem 
descarregadas no movimento.
          Algumas reflexes interessantes decorrem disso, se considerarmos as relaes existentes entre a inibio da descarga exercida pelo segundo sistema e a 
regulao efetuada pelo princpio do desprazer. Examinemos a anttese da vivncia primria de satisfao, ou seja, a vivncia de pavor frente a algo externo. Suponhamos 
que incida no aparelho primitivo um estmulo perceptivo que seja fonte de uma excitao dolorosa. Sobrevm ento manifestaes motoras descoordenadas, at que uma 
delas faz com que o aparelho se retraia da percepo e, ao mesmo tempo, da dor. Quando a percepo reaparece, o movimento  imediatamente repetido (um movimento 
de fuga, talvez), at que a percepo torne a desaparecer. Nesse caso, no resta nenhuma inclinao a recatexizar a percepo da fonte de dor, alucinatoriamente 
ou de qualquer outra maneira. Pelo contrrio, haver no aparelho primitivo uma inclinao a abandonar imediatamente a imagem mnmica aflitiva, caso algo venha a 
reviv-la, pela razo mesma de que, se sua excitao transbordasse at a percepo, provocaria desprazer (ou, mais precisamente, comearia a provoc-lo). A evitao 
da lembrana que no passa de uma repetio da fuga anterior frente  percepo,  tambm facilitada pelo fato de que a lembrana, diversamente da percepo, no 
possui qualidade suficiente para excitar a conscincia e assim atrair para si uma nova catexia. Essa evitao de lembrana de qualquer coisa que um dia foi aflitiva, 
feita sem esforo e com regularidade pelo processo psquico, fornece-nos o prottipo e o primeiro exemplo do recalcamento psquico.  comumente sabido que boa parcela 
dessa evitao do aflitivo - dessa poltica do avestruz - ainda  visvel na vida anmica normal dos adultos.
          
          Em conseqncia do princpio do desprazer, portanto, o primeiro sistema-?  totalmente incapaz de introduzir qualquer coisa desagradvel no contexto de 
seus pensamentos. Ele no pode fazer nada seno desejar. Se as coisas permanecessem nesse ponto, a atividade de pensamento do segundo sistema seria obstruda, j 
que ela requer livre acesso a todas as lembranas depositadas pela experincia. Apresentam-se ento duas possibilidades: ou a atividade do segundo sistema consegue 
libertar-se inteiramente do princpio do desprazer e segue seu caminho sem se importar com o desprazer das lembranas, ou encontra um mtodo de catexizar as lembranas 
desprazerosas que lhe permita evitar a liberao do desprazer. Podemos descartar a primeira destas possibilidades, pois o princpio do desprazer regula claramente 
o curso da excitao tanto no segundo sistema quanto no primeiro. Conseqentemente, resta-nos a possibilidade de que o segundo sistema catexize as lembranas de 
tal maneira que haja uma inibio da descarga a partir delas, incluindo, portanto, uma inibio da descarga (comparvel  de uma inervao motora) em direo ao 
desenvolvimento do desprazer. Assim, fomos levados, partindo de duas direes,  hiptese de que a catexia pelo segundo sistema implica uma inibio simultnea da 
descarga de excitao: fomos levados a ela por considerar o princpio do desprazer e tambm [como assinalado no penltimo pargrafo] pelo princpio do dispndio 
mnimo de inervao. Retenhamos isto firmemente, pois  chave de toda a teoria do recalque: o segundo sistema s pode catexizar uma representao se estiver em condies 
de inibir o desenvolvimento do desprazer que provenha dela. Qualquer coisa que pudesse fugir a essa inibio seria inacessvel tanto ao segundo sistema quanto ao 
primeiro, pois seria prontamente abandonada em obedincia ao princpio do desprazer. A inibio do desprazer, contudo, no precisa ser completa: o incio dele tem 
de ser permitido, j que  isso que informa ao segundo sistema a natureza da lembrana em questo e sua possvel inadequao ao fim visado pelo processo de pensamento.
          Proponho descrever o processo psquico admitido exclusivamente pelo primeiro sistema como "processo primrio", e o processo que resulta da inibio imposta 
pelo segundo sistema, como "processo secundrio".
          
          H mais uma razo pela qual, como posso demonstrar, o segundo sistema  obrigado a corrigir o processo primrio. O processo primrio esfora-se por promover 
uma descarga da excitao, a fim de que, com a ajuda da quantidade de excitao assim acumulada, possa estabelecer uma "identidade perceptiva" [com a vivncia de 
satisfao (ver em [1]-[2]]. O processo secundrio, contudo, abandonou essa inteno e adotou outra em seu lugar - o estabelecimento de uma "identidade de pensamento" 
[com aquela vivncia]. O pensar, como um todo, no passa de uma via indireta que vai da lembrana de uma satisfao (lembrana esta adotada como uma representao-meta) 
at uma catexia idntica da mesma lembrana, que se espera atingir mais uma vez por intermdio das experincias motoras. O pensar tem que se interessar pelas vias 
de ligao entre as representaes sem se deixar extraviar pelas intensidades dessas representaes. Mas  bvio que as condensaes de representaes e as formaes 
intermedirias e de compromisso devem obstruir a consecuo da identidade buscada. Uma vez que substituem uma representao por outra, elas provocam um desvio do 
caminho que partiria da primeira representao. Tais processos, portanto, so escrupulosamente evitados no pensamento secundrio.  fcil perceber tambm que o princpio 
do desprazer, que em outros aspectos fornece ao processo de pensamento seus mais importantes indicadores, suscita-lhe dificuldades no estabelecimento de uma "identidade 
de pensamento". Por conseguinte, o pensar tem de visar a se libertar cada vez mais da regulao exclusiva pelo princpio do desprazer e a restringir o desenvolvimento 
do afeto na atividade do pensamento ao mnimo exigido para que ele atue como sinal. O alcance desse maior apuro no funcionamento  visado por meio de uma nova hipercatexia 
promovida pela conscincia. [Ver adiante, em [1]]Como bem sabemos, contudo, esse objetivo raramente  atingido por completo, mesmo na vida anmica normal, e nosso 
pensar est sempre exposto a um falseamento por interferncia do princpio do desprazer.
          No  esse, porm, o hiato na eficcia funcional de nosso aparelho anmico que possibilita aos pensamentos, que se apresentam como produtos da atividade 
de pensamento secundria, ficarem sujeitos ao processo psquico primrio - pois essa  a frmula com que agora podemos descrever a atividade que conduz aos sonhos 
e aos sintomas histricos. A ineficincia provm da convergncia de dois fatores derivados de nossa histria evolutiva. Um desses fatores  inteiramente imputvel 
ao aparelho anmico e tem influncia decisiva na relao entre os dois sistemas, enquanto o outro se faz sentir em grau varivel e introduz na vida anmica foras 
pulsionais de origem orgnica. Ambos se originam na infncia e constituem um precipitado das modificaes sofridas por nosso organismo anmico e somtico desde a 
infncia.
          Quando descrevi como "primrio" um dos processos psquicos que ocorrem no aparelho anmico, o que tinha em mente no eram apenas consideraes sobre a 
importncia relativa e a eficincia; pretendi tambm escolher um nome que desse uma indicao de sua prioridade cronolgica.  verdade que, at onde sabemos, no 
existe nenhum aparelho psquico que possua apenas um processo primrio e, nessa medida, tal aparelho  uma fico terica. Mas pelo menos isto  um fato: os processos 
primrios acham-se presentes no aparelho anmico desde o princpio, ao passo que somente no decorrer da vida  que os processos secundrios se desdobram e vm inibir 
e sobrepor-se aos primrios;  possvel at que sua completa supremacia s seja atingida no apogeu da vida. Em conseqncia do aparecimento tardio dos processos 
secundrios, o mago de nosso ser, que consiste em moes de desejo inconscientes, permanece inacessvel  compreenso e  inibio pelo pr-consciente; o papel 
desempenhado por este restringe-se para sempre a direcionar pelas vias mais convenientes as moes de desejo vindas do inconsciente. Esses desejos inconscientes 
exercem uma fora compulsiva sobre todas as tendncias anmicas posteriores, uma fora com que essas tendncias so obrigadas a aquiescer, ou que talvez possam esforar-se 
por desviar e dirigir para objetivos mais elevados. Outro resultado do aparecimento tardio do processo secundrio  que uma ampla esfera do material mnmico fica 
inacessvel  catexia pr-consciente.
          Entre essas moes de desejo provenientes da infncia, que no podem ser destrudas nem inibidas, h algumas cuja realizao seria uma contradiodas representaes-meta 
do pensamento secundrio. A realizao desses desejos no mais geraria um afeto de prazer, mas sim de desprazer; e  precisamente essa transformao do afeto que 
constitui a essncia daquilo a que chamamos "recalcamento". O problema do recalcamento est na questo de como e devido a que foras impulsoras ocorre essa transformao; 
mas esse  um problema em que nos basta tocar de passagem aqui.  suficiente estabelecermos com clareza que tal transformao realmente ocorre no curso do desenvolvimento 
- basta lembrarmos como o nojo surge na infncia, depois de ter estado ausente a princpio - e que est relacionada com a atividade do sistema secundrio. As lembranas 
com base nas quais o desejo inconsciente provoca a liberao do afeto nunca foram acessveis ao Pcs. e, por conseguinte, a liberao do afeto vinculado a essas lembranas 
tambm no pode ser inibida. E justamente por causa dessa gerao de afeto que tais representaes so agora inacessveis at por intermdio dos pensamentos pr-conscientes 
para os quais transferiram sua fora de desejo. Pelo contrrio, o princpio do desprazer assume o controle e faz com que o Pcs. se afaste dos pensamentos de transferncia. 
Eles ficam entregues a si prprios - "recalcados" - e  assim que a presena de um reservatrio de lembranas infantis subtradas desde o princpio ao Pcs. torna-se 
o sine qua non do recalcamento.
          Nos casos mais favorveis, a gerao do desprazer cessa com a retirada da catexia dos pensamentos de transferncia situados no Pcs., e esse desenlace significa 
que a interveno do princpio do desprazer serviu a um fim til. Mas a questo  outra quando o desejo inconsciente recalcado recebe um reforo orgnico, que ele 
passa para seus pensamentos de transferncia; dessa maneira, pode coloc-los em condies de fazer uma tentativa de irromper com sua excitao, mesmo que tenham 
perdido sua catexia do Pcs. Segue-se ento uma luta defensiva - porque o Pcs., por sua vez, refora sua oposio aos pensamentos recalcados (isto , produz uma "contracatexia") 
- e, a partir da, os pensamentos de transferncia, que so veculos do desejo inconsciente, irrompem em algum tipo de compromisso obtido pela formao de um sintoma. 
Entretanto, a partir do momento em que os pensamentos recalcados so intensamente catexizados pela moo de desejo inconscientee, por outro lado, abandonados pela 
catexia pr-consciente, eles ficam sujeitos ao processo psquico primrio e seu nico objetivo  a descarga motora, ou, se o caminho estiver aberto, a revivificao 
alucinatria da identidade perceptiva desejada. J constatamos empiricamente que os processos irracionais que descrevemos s se do com os pensamentos que se encontram 
sob recalcamento. Agora podemos ver um pouco mais longe em toda essa situao. Os processos irracionais que ocorrem no aparelho psquico so os processos primrios. 
Eles aparecem sempre que as representaes so abandonadas pela catexia pr-consciente, deixadas por sua prpria conta, e podem ser carregadas com a energia no 
inibida do inconsciente, que luta por encontrar um escoadouro. Algumas outras observaes apiam a concepo de que esses processos, que so descritos como irracionais, 
no so, na realidade, falseamentos de processos normais - erros intelectuais - mas sim modos de atividade do aparelho psquico que foram libertados de uma inibio. 
Assim, vemos que a transio da excitao pr-consciente para a motilidade  regida pelos mesmos processos, e que a vinculao das representaes pr-conscientes 
com as palavras pode facilmente exibir os mesmos deslocamentos e confuses, que so ento atribudos  desateno. Finalmente, a comprovao do aumento de atividade 
que se torna necessrio quando esses modos primrios de funcionamento so inibidos pode ser encontrada no fato de produzirmos um efeito cmico, isto , um excesso 
de energia que tem de ser descarregado no riso, se permitirmos que esses modos de pensamento irrompam na conscincia.
          A teoria das psiconeuroses afirma como fato indiscutvel e invarivel que somente as moes de desejo sexuais procedentes da infncia, que sofreram recalcamento 
(isto , uma transformao do afeto) durante o perodo de desenvolvimento infantil, so passveis de ser revividas em perodos posteriores do desenvolvimento (seja 
como resultado da constituio sexual do sujeito, que deriva de uma bissexualidade inicial, seja como resultado de influncias desfavorveis que atuem no curso de 
sua vida sexual) e, desse modo, esto aptas a suprir a fora impulsora para a formao de toda sorte de sintomas psiconeurticos. Apenas mediante a referncia a 
essas forassexuais  que podemos cobrir as brechas que ainda se evidenciam na teoria do recalcamento. Deixarei em aberto a questo de esses fatores sexuais e infantis 
serem igualmente exigidos na teoria dos sonhos; deixarei tal teoria incompleta neste ponto, uma vez que j foi um passo alm do que se pode demonstrar ao presumir 
que os desejos onricos provm invariavelmente do inconsciente. Tampouco proponho investigar mais a fundo a natureza da distino entre a interao das foras psquicas 
na formao dos sonhos e na dos sintomas histricos; ainda no dispomos de um conhecimento suficientemente preciso de um dos dois termos da comparao.
          Mas h outro ponto a que dou importncia, e devo confessar que foi exclusivamente por causa dele que me embrenhei aqui em todas essas discusses dos dois 
sistemas psquicos e de seus modos de atividade e de recalcamento. No se trata agora de saber se formei uma opinio aproximadamente correta dos fatores psicolgicos 
em que estamos interessados, ou se, como  bem possvel em assuntos to difceis, o quadro que forneo deles  distorcido e incompleto. Por mais que se possam fazer 
alteraes em nossainterpretao da censura psquica e das elaboraes racionais e anormais do contedo do sonho, continua a ser verdade que tais processos atuam 
na formao dos sonhos e mostram a mais estreita analogia, em seus elementos essenciais, com os processos observveis na formao dos sintomas histricos. O sonho, 
porm, no  um fenmeno patolgico; no pressupe nenhuma perturbao do equilbrio psquico e no deixa como seqela nenhuma perda de eficincia. Talvez se faa 
a sugesto de que nenhuma concluso sobre os sonhos das pessoas normais pode ser extrada de meus sonhos ou dos de meus pacientes, mas essa, penso eu,  uma objeo 
que se pode desprezar em segurana. Portanto, se podemos inferir dos fenmenos suas foras impulsoras, temos de reconhecer que o mecanismo psquico empregado pelas 
neuroses no  criado pelo impacto de uma perturbao patolgica sobre a vida anmica, mas j est presente na estrutura normal do aparelho anmico. Os dois sistemas 
psquicos, a censura na passagem entre um e outro, a inibio e a superposio de uma atividade pela outra, as relaes de ambas com a conscincia - ou quaisquer 
que sejam as interpretaes mais corretas dos fatos observados a tomar seu lugar - tudo isso faz parte da estrutura normal de nosso instrumento anmico, e os sonhos 
nos mostram um dos caminhos que levam  compreenso de sua estrutura. Se nos restringirmos ao mnimo de novos conhecimentos j estabelecido com certeza, ainda assim 
poderemos dizer sobre os sonhos: eles provaram que o suprimido continua a existir tanto nas pessoas normais quanto nas anormais e permanece capaz de funcionamento 
psquico. Os prprios sonhos figuram entre as manifestaes desse material suprimido; segundo a teoria, isso acontece em todos os casos, e pode ser empiricamente 
observado pelo menos num grande nmero deles, precisamente nos casos que exibem com mais clareza as notveis peculiaridades da vida onrica. Na vida de viglia, 
o material suprimido da psique  impedido de se expressar e  isolado da percepo interna, graas ao fato de se eliminarem as contradies nele presentes - um dos 
lados  abandonado em favor do outro -; durante a noite, porm, sob a influncia de um impulso  formao de compromissos, esse material suprimido encontra meios 
e modos de irromper na conscincia.
          
          Flectere si nequeo superos, Acheronta movebo.
          
          A interpretao dos sonhos  a via real para o conhecimento das atividades da vida anmica.
          Pela anlise dos sonhos podemos dar um passo  frente em nosso entendimento da composio desse que  o mais maravilhoso e mais misterioso de todos os 
instrumentos. Apenas um pequeno passo, sem dvida, mas j  um comeo. E esse comeo nos permitir levar sua anlise mais adiante, com base em outras estruturas 
que devem ser chamadas de patolgicas.  que as enfermidades - ao menos as que so corretamente denominadas de "funcionais" - no pressupem a desintegrao do aparelho 
ou a produo de novas divises em seu interior. Elas devem ser explicadas em termos dinmicos, pelo fortalecimento e enfraquecimento dos diversos componentes da 
interao de foras, da qual tantos efeitos ficam ocultos enquanto as funes permanecem normais. Espero poder mostrar em outro texto como a composio do aparelho 
a partir de duas instncias faz com que tambm a funo normal possa se dar com maior refinamento do que seria possvel com apenas uma delas.
          
          (F) O INCONSCIENTE E A CONSCINCIA - REALIDADE
          
          Numa considerao mais detida, percebe-se que aquilo que o debate psicolgico das sees precedentes nos leva a presumir no  a existncia de dois sistemas 
prximos da extremidade motora do aparelho, mas a existncia de dois tipos de processos de excitao ou modos de sua descarga. Para ns, d no mesmo, pois temos 
de estar sempre preparados para abandonar nosso arcabouo conceptual se nos sentirmos em condio de substitu-lo por algo que se aproxime mais de perto da realidade 
desconhecida. Portanto, tentemos corrigir algumas concepes que poderiam levar a mal-entendidos enquanto vamos os dois sistemas, no sentido mais literal e grosseiro, 
como duas localizaes no aparelho anmico - concepes que deixaram vestgios nas expresses "recalcar" e "irromper" [ou "penetrar", "durchdringen"]. Desse modo, 
podemos falar num pensamento inconsciente que procura transmitir-se para o pr-consciente, de maneira a poder ento penetrar na conscincia. O que temos em mente 
aqui no  a formao de um segundo pensamento situado num novo lugar, como uma transcrio que continuasse a existir junto com o original; e a noo de irromper 
na conscincia deve manter-se cuidadosamente livre de qualquer idia de uma mudana de localizao. Do mesmo modo, podemos falar num pensamento pr-consciente que 
 recalcado ou desalojado e ento acomodado pelo inconsciente. Essas imagens, derivadas de um conjunto de representaes relacionadas com a disputa por um pedao 
de terra, podem tentar-nos a supor como literalmente verdadeiro que um agrupamento psquico situado numa dada localizao  encerrado e substitudo por um novo agrupamento 
em outro lugar. Substituamos essas metforas por algo que parece corresponder melhor ao verdadeiro estado de coisas, e digamos, em vez disso, que uma catexia de 
energia  ligada a um determinado agrupamento psquico ou retirada dele, de modo que a estrutura em questo cai sob a influncia de uma dada instncia ou  subtrada 
dela. O que fazemos aqui, mais uma vez,  substituir um modo tpico de representar as coisas por um modo dinmico. O que consideramos mvel no  a prpria estrutura 
psquica, mas sua inervao.
          
          No obstante, considero conveniente e justificvel continuar a fazer uso da imagem figurada dos dois sistemas. Podemos evitar qualquer possvel abuso desse 
mtodo de figurao lembrando que as representaes, os pensamentos e as estruturas psquicas em geral nunca devem ser encarados como localizados em elementos orgnicos 
do sistema nervoso, mas antes, por assim dizer, entre eles, onde as resistncias e facilitaes [Bahnungen] fornecem os correlatos correspondentes. Tudo o que pode 
ser objeto de nossa percepo interna  virtual, tal como a imagem produzida num telescpio pela passagem dos raios luminosos. Mas temos justificativas para presumir 
a existncia dos sistemas (que de modo algum so entidades psquicas e nunca podem ser acessveis a nossa percepo psquica), semelhante  das lentes do telescpio, 
que projetam a imagem. E, a continuarmos com esta analogia, podemos comparar a censura entre dois sistemas com a refrao que ocorre quando o raio de luz passa para 
um novo meio.
          At agora, vimos fazendo psicologia por nossa prpria conta. J  tempo de considerarmos os pontos de vista tericos que dominam a psicologia atual e examinarmos 
sua relao com nossas hipteses. O problema do inconsciente na psicologia , nas vigorosas palavras de Lipps (1897), menos um problema psicolgico do que o problema 
da psicologia. Enquanto a psicologia lidou com esse problema atravs de uma explicao verbal no sentido de que "psquico" significava "consciente", e de que falar 
em "processos psquicos inconscientes" era de um contra-senso palpvel, qualquer avaliao psicolgica das observaes feitas pelos mdicos sobre os estados psquicos 
anormais estava fora de cogitao. Mdico e filsofo s podem unir-se quando ambos reconhecerem que a expresso "processos psquicos inconscientes"  "a expresso 
apropriada e justificada de um fato solidamente estabelecido". S resta ao mdico encolher os ombros quando lhe asseguram que "a conscincia  uma caracterstica 
indispensvel do psquico", e talvez, se ainda sentir respeito suficiente pelos enunciados dos filsofos, ele possa presumir que eles no estavam tratando da mesma 
coisa ou trabalhando na mesma cincia.  que at mesmo uma nica observao criteriosa da vida anmica de um neurtico, ou uma nica anlise de um sonho, ter de 
deix-lo com a inabalvel convico de que os processos de pensamento mais complexos e mais racionais, aos quais decerto no se pode negar o nome de processos psquicos, 
podem ocorrer sem excitar a conscincia do sujeito.  verdade que o mdico no pode saber desses processos inconscientes at eles produzirem na conscincia algum 
efeito que possa ser comunicado ou observado. Mas esse efeito consciente pode exibir um carter psquico inteiramente diverso do carter do processo inconsciente, 
de modo que no h como a percepo interna encarar um deles como substituto do outro. O mdico deve sentir-se livre para avanar, por inferncia, desde o efeito 
consciente at o processo psquico inconsciente. Assim, ele se inteira de que o efeito consciente  apenas um resultado psquico remoto do processo inconsciente, 
e de que este no se tornou consciente como tal; alm disso, constata que este j estava presente e atuante, mesmo sem trair de nenhum modo sua existncia para a 
conscincia.
           essencial abandonar a supervalorizao da propriedade do estar consciente para que se torne possvel formar uma opinio correta da origem do psquico. 
Nas palavras de Lipps [1897, 146 e segs.], deve-se pressupor que o inconsciente  a base geral da vida psquica. O inconsciente  a esfera mais ampla, que inclui 
em si a esfera menor do consciente. Tudo o que  consciente tem um estgio preliminar inconsciente, ao passo que aquilo que  inconsciente pode permanecer nesse 
estgio e, no obstante, reclamar que lhe seja atribudo o valor pleno de um processo psquico. O inconsciente  a verdadeira realidade psquica; em sua natureza 
mais ntima, ele nos  to desconhecido quanto a realidade do mundo externo, e  to incompletamente apresentado pelos dados da conscincia quanto o  o mundo externo 
pelas comunicaes de nossos rgos sensoriais.
          Agora que a velha anttese entre vida consciente e vida onrica foi reduzida a suas exatas propores pelo estabelecimento da realidade psquica inconsciente, 
uma srie de problemas onricos com que os autores anteriores se preocuparam profundamente perdeu sua importncia. Assim, algumas dasatividades cuja boa execuo 
nos sonhos despertava assombro j no devem hoje ser atribudas aos sonhos, mas sim ao pensamento inconsciente, que  to ativo durante o dia quanto  noite. Se, 
como disse Scherner [1861, 134 e seg.], os sonhos parecem empenhar-se em fazer representaes simblicas do corpo [em [1]], sabemos agora que essas representaes 
so o produto de certas fantasias inconscientes (derivadas, provavelmente, de moes sexuais), que encontram expresso no apenas nos sonhos mas tambm nas fobias 
histricas e outros sintomas. Se o sonho d prosseguimento s atividades diurnas e as conclui, chegando at a trazer  luz idias novas e valiosas, tudo o que precisamos 
fazer  despi-lo do disfarce onrico, que  o produto do trabalho do sonho e a marca do auxlio prestado por obscuras foras procedentes das profundezas da alma 
(cf. o diabo no sonho de Tartini com a sonata); essa realizao intelectual se deve s mesmas foras anmicas que produzem todos os resultados semelhantes durante 
o dia.  provvel que tambm nos inclinemos muito a superestimar o carter consciente da produo intelectual e artstica. As comunicaes que nos foram fornecidas 
por alguns dos homens mais altamente produtivos, como Goethe e Helmholtz, mostram, antes, que o que h de essencial e novo em suas criaes lhes veio sem premeditao 
e como um todo quase pronto. No h nada de estranho que, em outros casos em que se fez necessria uma concentrao de todas as faculdades intelectuais, a atividade 
consciente tambm tenha contribudo com sua parcela. Mas  privilgio muito abusado a atividade consciente, sempre que tem alguma participao, ocultar de ns todas 
as demais atividades.
          Mal valeria a pena tratarmos a importncia histrica dos sonhos como um tpico separado. Talvez um sonho tenha impelido algum lder a se aventurar numa 
empreitada audaciosa cujo xito modificou o curso da Histria. Mas isso s levanta um novo problema se o sonho for encarado como uma fora estranha, em contraste 
com as outras foras mais familiares da alma; tal problema no persiste quando o sonho  reconhecido como uma forma de expresso de moes que se encontram sob a 
presso da resistncia durante o dia, mas que puderam, durante a noite, achar reforo em fontes de excitao situadas nas camadas profundas.O respeito conferido 
aos sonhos na Antigidade, entretanto, baseia-se num discernimento psicolgico correto e  a homenagem prestada s foras incontroladas e indestrutveis do esprito 
humano, ao poder "demonaco" que produz o desejo onrico e que encontramos em ao em nosso inconsciente.
          No  sem inteno que falo em "nosso" inconsciente, pois o que assim descrevo no  a mesma coisa que o inconsciente dos filsofos ou mesmo o inconsciente 
de Lipps. Neles, esse termo  usado simplesmente para indicar um contraste com o consciente: a tese que eles contestam com tanto ardor e defendem com tanta energia 
 a tese de que,  parte os processos conscientes, h tambm processos psquicos inconscientes. Lipps leva as coisas mais adiante, ao afirmar que a totalidade do 
psquico existe inconscientemente e que parte dele existe tambm conscientemente. Mas no foi para estabelecer esta tese que invocamos os fenmenos dos sonhos e 
da formao dos sintomas histricos; a simples observao da vida normal de viglia bastaria para provar isso fora de qualquer dvida. A nova descoberta que nos 
foi ensinada pela anlise das formaes psicopatolgicas e do primeiro membro dessa classe - o sonho - reside no fato de que o inconsciente (isto , o psquico) 
 encontrado como uma funo de dois sistemas separados, e de que isso acontece tanto na vida normal quanto na patolgica. Portanto, h dois tipos de inconsciente, 
que ainda no foram distinguidos pelos psiclogos. Ambos so inconscientes no sentido empregado pela psicologia, mas, em nosso sentido, um deles, que denominamos 
de Ics.,  tambm inadimissvel  conscincia, enquanto ao outro chamamos Pcs., porque suas excitaes - depois de observarem certas regras,  verdade, e talvez 
apenas depois de passarem por uma nova censura, embora mesmo assim, sem considerao pelo Ics. - conseguem alcanar a conscincia. O fato de, para chegarem  conscincia, 
as excitaes terem de atravessar uma seqncia fixa ou uma hierarquia de instncias (o que nos  revelado pelas modificaes nelas efetuadas pela censura) permitiu-nos 
construir uma analogia espacial. Descrevemos as relaes dos dois sistemas entre si e com a conscincia dizendo que o sistema Pcs. situa-se como uma tela entre o 
sistema Ics. e a conscincia. O sistema Pcs. no apenas barra o acesso  conscincia, mas tambm controla o acesso ao poder da motilidade voluntria e tem a seu 
dispor, para distribuio, uma energia de catexia mvel, parte da qual nos  familiar sob a forma de ateno. [Ver em [1].]
          Devemos tambm evitar a distino entre "supraconsciente" e "subconsciente", que se tornou to popular na literatura mais recente sobre as psiconeuroses, 
pois tal distino parece servir precisamente para enfatizar a equivalncia entre o psquico e o consciente.
          Mas que papel resta em nosso esquema para a conscincia, outrora to onipotente e que ocultava tudo o mais? Apenas o de um rgo sensorial para a percepo 
de qualidades psquicas. De acordo com as idias subjacentes a nosso ensaio de um quadro esquemtico, s podemos encarar a percepo consciente como a funo prpria 
de um determinado sistema e, para este, a abreviao Cs. parece apropriada. Em suas propriedades mecnicas, encaramos esse sistema como semelhante ao sistema perceptivo 
Pcpt., ou seja, como suscetvel  excitao por qualidades, mas incapaz de reter traos das alteraes, isto , sem memria. O aparelho psquico, que se volta para 
o mundo exterior com seu rgo sensorial dos sistemas Pcpt., , ele prprio, o mundo externo em relao ao rgo sensorial da Cs., cuja justificao teleolgica 
reside nesta circunstncia. Aqui encontramos mais uma vez o princpio da hierarquia das instncias, que parece reger a estrutura do aparelho. O material excitatrio 
aflui para o rgo sensorial da Cs. vindo de duas direes: do sistema Pcpt., cuja excitao, determinada por qualidades,  provavelmente submetida a uma nova reviso 
antes de se converter numa sensao consciente, e do interior do prprio aparelho, cujos processos quantitativos so sentidos como uma srie de qualidades de prazer-desprazer 
quando, sujeitos a certas modificaes, penetram na conscincia.
          Os filsofos que se deram conta de que  possvel haver formaes de pensamento racionais e altamente complexas, sem que a conscincia tenha qualquer participao 
nelas, tiveram dificuldade em atribuir qualquer funo  conscincia; pareceu-lhes que ela no podia ser mais do que uma imagem reflexasuprflua do processo psquico 
consumado. Ns, por outro lado, somos resgatados desse embarao pela analogia existente entre nosso sistema Cs. e os sistemas perceptivos. Sabemos que a percepo 
por nossos rgos sensoriais tem como resultado dirigir um investimento de ateno para as vias pelas quais se propaga a excitao sensorial adveniente: a excitao 
qualitativa do sistema Pcpt. atua como um regulador da descarga da quantidade mvel no aparelho psquico. Podemos atribuir a mesma funo ao rgo sensorial sobreposto 
do sistema Cs. Ao perceber novas qualidades, ele presta uma nova contribuio ao direcionamento das quantidades mveis de investimento e a sua distribuio de maneira 
conveniente. Com a ajuda de sua percepo de prazer e desprazer, ele influencia a circulao dos investimentos dentro do que, em outros aspectos,  um aparelho inconsciente 
que atua por meio dos deslocamentos de quantidades. Parece provvel que, no comeo, o princpio do desprazer regule automaticamente o deslocamento dos investimentos, 
mas  muito possvel que a conscincia dessas qualidades introduza, alm disso, uma segunda regulao, mais discriminadora, que pode at opor-se  primeira e que 
aperfeioa a eficincia do aparelho, capacitando-o, em contradio com seu plano original, a investir e elaborar at mesmo aquilo que est associado  liberao 
de desprazer. A psicologia das neuroses nos ensina que esses processos de regulao efetuados pela excitao qualitativa dos rgos sensoriais tm uma importante 
participao na atividade funcional do aparelho. O domnio automtico do princpio primrio do desprazer e a conseqente restrio imposta  eficincia so interrompidos 
pelos processos de regulao sensorial, que, por sua vez, so tambm automatismos. Constatamos que o recalque (que, embora de incio sirva a um propsito til, acaba 
conduzindo a uma renncia prejudicial  inibio e ao controle anmico) afeta muito mais facilmente as lembranas do que as percepes porque as primeiras no podem 
receber nenhum investimento extra advindo da excitao dos rgos sensoriais psquicos.  verdade, por um lado, que um pensamento que tem de ser rechaado no se 
pode tornar consciente, por ter sofrido recalcamento, mas, por outro, s vezes um desses pensamentos s  recalcado por ter sido subtrado da percepo consciente 
em virtude de outras razes. Estas so indicaes das quais tiramos proveito, em nosso procedimento teraputico, para desfazer recalcamentos j consumados.
          Em seu aspecto teleolgico, no h melhor ilustrao do valor da hipercatexia posta nas quantidades mveis pela influncia reguladora do rgo sensorial 
da Cs. do que sua criao de uma nova srie de qualidades e, conseqentemente, de um novo processo de regulao que constitui asuperioridade do homem sobre os animais. 
Os processos de pensamento, em si prprios, carecem de qualidade, exceto pelas excitaes prazerosas e desprazerosas que os acompanham e que, em vista de seu possvel 
efeito perturbador sobre o pensamento, tm de ser mantidas dentro de limites. Para que os processos de pensamento possam adquirir qualidades, eles se associam, nos 
seres humanos, com lembranas verbais, cujos resduos de qualidade so suficientes para atrair para si a ateno da conscincia e para dotar o processo de pensar 
de um novo investimento mvel oriundo da conscincia. [Ver em [1] e [2].]
          Toda a multiplicidade dos problemas da conscincia s pode ser apreendida por uma anlise dos processos de pensamento na histeria. Estes causam a impresso 
de que a transio de um investimento pr-consciente para um investimento consciente  marcada por uma censura semelhante  existente entre o Ics. e o Pcs. Tambm 
essa censura s entra em vigor acima de certo limite quantitativo, de modo que as estruturas de pensamento de baixa intensidade lhe escapam. Toda sorte possvel 
de exemplos de como um pensamento pode ser apartado da conscincia ou irromper nela, dentro de certas limitaes, encontram-se reunidos no arcabouo dos fenmenos 
psiconeurticos, e todos apontam para as relaes ntimas e recprocas entre a censura e a conscincia. Encerrarei estas reflexes psicolgicas com um relato de 
dois desses exemplos.
          Fui chamado em consulta, no ano passado, para examinar uma jovem inteligente e de aparncia desembaraada. Estava vestida de maneira surpreendente.  que, 
embora as roupas de uma mulher costumem ser criteriosamente cuidadas at o ltimo detalhe, ela trazia uma das meias dependurada, e dois dos botes de sua blusa estavam 
desabotoados. Queixou-se de sentir dores na perna e, sem ser solicitada, exps a panturrilha. Mas aquilo de que se queixava principalmente era, empregando suas prprias 
palavras, uma sensao no corpo, como se houvesse algo "enfiado nele", que se "mexia para frente e para trs" e que a "sacudia" de cima a baixo; s vezes, fazia 
todo o seu corpo ficar "teso". Meu colega mdico, ali presente ao exame, olhou para mim; no teve dificuldade em compreender o significado da queixa da jovem. Mas 
o que a ambos nos pareceu extraordinrio foi o fato de isso no significar nada para a me da paciente; ela prpria deveria ter-se encontrado muitas vezes na situao 
que sua filha estava descrevendo. Aprpria moa no tinha noo do alcance de seus comentrios, porque, se o tivesse, nunca os teria pronunciado. Nesse caso, fora 
possvel lograr a censura levando-a a permitir que uma fantasia que normalmente seria mantida no pr-consciente emergisse na conscincia sob o inocente disfarce 
da formulao de uma queixa.
          Aqui temos outro exemplo: um rapaz de quatorze anos procurou-me para tratamento psicanaltico, sofrendo de um tic convulsif, vmitos histricos, dores 
de cabea, etc. Comecei o tratamento assegurando-lhe que, se fechasse os olhos, ele veria imagens ou teria idias que ento me deveria comunicar. Respondeu por imagens. 
Sua ltima impresso antes de me procurar foi revivida visualmente em sua memria. Estivera jogando damas com o tio e via o tabuleiro em sua frente. Pensou em vrias 
posies favorveis ou desfavorveis, e em jogadas que no deveriam ser feitas. Viu ento um punhal sobre o tabuleiro - um objeto pertencente a seu pai, mas que 
sua imaginao colocara sobre o tabuleiro. Logo havia uma foice sobre o tabuleiro e, em seguida, uma alfange. Apareceu ento a imagem de um velho campons cortando 
a grama em frente  longnqua casa do paciente com uma alfange. Passados alguns dias, descobri o sentido dessa sucesso de imagens. O rapaz se afligira com uma situao 
familiar infeliz. Tinha um pai que era um homem duro, sujeito a acessos de clera, infeliz no casamento com a me do rapaz e cujos mtodos educacionais consistiam 
em ameaas. O pai se divorciara da me, mulher meiga e afetuosa, casara-se outra vez e um dia trouxera para casa uma moa que deveria ser a nova me do rapazinho. 
Foi nos primeiros dias depois disso que eclodiu a doena do rapaz de quatorze anos. Sua fria sufocada contra o pai  que havia construdo aquela seqncia de imagens, 
com suas aluses compreensveis. O material para elas fora fornecido por uma recordao da mitologia. A foice era aquela com que Zeus castrara o pai; a alfange e 
a imagem do velho campons representavam Cronos, o velho violento que devorara seus filhos e de quem Zeus se vingara de maneira to pouco filial. [Ver em [1].] O 
casamento do pai dera ao rapaz a oportunidade de retribuir as censuras e ameaas que ouvira dele muito tempo antes, por brincar com seus rgos genitais. (Cf. jogar 
[brincar com as] damas; as jogadas proibidas; o punhal que podia ser usado para matar.) Nesse caso, as lembranas recalcadas por muito tempo e seus derivados que 
haviam permanecido inconscientes  que se infiltraram na conscincia por um caminho indireto, sob a forma de imagens aparentemente sem sentido.
          Assim sendo, eu buscaria o valor terico do estudo dos sonhos nas contribuies que ele faz ao conhecimento psicolgico e no esclarecimentopreliminar que 
traz aos problemas das psiconeuroses. Quem poder imaginar a importncia dos resultados passveis de se obter atravs de uma compreenso completa da estrutura e 
das funes do aparelho anmico, se at o estado atual de nossos conhecimentos nos permite exercer uma influncia teraputica favorvel sobre as formas curveis 
de psiconeurose? Mas, e quanto ao valor prtico desse estudo - j posso ouvir a pergunta - como meio de se chegar a uma compreenso da alma, a uma revelao das 
caractersticas ocultas de cada um? Acaso as moes inconscientes expressas pelos sonhos no tm o peso de foras reais na vida anmica? Ser que se deve fazer pouco 
da significao tica dos desejos suprimidos - desejos que, assim como levam aos sonhos, podem um dia levar a outras coisas?
          No me sinto autorizado a responder a essas perguntas. No dediquei maior considerao a esse aspecto do problema dos sonhos. Penso, contudo, que o imperador 
romano estava errado ao mandar executar um de seus sditos por ter sonhado que estava assassinando o imperador. [Ver em [1].] Ele deveria ter comeado por tentar 
descobrir o que significava o sonho;  muito provvel que seu sentido no fosse o que parecia ser. E, mesmo que um sonho com outro contedo tivesse por sentido esse 
ato de lesa-majestade, acaso no seria acertado ter em mente o dito de Plato, de que o homem virtuoso se contenta em sonhar com o que o homem perverso realmente 
faz [em [1]]? Penso, portanto, que o melhor  absolver os sonhos. Se devemos atribuir realidade aos desejos inconscientes, no sei dizer. Ela deve ser negada, naturalmente, 
a todos os pensamentos transicionais ou intermedirios. Se olharmos para os desejos inconscientes, reduzidos a sua expresso mais fundamental e verdadeira, teremos 
de concluir, sem dvida, que a realidade psquica  uma forma especial de existncia que no deve ser confundida com a realidade material. Portanto, no parece haver 
justificativa para a relutncia das pessoas em aceitarem a responsabilidade pela imoralidade de seus sonhos. Quando o modo de funcionamento do aparelho anmico  
corretamente avaliado e se compreende a relao que h entre consciente e inconsciente, descobre-se que desaparece a maior parte daquilo que  eticamente objetvel 
em nossa vida onrica e de fantasia. Nas palavras de Hanns Sachs [1912, 569]: "Se olharmos em nossa conscincia para algo que nos foi dito por um sonho sobre uma 
situao contempornea (real), no deveremos ficar surpresos ao descobrir que o monstro que vimos sob a lente de aumento da anlise revela-se um minsculo infusrio".
          As aes e opinies conscientemente expressas so, em geral, suficientes para a finalidade prtica de julgar o carter dos homens. As aes merecem ser 
consideradas antes e acima de tudo, pois muitos impulsos que irrompem na conscincia so ainda reduzidos a nada pelas foras reais da vida anmica, antes de amadurecerem 
sob a forma de atos. Com efeito, tais impulsos muitas vezes no encontram nenhum obstculo psquico a seu progresso, exatamente porque o inconsciente tem certeza 
de que sero detidos em alguma outra etapa. De qualquer modo,  instrutivo tomar conhecimento do terreno to revolvido de onde brotam orgulhosamente nossas virtudes. 
 muito raro a complexidade de um carter humano, impelida de um lado para outro por foras dinmicas, submeter-se a uma escolha entre alternativas simples, como 
levaria a crer nossa doutrina moral antiquada.
          E quanto ao valor dos sonhos para nos dar conhecimento do futuro? Naturalmente, isso est fora de cogitao. [Ver em [1].] Mais certo seria dizer, em vez 
disso, que eles nos do conhecimento do passado, pois os sonhos se originam do passado em todos os sentidos. No obstante, a antiga crena de que os sonhos prevem 
o futuro no  inteiramente desprovida de verdade. Afinal, ao retratarem nossos desejos como realizados, os sonhos decerto nos transportam para o futuro. Mas esse 
futuro, que o sonhador representa como presente, foi moldado por seu desejo indestrutvel  imagem e semelhana do passado.
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
        APNDICE A: UMA PREMONIO ONRICA REALIZADA
          
          A Sra. B., uma mulher respeitvel que, alm disso, possui senso crtico, contou-me, a propsito de outra coisa e sem nenhuma segunda inteno, que um dia, 
alguns anos atrs, havia sonhado encontrar o Dr. K., um amigo e antigo mdico da famlia, na Krntnerstrasse, em frente  loja de Hiess. Na manh seguinte, ao caminhar 
pela mesma rua, encontrara de fato a pessoa em questo, exatamente no lugar com que havia sonhado. Basta isso para meu tema. Acrescento apenas que nenhum acontecimento 
subseqente comprovou a importncia dessa miraculosa coincidncia, que, portanto, no pode ser explicada pelo que estaria reservado no futuro.
          A anlise do sonho foi auxiliada por algumas perguntas, que confirmaram o fato de no haver nenhuma prova de que ela tivesse lembrado do sonho na manh 
seguinte a sua ocorrncia antes de seu passeio - uma prova como haver anotado o sonho ou t-lo contado a algum antes que ele se realizasse. Ao contrrio, ela foi 
obrigada a aceitar a seguinte explicao do que teria acontecido, que me parece mais plausvel, sem levantar qualquer objeo. Uma manh, ela ia andando pela Krntnerstrasse 
e encontrou seu antigo mdico de famlia em frente  loja de Hiess. Ao v-lo, sentiu-se convencida de ter sonhado na noite anterior justamente com aquele encontro 
naquele mesmo lugar. De acordo com as regras que se aplicam  interpretao dos sintomas neurticos, sua convico deve ter sido justificada; seu contedo, porm, 
requer uma reinterpretao.
          Eis um episdio do passado da Sra. B. com o qual o Dr. K. est relacionado. Quando ela era moa, casaram-na sem seu pleno consentimento com um homem idoso, 
mas abastado. Alguns anos depois, ele perdeu suafortuna, adoeceu com tuberculose e morreu. Durante muitos anos, a jovem senhora sustentou a si e ao marido enfermo 
dando aulas de msica. Entre seus amigos no infortnio encontrava-se o mdico da famlia, o Dr. K., que se dedicou a cuidar do marido dela e a ajudou a encontrar 
seus primeiros alunos. Outro amigo era um advogado, tambm um Dr. K., que ps em ordem os negcios caticos do comerciante arruinado, ao mesmo tempo em que cortejava 
a jovem e - pela primeira e ltima vez - inflamava-lhe a paixo. Esse caso amoroso no lhe trouxe nenhuma felicidade real, porque os escrpulos criados por sua educao 
e sua mentalidade interferiram em sua entrega completa enquanto era casada e, depois, quando ficou viva. No mesmo contexto em que me contou o sonho, ela tambm 
me narrou uma ocorrncia real daquele perodo infeliz de sua vida, ocorrncia esta que, em sua opinio, fora uma coincidncia notvel. Ela estava em seu quarto, 
ajoelhada no cho, com a cabea enterrada numa poltrona e soluando com uma saudade apaixonada de seu amigo e benfeitor, o advogado, quando, naquele exato momento, 
a porta se abriu e ele entrou para visit-la. No vemos absolutamente nada de notvel nessa coincidncia, considerando a freqncia com que ela pensava nele e a 
assiduidade com que ele provavelmente a visitava. Alm disso, esses incidentes que parecem previamente combinados so encontrados em toda histria de amor. No obstante, 
 provvel que essa coincidncia tenha sido o verdadeiro contedo de seu sonho e a nica base de sua convico de que ele se havia realizado.
          Entre a cena em que seu desejo fora realizado e a poca do sonho, mais de vinte e cinco anos haviam decorrido. Nesse meio tempo, a Sra. B. enviuvara de 
um segundo marido, que a deixara com um filho e uma fortuna. O afeto da velha senhora estava ainda centralizado no Dr. K., que era agora seu conselheiro e o administrador 
de seus bens e a quem ela via com freqncia. Suponhamos que, nos dias que antecederam o sonho, ela tivesse esperado por uma visita dele, mas que esta no se houvesse 
realizado - ele j no era to insistente quanto costumava ser.  bem possvel ento que, uma noite, ela tenha tido um sonho nostlgico que a levou de volta aos 
velhos tempos. Provavelmente, sonhou com um encontro da poca de seu caso amoroso, e a cadeia de seus pensamentos onricos a reconduziu  ocasio em que, sem qualquer 
arranjo prvio, ele chegara no exato momento em que ela ansiava por sua vinda.  possvel que tais sonhos lhe ocorressem agora com muita freqncia; seriam parte 
do castigo tardio com que a mulher paga por sua crueldade juvenil. Mas esses sonhos - derivados de uma corrente de pensamentos suprimida, repleta de lembranas de 
encontros nos quais, desde seu segundo casamento, ela j no gostava de pensar - esses sonhos erampostos de lado ao despertar. E foi isso o que aconteceu com nosso 
sonho aparentemente proftico. Em seguida, ela saiu e, na Krntnerstrasse, num lugar que em si era indiferente, encontrou seu velho mdico de famlia, o Dr. K. Fazia 
muito tempo que no o via, a ele que estava intimamente associado com as excitaes daquele tempo feliz-infeliz. Tambm ele fora um benfeitor, e podemos conjecturar 
que fosse utilizado nos pensamentos dela - e talvez tambm em seus sonhos - como uma figura encobridora por trs da qual se ocultava a figura mais amada do outro 
Dr. K. Esse encontro reviveu ento sua lembrana do sonho. Ela deve ter pensado: "Sim, sonhei na noite passada com meu encontro com o Dr. K". Mas essa lembrana 
teve de sofrer a distoro da qual o sonho s escapara por ter sido completamente esquecido. Ela inseriu o K. indiferente (que a fizera recordar o sonho) no lugar 
do K. amado. O contedo do sonho - o encontro - transferiu-se para a crena de que ela havia sonhado precisamente com aquele lugar, porque um encontro consiste em 
duas pessoas chegarem ao mesmo lugar ao mesmo tempo. E, se ela teve ento a impresso de que o sonho se havia realizado, estava apenas dando livre curso, dessa maneira, 
a sua lembrana da cena em que, em sua infelicidade, ansiara pela vinda dele e seu anseio fora prontamente realizado.
          Assim, a criao do sonho a posteriori, nica coisa que torna possveis os sonhos profticos, nada mais  do que uma forma de censura, graas  qual o 
sonho pode irromper na conscincia.
          10. nov. 99
          
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        APNDICE B: RELAO DOS TRABALHOS DE FREUD QUE VERSAM EXTENSA OU PREDOMINANTEMENTE SOBRE OS SONHOS
          
          [Dificilmente seria exagero dizer que h aluses aos sonhos na maioria dos trabalhos de Freud. A seguinte relao de obras (de importncia muito varivel), 
entretanto, pode ter alguma utilidade prtica. A data no incio de cada item  a do ano em que a obra em questo foi escrita. A data ao final  a da publicao; 
ao lado desta data, outros pormenores da obra sero encontrados na Bibliografia Geral. Os itens entre colchetes foram publicados postumamente.]
          
 [1895 "Projeto para uma Psicologia Cientfica" (Sees 19, 20 e 21 da Parte I). (1950a.)]
 1899 A Interpretao dos Sonhos. (1900a.)
 [1899 "Uma Premonio Onrica Realizada". (1941c.)]
 1901 Sobre os Sonhos. (1901a.)
 1901 "Fragmentos da Anlise de um Caso de Histeria". [Ttulo original: " Sonhos e Histeria"] (1905e.)
 1905 O Chiste e sua Relao com o Inconsciente (Captulo VI). (1905c.)
 1907 Delrios e Sonhos em "Gradiva", de Jensen. (1907a.)
 1910 "Exemplo Tpico de um Sonho Edipiano Disfarado". (1910l.)
 1911 "Acrscimos  Interpretao dos Sonhos". (1911a.)
 1911 "O Manejo da Interpretao dos Sonhos em Psicanlise". (1911e.)
 1911 "Os Sonhos no Folclore" (com Ernest Oppenheim). (1957a.)
 1913 "Um Sonho Comprobatrio". (1913a.)
 1913 "Material de Contos de Fadas nos Sonhos". (1913d.)
 1913 "Observaes e Exemplos da Prtica Analtica". (1913h.)
 1914 "Representao de uma 'Grande Realizao' num Sonho. (1914e.)
 1914 "Da Histria de uma Neurose Infantil" (Seo IV). (1918b.)
 1916 Conferncias Introdutrias sobre Psicanlise (Parte II). (1916-1917.)
 1917 "Suplemento Metapsicolgico  Teoria dos Sonhos". (1917d.)
 1920 "Suplementos  Teoria dos Sonhos". (1920f.)
 1922 "Sonhos e Telepatia". (1922a.)
 1923 "Observaes sobre a Teoria e a Prtica da Interpretao do Sonho". (1923c.)
 1923 "Josef Popper-Lynkeus e a Teoria dos Sonhos". (1923f.)
 1925 "Algumas Notas Adicionais sobre a Interpretao dos Sonhos como um Todo". (1925i.)
 1929 "Carta a Maxime Leroy sobre um sonho de Descartes". (1929b.)
 1932 "Meu Contato com Josef Popper-Lynkeus". (1932c.)
 1932 Novas Conferncias Introdutrias sobre Psicanlise (Conferncias XXIX e XXX). (1933a.)
 [1938 Um Esboo de Psicanlise (Captulo V). (1940a.)]
          
          N.B. - Uma mistura no autorizada da parte de A Interpretao dos Sonhos e Sobre os Sonhos foi publicada em duas edies nos Estados Unidos com o ttulo 
de Dream Psychology: Psychoanalysis for Beginners (com uma introduo de Andr Tridon), Nova Iorque, McCann, 1920 e 1921, XI + 237 pgs.
          
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
          
  (a) EDIES ALEMS: 
  1901        ber den Traum. Publicada pela primeira vez como parte (pgs. 307-344) de uma publicao seriada, Grenzfragen des Nerven-und Seelenlebens, org. por 
L. Lwenfeld e H. Kurella, Wiesbaden, Bergmann.
  1911        2 edio. (Publicada como brochura separada e ampliada.) Mesmos organizadores, 44 pgs.
  1921        3 edio. Munique e Wiesbaden, Bergmann, 44 pgs. 
  1925        Nos Gesammelte Schriften de Freud, 3, 189-256, Leipzig, Viena e Zurique: Internationaler Psychoanalytischer Verlag.
  1931        No volume coletivo de Freud, Sexualtheorie und Traumlehre, 246-307, mesmos organizadores.
  1942        Nas Gesammelte Werke de Freud, 2 e 3, 643-700, Londres, Imago Publishing Co.
  
  (b)        TRADUES INGLESAS:
  1914        De M. D. Eder (com introduo de W. L. Mackenzie). Londres, Heinemann; Nova Iorque, Rebman. XXXII + 110 pgs.
  1952        De James Strachey, Londres, Hogarth Press e Institute of Psycho-Analysis, VII + 80 pgs. Nova Iorque, Norton, 120 pgs.
          
          Esta traduo  uma reimpresso revista da traduo publicada em 1952.
          
          Apenas dois ou trs meses aps a publicao de A Interpretao dos Sonhos, j a idia de escrever uma verso abreviada de seu livro estava no esprito 
de Freud. Fliess evidentemente escrevera para sugerir algo desse tipo, pois, numa carta de 4 de abril de 1900 (Freud, 1950a, Carta 132), Freud rejeitou a proposta, 
argumentando, entre outras coisas, que "j prometera dar a Lwenfeld um ensaio da mesma natureza". Comentou tambm sobre seu desagrado em embarcar em semelhante 
tarefa to pouco tempo depois de haver terminado seu extenso livro. Evidentemente, essa relutncia persistiu, pois, em 20 de maio (ibid., Carta 136), ele menciona 
que no havia sequer iniciado a "brochura" e, em 10 de julho (ibid., Carta 138), anuncia que a adiou para outubro. Sua ltima referncia a ela na correspondncia 
com Fliess d-se em 14 de outubro de 1900 (ibid., Carta 139), onde ele comenta que est escrevendo o ensaio "sem nenhum prazer real", uma vez que sua mente est 
repleta de material para Sobre a Psicopatologia da Vida Cotidiana (que seria sua produo seguinte). Nesta, alis, h uma referncia (perto do final do Captulo 
VII) ao ensaio Sobre os Sonhos e  questo de a publicao de um resumo poder ou no interferir nas vendas do livro maior.
          Como se ver, o nico acrscimo de importncia feito por Freud nas edies posteriores do ensaio foi a seo sobre o simbolismo, introduzida na segunda 
edio.
        
        
        
        
        SOBRE OS SONHOS
          
          
          I
          Durante a poca que se pode descrever como pr-cientfica, os homens no tinham nenhuma dificuldade em descobrir uma explicao para os sonhos. Quando 
se lembravam de um sonho depois de acordar, encaravam-no como uma manifestao favorvel ou hostil de poderes superiores, demonacos e divinos. Quando comearam 
a florescer as maneiras de pensar prprias da cincia natural, toda essa engenhosa mitologia se transformou em psicologia, e hoje apenas uma pequena minoria de pessoas 
cultas duvida de que os sonhos sejam um produto do prprio psiquismo do sonhador.
          Desde a rejeio da hiptese mitolgica, porm, os sonhos passaram a carecer de uma explicao. As condies de sua origem, sua relao com a vida anmica 
de viglia, sua dependncia de estmulos que se impem  percepo durante o estado de sono, as muitas peculiaridades de seu contedo que repugnam ao pensamento 
desperto, a incoerncia entre suas imagens de representao e os afetos a elas ligados e, por fim, seu carter transitrio, a maneira como o pensamento de viglia 
os pe de lado como algo que lhe  estranho, e os mutila ou extingue na memria - todos esses problemas, e outros ainda, vm aguardando esclarecimento h muitas 
centenas de anos e, at agora, nenhuma soluo satisfatria foi proposta para eles. Mas o que se coloca em primeiro plano em nosso interesse  a questo da significao 
dos sonhos, questo esta que encerra um duplo sentido. Em primeiro lugar, ela indaga sobre a significao psquica do sonhar, sobre a relao dos sonhos com outros 
processos anmicos e sobre sua eventual funo biolgica; em segundo, busca descobrir se os sonhos podem ser interpretados, se o contedo de cada sonho tem um "sentido" 
tal como estamos acostumados a encontrar em outras estruturas psquicas.
          Na avaliao da significao dos sonhos, trs linhas de pensamento podem ser distinguidas. Uma delas, que ecoa, por assim dizer, a antiga supervalorizao 
dos sonhos, se expressa nos trabalhos de certos filsofos. Eles consideram que a base da vida onrica  um estado peculiar de atividade anmica e chegam at a aclamar 
esse estado como uma elevao a um nvel superior. Por exemplo, Schubert [1814] declara que os sonhos so a emancipao do esprito do jugo da natureza externa e 
a liberao da alma das amarras dos sentidos. Outros pensadores, sem irem to longe assim, insistem, no obstante, em que os sonhos brotam essencialmente de impulsos 
da alma e representam manifestaes de foras anmicas impedidas de se expandirem livremente durante o dia. (Cf. a "fantasia onrica" de Scherner [1861, 97 e segs.] 
e Volkelt [1875, 28 e segs.].) Um grande nmero de observadores concorda em atribuir  vida onrica a capacidade de um funcionamento superior, pelo menos em certos 
mbitos (na memria, por exemplo).
          Em ntido contraste com isso, a maioria dos autores mdicos adota uma viso segundo a qual os sonhos mal chegam a atingir o nvel de fenmenos psquicos. 
Segundo sua teoria, os nicos instigadores dos sonhos so os estmulos sensoriais e somticos que incidem sobre a pessoa adormecida desde o exterior, ou que se tornam 
acidentalmente ativos em seus rgos internos. O sonhado, argumentam eles, no pode reclamar para si mais sentido e significado do que, por exemplo, os sons que 
seriam produzidos se "os dez dedos de um homem que nada conhece de msica vagassem pelas teclas de um piano". [Strmpell, 1877, 44.] Os sonhos so descritos por 
Binz [1878, 35] como no passando de "processos somticos inteis em todos os casos e, em muitos deles, positivamente patolgicos". Todas as caractersticas da vida 
onrica, portanto, seriam explicadas como devidas  atividade desconexa de rgos ou grupos de clulas isoladas num crebro no mais adormecido, atividade essa que 
lhes  imposta por estmulos fisiolgicos.
          A opinio popular  pouco afetada por esse juzo cientfico e no se interessa pelas origens dos sonhos; parece persistir na crena de que, apesar de tudo, 
os sonhos possuem um sentido, que se relaciona com a predio do futuro e pode ser descoberto por algum processo de interpretao de um contedo freqentemente confuso 
e enigmtico. Os mtodos de interpretao empregados consistem em transformar o contedo do sonho tal como  lembrado, seja substituindo-o aos pedacinhos, de acordo 
com uma chave fixa, seja substituindo a totalidade do sonho por um outro todo com o qual ela mantm uma relao simblica. As pessoas srias se riem desses esforos: 
"Trume sind Schume" - "os sonhos so espuma".
          
          II
          
          Um dia descobri, para meu grande assombro, que a viso dos sonhos que mais se aproximava da verdade no era a mdica, mas a popular, por mais que ainda 
estivesse semi-envolta na superstio.  que eu fora levado a novas concluses sobre o tema dos sonhos ao aplicar-lhes um novo mtodo de investigao psicolgica 
que prestara excelentes servios na soluo das fobias, obsesses e delrios, etc. Desde ento, sob o nome de "psicanlise",ele encontrou aceitao por toda uma 
escola de pesquisadores. De fato, as numerosas analogias existentes entre a vida onrica e uma grande variedade de estados de enfermidade psquica na vida de viglia 
foram corretamente observadas por muitos investigadores mdicos. Portanto, parecia haver boas razes para esperar que um mtodo de investigao que dera resultados 
satisfatrios no caso das estruturas psicopticas fosse tambm til para esclarecer os sonhos. As fobias e obsesses so to estranhas  conscincia normal quanto 
os sonhos  conscincia de viglia; sua origem  to desconhecida da conscincia quanto a dos sonhos. No caso dessas estruturas psicopticas, consideraes de ordem 
prtica levaram a uma investigao de sua origem e modo de desenvolvimento; ocorre que a experincia havia demonstrado que a descoberta das seqncias de pensamento 
que, ocultas da conscincia, ligam as idias patolgicas aos demais contedos psquicos equivale a uma soluo dos sintomas, e tem como conseqncia o domnio de 
idias que at ento no podiam ser inibidas. Assim, a psicoterapia foi o ponto de partida do procedimento de que me vali para a explicao dos sonhos.
          Esse procedimento  fcil de descrever, embora sejam necessrios ensinamentos e exerccios para que ele possa ser posto em prtica.
          Quando o utilizamos com outra pessoa, digamos, um paciente com uma fobia, pedimo-lhe que dirija sua ateno para a idia em causa, mas no para refletir 
sobre ela como tantas vezes j fez, e sim para observar o que quer que lhe venha  mente, sem exceo, e comunic-lo ao mdico. Se ele ento afirmar que sua ateno 
 incapaz de apreender coisa alguma, descartamos isso assegurando energicamente que uma ausncia completa de qualquer contedo de representaes  inteiramente impossvel. 
E, de fato, logo lhe ocorrem numerosas idias que conduziro a outras, mas que so invariavelmente prefaciadas por um juzo do auto-observador no sentido de que 
so absurdas ou sem importncia, de que so irrelevantes e lhe ocorreram por acaso, sem qualquer ligao com o assunto em exame. Percebemos de imediato que era essa 
atitude crtica que impedia o sujeito de comunicar qualquer dessas idias, e que antes disso, na verdade, era ela que as impedia de se tornarem conscientes. Quando 
conseguimos induzi-lo a abandonar sua crtica das idias que lhe ocorrem e a continuar acompanhando as seqncias de pensamentos que emergem enquanto ele mantm 
sua ateno voltada para elas, vemo-nos de posse de uma quantidade de material psquico que logo constatamos estar claramente ligado  idia patolgica que foi nosso 
ponto de partida; esse material no tarda a revelar ligaes entre a idia patolgica e outras, e acaba por permitir-nos substituir a idia patolgica por uma idia 
nova, que se enquadra de maneira inteligvel na trama anmica.
          Este no  o lugar para se fornecer um relato pormenorizado das premissas em que se baseou essa experincia, nem das conseqncias que decorrem de seu 
invarivel sucesso. Assim, basta-nos dizer que obtemos o material que nos permite resolver qualquer idia patolgica ao voltarmos nossa ateno precisamente para 
as associaes "involuntrias", que "interferem em nossa reflexo" e que so normalmente descartadas por nossa faculdade crtica como dejetos sem valor.
          Ao usarmos esse procedimento com ns mesmos, a melhor maneira de ajudarmos a investigao consiste em anotar de imediato aquilo que, a princpio, so associaes 
ininteligveis.
          Mostrarei agora quais so os resultados a que chego ao aplicar esse mtodo de investigao aos sonhos. Qualquer exemplo de sonho, de fato, seria igualmente 
apropriado para esse fim, mas, por motivos especficos, escolherei um de meus prprios sonhos, que me parea obscuro e sem sentido tal como o recordo e que tenha 
a vantagem da brevidade. Talvez o sonho que tive justamente na noite passada atenda a esses requisitos. Seu contedo, tal como o anotei imediatamente aps despertar, 
foi o seguinte:
          "Um grupo de pessoas  mesa ou 'table d'hte' ... comia-se espinafre ... A Sra. E. L. estava sentada a meu lado; voltava toda a sua ateno para mim e 
ps a mo em meu joelho de maneira ntima. Retirei-lhe a mo, impassvel. Ento ela disse: 'Mas o senhor sempre teve olhos to bonitos.' ... Vi ento a imagem indistinta 
de dois olhos, como se fosse um desenho ou o contorno de um par de culos..."
          Foi essa a totalidade do sonho ou, pelo menos, tudo o que pude recordar dele. Pareceu-me obscuro e sem sentido, mas, acima de tudo, surpreendente. A Sra. 
E. L.  uma pessoa com que mal cheguei a ter relaes amistosas em qualquer poca, nem tampouco, ao que eu sabia, jamais desejei ter relaes mais estreitas com 
ela. No a vejo h muito tempo e seu nome, creio eu, no foi mencionado nos ltimos dias. O processo onrico no foi acompanhado por nenhum tipo de afeto.
          A reflexo sobre esse sonho no fez com que eu me acercasse mais de sua compreenso. Entretanto, resolvi anotar, sem qualquer premeditao ou crtica, 
as associaes que se ofereceram  minha auto-observao. Como constatei,  aconselhvel, para esse fim, dividir o sonho em seus elementos e descobrir separadamente 
as associaes ligadas a cada um desses fragmentos.
          Um grupo de pessoas  mesa ou "table d'hte". Isso me fez lembrar de imediato um episdio ocorrido no fim da noite de ontem. Eu voltava de uma pequena 
reunio em companhia de um amigo que se ofereceu para tomar um txi e levar-me a casa. "Prefiro tomar txis com taxmetro", disse ele; "isso ocupa a mente de maneira 
muito agradvel; sempre se tem alguma coisa para olhar". Quando ocupamos nossos lugares no carro e o motorista baixou a bandeira, de modo que se pde ver a primeira 
marcao de sessenta hellers, continuei com a brincadeira. "Mal entramos", comentei, "e j lhe devemos sessenta hellers. O carro com taxmetro sempre me faz lembrar 
a table d'hte. Torna-me avarento e egosta, porque est sempre me lembrando o que devo. Minha dvida parece crescer depressa demais e fico com medo de levar a pior, 
da mesma maneira que, na table d'hte, no consigo evitar um sentimento cmico de que estou recebendo muito pouco e tenho de ficar de olho em meus prprios interesses." 
E prossegui, citando, como que numa digresso:
          
          Ihr fhrt ins Leben uns hinein,
          Ihr lasst den Armen schuldig werden.
          
          E agora, uma segunda associao sobre a table d'hte. Algumas semanas atrs, quando estvamos  mesa num hotel de montanha no Tirol, fiquei muito aborrecido 
por achar que minha mulher no estava sendo suficientemente reservada com algumas pessoas sentadas perto de ns, com quem eu no tinha nenhum desejo de travar conhecimento. 
Pedi-lhe que se ocupasse mais de mim do que daqueles estranhos. Isso tambm foi como se eu estivesse levando a pior na "table d'hte". Chamou-me tambm a ateno 
o contraste entre o comportamento de minha mulher  mesa e o da Sra. E. L. no sonho, que, "voltava toda a sua ateno para mim".
          Continuando. Vi ento que os acontecimentos do sonho eram uma reproduo de um pequeno episdio de natureza exatamente semelhante, que ocorrera entre minha 
mulher e eu na poca em que a cortejava secretamente. A carcia que ela me fez por baixo da toalha de mesa foi sua resposta a uma premente carta de amor. No sonho, 
contudo, minha mulher foi substituda por algum que era, comparativamente, uma estranha - E.L.
          A Sra. E. L.  filha de um homem com quem estive certa vez endividado. No pude deixar de notar que isso revelava uma ligao insuspeitada entre partes 
do contedo do sonho e minhas associaes. Quando se segue a cadeia de associaes que parte de um elemento do contedo do sonho, logo se  reconduzido a outro de 
seus elementos. Minhas associaes ao sonho estavam trazendo  luz ligaes que no eram visveis no prprio sonho.
          Quando uma pessoa espera que algum fique atento a seus interesses sem tirar para si nenhuma vantagem, sua ingenuidade tende a provocar uma pergunta irnica: 
"Voc acha que vou fazer isto ou aquilo por seus belos olhos?" Assim sendo, a fala da Sra. E. L. no sonho, "O senhor sempre teve olhos to bonitos", s poderia ter 
significado: "As pessoas sempre fizeram tudo por voc por amor; voc sempre teve tudo sem pagar por isso". A verdade, por certo,  justamente o contrrio: sempre 
paguei caro por qualquer vantagem a mim concedida por outras pessoas. O fato de meu amigo ter-me levado em casa ontem de txi, sem que eu pagasse, deve, afinal, 
ter-me impressionado.
          Alis, o amigo de quem fomos convidados ontem muitas vezes me fez seu devedor. No faz muito tempo, deixei passar uma oportunidade de reembols-lo. Ele 
recebeu de mim apenas um presente - uma terrina antiga com olhos pintados ao redor: o que se conhece como um "occhiale", para afastar o mau-olhado. Alm disso, ele 
 cirurgio oculista. Nessa mesma noite, perguntei-lhe por uma paciente que eu lhe havia encaminhado para consulta, para que lhe receitasse culos.
          Como percebi ento, quase todos os elementos do contedo do sonho tinham sido inseridos no novo contexto. A bem da coerncia, porm, poder-se-ia ainda 
perguntar por que  que se servia justamente espinafre no sonho. A resposta foi que o espinafre me fez lembrar um episdio ocorrido no faz muito tempo  nossa mesa 
de famlia, quando uma das crianas - e precisamente aquela que realmente merece ser admirada por seus belos olhos - recusou-se a comer espinafre. Eu prprio me 
comportava exatamente da mesma maneira quando menino; por muito tempo, detestei espinafre, at que meu gosto acabou se modificando e promoveu essa verdura  categoria 
de um de meus pratos preferidos. Minha prpria meninice e a de meu filho foram assim reunidas pela meno desse prato. "Voc deveria ficar contente por ter espinafre", 
exclamara a me do pequeno gourmet; "h crianas que se dariam por muito satisfeitas por comerem espinafre". Assim me foram relembrados os deveres dos pais para 
com seus filhos. As palavras de Goethe,
          
          Ihr fhrt ins Leben uns hinein
          Ihr lasst den Armen schuldig werden,
          
          ganhavam um novo sentido nesse contexto.
          Farei aqui uma pausa para examinar os resultados a que cheguei at agora em minha anlise do sonho. Seguindo as associaes nascidas dos elementos isolados 
do sonho, separados de seu contexto, cheguei a diversos pensamentos e recordaes que no pude deixar de reconhecer como produtos importantes de minha vida anmica. 
Esse material, revelado pela anlise do sonho, estava intimamente ligado com seu contedo; no obstante, a ligao era de tal ordem que eu nunca poderia ter inferido 
o material novo a partir do contedo onrico. O sonho foi desprovido de afetos, desconexo e ininteligvel, mas, enquanto ia produzindo os pensamentos que estavam 
por trs do sonho, dei-me conta de impulsos afetivos intensos e bem fundados; os prprios pensamentos enquadraram-se imediatamente em cadeias lgicas em que certas 
representaes centrais apareciam mais de uma vez. Assim, os contrastes entre "egosta" e "altrusta" e entre os elementos "estar em dbito" e "receber sem pagar" 
foram representaes centrais desse tipo, que no figuraram no prprio sonho. Eu poderia apertar mais os fios da trama do material revelado pela anlise e mostrar 
ento que eles convergem para um nico ponto nodal, mas certas consideraes de natureza pessoal, e no cientfica, impedem-me de faz-lo em pblico. Eu seria obrigado 
a deixar transparecer muitas coisas que mais vale permanecerem em segredo, pois, no caminho de minha descoberta da soluo do sonho, revelou-se toda sorte de coisas 
que eu no estava disposto a admitir sequer para mim mesmo. Mas ento, podero perguntar, por que no escolhi algum outro sonho cuja anlise se prestasse melhor 
a ser comunicada, de modo que eu pudesse fornecer provas mais convincentes do sentido e da inter-relao do material descoberto pela anlise? A resposta  que qualquer 
sonho de que eu tentasse tratar levaria a coisas igualmente difceis de comunicar e me imporia idntica discrio. Tampouco evitaria essa dificuldade trazendo para 
anlise o sonho de alguma outra pessoa, a menos que as circunstncias me permitissem abandonar todo e qualquer disfarce, sem prejuzo para a pessoa que tivesse confiado 
em mim.
          No ponto a que cheguei agora, sou levado a encarar o sonho como uma espcie de substituto dos processos de pensamento repletos de significao e afeto 
aos quais cheguei aps a concluso da anlise. No conhecemos ainda a natureza do processo que fez com que o sonho fosse gerado a partir desses pensamentos, mas 
podemos perceber que  errneo encar-lo como puramente fsico e sem sentido psquico, como um processo nascido da atividade isolada de grupos separados de clulas 
cerebrais despertadas do sono.
          Duas outras coisas j esto claras. O contedo do sonho  muito mais curto do que os pensamentos dos quais o considero substituto; e a anlise revelou 
que o instigador do sonho foi um acontecimento sem importncia da noite anterior ao sonhar.
          Naturalmente, eu no extrairia concluses de to amplo alcance se dispusesse apenas de uma nica anlise de sonho. Todavia, se a experincia me mostra 
que, acompanhando acriticamente as associaes nascidas de qualquer sonho, posso chegar a uma cadeia de pensamentos semelhante, entre cujos elementos os componentes 
do sonho reaparecem e que esto interligados de maneira racional e inteligvel,  seguro descartar a ligeira possibilidade de que as ligaes observadas numa primeira 
experincia pudessem dever-se ao acaso. Penso estar autorizado, portanto, a adotar uma terminologia que fixe nossa nova descoberta. Para contrastar o sonho, tal 
como retido em minha memria, com o material pertinente descoberto por sua anlise, chamarei ao primeiro "contedo manifesto do sonho", e ao segundo - sem fazer, 
a princpio, nenhuma outra distino -, "contedo latente do sonho". Vejo-me ento frente a dois novos problemas no formulados at agora: (1) Qual foi o processo 
psquico que transformou o contedo latente do sonho no contedo manifesto que me  conhecido atravs da memria? (2) Que motivo ou motivos tornaram necessria essa 
transformao? Descreverei o processo que transforma o contedo latente dos sonhos no contedo manifesto como "trabalho do sonho". A contrapartida dessa atividade 
- que acarreta uma transformao na direo oposta - j nos  conhecida como o trabalho de anlise. Os demais problemas decorrentes dos sonhos - as questes relativas 
aos instigadores do sonho,  origem de seu material, a seu possvel sentido,  possvel funo do sonhar e s razes pelas quais os sonhos so esquecidos - todos 
estes problemas sero por mim examinados com base no no contedo manifesto, mas no recm-descoberto contedo latente do sonho. Uma vez que atribuo todas as vises 
contraditrias e incorretas da vida onrica constantes da bibliografia sobre o assunto  ignorncia do contedo latente dos sonhos, tal como revelado pela anlise, 
terei doravante o mximo cuidado para evitar a confuso entre o sonho manifesto e os pensamentos onricos latentes.
          
          III
          
          A transformao dos pensamentos onricos latentes no contedo manifesto do sonho merece toda a nossa ateno, visto ser esse o primeiro exemplo que nos 
 conhecido de transposio do material psquico de um modo de expresso para outro, de um modo de expresso que nos  imediatamente inteligvel para outro que s 
podemos chegar a entender com a ajuda de orientao e esforo, embora tambm ele deva ser reconhecido como uma funo de nossa atividade anmica.
          No tocante  relao entre o contedo latente e o manifesto, os sonhos podem ser divididos em trs categorias. Em primeiro lugar, podemos distinguir os 
sonhos que fazem sentido e so, ao mesmo tempo, inteligveis, ou seja, que podem ser inseridos sem maior dificuldade no contexto de nossa vida anmica. Temos inmeros 
desses sonhos. Em sua maior parte, eles so curtos e em geral nos parecem merecer pouca ateno, j que nada h de espantoso ou estranho neles. Alis, sua ocorrncia 
constitui um poderoso argumento contra a teoria segundo a qual os sonhos se originam da atividade isolada de grupos separados de clulas cerebrais. Eles no do 
nenhuma indicao de atividade psquica reduzida ou fragmentria, mas, apesar disso, jamais questionamos o fato de serem sonhos e no os confundimos com os produtos 
da viglia. Um segundo grupo  formado pelos sonhos que, embora sejam coerentes em si e tenham um sentido claro, produzem, ainda assim, um efeito desconcertante, 
pois no vemos como encaixar esse sentido em nossa vida anmica. Tal  o caso ao sonharmos, por exemplo, que um parente de quem gostamos morreu de peste, sem que 
tenhamos qualquer razo para esperar, temer ou presumir uma coisa dessas; e nos perguntamos, assombrados: "Como  que fui arranjar essa idia?" O terceiro grupo, 
enfim, contm os sonhos destitudos de sentido ou inteligibilidade, que parecem desconexos, confusos e sem significado. A esmagadora maioria dos produtos de nosso 
sonhar exibe essas caractersticas, que constituem a base da opinio desfavorvel que se tem dos sonhos e fundamentam a teoria mdica de que eles so o resultado 
de uma atividade anmica restrita. Raramente faltam os mais evidentes sinais de incoerncia, sobretudo nas composies onricas de extenso e complexidade considerveis.
          O contraste entre os contedos manifesto e latente dos sonhos s tem importncia,  claro, para os sonhos da segunda categoria e, mais particularmente, 
os da terceira.  a que nos confrontamos com enigmas que s desaparecem depois de substituirmos o sonho manifesto pelos pensamentos latentes que esto por trs 
dele; e foi com um espcime da ltima categoria - um sonho confuso e ininteligvel - que se efetuou a anlise que acabo de relatar. Contrariando nossas expectativas, 
contudo, esbarramos em motivos que nos impediram de tomar pleno conhecimento dos pensamentos onricos latentes. A repetio de experincias semelhantes nos leva 
a suspeitar de que existe uma relao ntima e regular entre a natureza ininteligvel e confusa dos sonhos e a dificuldade de comunicar os pensamentos que esto 
por trs deles. Antes de averiguarmos a natureza dessa relao, ser conveniente voltarmos nossa ateno para os sonhos mais facilmente inteligveis da primeira 
categoria, em que os contedos manifesto e latente coincidem e parece haver uma conseqente economia do trabalho do sonho.
          Alm disso, o exame desses sonhos oferece vantagens desde outro ponto de vista. Ocorre que os sonhos das crianas so dessa ndole - plenos de sentido 
e no-enigmticos. Temos a, alis, outro argumento contra a teoria que vai buscar a origem dos sonhos numa atividade cerebral dissociada durante o sono, pois por 
que  que tal reduo do funcionamento psquico seria caracterstica do estado de sono dos adultos, mas no do das crianas? Por outro lado, -nos plenamente lcito 
esperar que a explicao dos processos psquicos das crianas, em que  bem possvel que eles sejam muito simplificados, venha a se revelar um preldio indispensvel 
 investigao da psicologia dos adultos.
          Assim, registrarei alguns exemplos de sonhos que colhi de crianas. Uma menininha de dezenove meses teve de passar o dia inteiro sem comer por ter tido 
uma crise de vmitos pela manh; sua bab declarou que ela ficara indisposta por ter comido morangos. Na noite subseqente a esse dia de jejum, ouviram-na dizer 
seu nome durante o sono e acrescentar: "Molangos, molangos silvestles, omete, pudim!" Portanto, estava sonhando que fazia uma refeio e, em seu cardpio, dava 
nfase especial  iguaria especfica da qual, tinha razes para esperar, s lhe seriam permitidas escassas quantidades no futuro prximo. - Um menininho de vinte 
e dois meses teve um sonho semelhante com uma regalia que lhe fora negada. Na vspera, fora obrigado a presentear seu tio com um cesto de cerejas frescas, das quais 
ele prprio,naturalmente, s pudera provar uma unidade. Acordou com esta alegre notcia: "Hermann comeu todas as celejas!" - Certo dia, uma menina de trs anos e 
trs meses fez uma viagem por um lago. O passeio, evidentemente, no lhe parecera longo o bastante, pois ela chorou quando teve de sair do barco. Na manh seguinte, 
comunicou que, durante a noite, estivera passeando no lago: dera continuidade a sua viagem interrompida. Um menino de cinco anos e trs meses deu sinais de insatisfao 
durante uma caminhada pelas imediaes do Dachstein. Cada vez que se divisava uma nova montanha, ele queria saber se era o Dachstein, e por fim se recusou a visitar 
uma cachoeira com o resto do grupo. Seu comportamento foi atribudo  fadiga, mas encontrou uma explicao melhor quando, na manh seguinte, ele contou ter sonhado 
que havia escalado o Dachstein.  evidente que tivera a idia de que a excurso terminaria numa escalada do Dachstein e ficou deprimido ao ver que a montanha prometida 
nunca aparecia. Compensou, no sonho, aquilo que o dia anterior no lhe pudera dar. - Uma menina de seis anos teve um sonho exatamente igual. Durante um passeio, 
seu pai teve de parar antes de se atingir o objetivo pretendido porque estava ficando tarde. No caminho de volta, ela reparou num poste de sinalizao que indicava 
o nome de outro local de excurso e o pai prometeu lev-la l tambm em outra oportunidade. Na manh seguinte, ela recebeu o pai com a notcia de que sonhara que 
ele estivera com ela em ambos os lugares.
          O elemento comum em todos esses sonhos infantis  evidente. Todos realizaram desejos que se haviam ativado durante o dia, mas permaneceram irrealizados. 
Os sonhos foram simples e indisfaradas realizaes de desejo.
          Eis aqui outro sonho infantil que, embora  primeira vista no seja muito fcil de entender, tambm no passa de uma realizao de desejo. Uma menininha 
de quatro anos incompletos fora trazida do campo para a cidade por estar sofrendo de uma crise de poliomielite. Passou a noite com uma tia que no tinha filhos e 
puseram-na para dormir numa cama grande - grande demais para ela,  claro. Na manh seguinte, contou ter sonhado que a cama era pequena demais para ela, to pequena 
que ela no cabia.  fcil reconhecer esse sonho como um sonho de desejo, se nos recordarmos que as crianas expressam com muita freqncia o desejo de "serem grandes". 
O tamanho da cama foi um lembrete desagradvel da pequenez da menina ainda no crescida; assim, ela corrigiu a proporo indesejada no sonho e cresceu tanto que 
at a cama grande ficou pequena demais para ela.
          Mesmo quando o contedo dos sonhos infantis se torna complicado e sutil, nunca h dificuldade em reconhec-los como realizaes de desejo. Um menino de 
oito anos sonhou que estava andando numa biga com Aquiles e que Diomedes era o cocheiro. Constatou-se que, na vspera, ele estivera mergulhado num livro de lendas 
sobre os heris gregos, e foi fcil perceber que havia tomado esses heris por modelos e lamentava no estar em sua poca.
          Essa pequena coletnea destaca diretamente outra caracterstica dos sonhos infantis: sua ligao com a vida diurna. Os desejos neles realizados ficaram 
pendentes durante o dia e, em regra geral, na vspera, e foram acompanhados na viglia por intensa colorao afetiva. Nada que seja sem importncia ou indiferente, 
ou que assim se afigure  criana, consegue penetrar no contedo de seus sonhos.
          Tambm nos adultos verifica-se a ocorrncia de numerosos exemplos de sonhos desse tipo infantil, embora, como afirmei, tenham geralmente um contedo sucinto. 
Desse modo, vrias pessoas reagem regularmente ao estmulo da sede durante a noite com sonhos de estarem bebendo, que assim se esforam por livrar-se do estmulo 
e permitir que o sono continue. Em algumas pessoas, tais "sonhos de convenincia" freqentemente ocorrem antes do despertar, quando surge a necessidade de elas se 
levantarem. Elas sonham que j esto de p frente ao lavatrio ou que j se encontram na escola ou no escritrio, onde tm de chegar em determinado horrio. Na noite 
que precede uma viagem, no raro sonhamos j ter chegado a nosso destino; do mesmo modo, antes de uma ida ao teatro ou a uma festa, o sonho muitas vezes antecipa 
o prazer futuro - por impacincia, por assim dizer. Noutros sonhos, a realizao de desejo se expressa num grau mais indireto;  preciso estabelecer alguma ligao 
ou implicao - isto , o trabalho de interpretao tem de ser iniciado - para que se possa reconhecer a realizao de desejo. Um homem me contou, por exemplo, que 
sua jovem esposa sonhara que suas regras haviam comeado. Considerei que, se a menstruao dessa moa havia faltado, ela devia saber que se defrontava com uma gravidez. 
Assim, ao comunicar seu sonho, estava anunciando sua gravidez, e o sentido do sonho era mostrar realizado seu desejo de que a gravidez se retardasse um pouco mais. 
Em condies inusitadas ou extremas, esses sonhos de carter infantil so particularmente comuns. Assim, o lder de uma expedio polar relatou que os membros de 
seu grupo, enquanto passavam o inverno nos campos de gelo e viviam numa dieta montona e com raes magras, sonhavam regularmente, como crianas, com grandes refeies, 
com montanhas de fumo e que estavam novamente em casa. [1]
          No  nada raro que, de um sonho relativamente longo, complicado e confuso em sua totalidade, destaque-se um fragmento particularmente claro, que contm 
uma inequvoca realizao de desejo mas est vinculado a algum outro material ininteligvel. No caso dos adultos, entretanto, qualquer pessoa com alguma experincia 
em analisar seus sonhos verificar, para sua surpresa, que mesmo os sonhos que tm a aparncia de serem transparentemente claros raramente so to simples quanto 
os das crianas, e que por trs da realizao de desejo evidente pode ocultar-se algum outro sentido.
          Seria, de fato, uma soluo simples e satisfatria para o enigma dos sonhos se o trabalho da anlise nos habilitasse a encontrar a origem at mesmo dos 
sonhos mais sem sentido e mais confusos dos adultos no tipo infantil de realizao de um desejo intensamente sentido no dia anterior. No h dvida, porm, de que 
as aparncias no depem em favor dessa expectativa. Os sonhos costumam estar repletos do material mais indiferente e estranho, no havendo em seu contedo nenhum 
sinal da realizao de qualquer desejo.
          Entretanto, antes de nos afastarmos dos sonhos infantis, com sua indisfarada realizao de desejo, no devo deixar de mencionar uma das principais caractersticas 
dos sonhos, que h muito se evidenciou e que ressalta precisamente nesse grupo com particular clareza. Cada um desses sonhos pode ser substitudo por uma frase desiderativa: 
"Ah, se o passeio no lago tivesse durado mais!" - "Oxal eu j estivesse asseado e vestido!" - "Que bom se eu pudesse ter guardado as cerejas em vez de d-las a 
meu tio!" Mas os sonhos nos fornecem mais do que essas frases desiderativas. Mostram-nos o desejo j realizado; representam sua realizao como real e presente; 
e o material empregado na representao onrica consiste principalmente, embora no exclusivamente, em situaes e em imagens sensoriais, sobretudo de carter visual. 
Portanto, mesmo nesse grupo infantil, no est completamente ausente uma espcie de transformao que merece ser descrita como trabalho do sonho: um pensamento expresso 
no subjuntivo [modo do desejo]  substitudo por uma representao no presente do indicativo.
          
          IV
          
          Estaremos inclinados a supor que algum tipo de transformao tenha ocorrido mesmo nos sonhos confusos, embora no saibamos dizer se, tambm no caso deles, 
o que se transformou foi um [enunciado] optativo. Entretanto, h dois trechos no exemplo de sonho que relatei, e em cuja anlise fizemos algum progresso, que nos 
do motivo para suspeitar de algo dessa natureza. A anlise mostrou que minha mulher se havia interessado por outras pessoas  mesa e que eu achara isso desagradvel; 
o sonho continha precisamente o oposto disso - a pessoa que tomou o lugar de minha mulher voltava toda sua ateno para mim. Mas uma experincia desagradvel no 
pode gerar nada mais apropriado do que o desejo de que seu oposto tivesse ocorrido - que foi o que o sonho representou como realizado. Havia uma relao exatamente 
igual entre o amargo pensamento revelado pela anlise, de que eu nunca tivera nada de graa, e a observao feita pela mulher do sonho - "O senhor sempre teve olhos 
to bonitos". Assim, parte da oposio entre contedo manifesto e contedo latente do sonho  atribuvel  realizao de desejo.
          Mas outra conquista do trabalho do sonho, a qual tende a produzir sonhos incoerentes,  ainda mais notvel. Se, numa situao qualquer, compararmos o nmero 
de elementos de representao ou o espao tomado para anot-los, no caso do sonho e no caso dos pensamentos onricos a que a anlise nos conduz, e dos quais se encontram 
vestgios no prprio sonho, no nos restar nenhuma dvida de que o trabalho do sonho efetuou uma obra de compresso ou condensao em larga escala.  impossvel, 
a princpio, formar qualquer juzo sobre o grau dessa condensao; no entanto, quanto mais fundo mergulharmos na anlise do sonho, mais impressionante ele se afigura. 
De cada elemento do contedo do sonho ramificam-se fios associativos em duas ou mais direes; cada situao do sonho parece compor-se de duas ou mais impresses 
ou experincias. Por exemplo, sonhei certa vez com uma espcie de piscina em que os banhistas se espalhavam em todas as direes; num certo ponto da borda da piscina, 
havia algum de p que se inclinava para um dos banhistas, como que para ajud-lo a sair da gua. A situao era composta da lembrana de uma experincia que tive 
na puberdade e de dois quadros, um dos quais eu vira pouco antes do sonho. Um deles era da srie de Schwind que ilustra a lenda de Melusina, mostrando as niades 
surpreendidas em seu banho no lago (Cf. os banhistas espalhados, no sonho); o outro era uma pintura do Dilvio, de autoria de um mestre italiano; j a pequena experincia 
recordada de minha puberdade era a de ter visto o instrutor de uma escola de natao ajudando a sair da gua uma dama que se demorara at depois do horrio reservado 
para os banhistas masculinos. - No caso do exemplo que escolhi para interpretao, a anlise da situao levou-me a uma pequena srie de recordaes, cada uma das 
quais fizera alguma contribuio para o contedo do sonho. Em primeiro lugar, havia o episdio da poca de meu noivado do qual j falei. A presso em minha mo debaixo 
da mesa, que fizera parte desse episdio, forneceu ao sonho o detalhe "embaixo da mesa" - detalhe que tive de acrescentar como uma reflexo feita a posteriori sobre 
minha lembrana do sonho. No episdio em si, no tinha havido,  claro, nada de "voltar [toda a ateno] para mim"; a anlise mostrou que esse elemento era a realizao 
de um desejo pela apresentao do oposto de um acontecimento real, e que estava relacionado com o comportamento de minha mulher na table d'hte. Por trs dessa recordao 
recente, porm, ocultava-se uma cena parecidssima e muito mais importante da poca de nosso noivado, que nos deixou brigados por um dia inteiro. A colocao da 
mo em meu joelho pertencia a um contexto inteiramente diferente e dizia respeito a pessoas totalmente distintas. Esse elemento do sonho, por sua vez, foi o ponto 
de partida de dois conjuntos independentes de lembranas - e assim por diante.
          O prprio material dos pensamentos onricos reunido para formar a situao do sonho deve adaptar-se,  claro, para esse fim. Deve haver um ou mais elementos 
comuns em todos os componentes. O trabalho do sonho procede ento como fazia Francis Galton ao produzir suas fotografias de famlia. Superpe os diversos componentes, 
por assim dizer, fazendo-os coincidir um com o outro. O elemento comum a eles destaca-se ento claramente da imagem conjunta, enquanto os detalhes contraditrios 
quase que se anulam mutuamente. Esse mtodo de produo tambm explica, at certo ponto, os diversos graus da indefinio caracterstica exibida por tantos elementos 
do contedo do sonho. Baseando-se nessa descoberta, a interpretao do sonho estabeleceu a seguinte regra: ao analisarmos um sonho, caso uma incerteza se decomponha 
num "ou...ou", devemos substitu-la, para fins de interpretao, por um "e", e tomar cada uma das aparentes alternativas como um ponto de partida independente para 
uma srie de associaes.
          
          Quando um desses elementos comuns no se faz presente entre os elementos onricos, o trabalho do sonho trata de cri-lo, de maneira que seja possvel dar 
aos pensamentos uma representao comum no sonho. A maneira mais conveniente de reunir dois pensamentos onricos que a princpio nada tm em comum  alterar a forma 
verbal de um deles, e assim aproxim-lo do outro, que pode estar similarmente revestido de uma nova forma de expresso lingstica. H um processo paralelo a esse 
na elaborao de rimas, onde o som semelhante tem de ser buscado da mesma maneira que o elemento comum em nosso caso. Grande parte do trabalho do sonho consiste 
na criao desse tipo de pensamentos intermedirios, que so amide altamente engenhosos, embora freqentemente paream forados; estes criam ento um vnculo entre 
a imagem composta no contedo manifesto do sonho e os pensamentos onricos, que so diversos em sua forma e essncia e foram determinados pelos fatores motivadores 
do sonho. A anlise de nosso exemplo de sonho fornece-nos uma dessas situaes em que um pensamento recebe uma nova forma para entrar em contato com outro que lhe 
 essencialmente estranho. Ao conduzir a anlise, esbarrei no seguinte pensamento: "s vezes eu gostaria de conseguir alguma coisa sem pagar." Com essa forma, porm, 
o pensamento no poderia ser empregado no contedo do sonho. Por isso, recebeu uma nova formulao: "Eu gostaria de gozar de alguma coisa sem despesas ['Kosten']." 
Ora, a palavra "Kosten", em seu segundo sentido, adequa-se ao crculo de representaes da "table d'hte" e, portanto, pde ser representada no "espinafre" servido 
no sonho. Quando em casa aparece  mesa um prato que as crianas recusam, a me comea por tentar a persuaso e insiste em que "provem ['Kosten'] s um pouquinho". 
Talvez parea estranho que o trabalho do sonho se sirva to livremente da ambigidade verbal, mas outras experincias nos ensinaro que essa  uma ocorrncia bastante 
comum.
          O processo de condensao explica ainda certos componentes do contedo do sonho que lhe so peculiares e no so encontrados no representar da viglia. 
O que tenho em mente so as "personagens coletivas" e "mistas" e as estranhas "formaes compostas", criaes que no diferem muito dos animais mistos inventados 
pela fantasia dos povos do Oriente. Estes, porm, j assumiram formas estereotipadas em nosso pensamento, ao passo que, nos sonhos, novas formas compostas so perpetuamente 
construdas numa variedade inesgotvel. Todos estamos familiarizados com tais formaes, a partir de nossos prprios sonhos.
          H muitas maneiras variadas de compor figuras desse tipo. Posso construir um personagem dando-lhe as feies de duas pessoas, ou posso dar-lhe a forma 
de uma pessoa mas pensar nela, no sonho, como tendo o nome de outra; posso ainda ter a imagem visual de uma pessoa, mas coloc-la numa situao apropriada a outra. 
Em todos esses casos, a combinao de diferentes pessoas num nico representante no contedo do sonho tem um sentido: destina-se a indicar um "e" ou um "assim como", 
ou a comparar entre si as pessoas originais em algum aspecto particular, que pode at ser especificado no prprio sonho. Em regra geral, contudo, esse elemento comum 
entre as pessoas fusionadas s pode ser descoberto pela anlise e s  indicado no contedo do sonho pela formao da figura coletiva.
          As estruturas mistas que ocorrem nos sonhos com to imensa profuso so compostas de maneiras igualmente variveis, e as mesmas regras se aplicam a sua 
resoluo. No me  necessrio citar nenhum exemplo. Sua estranheza desaparece por completo uma vez que tomemos a deciso de no classific-las na mesma categoria 
dos objetos de nossa percepo de viglia, mas sim de lembrar que so produtos da condensao onrica e enfatizam, numa forma eficazmente abreviada, alguma caracterstica 
comum dos objetos que esto assim combinados. Tambm nesse caso, o elemento comum tem que ser descoberto, na maioria das vezes, atravs da anlise. O contedo do 
sonho simplesmente afirma, por assim dizer: "Todas estas coisas tm em comum o elemento x." A dissecao dessas formaes mistas por meio da anlise  freqentemente 
o caminho mais curto para descobrir o sentido de um sonho. - Assim, em certa ocasio, sonhei que estava sentado num banco com um de meus antigos professores universitrios, 
e que o banco, cercado por outros, deslocava-se para a frente em rpida velocidade. Isso era uma combinao de um salo de conferncias com um trottoir roulant. 
No levarei mais adiante esta seqncia de idias. - Noutra ocasio, eu estava sentado num vago de trem e segurava no colo um objeto com o formato de uma cartola 
["Zylinderhut", literalmente "chape cilndrico"], mas que era feito de vidro transparente. Essa situao fez-me pensar no provrbio: "Mit den Hute in der Hand kommt 
man duchs ganze Land". O cilindro de vidro levou-me, por um curto desvio, a pensar na camisa de um lampio de gs incandescente [lmpada de Auer], e logo percebi 
que eu gostaria de fazer uma descoberta que me tornasse to rico e independente quanto meu compatriota, o Dr. Auer von Welsbach, tornou-se pela sua, e que gostaria 
de viajar em vez de permanecer em Viena. No sonho, eu estava viajando com minha descoberta, o chapu em forma de cilindro de vidro - uma descoberta que por certo 
ainda no tinha grande utilidade prtica. - O trabalho do sonho gosta particularmente de reproduzir duas representaes contrrias por uma mesma formao mista. 
Assim, por exemplo, uma mulher teve um sonho em que se via carregando um alto ramo de flores, tal como o que o anjo carrega nos quadros que representam a Anunciao. 
(Isso representava a inocncia; alis, o nome dela era Maria.) Por outro lado, o ramo estava coberto de grandes flores brancas semelhantes a camlias. (Isso representava 
o oposto da inocncia e estava associado com A dama das camlias.)
          Boa parte do que aprendemos sobre a condensao nos sonhos pode ser resumida nesta frmula: cada elemento do contedo do sonho  "sobredeterminado" pelo 
material dos pensamentos onricos; no decorre de um nico elemento dos pensamentos onricos, podendo sua origem remontar a toda uma srie deles. Esses elementos 
no precisam necessariamente ter uma estreita relao mtua nos prprios pensamentos onricos; podem pertencer s mais distantes e diversas regies a trama desses 
pensamentos. O elemento onrico , no sentido mais estrito da palavra, o "representante" de todo esse material diverso no contedo do sonho. Mas a anlise revela 
ainda um outro lado da complexa relao entre o contedo do sonho e os pensamentos onricos. Assim como as ligaes levam de cada elemento do sonho a diversos pensamentos 
onricos, tambm cada pensamento onrico isolado, em geral,  representado por mais de um elemento do sonho; os fios da associao no convergem simplesmente dos 
pensamentos onricos para o contedo do sonho, mas se cruzam e entrelaam muitas vezes no curso de sua jornada.
          A condensao, juntamente com a transformao dos pensamentos em situaes ("dramatizao")  a caracterstica mais importante e peculiar do trabalho do 
sonho. At agora, porm, nada transpirou sobre algum motivo que pudesse exigir essa compresso do material.
          
          V
          
          No caso dos sonhos complicados e confusos em que estamos agora interessados, a simples condensao e dramatizao no bastam para explicar a totalidade 
da impresso que nos causa a dessemelhana entre o contedo do sonho e os pensamentos onricos. Temos provas da operao de um terceiro fator, e essas provas merecem 
cuidadosa triagem.
          Antes de mais nada, quando chegamos, por meio da anlise, ao conhecimento dos pensamentos onricos, observamos que o contedo manifesto do sonho lida com 
um material inteiramente diferente dos pensamentos latentes. Isso, por certo, no passa de uma aparncia que se evapora ante um exame mais detido, pois acabamos 
descobrindo que a totalidade do contedo do sonho deriva dos pensamentos onricos e que quase todos os pensamentos onricos se acham representados no contedo do 
sonho. No obstante, ainda persiste algo dessa diferena. O que sobressai ntida e claramente do sonho como seu contedo essencial tem de se contentar, depois da 
anlise, em desempenhar um papel extremamente subalterno entre os pensamentos onricos; e aquilo que, ante a prova dada por nossos sentimentos, tem direito a ser 
o mais proeminente entre os pensamentos onricos, ou bem no se acha presente como material de representaes no contedo do sonho ou recebe apenas uma aluso remota 
em alguma regio obscura do sonho. Podemos expressar isso da seguinte maneira: no decurso do trabalho do sonho, a intensidade psquica se transfere dos pensamentos 
e representaes a que propriamente corresponde para outros que, a nosso juzo, no tm nenhum direito a essa nfase. Nenhum outro processo contribui tanto para 
ocultar o sentido do sonho e para tornar irreconhecvel a ligao entre o contedo onrico e os pensamentos onricos. No decorrer desse processo, que descreverei 
como "deslocamento onrico", a intensidade psquica, a importncia ou a potencialidade afetiva dos pensamentos se transforma, como constatamos ainda, em vividez 
sensorial. Presumimos, sem maiores consideraes, que o elemento mais ntido no contedo manifesto de um sonho  o mais importante, mas, na verdade [graas ao deslocamento 
ocorrido], muitas vezes um elemento indistinto  o que se revela como o derivado mais direto do pensamento onrico essencial.
          
          O que chamei de deslocamento onrico poderia ser igualmente descrito [na expresso de Nietzsche] como "uma transposio dos valores psquicos". Mas no 
terei feito uma apreciao exaustiva desse fenmeno enquanto no acrescentar que esse trabalho de deslocamento ou transposio de valores  executado em graus muito 
variveis nos diferentes sonhos. H sonhos que se produzem quase sem nenhum deslocamento. So eles os que fazem sentido e so inteligveis, como, por exemplo, aqueles 
que reconhecemos como sonhos de desejo indisfarados. Por outro lado, existem sonhos em que nem um fragmento sequer dos pensamentos onricos preservou seu prprio 
valor psquico, ou nos quais tudo o que era essencial nos pensamentos onricos foi substitudo por algo trivial. E entre esses dois extremos podemos encontrar toda 
uma srie de casos transicionais. Quanto mais obscuro e confuso parece um sonho, maior a parcela atribuvel ao fator do deslocamento em sua formao.
          Nosso exemplo de sonho exibe pelo menos um grau de deslocamento tal que seu contedo parece ter um centro diferente do de seus pensamentos onricos. No 
primeiro plano do contedo do sonho, ocupa lugar proeminente uma situao em que uma mulher parece me fazer investidas amorosas; j nos pensamentos onricos, a nfase 
principal recai sobre o desejo de ao menos uma vez desfrutar de um amor desinteressado, um amor que "no custe nada", idia esta que se oculta por trs da frase 
a respeito dos "olhos to bonitos" ["belos olhos"] e da aluso forada a "espinafre".
          Se desfazemos o deslocamento onrico por meio da anlise, obtemos o que parecem ser informaes completamente fidedignas sobre dois problemas muito debatidos 
no tocante aos sonhos: seus instigadores e sua ligao com a vida de viglia. H sonhos que revelam imediatamente sua derivao dos acontecimentos do dia; em outros 
no se descobre nenhum vestgio dessa derivao. Quando pedimos ajuda  anlise, descobrimos que todo sonho, sem nenhuma exceo possvel, remonta a uma impresso 
dos ltimos dias ou, como provavelmente seria mais correto dizer, do dia imediatamente anterior ao sonho, do "dia do sonho". A impresso que desempenha o papel de 
instigador do sonho pode ser to importante que no nos surpreenda o fato de nos ocuparmos dela durante o dia e, nesse caso, dizemos do sonho, acertadamente, que 
ele d prosseguimento aos interesses significativos de nossa vida de viglia. Em geral,porm, quando se encontra no contedo do sonho uma ligao com alguma impresso 
da vspera, essa impresso  to banal, insignificante e indigna de ser lembrada que  somente com dificuldade que ns mesmos conseguimos record-la. E nesses casos, 
o prprio contedo do sonho, mesmo que seja coerente e inteligvel, parece ocupar-se das mais indiferentes trivialidades, que seriam indignas de nosso interesse 
se estivssemos acordados. Boa parte do desprezo que se vota aos sonhos deve-se  preferncia assim mostrada em seu contedo pelo que  indiferente e trivial.
          A anlise desfaz a aparncia enganadora em que se fundamenta esse juzo desdenhoso. Se o contedo do sonho destaca alguma impresso indiferente como sua 
instigadora, a anlise invariavelmente traz  luz uma vivncia significativa, pela qual o sonhador tem boas razes para ser estimulado. Essa vivncia foi substituda 
pela indiferente, com a qual est ligada por abundantes vnculos associativos. Enquanto o contedo do sonho trata de um material de representaes insignificante 
e desinteressante, a anlise desvenda as numerosas vias associativas que ligam essas trivialidades com coisas da mais alta importncia psquica na estimativa do 
sonhador. Se o que penetra no contedo dos sonhos so impresses e material indiferentes e triviais, e no justificadamente estimuladores e interessantes, isso  
apenas o efeito do processo de deslocamento. Se respondermos a nossas perguntas sobre os instigadores do sonho e a vinculao entre o sonhar e os assuntos cotidianos 
com base no novo discernimento que adquirimos da substituio do contedo manifesto pelo contedo latente dos sonhos, chegaremos s seguintes concluses: os sonhos 
nunca se ocupam de coisas que no julgaramos merecedoras de nosso interesse durante o dia, e as trivialidades que no nos afetam durante o dia so incapazes de 
acompanhar-nos em nosso sono.
          Qual foi o instigador do sonho no exemplo que escolhemos para anlise? Foi o evento decididamente insignificante de meu amigo ter-me oferecido uma corrida 
de txi gratuita. A situao da table d'hte no sonho continha uma aluso a essa causa precipitante banal, pois, em minha conversa, eu havia comparado o taxmetro 
a uma table d'hte. Mas posso tambm apontar a vivncia importante representada por essa vivncia trivial. Alguns dias antes, eu desembolsara uma considervel soma 
em dinheiro em favor de um membro de minha famlia que me  querido. No surpreende, diziam os pensamentos onricos, que essa pessoa se sentisse grata a mim: um 
amor desses no seria "gratuito". O amor gratuito, porm, ficou em primeiro plano nos pensamentos onricos. O fato de, no muito antes, eu ter feito diversas corridas 
de txi com o parente em questo tornou possvel que a corrida de txi com meu amigo me lembrasse de minhas ligaes com essa outra pessoa.
          A impresso indiferente que se torna instigadora do sonho graas a esse tipo de associaes est sujeita a uma outra condio que no se aplica  verdadeira 
fonte do sonho: ela deve ser sempre uma impresso recente, que provenha do dia do sonho.
          No posso abandonar o tema do deslocamento onrico sem chamar ateno para um processo notvel que ocorre na formao dos sonhos e no qual a condensao 
e o deslocamento combinam-se para produzir o resultado. Ao examinarmos a condensao, j vimos a maneira como duas representaes dos pensamentos onricos que tenham 
algo em comum, algum ponto de contato, so substitudas no contedo do sonho por uma representao composta, na qual um ncleo relativamente ntido retrata o que 
elas tm em comum, enquanto alguns detalhes colaterais indistintos correspondem aos aspectos em que elas diferem entre si. Quando, alm da condensao, ocorre o 
deslocamento, o que se forma no  uma representao mista, mas sim uma "entidade comum intermediria", que mantm com os dois elementos diferentes uma relao semelhante 
 que  mantida pela resultante de um paralelograma de foras com seus componentes. Por exemplo, no contedo de um de meus sonhos, falava-se numa injeo de propil. 
De incio, a anlise levou-me apenas a uma vivncia indiferente que agira como instigadora do sonho e na qual tinha havido uma participao da amila. Ainda no me 
era possvel justificar a confuso entre amila e propil. No grupo de representaes por trs do mesmo sonho, entretanto, havia tambm uma recordao de minha primeira 
visita a Munique, onde o Propileu me havia chamado a ateno. Os pormenores da anlise tornavam plausvel supor que a influncia desse segundo grupo de representaes 
sobre o primeiro  que fora responsvel pelo deslocamento de amila para propil. Propil , por assim dizer, uma representao intermediria entre amila e propileu, 
e penetrou no contedo do sonho como uma espcie de compromisso, atravs de condensao e deslocamento simultneos.
          
          Mais ainda do que no processo de condensao, h no processo de deslocamento uma premente necessidade de descobrir o motivo desses enigmticos esforos 
por parte do trabalho do sonho.
          
          VI
          
           o processo de deslocamento o principal responsvel por sermos incapazes de descobrir ou reconhecer os pensamentos onricos no contedo do sonho, a menos 
que compreendamos a razo de sua distoro. No obstante, os pensamentos onricos so tambm submetidos a outra forma de transformao, mais suave, que leva  descoberta 
de uma nova conquista por parte do trabalho do sonho, porm uma conquista facilmente inteligvel. Os primeiros pensamentos onricos com que deparamos ao prosseguir 
na anlise freqentemente nos impressionam pela forma inusitada em que so expressos; no se revestem da linguagem sbria que costuma ser empregada por nossos pensamentos, 
mas, ao contrrio, so simbolicamente representados por meio de smiles e metforas, em imagens semelhantes s do discurso potico. No h dificuldade em explicar 
o constragimento imposto  forma pela qual os pensamentos onricos se expressam. O contedo manifesto dos sonhos consiste, em sua maior parte, em situaes pictricas, 
e os pensamentos onricos, por conseguinte, devem ser submetidos, em primeiro lugar, a um tratamento que os torne adequados a esse tipo de representao. Se nos 
imaginarmos diante do problema de representar os argumentos de um editorial poltico ou os discursos dos advogados perante um tribunal numa srie de imagens, compreenderemos 
com facilidade as modificaes que precisam necessariamente ser efetuadas pelo trabalho do sonho, devido a consideraes  representabilidade no contedo do sonho.
          O material psquico dos pensamentos onricos inclui, habitualmente, recordaes de vivncias marcantes - no raro da primeira infncia - que portanto so 
em si percebidas, em geral, como situaes que tm um contedo visual. Sempre que surge a possibilidade, essa parte dos pensamentos onricos exerce uma influncia 
decisiva sobre a forma assumida pelo contedo do sonho; constitui, por assim dizer, um ncleo de cristalizao que atrai para si o material dos pensamentos onricos 
e, desse modo, afeta sua distribuio. A situao do sonho no , com freqncia, outra coisa seno uma repetio modificada, e complicada por interpolaes, de 
uma dessas vivncias marcantes; por outro lado, as reprodues fiis e diretas de cenas reais raramente aparecem nos sonhos.
          
          O contedo dos sonhos, todavia, no consiste inteiramente em situaes, mas inclui tambm fragmentos desconexos de imagens visuais, ditos e at fragmentos 
de pensamentos inalterados. Portanto, talvez seja interessante enumerar muito sucintamente os modos de representao de que dispe o trabalho do sonho para reproduzir 
os pensamentos onricos na forma peculiar de expresso necessria aos sonhos.
          Os pensamentos onricos a que chegamos por meio da anlise revelam-se como um complexo psquico da mais intricada estrutura possvel. Suas partes mantm 
entre si as mais variadas relaes lgicas: representam primeiros planos e panos de fundo, condies, digresses e ilustraes, seqncias de provas e contra-argumentaes. 
Cada cadeia de pensamentos  quase invariavelmente acompanhada por sua contrapartida contraditria. No falta a esse material nenhuma das caractersticas que nos 
so familiares por nosso pensamento de viglia. Ora, quando tudo isso tem de ser transformado num sonho, o material psquico  submetido a uma presso que o condensa 
enormemente, a uma fragmentao interna e a um deslocamento que criam, por assim dizer, novas superfcies, e a uma operao seletiva em prol de suas partes mais 
apropriadas para construir situaes. Ao levarmos em conta a gnese do material, um processo dessa natureza merecer ser descrito como uma "regresso". No curso 
dessa transformao, contudo, perdem-se os vnculos lgicos que at ento mantinham unido o material psquico.  somente o contedo substantivo dos pensamentos onricos, 
por assim dizer, que o trabalho do sonho domina e manipula. A restaurao das ligaes destrudas pelo trabalho do sonho  uma tarefa a ser executada pelo trabalho 
de anlise.
          Portanto, os meios de expresso ao alcance do sonho podem ser qualificados de escassos em comparao com os de nossa linguagem intelectual; ainda assim, 
o sonho no precisa abandonar por completo a possibilidade de reproduzir as relaes lgicas presentes nos pensamentos onricos. Pelo contrrio, ele logra com bastante 
freqncia substitu-los por caractersticas formais de sua prpria urdidura.
          Em primeiro lugar, os sonhos levam em conta a ligao que inegavelmente existe entre todas as partes dos pensamentos onricos, combinando a totalidade 
do material numa nica situao. Reproduzem o encadeamento lgico pela proximidade no tempo e no espao, assim como um pintor representa todos os poetas num nico 
grupo num quadro do Parnaso.  verdade que eles nunca estiveram de fato reunidos num nico cimo de montanha, mas certamente formam um grupo conceitual. Os sonhos 
levam esse mtodo de representao aos mnimos detalhes e, freqentemente, quando nos mostram muito prximos dois elementos do contedo do sonho, isso indica que 
h alguma ligao especialmente ntima entre o que a eles corresponde nos pensamentos onricos. A propsito, cabe observar que todos os sonhos produzidos numa mesma 
noite do a conhecer, na anlise, que derivam do mesmo crculo de pensamentos.
          A relao causal entre dois pensamentos ou  deixada sem representao, ou  substituda por uma seqncia de dois trechos de sonho de extenso diferente. 
Aqui, a representao freqentemente se inverte, com o princpio do sonho representando a conseqncia, e sua concluso, a premissa. A transformao imediata de 
uma coisa em outra no sonho parece representar a relao de causa e efeito.
          A alternativa "ou... ou" nunca se expressa nos sonhos, sendo ambas as alternativas inseridas no texto do sonho como se fossem igualmente vlidas. J mencionei 
que o "ou...ou" empregado no relato do sonho deve ser traduzido por "e". [Ver em [1].]
          As representaes opostas so preferencialmente expressas nos sonhos por um nico elemento. O "no" parece inexistir no que concerne aos sonhos. A oposio 
entre dois pensamentos, a relao de inverso, pode ser representada nos sonhos de maneira realmente notvel. Pode ser representada pela transformao de outra parte 
do contedo onrico em seu oposto - como numa reflexo a posteriori, por assim dizer. Em breve tomaremos conhecimento de outro mtodo para expressar a contradio. 
A sensao de inibio do movimento, to comum nos sonhos, serve tambm para expressar uma contradio entre dois impulsos, um conflito da vontade.
          Uma nica dessas relaes lgicas - a de similaridade, consonncia, a posse de atributos comuns -  favorecida em altssimo grau pelo mecanismo da formao 
do sonho. O trabalho do sonho se vale desses casos como base para a condensao onrica, reunindo tudo o que exibe tal concordncia numa nova unidade.
          
          Esta breve srie de apontamentos grosseiros  insuficiente, por certo, para lidar com toda a gama de meios formais empregados pelos sonhos para a expresso 
de relaes lgicas nos pensamentos onricos. Os diferentes sonhos formam-se com maior ou menor cuidado nesse aspecto; atm-se com maior ou menor exatido ao texto 
que lhes  apresentado; empregam em maior ou menor grau os expedientes ao alcance do trabalho do sonho. Na segunda dessas alternativas, eles se mostram obscuros, 
confusos e desconexos. Quando, no entanto, um sonho se afigura obviamente absurdo, quando seu contedo inclui um absurdo palpvel, isso se d intencionalmente; seu 
aparente desprezo por todos os requisitos da lgica expressa parte do contedo intelectual dos pensamentos onricos. O absurdo no sonho significa a presena, nos 
pensamentos onricos, de contradio, escrnio e ironia. Uma vez que esta afirmao se ope de maneira extremamente acentuada  opinio de que os sonhos so produto 
de uma atividade mental dissociada e acrtica, quero enfatiz-la atravs de um exemplo.
          Um de meus conhecidos, o Sr. M., fora atacado num ensaio com um injustificado grau de violncia, ao que todos pensamos, por ningum menos que Goethe. O 
Sr. M., naturalmente, ficou arrasado com o ataque. Queixou-se amargamente dele com algumas pessoas que o acompanhavam  mesa; sua venerao por Goethe, entretanto, 
no foi afetada por essa experincia pessoal. Tentei esclarecer um pouco os dados cronolgicos, que me pareciam improvveis. Goethe morreu em 1832. Uma vez que seu 
ataque ao Sr. M. naturalmente teria sido feito antes disso, o Sr. M. devia ser um homem muito jovem na ocasio. Pareceu-me uma noo plausvel que tivesse dezoito 
anos. Eu no tinha muita certeza, porm, do ano em que escrevamos, de modo que todo o meu clculo se desfazia na obscuridade. A propsito, o ataque estava contido 
no famoso ensaio de Goethe sobre a "Natureza".
          O carter absurdo desse sonho ficar ainda mais flagramente bvio se eu explicar que o Sr. M.  um homem de negcios ainda moo, que est muito longe de 
ter quaisquer interesses poticos e literrios. No tenho dvidas, porm, de que uma vez penetrando na anlise do sonho, conseguirei mostrar quanto "mtodo" existe 
em seu contra-senso.
          O material do sonho decorreu de trs fontes:
          
          (1) O Sr. M., com quem travei conhecimento entre algumas pessoas  mesa, pediu-me um dia que examinasse seu irmo mais velho, que estava mostrando sinais 
de atividade mental perturbada. No decorrer de minha conversa com o paciente ocorreu um episdio embaraoso, pois ele entregou o irmo, sem nenhuma razo justificvel, 
ao falar sobre suas loucuras da juventude. Eu havia perguntado ao paciente o ano de seu nasciment. (cf. o ano da morte de Goethe, no sonho) e o fizera efetuar diversos 
clculos para testar a debilitao de sua memria.
          (2) Um peridico mdico, que, entre outros, trazia meu nome na folha de rosto, publicara uma crtica positivamente "arrasadora", feita por um crtico jovem, 
de um livro de meu amigo F., de Berlim. Pedi explicaes disso ao editor, mas, embora expressasse seu pesar, ele se recusou a fazer qualquer retratao. Assim, cortei 
relaes com o peridico, mas, em minha carta de renncia, expressei a esperana de que nossas relaes pessoais no fossem afetadas pelo acontecimento. Essa era 
a verdadeira fonte do sonho. A recepo desfavorvel do trabalho de meu amigo causara-me profunda impresso. O livro continha, em minha opinio, uma descoberta biolgica 
fundamental, que s agora - passados muitos anos - comea a ter boa acolhida dos especialistas.
          (3) Uma paciente minha, pouco tempo antes, dera-me uma descrio da enfermidade de seu irmo e de como ele entrara num delrio frentico aos gritos de 
"Natureza! Natureza!". Os mdicos acreditavam que sua exclamao provinha de ele ter lido o notvel ensaio de Goethe sobre esse assunto e que isso denotava que ele 
se vinha sobrecarregando com um excesso de trabalho em seus estudos. Eu havia comentado parecer-me mais plausvel que sua exclamao da palavra "Natureza" fosse 
tomada no sentido sexual em que  empregada aqui pelas pessoas menos cultas. Pelo menos, pensei, essa minha idia no foi refutada, dado o fato de que o pobre rapaz 
depois mutilou seus prprios rgos genitais. Ele tinha dezoito anos na ocasio de seu surto.
          Por trs de meu prprio eu, no contedo do sonho, ocultava-se, em primeiro lugar, meu amigo que fora to maltratado pelo crtico. "Tentei esclarecer um 
pouco os dados cronolgicos." O livro de meu amigo versava sobre os dados cronolgicos da vida e, entre outras coisas, mostrava que a extenso da vida de Goethe 
era um mltiplo de um certo nmero de dias que tem importncia na biologia. Mas esse eu era comparado com um paraltico: "Eu no tinha muita certeza, porm, do ano 
em que escrevamos". Assim, o sonho fez com que meu amigo parecesse comportar-se como um paraltico e, nesse aspecto, era um amontoado de absurdos. Os pensamentos 
onricos, porm, diziam ironicamente: "Naturalmente, ele [meu amigo F.]  que  um tolo, um maluco, e vocs [os crticos]  que so os gnios que sabem de tudo. 
 claro que no seria o inverso, no ?" Havia inmeros exemplos dessa inverso no sonho. Por exemplo, Goethe atacava o rapaz, o que  absurdo, ao passo que ainda 
 fcil um homem bem jovem atacar o grande Goethe.
          Eu gostaria de sustentar que nenhum sonho  instigado por moes que no sejam egostas. Na realidade, o eu desse sonho no representa apenas meu amigo, 
mas tambm a mim. Identifiquei-me com ele porque o destino de sua desoberta parecia prenunciar a recepo das minhas. Se eu expusesse minha teoria que ressalta o 
papel desempenhado pela sexualidade na etiologia dos distrbios psiconeurticos (cf. a aluso ao grito de "Natureza! Natureza!" do paciente de dezoito anos), depararia 
com as mesmas crticas; e j me estava preparando para enfrent-las com o mesmo escrnio.
          Quando prosseguimos no exame dos pensamentos onricos, continuamos a encontrar o escrnio e o desprezo como correlatos dos absurdos do sonho manifesto. 
 bem sabido que foi a descoberta do crnio fendido de uma ovelha no Lido de Veneza que deu a Goethe a idia da chamada teoria "vertebral" do crnio. Meu amigo se 
vangloria de que, quando estudante, desencadeou uma tempestade que levou  destituio de um velho professor que, embora um dia se tivesse distinguido (entre outras 
coisas, precisamente em conexo com o mesmo ramo de anatomia comparada), havia-se tornado incapaz de ensinar devido  demncia senil. Assim, a agitao provocada 
por meu amigo serviu para combater o nocivo sistema o segundo qual no existe limite de idade para os funcionrios acadmicos nas universidades alems - porque a 
idade, proverbialmente, no  defesa contra a loucura. - No hospital daqui, tive a honra de servir durante anos sob as ordens de um chefe que h muito era um fssil 
e que por dcadas fora notoriamente um dbil mental, mas que tinha permisso para continuar exercendo seu cargo de responsabilidade. Nesse ponto, pensei num termo 
descritivo baseado na descoberta do Lido. Alguns de meus jovens contemporneos de hospital inventaram, a propsito desse homem, uma verso do que era ento uma cano 
popular: "Das hat kein Goethe g'schrieben, das hat kein Schiller g'dicht..."
          
          VII
          
          Ainda no chegamos ao trmino de nossa considerao do trabalho do sonho. Alm da condensao, do deslocamento e da disposio pictrica do material psquico, 
somos obrigados a atribuir-lhe mais uma atividade, embora esta no se mostre em operao em todos os sonhos. No tratarei exaustivamente dessa parte do trabalho 
do sonho e, sendo assim, limito-me a observar que a maneira mais fcil de se ter uma representao de sua natureza  supor - embora a suposio provavelmente no 
corresponda aos fatos - que ela s entra em ao DEPOIS de se ter formado o contedo onrico. Sua funo consistiria, portanto, em dispor os componentes do sonho 
de tal maneira que eles formem um todo mais ou menos interligado, uma composio onrica. Desse modo, o sonho recebe uma espcie de fachada (embora,  verdade, ela 
no oculte seu contedo em todos os pontos), e assim recebe uma primeira interpretao preliminar, que  apoiada por interpolaes e ligeiras modificaes. A propsito, 
essa elaborao do contedo do sonho s  possvel quando no  executada com excessiva meticulosidade; ademais, ela no nos oferece nada alm de um flagrante mal-entendido 
dos pensamentos onricos. Antes de iniciarmos a anlise de um sonho, temos que livrar o terreno dessa tentativa de interpretao.
          A motivao dessa parte do trabalho do sonho  particularmente bvia. A considerao  inteligibilidade  o que leva a essa elaborao final do sonho, 
e isso revela a origem dessa atividade. Frente ao contedo onrico que tem diante de si, ela se comporta exatamente como o faz nossa atividade psquica normal, em 
geral, diante de qualquer contedo perceptivo que lhe seja apresentado. Entende esse contedo com base em certas representaes antecipatrias e o ordena, j no 
momento de perceb-lo, segundo a pressuposio de que seja inteligvel; assim procedendo, ela corre o risco de false-lo e, de fato, quando no consegue harmoniz-lo 
como algo j familiar, torna-se presa dos mais estranhos mal-entendidos. Como  sabido, somos incapazes de ver uma srie de sinais estranhos ou de ouvir uma sucesso 
de palavras desconhecidas sem falsear de imediato a percepo por uma considerao  inteligibilidade, com base em alguma coisa j conhecida.
          Os sonhos que passaram por esse tipo de elaborao por parte de uma atividade psquica completamente anloga ao pensamento de viglia podem ser descritos 
como "bem-construdos". No caso de outros sonhos, essa atividade falhou por completo; no se fez sequer uma tentativa de ordenar ou interpretar o material, e como, 
depois de acordar, sentimo-nos identificados com essa ltima parte do trabalho do sonho, formamos o juzo de que o sonho foi "irremediavelmente confuso". Do ponto 
de vista da anlise, contudo, um sonho que se assemelhe a um amontoamento desordenado de fragmentos desconexos  to valioso quanto outro cuidadosamente burilado 
e provido de uma superfcie. No primeiro caso, inclusive, -nos poupado o trabalho de demolir o que foi superposto ao contedo onrico.
          Seria um equvoco, porm, supor [1] que essas fachadas de sonho no passam de elaboraes errneas e um tanto arbitrrias do contedo do sonho pela instncia 
consciente de nossa vida anmica. Na produo da fachada do sonho empregam-se, no raro, fantasias de desejo presentes nos pensamentos onricos sob forma pr-construda, 
e que tm o mesmo carter dos apropriadamente chamados "sonhos diurnos", que nos so familiares na vida de viglia. As fantasias de desejo reveladas pela anlise 
nos sonhos noturnos com freqncia se revelam repeties ou verses modificadas de cenas da infncia; por isso, em alguns casos, a fachada do sonho revela diretamente 
o ncleo real do sonho, distorcido pela mescla com outro material.
          O trabalho do sonho no exibe nenhuma outra atividade seno as quatro que j foram mencionadas. Se nos atemos  definio de "trabalho do sonho" como o 
processo de transformao dos pensamentos onricos no contedo do sonho, decorre da que o trabalho do sonho no  criativo, no desenvolve fantasias que lhe sejam 
prprias, no emite juzos e no tira concluses; no tem outras funes que no sejam a condensao e o deslocamento do material e sua transmutao em forma pictrica, 
ao que se deve acrescentar,como fator varivel, a parcela final de elaborao interpretativa.  verdade que, no contedo do sonho, encontramos diversas coisas que 
nos inclinaramos a encarar como produto de alguma outra funo intelectual superior, mas, na totalidade dos casos, a anlise mostra convincentemente que essas operaes 
intelectuais estavam previamente efetuadas nos pensamentos onricos e que foram apenas INCORPORADAS pelo contedo do sonho. Uma concluso tirada no sonho nada mais 
 do que a repetio de uma concluso dos pensamentos onricos; quando essa concluso  transposta para o sonho sem modificao, ela se afigura impecvel; quando 
o trabalho do sonho a desloca para algum outro material, parece absurda. Um clculo no contedo do sonho no significa nada alm da existncia de um clculo nos 
pensamentos onricos; todavia, enquanto este ltimo  sempre racional, o clculo do sonho pode produzir os resultados mais desvairados, caso seus fatores sejam condensados 
ou suas operaes matemticas sejam deslocadas para outro material. Nem sequer os ditos que ocorrem no contedo onrico so composies originais; revelam-se uma 
miscelnea de ditos proferidos, escutados ou lidos, que se reavivaram nos pensamentos onricos e cujo enunciado  produzido com exatido, ao passo que sua origem 
 inteiramente desprezada e seu sentido, violentamente alterado.
          Talvez seja bom apoiar estas ltimas afirmativas em alguns exemplos.
          (1) Eis um sonho bem construdo e de aparncia inocente, produzido por uma paciente:
          Ela sonhou que estava indo ao mercado com a cozinheira, que carregava a cesta. Depois de ela haver pedido algo, o aougueiro lhe disse: "Isso no se consegue 
mais" e lhe ofereceu outra coisa, acrescentando: "Isto tambm  bom." Ela o rejeitou e se dirigiu  mulher que vendia verduras, que tentou convenc-la a comprar 
uma estranha hortalia, que vinha amarrada em feixes mas era de cor negra. Disse: "No reconheo isso: no vou lev-lo."
          O comentrio "Isso no se consegue mais" provinha do prprio tratamento. Alguns dias antes, eu havia explicado  paciente, com essas mesmas palavras, que 
as lembranas infantis mais antigas "no se conseguiam mais como tais", sendo substitudas, na anlise, por "transferncias" e sonhos. Portanto, o aougueiro era 
eu.
          O segundo dito - "No reconheo isso" - ocorrera num contexto inteiramente diverso. No dia anterior, ela havia repreendido a cozinheira, que alis tambm 
aparecia no sonho, com as palavras: "Comporte-se direito! No reconheo isso!", querendo dizer, sem dvida, que no compreendia tal comportamento e no o toleraria. 
Em conseqncia do deslocamento, foi a parte mais inocente desse dito que penetrou no contedo do sonho, mas, nos pensamentos onricos, apenas a outra parte do dito 
 que desempenhava um papel. Ocorre que o trabalho do sonho havia reduzido  completa ininteligibilidade e  inocncia extrema uma situao fantasiosa em que eu 
me comportaria de maneira imprpria com essa dama, de um modo especial. Mas essa situao esperada pela paciente em sua fantasia era, por sua vez, apenas uma reedio 
de algo que ela realmente vivenciara um dia. [1]
          (II) Eis um sonho de aparncia totalmente sem sentido, contendo nmeros. Ela ia pagar alguma coisa. Sua filha retirou-lhe da bolsa 3 florins e 65 kreuzers, 
mas ela lhe disse: "O que est fazendo? Custa s 21 kreuzers."
          A sonhadora viera do exterior e sua filha estava numa escola daqui; estaria em condies de prosseguir seu tratamento comigo enquanto a filha permanecesse 
em Viena. No dia anterior ao sonho, a diretora da escola lhe sugerira que ela deixasse a filha no colgio por mais um ano. Nesse caso, ela tambm poderia continuar 
com o tratamento por um ano. As cifras do sonho tornam-se significativas se nos lembrarmos que "tempo  dinheiro". Um ano  igual a 365 dias ou, expresso em dinheiro, 
365 kreuzers, ou 3 florins e 65 kreuzers. Os 21 kreuzers correspondiam s 3 semanas que ainda transcorreriam entre o dia do sonho e o final do perodo letivo, e 
tambm at o trmino do tratamento da paciente. Evidentemente, eram as consideraes financeiras que haviam induzido essa dama a recusar a proposta da diretora e 
que eram responsveis pela pequenez das somas mencionadas no sonho.
          (III) Uma dama que, embora ainda jovem, j estava casada h vrios anos, recebeu a notcia de que uma conhecida sua, a Srta. Elise L., que tinha quase 
exatamente a sua idade, havia ficado noiva. Essa foi a causa precipitante do seguinte sonho:
          Ela estava no teatro com o marido. Um lado da platia estava completamente vazio. O marido lhe contou que Elise L., e seu noivo tinham querido ir tambm, 
mas s haviam conseguido lugares ruins - trs por um florim e 50 kreuzers - e, naturalmente, no puderam aceit-los. Ela pensou que realmente no lhes teria causado 
nenhum prejuzo faz-lo.
          
          O que nos interessa aqui  a fonte dos nmeros no material dos pensamentos onricos e as transformaes que sofreram. De onde proviria a cifra de 1 florim 
e 50 kreuzers? Provinha do que, na realidade, fora um acontecimento irrelevante da vspera. Sua cunhada fora presenteada pelo marido com 150 florins e se apressara 
a livrar-se deles comprando uma jia. Convm notar que 150 florins so cem vezes mais que 1 florim e 50 kreuzers. A nica ligao com os "trs", que era o nmero 
de entradas de teatro, estava em que sua amiga que acabara de ficar noiva era precisamente trs meses mais moa que ela. A situao do sonho era a repetio de um 
pequeno incidente a propsito do qual seu marido freqentemente fazia troa dela. Em certa ocasio, ela se apressara muito a comprar antecipadamente entradas para 
uma pea e, ao chegar ao teatro, descobrira que um lado da platia estava quase completamente vazio. No teria sido necessrio ela se apressar tanto. Por fim, no 
nos deve passar despercebido o absurdo, no sonho, de duas pessoas comprarem trs entradas para uma pea.
          Agora, os pensamentos onricos: "Foi absurdo casar to cedo. No teria sido necessrio eu me apressar tanto. Pelo exemplo de Elise L., vejo que teria acabado 
conseguindo um marido. Na verdade, teria conseguido um cem vezes melhor" (uma jia), "se ao menos tivesse esperado. Meu dinheiro" (ou dote) "poderia ter comprado 
trs homens to bons quanto ele."
          
          VIII
          
          Aps termos travado conhecimento com o trabalho do sonho atravs da exposio precedente, ficamos decerto inclinados a consider-lo um processo psquico 
sumamente peculiar, do qual, ao que saibamos, no existe semelhante em parte alguma.  como se transportssemos para o trabalho do sonho todo o assombro que antes 
costumava ser despertado em ns por seu produto, o sonho. Na realidade, contudo, o trabalho do sonho  apenas o primeiro que descobrimos dentre toda uma srie de 
processos psquicos responsveis pela gnese de sintomas histricos, fobias, obsesses e delrios. A condensao e sobretudo o deslocamento so caractersticas invariveis 
tambm desses outros processos. A transmutao numa forma pictrica, por outro lado, permanece como uma peculiaridade do trabalho do sonho. Se esta explicao situa 
o sonho numa mesma srie ao lado das formaes produzidas pela doena psquica, isso torna ainda mais importante que desvendemos as condies determinantes essenciais 
de processos como os que ocorrem na formao do sonho.  provvel que fiquemos surpresos ao saber que nem o estado de sono nem a doena encontram-se entre essas 
condies indispensveis. Toda uma srie de fenmenos da vida cotidiana das pessoas sadias - como o esquecimento, os lapsos de linguagem, os atos falhos e uma certa 
classe de erros - deve sua origem a um mecanismo psquico anlogo ao dos sonhos e ao dos outros membros da srie.
          O mago do problema est no deslocamento, que , decididamente, a mais notvel das singulares conquistas do trabalho do sonho. Quando nos aprofundamos 
no assunto, passamos a compreender que a condio determinante essencial do deslocamento  puramente psicolgica: algo da ordem de uma motivao. Deparamos com seu 
rastro ao levarmos em considerao certas vivncias a que no nos podemos furtar na anlise dos sonhos. Ao analisar meu sonho-modelo, fui obrigado a interromper 
meu relato dos pensamentos onricos, em [1], porque, como confessei, havia entre eles alguns que eu preferiria ocultar dos estranhos e que no poderia comunicar 
a outras pessoas sem grave prejuzo para importantes aspectos pessoais. Acrescentei que nada se ganharia se eu escolhesse outro sonho em vez daquele para comunicar 
sua anlise: esbarraria em pensamentos onricos que exigiriam manter-se em segredo no caso de todo sonho de contedo obscuro ou confuso. Entretanto, se prosseguisse 
na anlise por minha prpria conta, sem nenhuma referncia a outras pessoas (a quem, na realidade, uma experincia to pessoal quanto meu sonho no poderia estar 
destinada), eu acabaria chegando a pensamentos que me surpreenderiam, de cuja presena em mim eu no estaria ciente, que me seriam no apenas estranhos, mas tambm 
desagradveis, e que, portanto, eu me sentiria inclinado a contestar energicamente, embora a cadeia de pensamentos que perpassa a anlise insistisse neles de maneira 
implacvel. H apenas um modo de explicar esse estado de coisas, que  de ocorrncia bastante universal; trata-se de supor que esses pensamentos realmente estavam 
presentes em minha vida anmica, de posse de uma certa intensidade ou energia psquicas, mas que se encontravam numa situao psicolgica peculiar, em conseqncia 
da qual no podiam tornar-se conscientes para mim. (Descrevo esse estado particular como sendo um estado de "recalcamento".) No posso deixar de concluir, ento, 
que existe um vnculo casual entre a obscuridade do contedo do sonho e o estado de recalcamento (inadmissibilidade  conscincia) de alguns dos pensamentos onricos, 
e que o sonho se veria forado a ser obscuro para no trair os pensamentos onricos proscritos. Assim, chegamos ao conceito de uma "distoro onrica", que  produto 
do trabalho do sonho e serve  finalidade da dissimulao, ou seja, do disfarce.
          Quero submeter isso  prova do sonho-modelo que escolhi para anlise e indagar qual foi o pensamento que penetrou no sonho sob forma distorcida e que eu 
estaria inclinado a repudiar se assim no fosse. Lembro que minha corrida gratuita de txi me fizera recordar minha recente e dispendiosa corrida com um membro de 
minha famlia, que a interpretao do sonho fora "Quisera poder um dia experimentar um amor que no me custasse nada"; e que, pouco tempo antes do sonho, eu fora 
obrigado a despender uma considervel soma em dinheiro por causa dessa mesma pessoa. Tendo em mente esse contexto, no posso fugir  concluso de que lamento ter 
feito essa despesa. S depois de reconhecer essa moo  que meu desejo de um amor que no me exigisse nenhum gasto, no sonho, adquire sentido. No obstante, posso 
honestamente dizer que, quando decidi gastar aquela importncia, no hesitei por um s momento. Meu pesar por ter de faz-lo - a corrente contrria de sentimento 
- no se tornou consciente para mim. Por que no o fez  outra questo, que nos levaria muito longe e cuja resposta me  conhecida, mas pertence a outro contexto.
          Se analiso um sonho que no  meu, mas de outra pessoa, a concluso  a mesma, embora as razes para acreditar nela sejam diferentes. Quando o sonhador 
 uma pessoa sadia, no me resta outro recurso para obrig-la a reconhecer as idias recalcadas que foram descobertas seno apontar o contexto dos pensamentos onricos, 
e nada posso fazer se ela se recusa a reconhec-los. Quando, no entanto, lido com um paciente neurtico, um histrico, por exemplo, ele constata que a aceitao 
do pensamento recalcado lhe  obrigatria, graas a sua vinculao com os sintomas da doena e  melhora que ele experimenta quando troca esses sintomas pelas idias 
recalcadas. No caso, por exemplo, da paciente que teve o sonho recm-citado com os trs ingressos de teatro que custavam 1 florim e 50 kreuzers, a anlise levou 
 inevitvel concluso de que ela menosprezava seu marido (cf. sua idia de que poderia ter conseguido outro "cem vezes melhor"), lamentava haver-se casado com ele 
e gostaria de troc-lo por outro.  verdade que ela afirmava amar o marido e que sua vida afetiva nada sabia desse menosprezo por ele, mas todos os seus sintomas 
levavam  mesma concluso que o sonho. E, depois de se haverem revivido lembranas recalcadas de um certo perodo em que, conscientemente, ela no amara o marido, 
seus sintomas se dissiparam e sua resistncia  interpretao do sonho desapareceu.
          
          IX
          
          Agora que estabelecemos o conceito de recalcamento e relacionamos a distoro do sonho com o material psquico recalcado, podemos expressar em termos gerais 
a principal descoberta a que fomos levados pela anlise dos sonhos. No caso dos sonhos inteligveis e providos de sentido, descobrimos que eles so realizaes do 
desejo indisfaradas, isto , que, em seu caso, a situao onrica representa como realizado um desejo conhecido pela conscincia, que ficou pendente da vida diurna 
e  merecidamente digno de interesse. A anlise nos ensinou algo inteiramente anlogo no caso dos sonhos obscuros e confusos: tambm a a situao onrica representa 
um desejo como realizado - um desejo invariavelmente oriundo dos pensamentos onricos, mas que  representado de forma irreconhecvel e s pode ser explicado quando, 
na anlise, remonta-se  sua origem. Nesses casos, ou o prprio desejo  recalcado e estranho  conscincia, ou est intimamente ligado a pensamentos recalcados 
e neles se baseia. Portanto, a frmula para esses sonhos  a seguinte: eles so realizaes disfaradas de desejos recalcados.  interessante, nesse contexto, observar 
que se confirma a crena popular de que os sonhos sempre prevem o futuro. Na realidade, o futuro que o sonho nos mostra no  o futuro que ocorrer, mas o que gostaramos 
que ocorresse. A alma popular comporta-se aqui como geralmente o faz: acredita no que deseja.
          Os sonhos se enquadram em trs classes, conforme sua atitude para com a realizao de desejo. A primeira classe consiste nos que representam indisfaradamente 
um desejo no recalcado; so os sonhos de tipo infantil que se tornam cada vez mais raros nos adultos. Em segundo lugar, h os sonhos que expressam disfaradamente 
um desejo recalcado; estes, indubitavelmente, constituem a esmagadora maioria de todos os nossos sonhos e exigem anlise para serem compreendidos. Em terceiro lugar, 
temos os sonhos que representam um desejo recalcado, mas o fazem com um disfarce insuficiente ou sem disfarce. Estes ltimos sonhos so invariavelmente acompanhados 
de angstia, que os interrompe. Em seu caso, a angstia ocupa o lugar da distoro onrica e, nos sonhos da segunda classe, a angstia s  evitada graas ao trabalho 
do sonho. No h grande dificuldade em provar que o contedo de representaes que nos gera angstia nos sonhos foi outrora um desejo, mas passou desde ento pelo 
recalcamento.
          H tambm sonhos claros de contedo aflitivo, mas que no prprio sonho no  sentido como aflitivo. Por essa razo, no podem ser considerados como sonhos 
de angstia, mas sempre foram usados como prova de que os sonhos no tm sentido nem valor psquico. A anlise de um desses sonhos mostrar que estamos lidando com 
realizaes bem disfaradas de desejos recalcados, ou seja, com um sonho da segunda classe; mostrar tambm a admirvel aptido do processo de deslocamento para 
disfarar desejos.
          Uma moa sonhou ver morto diante de si o nico filho que restara a sua irm, nas mesmas circunstncias em que, poucos anos antes, realmente vira o cadver 
do primeiro filho da irm. No sentiu nenhuma dor frente a isso, mas, naturalmente, rejeitou a idia de que essa situao representasse algum desejo seu. Tampouco 
havia necessidade de se supor isso. Mas fora ao lado do atade da primeira criana que, anos antes, ela vira e falara com o homem de quem estava enamorada; se o 
segundo filho morresse, ela sem dvida reencontraria esse homem na casa de sua irm. Ela ansiava por tal encontro, mas lutava contra esse sentimento. No dia do sonho, 
havia comprado um ingresso para uma conferncia a ser proferida por esse mesmo homem, por quem ainda estava apaixonada. Seu sonho foi um simples sonho de impacincia, 
do tipo que ocorre com freqncia antes de viagens, idas ao teatro e outros prazeres semelhantes esperados no futuro. Entretanto, para disfarar de si mesma esse 
anseio, a situao foi deslocada para um acontecimento de natureza extremamente inadequada para produzir um sentimento de jbilo, embora de fato o tivesse feito 
no passado. Convm observar que o comportamento afetivo no sonho era apropriado ao contedo real que estava em segundo plano, e no ao que fora impelido para o primeiro 
plano. A situao onrica antecipava o encontro h tanto desejado por ela; no oferecia nenhuma base para sentimentos penosos.
          
          X
          
          At o presente, os filsofos no tiveram oportunidade de se interessarem por uma psicologia do recalcamento.  lcito, portanto, que nos permitamos fazer 
uma primeira abordagem desse tema at hoje desconhecido atravs da criao de uma imagem pictrica do curso dos acontecimentos na formao do sonho.  verdade que 
o quadro esquemtico a que chegamos - no apenas a partir do estudo dos sonhos -  bastante complicado, mas no podemos trabalhar com algo mais simples. Nossa hiptese 
 que, em nosso aparelho anmico, existem duas instncias formadoras do pensamento, das quais a segunda goza do privilgio de que seus produtos tenham livre acesso 
 conscincia, ao passo que a atividade da primeira  em si inconsciente e s pode chegar  conscincia por intermdio da segunda. Na fronteira entre as duas instncias, 
na passagem da primeira para a segunda, h uma censura que s deixa passar o que lhe  agradvel e retm tudo o mais. De acordo com nossa definio, portanto, o 
que  rejeitado pela censura fica em estado de recalcamento. Em certas condies, uma das quais  o estado de sono, a relao de foras entre as duas instncias 
se modifica de tal maneira que o recalcado no pode mais ser refreado. No estado de sono, isto provavelmente ocorre graas a um relaxamento da censura; quando isso 
acontece, torna-se possvel ao que at ento estava recalcado facilitar-se o caminho para a conscincia. Entretanto, visto que a censura nunca  completamente eliminada, 
mas simplesmente reduzida, o material recalcado tem de submeter-se a certas alteraes que atenuam seus aspectos ofensivos. O que se torna consciente, nesses casos, 
 um compromisso entre as intenes de uma das instncias e as exigncias da outra. Recalcamento - relaxamento da censura - formao de compromisso: este  o modelo 
bsico da gnese no apenas de sonhos, mas tambm de muitas outras estruturas psicopatolgicas; e nesses casos podemos observar tambm que a formao de compromisso 
 acompanhada por processos de condensao e deslocamento e pelo emprego de associaes superficiais, com as quais nos familiarizamos no trabalho do sonho.
          No temos nenhuma razo para encobrir o fato de que, na hiptese que formulamos para explicar o trabalho do sonho, um papel  desempenhado pelo que se 
poderia descrever como um elemento "demonaco". Tivemos a impresso de que a formao dos sonhos obscuros ocorre como se uma pessoa que fosse dependente de uma segunda 
tivesse de fazer um comentrio fadado a ser desagradvel ao ouvidos desta segunda, e foi com base nesse smile que chegamos aos conceitos de distoro onrica e 
censura, esforando-nos por traduzir nossa impresso numa teoria psicolgica sem dvida grosseira, mas que pelo menos  lcida. Com o que quer que a investigao 
adicional do assunto nos permita identificar nossa primeira e segunda instncias, podemos seguramente esperar a confirmao de um correlato de nossa hiptese de 
que a segunda instncia controla o acesso  conscincia e pode barrar esse acesso  primeira.
          Quando termina o estado de sono, a censura recupera prontamente sua plena fora e pode ento eliminar tudo o que dela foi conquistado durante o seu perodo 
de fraqueza. Esta deve ser pelo menos parte da explicao do esquecimento dos sonhos, como mostra uma observao j confirmada em incontveis ocasies. Durante o 
relato de um sonho ou durante sua anlise, no  raro ressurgir um fragmento do contedo onrico que parecia esquecido. Esse fragmento resgatado do olvido invariavelmente 
nos proporciona o melhor e mais direto acesso ao sentido do sonho. E, com toda a probabilidade, essa deve ter sido a nica razo para que fosse esquecido, ou seja, 
para que fosse novamente suprimido.
          
          XI
          
          Uma vez que reconheamos que o contedo do sonho  a representao de um desejo realizado e que sua obscuridade se deve a alteraes feitas pela censura 
no material recalcado, no mais teremos qualquer dificuldade em descobrir a funo dos sonhos. Afirma-se comumente que o sono  perturbado pelos sonhos, mas, curiosamente, 
somos levados a uma viso contrria e temos de encarar o sonho como guardio do sono.
          No caso dos sonhos das crianas, no haveria dificuldade em aceitar essa afirmao. O estado de sono ou alterao psquica implicada no sono, seja ela 
qual for,  promovido por uma deciso de dormir que  imposta  criana ou  qual ela chega com base nas sensaes de fadiga, e que s  possibilitada pelo afastamento 
de estmulos que possam sugerir ao aparelho psquico outros objetivos que no o de dormir. Os meios pelos quais  possvel manter afastados os estmulos externos 
so-nos conhecidos; mas quais so os meios disponveis para controlar os estmulos psquicos internos que se opem ao adormecimento? Observemos uma me que esteja 
fazendo seu filho dormir. A criana expressa um fluxo incessante de desejos: quer mais um beijo, quer continuar brincando. A me satisfaz alguns desses desejos, 
mas usa sua autoridade para adiar outros para o dia seguinte.  claro que os desejos ou necessidades que possam surgir exercem um efeito inibidor sobre o adormecimento. 
Todos conhecemos a divertida histria contada por Balduin Groller [um popular romancista austraco do sculo XIX] sobre o garotinho malcriado que acordou no meio 
da noite e gritou no quarto das crianas: "Eu quero o rinoceronte!" Uma criana mais bem-comportada, em vez de gritar, teria sonhado que estava brincando com o rinoceronte. 
Uma vez que se acredita no sonho que mostra realizado o desejo durante o sono, ele anula o desejo e possibilita o dormir. No h como contestar que as imagens onricas 
suscitam essa crena, pois se revestem da aparncia psquica das percepes, e as crianas ainda no adquiriram a faculdade posterior de distinguir as alucinaes 
ou fantasias da realidade.
          Os adultos j aprenderam a fazer essa distino; tambm j se aperceberam da inutilidade do desejar e, aps uma longa prtica, sabem como adiar seus desejos 
at que eles possam realizar-se pelo caminho longo e indireto da alterao do mundo exterior. No caso deles, por conseguinte, as realizaes de desejo pelo curto 
caminho psquico so raras tambm no sono; a rigor,  possvel at que jamais ocorram, e que tudo o que nos parece formado  maneira de um sonho infantil exija, 
na realidade, uma soluo muito mais complexa. Por outro lado, no caso dos adultos - e isto decerto se aplica sem exceo a qualquer pessoa na plena posse de seus 
sentidos -, j ocorreu no material psquico uma diferenciao que no est presente nas crianas. Surgiu uma instncia psquica que, ensinada pela experincia da 
vida, exerce uma influncia dominadora e inibidora sobre as moes anmicas e mantm essa influncia com zelosa severidade, e que, devido a sua relao com a conscincia 
e com a motilidade voluntria, est provida dos mais fortes instrumentos de poder psquico. Parte das moes infantis foi suprimida por essa instncia como sendo 
intil  vida, e todo o material de pensamento oriundo dessas moes encontra-se em estado de recalcamento.
          Ora, enquanto essa instncia, na qual reconhecemos nosso eu normal, concentra-se no desejo de dormir, parece ser compelida pelas condies psicofisiolgicas 
do sono a relaxar a energia com que est habituada a conter o material recalcado durante o dia. Por si s,  claro, esse relaxamento no causa nenhum dano; por mais 
que as moes suprimidas da alma infantil possam agitar-se, seu acesso  conscincia  ainda difcil e seu acesso  motilidade  barrado, em decorrncia desse mesmo 
estado de sono. Mas  preciso resguardar-se do perigo de o sono ser perturbado por elas. Pelo menos, devemos supor que, mesmo durante o sono profundo, um certo quantum 
de ateno livre monta guarda contra os estmulos sensoriais e que esse guarda pode s vezes considerar mais aconselhvel o despertar do que a continuao do sono. 
De outra maneira, no se explicaria que possamos ser acordados a qualquer momento por estmulos sensoriais de uma certa qualidade. Como j insistia h muito tempo 
o fisiologista Burdach [1838, 486], a me, por exemplo,  acordada pelo choramingar de seu beb; o moleiro, pela paralisao de seu moinho; e a maioria das pessoas, 
ao ser suavemente chamada por seu prprio nome. Ora, a ateno que assim est em alerta  tambm dirigida para os estmulos internos de desejo provenientes do material 
recalcado e se combina com eles para formar o sonho, que, como compromisso, satisfaz simultaneamente a ambas as instncias. O sonho proporciona uma espcie de consumao 
psquica ao desejo suprimido (ou formado com o auxlio do material recalcado), representando-o como realizado; mas atende tambm  outra instncia, permitindo que 
o sono prossiga. Nesse aspecto, nosso eu tende a se comportar como uma criana; d crdito s imagens do sonho, como se quisesse dizer: "Sim, sim! Voc tem toda 
a razo, mas deixe-me continuar dormindo!" O menosprezo que mostramos pelo sonho quando acordados e que relacionamos com seu carter confuso e aparentemente ilgico, 
provavelmente no passa do julgamento proferido por nosso eu adormecido sobre as moes recalcadas, julgamento este que se apia, com pleno direito, na impotncia 
motora desses perturbadores do sono. Por vezes nos damos conta, durante o sono, desse julgamento desdenhoso. Quando o contedo do sonho excede a censura em demasia, 
pensamos: "Afinal,  apenas um sonho!" - e continuamos a dormir.
          Essa viso no se contradiz pelo fato de haver casos marginais em que o sonho - como acontece com os sonhos de angstia - j no consegue desempenhar sua 
funo de impedir a interrupo do sono e assume, em vez disso, a outra funo de faz-lo cessar prontamente. Assim procedendo, comporta-se simplesmente como um 
vigia noturno consciencioso, que primeiro cumpre seu dever pela supresso das perturbaes, para que os cidados no sejam despertados, mas depois continua a cumpri-lo, 
indo ele prprio acordar os cidados, quando as causas da perturbao lhe parecem graves e de um tipo que ele no pode enfrentar sozinho.
          A funo de sonho como guardio do sono torna-se particularmente evidente quando um estmulo externo incide sobre os sentidos da pessoa adormecida. Em 
geral se reconhece que os estmulos sensoriais surgidos durante o sono influenciam o contedo dos sonhos; isso pode ser experimentalmente comprovado e figura entre 
as poucas descobertas acertadas (e, alis, muito supervalorizadas) da investigao mdica dos sonhos. Mas essa descoberta envolve um enigma que at hoje se mostra 
insolvel.  que o estmulo sensorial que o experimentador faz incidir sobre a pessoa adormecida no  corretamente reconhecido no sonho: ele  submetido a uma dentre 
um nmero indefinido de interpretaes possveis, cuja escolha aparentemente arbitrria fica entregue  ausncia de determinismo psquico. Mas  claro que no existe 
tal ausncia de determinismo psquico. H diversas maneiras pelas quais a pessoa adormecida pode reagir a um estmulo sensorial externo. Pode acordar ou conseguir 
continuar dormindo apesar dele. Neste ltimo caso, pode servir-se de um sonho para se livrar do estmulo externo e, tambm para isso, dispe de mais de um mtodo. 
Por exemplo, pode livrar-se do estmulo sonhando que est numa situao absolutamente incompatvel com ele. Foi esse o caminho usado por uma pessoa adormecida sujeita 
 perturbao causada por um doloroso abscesso no perneo. Ela sonhou que estava andando a cavalo, usando como sela a cataplasma que se destinava a aliviar-lhe a 
dor, e assim evitou ser perturbada. Ou ento, como ocorre com maior freqncia, o estmulo externo recebe uma interpretao que o traz para o contexto de um desejo 
recalcado que, naquele momento, aguarda realizao; dessa maneira, o estmulo externo  despojado de sua realidade e tratado como se fosse parte do material psquico. 
Desse modo, algum sonhou que havia escrito uma comdia com determinado enredo; ela era encenada num teatro, terminava o primeiro ato e havia uma chuva de aplausos; 
as palmas eram impressionantes... O sonhador deve ter conseguido prolongar o sono at depois de cessar a interferncia, pois, quando acordou, j no escutou o barulho, 
embora conclusse, com acerto, que algum deveria ter estado sacudindo um tapete ou batendo um colcho. Todo sonho que ocorre imediatamente antes de a pessoa ser 
despertada por um rudo forte tentou desmentir esse estmulo causador do despertar dando-lhe uma outra explicao, e assim buscou prolongar o sono, nem que fosse 
apenas por um momento.
          
          
          
          XII
          
          Ningum que aceite a viso de que a censura  a principal razo da distoro onrica ficar surpreso em saber, pelos resultados da interpretao dos sonhos, 
que a anlise encontra nos desejos erticos a origem da maioria dos sonhos dos adultos. Essa afirmao no visa aos sonhos de contedo sexual indisfarado, que so 
sem dvida conhecidos de todos os sonhadores por experincia prpria e que, em geral, constituem os nicos a serem descritos como "sonhos sexuais". Mas at estes 
ltimos sonhos causam muitas surpresas pela escolha das pessoas a quem transformam em objetos sexuais, por seu descaso para com todas as restries que o sonhador 
impe a seus desejos sexuais na vida de viglia, e pelos detalhes estranhos que insinuam o que comumente se conhece como "perverses". Entretanto, inmeros outros 
sonhos que nada mostram de ertico em seu contedo manifesto revelam, pelo trabalho de interpretao na anlise, ser realizaes de desejos sexuais; por outro lado, 
a anlise prova que muitos dos pensamentos que ficam pendentes da atividade da vida de viglia como "restos do dia anterior" s alcanam representao nos sonhos 
atravs da assistncia de desejos onricos recalcados.
          No  por exigncia terica que isso  postulado, mas, para explicar esse fato, pode-se assinalar que nenhum outro grupo de pulses  submetido a uma supresso 
to vasta pelas exigncias da educao cultural quanto as pulses sexuais; entretanto, ao mesmo tempo, elas so tambm as pulses que, na maioria das pessoas, escapam 
com maior facilidade ao controle das instncias anmicas superiores. Desde que tomamos conhecimento da sexualidade infantil, freqentemente to discreta em suas 
manifestaes e que  sempre despercebida e mal interpretada, estamos autorizados a dizer que quase todo homem civilizado preserva as formas infantis de vida sexual 
num ou noutro aspecto. Podemos assim compreender como  que os desejos sexuais infantis recalcados passam a fornecer as foras propulsoras mais freqentes e poderosas 
para a formao dos sonhos.
          S existe um meio pelo qual um sonho que expresse desejos erticos pode ter xito em parecer inocentemente assexual em seu contedo manifesto. O material 
das representaes sexuais no deve ser figurado como tal, mas substitudo no contedo do sonho por insinuaes, aluses e formas similares de representao indireta. 
Entretanto, diversamente de outras formas de representao indireta, a que  empregada no sonho no deve ser imediatamente inteligvel. Os meios de representao 
que atendem essas condies costumam ser descritos como "smbolos" das coisas que representam. Voltou-se para eles interesse especial desde que se notou que os sonhadores 
que falam uma mesma lngua servem-se dos mesmos smbolos, e que a rigor, em alguns casos, o emprego dos mesmos smbolos, ultrapassa o mbito do uso da mesma lngua. 
Uma vez que os prprios sonhadores no se do conta do significado dos smbolos que empregam,  difcil,  primeira vista, descobrir a fonte da ligao entre os 
smbolos e aquilo que substituem e representam. O fato em si, porm, est fora de dvida e  importante para a tcnica da interpretao dos sonhos.  que, com a 
ajuda do conhecimento do simbolismo onrico,  possvel compreender o sentido dos elementos singulares do contedo do sonho, ou de fragmentos separados do sonho, 
ou, em alguns casos, at mesmo de sonhos inteiros, sem que seja preciso pedir ao sonhador suas associaes. Aproximamo-nos aqui do ideal popular de traduzir os sonhos 
e, por outro lado, retornamos  tcnica de interpretao utilizada pelos antigos, para quem a interpretao do sonho era idntica  interpretao por meio de smbolos.
          Embora o estudo dos smbolos onricos esteja longe de ser completo, estamos em condies de formular com certeza uma srie de diversas afirmaes gerais 
e diversas informaes especiais sobre o assunto. H smbolos que encerram um nico sentido quase que universalmente: assim, o imperador e a imperatriz (ou o rei 
e a rainha) representam os pais, os quartos representam as mulheres, e suas entradas e sadas, os orifcios do corpo. A maioria dos smbolos onricos serve para 
representar pessoas, partes do corpo e atividades investidas de interesse ertico; em particular, os rgos genitais so representados por diversos smbolos amide 
muito surpreendentes, e uma imensa variedade de objetos  empregada para denot-los simbolicamente. As armas pontiagudas e os objetos longos e duros, como troncos 
de rvore e bastes, representam o rgo genital masculino, enquanto os armrios, caixas, carros ou fornos podem representar o tero. Nesses casos, o tertium comparationis, 
o elemento comum nessas substituies,  imediatamente inteligvel, mas h outros smbolos em que no  to fcil apreender a ligao. Smbolos como a escada ou 
subir escadas para representar relao sexual, gravatas para o rgo masculino, ou madeira para o feminino, provocam nossa incredulidade, at chegarmos por algum 
outro meio  compreenso da relao simblica subjacente a eles. Alm disso, diversos smbolos onricos so bissexuais e podem relacionar-se com os rgos genitais 
masculinos ou femininos, conforme o contexto.
          Alguns smbolos so universalmente disseminados e podem ser encontrados em todos os sonhadores pertencentes a um mesmo grupo lingstico ou cultural; outros 
ocorrem apenas dentro dos limites mais restritos e individuais, sendo smbolos formados por um indivduo a partir de seu prprio material de representaes. Na primeira 
classe podemos distinguir alguns cujo direito de substituir as representaes sexuais  imediatamente justificado pelo uso lingstico (como, por exemplo, os derivados 
da agricultura: "fertilizao" ou "semente"), e outros cuja relao com as representaes sexuais parece remontar s mais antigas eras e s mais obscuras profundezas 
de nosso funcionamento conceitual. O poder de construir smbolos no se esgotou, nos dias atuais, para nenhum dos dois tipos de smbolos que distingui no incio 
deste pargrafo. Certos objetos recm-descobertos (como as aeronaves) so, como podemos observar, imediatamente adotados como smbolos sexuais universalmente utilizveis.
          A propsito, seria um equvoco esperar que, se tivssemos um conhecimento ainda mais profundo do simbolismo onrico (da "linguagem dos sonhos"), poderamos 
prescindir de perguntar ao sonhador por suas associaes ao sonho e retornar inteiramente  tcnica de interpretao de sonhos da Antigidade.  parte os smbolos 
individuais e as oscilaes no emprego dos universais, nunca se sabe se um determinado elemento do contedo do sonho deve ser interpretado simbolicamente ou em seu 
sentido prprio, mas pode-se ter certeza de que nem todo o contedo do sonho deve ser interpretado simbolicamente. O conhecimento do simbolismo onrico nunca far 
mais do que nos habilitar a traduzir certos componentes do contedo do sonho e no nos isentar da necessidade de aplicarmos as regras tcnicas que forneci anteriormente. 
Contudo, prestar uma assistncia extremamente valiosa  interpretao precisamente nos pontos em que as associaes do sonhador so insuficientes ou faltam por 
completo.
          O simbolismo onrico  tambm indispensvel para a compreenso do que se conhece como sonhos "tpicos", comuns a todos, e dos sonhos "recorrentes" dos 
indivduos.
          Se, nesta breve discusso, parece incompleta a exposio que fiz do modo simblico de expresso nos sonhos, posso justificar minha negligncia chamando 
a ateno para um dos mais importantes conhecimentos de que dispomos sobre esse assunto. O simbolismo onrico se estende muito alm do mbito dos sonhos; no  peculiar 
aos sonhos, mas exerce uma influncia dominante similar sobre a representao nos contos de fadas, nos mitos e lendas, nos chistes e no folclore. Permite-nos rastrear 
as ntimas ligaes existentes entre os sonhos e estas ltimas produes. No devemos supor que o simbolismo onrico seja uma criao do trabalho do sonho; com toda 
a probabilidade, ele  uma caracterstica do pensar inconsciente que fornece ao trabalho do sonho o material para a condensao, o deslocamento e a dramatizao.
          
          XIII
          
          No tenho a pretenso de haver lanado luz, nestas pginas, sobre todos os problemas dos sonhos, nem de haver tratado de maneira convincente os que de 
fato examinei. Aqueles que se interessarem pela vasta bibliografia sobre os sonhos podero reportar-se a um trabalho de Sante de Sanctis (I sogni, 1899), e os que 
quiserem conhecer argumentos mais pormenorizados em favor da viso dos sonhos que eu mesmo expus devero recorrer a meu livro A Interpretao dos Sonhos, de 1900. 
S me resta indicar em que direo dever prosseguir minha exposio do tema do trabalho do sonho.
          Estipulei como tarefa da interpretao do sonho substitu-lo pelos pensamentos onricos latentes, ou seja, desenredar o que foi urdido pelo trabalho do 
sonho. Ao faz-lo, levantei uma srie de novos problemas psicolgicos que versam sobre o mecanismo desse trabalho do sonho como tal, bem como sobre a natureza e 
as condies do que se descreve como recalcamento; por outro lado, afirmei a existncia dos pensamentos onricos - um abundante reservatrio de formaes psquicas 
da mais alta ordem, que se caracteriza por todos os traos do funcionamento intelectual normal, mas que, no obstante,  subtrado da conscincia at emergir sob 
forma distorcida no contedo do sonho. No posso seno presumir que tais pensamentos estejam presentes em todas as pessoas, uma vez que em quase todas, inclusive 
as mais normais, so capazes de sonhar. O material inconsciente dos pensamentos onricos e sua relao com a conscincia e com o recalcamento levantam outras questes 
importantes para a psicologia, cujas respostas sem dvida tero de ser adiadas at que a anlise tenha esclarecido a origem de outras formaes psicopatolgicas, 
tais como os sintomas histricos e as idias obsessivas.
          
          
          



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A Interpretao dos Sonhos II -  Sigmund Freud
